domingo, 21 de junho de 2015

O AGENTE CLANDESTINO




Anda desanimado e com sentimento de culpa? Pode haver um Toxoplasma no seu cérebro, tentando atrair um gato



Quem faz a cabeça do brasileiro é o Toxoplasma gondii. Não adianta dizer que nunca o viu mais gordo. O Toxoplasma gondii é assim mesmo, "incrivelmente comum e incrivelmente obscuro", segundo o jornalista Carl Zimmer, que outro dia o apresentou aos leitores do New York Times numa página cheia de superlativos. 
Zimmer tratou-o como uma "criatura extraordinária" e "espantosamente bem-sucedida". E lançou no caminho da fama esse personagem onipresente mas discreto, ainda que prive da intimidade de pelo menos um terço da humanidade. Sem conhecê-lo, no mínimo 2,2 bilhões de pessoas convivem diariamente com o Toxoplasma gondii.

No Brasil, ele se supera. Está envolvido com praticamente 67% da população. Alojado em 126 milhões de brasileiros, tem fôlego de sobra para tornar as mulheres mais afetivas, os homens mais conformistas e ambos os sexos mais propensos a levar a vida sob o influxo de vagos sentimentos de culpa e desconforto social que nem imaginam de onde vêm.

Depois de desprezá-lo por mais de setenta anos como um parasita vulgar, desses que só em casos especiais - grávidas e portadores de hiv, por exemplo - merecem exame de laboratório, os médicos deram agora para desconfiar que, sob a influência do Toxoplasma gondii, os infectados têm reações estranhas. 

Seu comportamento pode pender para lados opostos. A pessoa manifesta uma atração insensata pelo perigo e, ao mesmo tempo, uma paradoxal aversão a mudanças. Isso lembra alguém que você conhece? Pois é. Pode ser obra dele. Toxoplasma gondii, o protozoário, age clandestinamente.

Carl Zimmer farejou a notícia num documento publicado este ano pela Royal Society, de Londres, a respeitabilíssima academia de ciências do Reino Unido. Tratava-se de um relatório sobre possíveis reflexos do Toxoplasma gondii nas sociedades humanas, com seis páginas e meia de texto e duas só para a bibliografia, que arrolava 35 trabalhos científicos. 

O título era instigante: "Pode o Toxoplasma gondii, parasita comum do cérebro, influenciar a cultura humana?". 
Além de publicar o achado no New York Times, Zimmer discutiu-o no site The Loom, sua tribuna cativa na internet, e dali o parasita se espalhou, como se nadasse livremente num caldo de cultura virtual. O Toxoplasma gondii animou debates entre sanitaristas e criadores de gatos domésticos. Contagiou até o Stereophile, um blog para iniciados em aparelhos de som que entrou na conversa tachando Zimmer de "guru do Toxoplasma".

Zimmer é fã confesso de parasitas, esses monstros microscópicos que povoam as profundezas intracelulares de homens e bichos, "transformando qualquer órgão do corpo - a trompa de Eustáquio, a garganta, o cérebro, os rins, o tendão de Aquiles - em seu lar". Ele já foi ao Sudão para ver de perto, num hospital de campanha em Tambura, a máscara mortuária do Trypanosoma que provoca a doença do sono. Viajou à África "como certas pessoas vão à Tanzânia atraídas por seus leões ou a Komodo por seus dragões", ele conta em Parasite Rex, livro que é um modelo de rigor jornalístico em ritmo de ficção científica. "Passe algum tempo em Tambura", relata o jornalista, "e as pessoas à sua volta ficarão transparentes, como constelações cintilantes de parasitas". O livro lida com micróbios, vermes, protozoários, ácaros e tênias, tudo, enfim, que viva à custa dos outros. Assunto não falta, pois os parasitas dominam a Terra, batendo de quatro a um a soma de todas as criaturas capazes de existência autônoma. "A história da vida é, na maior parte, parasitologia", resume.

Os parasitas são vítimas de uma longa história de incompreensão. A começar pelo nome. "Parasita" vem da palavra grega para designar o criado que servia comi- da em banquete. Eles fazem o contrário: servem-se num banquete de vida alheia. Os cientistas hesitaram muito em levar os parasitas a sério. Charles Darwin baniuos do esquema geral da seleção natural, supondo que essas criaturas "rastejantes" eram desvios regressivos no curso natural da evolução. Logo eles, que parecem estar na vanguarda dos processos evolutivos, mudando tantas vezes de forma quantos forem os desafios ao seu talento adaptativo e habilitando-se a viver nos ambientes mais impróprios. Nós, por exemplo.

Bilhões de seres humanos são ninhos inconscientes de Toxoplasma gondii. Esse parasita oblíquo e dissimulado pode varar a membrana das células de autodefesa e penetrar seu núcleo como clandestino, iludindo as barreiras imunológicas do cérebro, tido como o último bastião do organismo contra micróbios patogênicos. Ele fura as muralhas orgânicas como "cavalos de Tróia", diz Zimmer. Uma vez no cérebro, dali ninguém o tira, entre outros motivos porque o Toxoplasma gondii se esmera em perturbar o mínimo possível a vida de seu anfitrião. "Ele simplesmente vai ficando por lá, e o hospedeiro não o reconhece como um invasor que deveria ser destruído", afirma David Sibley, professor de microbiologia molecular.

O Toxoplasma gondii chamou a atenção dos cientistas no Instituto Karolinska, de Estocolmo, pelo refinamento dos métodos que emprega na conquista de território. "Quando procuramos parasitas no sangue, encontramos muito poucos, e eles pareciam estar apenas nadando em círculos", conta o pesquisador Antonio Barragan. Engano. A essa altura, como a equipe constataria depois, o Toxoplasma gondii já embarcara em células dendríticas, que normalmente disparam os alarmes do sistema imunológico. Estava, portanto, camuflado, em uniforme de combate, pronto para se imiscuir cérebro adentro. Havia feito tudo isso poucas horas depois de apear no organismo. "E se acaso ele estiver dirigindo essas células para se mover e se disseminar pelo corpo?", indagou-se Barragan. O grupo testou a hipótese, injetando Toxoplasma em células dendríticas descontaminadas. Elas se tornaram instantaneamente hiperativas, agitando-se sem parar na lâmina do microscópico pelo resto do dia.

O Toxoplasma gondii é implacavelmente contagioso, mas age como se não passasse de uma infecção benigna. "As pessoas raramente percebem o que está acontecendo durante uma invasão", explica Zimmer. No máximo, podem sentir dores no corpo, garganta irritada e outros sinais que se confundem com sintomas de gripe, enquanto lá dentro o protozoário captura células em alta velocidade, para gerar nessas incubadoras 128 cópias quase instantâneas de si mesmo. É a fase da infestação, que passa em poucos dias. Demarcado o território, o Toxoplasma entra em estado de dormência. A essa altura já formou quistos, onde poderá esperar ("confortavelmente", segundo Zimmer) o momento em que a carne de seu hospedeiro for parar no tubo digestivo de um gato. Como essa transição dificilmente acontece na existência de um homem civilizado - pelo menos desde 1898, quando os ingleses exterminaram os leões que devoravam operários na ferrovia do Tsavo, na África -, a espera costuma ser longa. E o Toxoplasma gondii vai ficando.

Ele "manipula elegantemente" o sistema imunológico de seu hospedeiro. Se exagerasse na agressividade, tomando tudo a seu alcance, acabaria a bordo de cadáver. E um corpo inanimado não é a melhor condução para quem almeja descer pela goela de um gato. Os felinos são caçadores, não se interessam por carniça. E o parasita precisa que as vísceras onde se aninhou acabem, mais cedo ou mais tarde, no aparelho digestivo de um gato.

Enquanto não chega a hora, para manter a ordem na hospedaria o Toxoplasma gondii libera esporadicamente, durante a hibernação, moléculas que desencadeiam pequenas reações imunológicas do hospedeiro. Elas matam exclusivamente os invasores ainda livres. Não atingem os parasitas previamente encapsulados nos cistos. É um alarme falso, em proveito do status quo. Funciona como um toque de recolher, para que o parasita alcance nas melhores condições a terra prometida.

Essa terra prometida é o gato. Sem ele, o ciclo não fecha. Só nas paredes do intestino de um gato começa a festa nupcial do Toxoplasma gondii, que ali se divide para gerar machos e fêmeas e voltar à terra nas fezes do felino. Os homens são, para ele, "becos sem saída", e talvez tivessem passado longe dessa história, se não cruzassem com tanta freqüência o caminho que une os gatos aos ratos. Não sendo vetores naturais do parasita, nós o embarcamos sem bilhete para a baldeação seguinte.

Banal e aparentemente inofensiva, essa praga assintomática até pouco tempo atrás dispensava cuidados médicos, porque não parecia fazer muita diferença na vida de uma pessoa saudável que não estivesse em gestação. De repente, descobre- se que o Toxoplasma pode alterar perigosamente o comportamento humano, como fez com ratos de laboratório na Universidade de Oxford. Postos num labirinto de tijolos, com cantos marcados por odores que deveriam repeli-los ou atraí-los, eles mostraram uma atração suicida por urina de gato, cujo cheiro levaria ao pânico qualquer rato com os instintos de autopreservação em bom estado. Quando se tratava de procriar e comer, as cobaias infectadas pareciam normais. Mas, diante do rastro que deveria afugentá- las, comportavam-se como latas abertas de ração que implorassem para ser engolidas. Chegavam mesmo a exibir um interesse mórbido pelo canto assinalado com urina de gato. Visitavam o lugar com freqüência. Procediam como "roedores camicases", diz Carl Zimmer.

"Não se trata apenas de perda de um comportamento natural", diagnosticou o neurobiologista Ajai Vyas, da Universidade Stanford. "É um novo comportamento que está sendo induzido." O Toxoplasma não mata, mas induz os ratos ao suicídio, borrando os códigos instintivos da sobrevivência. Ratos impávidos que desafiam a morte dificilmente irão muito longe. Mas oferecerão ao parasita um atalho providencial para perpetuar a própria espécie, numa refinada estratégia evolutiva que não se esperaria encontrar em inteligências unicelulares. Vyas apresentou suas conclusões em maio, num encontro anual da Sociedade Internacional de Neurociência do Comportamento. E, com isso, o gondii saiu da gaveta.

Da descoberta do que o protozoário faz com ratos à suspeita do que pode fazer com a personalidade humana, foi um pulo. Com o parasita no corpo, "os homens se tornam menos propensos a submeter-se aos padrões morais da comunidade, preocupam-se menos com a possibilidade de serem punidos por quebrar as normas sociais de conduta e confiam menos nos outros", resume Zimmer. Em compensação, sabe-se lá por quê, "as mulheres ficam mais afetuosas e cordiais". Os dois sexos divergem em muitas reações. Mas ambos perdem uma dose do medo mais funcional, que os afastaria do perigo. A alteração não chega a ponto de "levar uma pessoa a se atirar aos leões". É suficiente apenas para anunciar que, lá no fundo, algo está maquinando seu destino. É o indício de que o protozoário decifrou "o vocabulário dos neurotrasmissores e hormônios" da vítima.

Não é de hoje que os médicos conhecem alguns desses sinais, mas só agora puderam ligá-los a esses microorganismos, que vêm equipados, segundo Zimmer, "com uma vasta farmácia, abarrotada de drogas que têm utilidade em diferentes ocasiões e cumprem diversos fins". 

Anos atrás, quando preparava o livro Parasite Rex, Zimmer entrevistou Kevin Lafferty nos manguezais de Carpinteria, na Califórnia. Espantou-se ao encontrar um cientista em camiseta de cores berrantes, com um peixe fosforescente no peito e compleição de quem surfara as ondas de boa parte da Costa Oeste americana. Lafferty estudava na ocasião um parasita chamado Euhaplorchis californiensis, que se apropria de moluscos comuns nas praias da região e, com eles, usurpa as entranhas dos peixes. Até aí, nada demais.

A novidade, para Lafferty, é que depois de infectados pelo Euhaplorchis os peixes dão para nadar de maneira estranha, quase na superfície, e de lado, como se fizessem questão de serem vistos de longe pelas gaivotas, maçaricos e outras aves marinhas. O que eles ganhariam com isso? Trinta vezes mais chances de serem comidos antes dos outros. É assim que o parasita viaja por via aérea para outras praias, em busca de caramujos frescos.

Foi Lafferty quem publicou semanas atrás a tese de que o Toxoplasma gondii provavelmente explica "uma percentagem estatisticamente significativa de variações na neurose agregada das populações humanas, assim como nas dimensões culturais neuróticas dos papéis sexuais e na aversão aos riscos". Em outras palavras, que esse protozoário afeta o comportamento coletivo. Estava na trilha desbravada por Jaroslav Flegr, o médico de Praga que encontrou as primeiras pegadas do Toxoplasma gondii em seus pacientes. Inclusive, em testes de inteligência.

Abrigar "no cérebro um parasita que está tentando ser levado para dentro de um gato" produz, segundo Laffery, "mudanças de personalidade". Como os gatos "raramente comem seres humanos", ele reconhece que o Toxoplasma gondii perde tempo quando manipula o estilo de vida deles. Mas, "em termos evolutivos", "também não tem nada a perder". Logo, enjaulado na carne errada, o parasita continua a fazer o que sempre fez, com resultados muitas vezes contraditórios. Flegr observou que seus pacientes infectados eram mais apreensivos, inseguros, preocupados e ansiosos, com uma queda para a autoflagelação. O que Lafferty fez foi misturar esses traços individuais na massa das estatísticas sociais, perguntando se, nos países onde a infestação é mais disseminada, as alterações de comportamento virariam caráter nacional.

A resposta foi sim. Parece fora de dúvida que as altas taxas de infestação coincidem, por exemplo, com o menor interesse por novidades e o sentimento de culpa generalizado. Tratando-se de um erro essencial de hospedeiro cometido pelo Toxoplasma gondii, os resultados não podiam mesmo ser muito coerentes. Mas Lafferty comparou dados de 39 países, em cinco continentes. Descartou as tabelas difíceis de interpretar, como as da China, do Japão, da Coréia do Sul, da Turquia e da Indonésia, onde não conseguiu discernir tradição de sintoma. Descontou fatores como idade e renda per capita. Sobrou da filtragem uma "correlação significativa" entre o Toxoplasma gondii e a tal "neurose agregada" da população. A convergência é "positiva". Ou seja, "numa proporção substancial da sociedade humana", afirma Lafferty, "a variação geográfica da prevalência latente do Toxoplasma gondii pode estar por trás de diferenças nos aspectos culturais relativos ao ego, ao dinheiro, às posses materiais, ao trabalho e às normas de conduta".

O grau em que a "correlação significativa" se manifesta varia com a taxa de incidência do parasita. Nos Estados Unidos, onde anda em queda, ainda atinge pelo menos 50 milhões de americanos. O próprio Zimmer disse na internet que pediria uma bateria de exames clínicos na sua próxima consulta médica. "E não seria o primeiro", alegou. Com o Toxoplasma gondii turbinado pelo alto consumo de carne crua, a Hungria tem 58,9% da população infectada, índice estratosférico para os padrões sanitários da Europa. Ele é muito comum na Argentina, a terra do bife malpassado: está em 52,7%. Na França, onde a população foi considerada por Lafferty "bastante neurótica", a infestação chega a 45%. Na Austrália, cai a 28%. Na Coréia do Sul, não vai além de 4,3%. O clima tropical o favorece. E o aquecimento global tem tudo para transformá- lo num parasita decididamente cosmopolita. Mas em geral ele se dá melhor nos países pobres. Concentrações urbanas sem saneamento básico o estimulam. E onde viceja a promiscuidade entre gente, gato e rato, o Toxoplasma gondii encontra o mundo que pediu a Deus.

Somente dois países superam 60% na lista de Lafferty. Um deles é a Iugoslávia, que se desintegrou na guerra civil dos anos 90, mas ainda consta do relatório com 66,8%. O outro é o Brasil, campeão mundial de Toxoplasma gondii, com 66,9%. O que isso quer dizer? Provavelmente, não muita coisa. Deve ser um índice a mais, como tantos que pululam nas pesquisas de opinião pública.


21 de junho de 2015
Marcos Sá Corrêa

BEATLES


As contradições entre o apaulíneo e o johnisíaco ajudam a explicar a permanência da música do grupo inglês


Ainda outro dia, um amigo me mandou um e-mail contando que havia presenciado uma cena saída diretamente do seriado Túnel do tempo. Encostados no balcão do BB Lanches, no Rio, dois garotos, de no máximo 13 anos, conversavam assim: "Você sabe por que eles fizeram Taxman? Porque na Inglaterra tinha imposto pacas. Eles fizeram uma música de protesto!". Ao que o outro aquiesceu, acrescentando mais um caminhão de informações sobre o hino antitributário do álbum Revolver.

Meu amigo ficou estupefato. Era como se nós dois estivéssemos ali, 30 anos antes, tomando um suco depois do colégio. Nessas três décadas, o mundo virou do avesso. Acabou a guerra fria, o regime militar, a paz no Leblon. Sérgio Dourado faliu, Star Wars cansou, Joey Ramone morreu. Foi-se tudo e mais um pouco. Mas os garotos ainda estão lá, falando dos Beatles.

Alguns historiadores do rock atribuem o fenômeno às vantagens do pioneirismo - os Beatles foram as pessoas certas no momento certo. Tinham o talento, o visual e a ousadia necessários para ocupar o vazio deixado pelo esgotamento criativo de Elvis, Chuck Berry, Little Richard e companhia. Mal despontaram para o estrelato, entenderam a importância de se posicionarem na vanguarda de uma década revolucionária. E foram assim pavimentando o caminho para a explosão internacional do rock, a difusão da contracultura e a grande revolução musical e comportamental dos anos 60.

Embora sensato, o argumento se refere apenas ao passado. Não explica nada sobre a permanência dos Beatles. Nenhum moleque vai sair da sua casa e ir até o camelô da esquina comprar um CD por conta do papel histórico de uma banda na formação do mundo moderno. Além do quê, sejamos objetivos: os anos 60 terminaram faz tempo. Permanece então a pergunta: como pode alguém se apaixonar pelos cabeludos de Liverpool em meio ao cinismo e à desesperança do século XXI? Como pode um jovem saudável contrair a febre da beatlemania em plena era do hip-hop e da cultura digital? O palpite é simples. A música - tudo se resume à música.

Os quatro nunca foram instrumentistas virtuosos. Ninguém encontrará um solo de 15 minutos num disco dos Beatles. Mas eles tocavam com convicção, com gosto. Num estilo próprio, inigualável. Utilizando até a última gota os recursos técnicos a seu dispor. Quando necessário, sabiam acolher a contribuição de amigos brilhantes. E, como num passe de mágica, o convidado era incorporado ao som da banda, tornando-se o quinto elemento: Clapton arrancando gemidos da sua Les Paul em While My Guitar Gently Weeps, Billy Preston incendiando Get Back com seus teclados endiabrados.

Outra virtude: eles cantavam bem. Talvez sem o virtuosismo de Ray Charles, Sam Cooke ou Aretha Franklin, mas com fabuloso esmero. Cantar não é apenas uma questão de extensão vocal e técnica apurada. É também possuir um bom timbre, e usar a voz com caráter, potência, precisão. Quem pode resistir ao suíngue vigoroso de Lennon em Twist and Shout ou ao charme nostálgico de McCartney em When I'm Sixty-Four? Quem consegue ser mais expressivo que John em I'm So Tired ou mais irado que Paul em Helter Skelter? Mesmo George e Ringo tinham seus momentos. A performance do homem dos anéis em Boys merece figurar em qualquer antologia de rockabilly. Os vocais de Something fizeram a cabeça até do exigente Sinatra.

Eles eram também mestres da harmonia. Sabiam como poucos combinar suas vozes, fazer arranjos, colorir as canções com impecáveis duetos e corinhos. De If I Fell a Because, John, Paul e George fizeram o diabo. Durante seus anos de formação, os três beberam na melhor escola da música negra americana, ouvindo muito rythm'n'blues e soul music. Eles se ligavam mais no som de gravadoras como a Motown, a Stax-Volt e a Atlantic do que propriamente no blues raiz da Chess Records, porém ainda assim curtiram, aprenderam e internalizaram uma música negra legítima. Cheia de balanço, alegre, contagiante. Que os influenciou até o final - especialmente ao blackman McCartney. Let It Be não é outra coisa senão um poderoso hino gospel cantado por um pastor de alma retinta.

Eles tocavam tudo, ouviam tudo. Sabiam aprender e recriar. Poucos grupos, em toda a história do rock, conseguiram ser uma banda cover tão boa como os Beatles. Os quatro tocavam Please Mr. Postman, You Really Got a Hold on Me, Roll over Beethoven, Money (That's What I Want), Rock and Roll Music ou Kansas City vários furos acima dos originais. Coisa que nenhum dos demais integrantes da invasão inglesa jamais chegou a fazer. Os Stones eram intérpretes sofríveis de Muddy Waters e Howlin' Wolf. Os Beatles cantavam Smokey Robinson melhor que o próprio.

Eram também ousados, destemidos. Capazes como ninguém de desbravar novas áreas para o avanço da música popular. She Loves You, And I Love Her, Yesterday, Norwegian Wood, Day Tripper, Paperback Writer, Strawberry Fields Forever, Lucy In The Sky With Diamonds, A Day In The Life, All You Need Is Love, Lady Madonna e Here Comes The Sun alargaram o universo de possibilidades da música pop, trazendo novas formas de tocar, novos estilos, novas técnicas de gravação, novas estruturas de composição.

Atribuir tanta inventividade apenas ao produtor George Martin (como o fazem alguns críticos) é uma tolice que só pode ser cometida por quem nunca ouviu Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band- com Peter Frampton e os Bee Gees. Foi o maestro quem produziu o disco. E a genialidade nem passou por perto.

O amadurecimento musical da banda pode corresponder, facilmente, ao amadurecimento natural de qualquer pessoa que vai se descobrindo um amante da música. E, por isso, atrai, conquista, cria vínculos. Além do que, trata-se de um amadurecimento generoso, inclusivo, ponderado, que jamais pretendeu renegar a simplicidade dos primeiros anos. Os Beatles adicionaram novas veredas a sua trilha inicial, sempre com a convicção de que o simples e o complexo são duas formas distintas de se chegar à beleza. Penny Lane nunca será melhor que I Saw Her Standing There. Apenas diferente. Uma forma distinta de se chegar à perfeição.

Adversidade e a amplitude do som dos Beatles criam várias portas de entrada para quem está começando a se interessar por música. Conheço pessoas que se viram atraídas pelo balanço juvenil de I Should Have Known Better, pela viagem indiana de Within You and Without You, pela elegância clássica de Eleanor Rigby, pela lucidez enérgica de Revolution, pelo sabor folk deBlackbird e pela fantasia sing-along de Yellow Submarine. Cada um chegou ao quarteto por uma via diferente; e, a seu modo, todos acabaram por fazer o circuito completo.

Os Beatles eram um mecanismo de criação. Sempre olhando para a frente, sem jamais se escorar no êxito formulaico. A força propulsora desse mecanismo era (eis a minha tese central) a interação dialética de Lennon & McCartney. Uso a palavra sem pedantismo, em seu sentido mais amplo. Dialética é diálogo, embate, discussão. Mas também o jogo permanente e sem descanso. Adição e contradição; unidade e multiplicidade; identidade e diferença. Movimento e síntese. Dois compositores igualmente geniais, mas com inclinações distintas, por vezes opostas. Dois líderes cheios de idéias e talento. Um levando o outro a permanentemente se superar. Ambos avançando: ora juntos, ora separados. Nenhum permitindo ao outro se acomodar. Nenhum aceitando ser deixado para trás.

Em geral, as grandes parcerias musicais são compostas por um melodista e um letrista, que unem forças, formando uma perfeita unidade: Rodgers e Hart, George e Ira Gershwin, Tom e Vinícius, Lieber e Stoller, Page e Plant, Keith Richards e Mick Jagger, Elton John e Bernie Taupin. No caso de Lennon & McCartney tudo muda. Ambos eram compositores completos, autônomos. Mas entenderam, desde cedo, a importância de buscarem um ao outro. Muitas duplas de compositores somam. John e Paul multiplicam.

As narrativas mais comuns da trajetória dos Beatles levam a crer que a parceria Lennon & McCartney existiu apenas na fase inicial do conjunto, tornando-se mais tarde mera convenção. Trata-se de um engano. Eles foram parceiros até o final. Mesmo quando escreviam separados, John e Paul o faziam um para o outro. Pensavam, sentiam e criavam obcecados com a presença (ou ausência) do parceiro e rival.

Sem a contribuição decisiva de McCartney, jamais teríamos algumas das mais inspiradas canções de Lennon. Deve-se a Paul a abertura de Strawberry Fields Forever, o arranjo grandioso de All You Need Is Love, os efeitos de tape de Tomorrow Never Knows, a alucinação de I Am The Walrus, o ambiente sobrenatural de Come Together. Lennon era um purista musical, apegado a suas raízes, calcadas no rock'n'roll, rythym'n'blues e country & western. Quem embarcou de cabeça na vanguarda musical dos anos 60, quem verdadeiramente viajou na explosão sonora lisérgica foi Paul McCartney, um perfeccionista dado a experimentos, colagens, finais falsos, mudanças tonais e delírios orquestrais.

Em contrapartida, sem o olhar crítico de Lennon, sem sua verve e sua wit britânica, os mais conhecidos standards de McCartney teriam sofrido perdas poéticas. A letra reflexiva de Yesterday(inicialmente intitulada "Scrambled Eggs" - ovos mexidos, quando Macca tinha na cabeça apenas uma melodia sem palavras) foi uma clara resposta de Paul ao amadurecimento da poesia de John em I'm A Loser, Help! e You've Got To Hide Your Love Away. Lennon emprestava às baladas e canções pop de McCartney uma lucidez e uma sobriedade fundamentais. Ele sabia reprimir o banal e fomentar o sublime. Foi sentando-se ao lado do companheiro que Paul ganhou confiança para manter na íntegra os versos mais ousados de The Fool On The Hill e Hey Jude. Duas letras de primeira grandeza.

Em algumas canções, um ligeiro toque de Lennon fazia a diferença entre o excelente e o genial. A melhor estrofe de We Can Work It Out é de John: "Life is very short / and there's no time / for fussing and fighting my friend". Sem a intervenção cirúrgica do autor de Being For The Benefit of Mr. Kite e Happiness Is A Warm Gun, tampouco haveria em Eleanor Rigby a estranheza surrealista dos versos: "Waits at the window / wearing the face / that she keeps in the jar by the door /Who is it for?". Do mesmo modo, a entrada em cena de John - na voz dos pais desesperados - é indispensável a She's Leaving Home, talvez a mais comovente e perene canção sobre o conflito de gerações e a juventude drop-out. Canção que inspirou o nosso Rubem Fonseca a escrever a obraprima Lúcia McCartney.

A sombra ameaçadora de Lennon fornecia ainda combustível para os ímpetos rockeiros de seu parceiro e rival. A visionária Back In The USSR traz o humor irônico de John estampado no rosto. Canções como I'm Down e Why Don't We Do It In The Road foram feitas por Paul para mostrar a John que conseguia ser ainda mais primitivo que ele. E Get Back - o melhor rocker de toda a obra dos Beatles - nasceu da (compreensível) irritação de Paul com Yoko e do seu desejo de deixar bem claro quem continuava a ser o dono do pedaço.

Mas como a dialética é uma via de mão dupla, também o lado suave de Lennon se nutria da presença benfazeja de Paul. A belíssima melodia de In My Life é puro McCartney e gemas preciosas como Girl, Because ou Julia têm as impressões digitais do parceiro por todos os lados, ainda que tenham sido escritas na mais monástica solidão.

Nietzsche atribui o caráter dionisíaco aos nossos impulsos rebeldes, subjetivos, irracionais, apaixonados, lunares; forças do transe e da intoxicação, que questionam e subvertem a ordem vigente. Em contrapartida, designa como apolíneas as nossas tendências ordenadoras, objetivas, racionais, serenas, solares; forças do sonho e da profecia, que promovem e aprimoram o ordenamento do mundo. Ao se unirem, tais forças teriam criado, a seu ver, a mais nobre forma de arte que jamais existiu.

Como criadores, tanto o metódico Paul McCartney quanto o irrequieto John Lennon expressavam à perfeição a dualidade proposta por Nietzsche, que ouso traduzir pelos termos Apaulíneo e Johnisíaco. Lennon punha o mundo abaixo; McCartney construía novos monumentos. 

Lennon abria mentes; McCartney aquecia corações. Lennon trazia vigor e energia; McCartney impunha senso estético e coesão. Não raro, os papéis se alternavam, se complementavam, se fundiam.

Quando os Beatles se separaram, essa magia se rompeu. John e Paul se tornaram compositores com altos e baixos; intérpretes com falhas às vezes evidentes. Fizeram coisas boas. Deram material para compilações de peso. Mas raramente se aproximaram da perfeição alcançada pelo quarteto. Sem a presença instigante de Lennon, Paul começou a patinar em letras anódinas e baladas açucaradas. Seus rockers perderam a força vital e muitos arranjos deixaram de ser pautados pelo sentido da boa medida. A alma negra embranqueceu. Não se tornou um compositor ruim. Mas se aproximou perigosamente de Elton John e Burt Bacharach. Mesmo Band On The Run parece por vezes um Abbey Road sem dentes. É música de grande qualidade. Mas os Beatles faziam melhor.

Do mesmo modo, John sofreu com a falta de Paul. Plastic Ono Band, embora genial, é um verdadeiro festival de excessos idiossincráticos. Em Imagine, John ensaia um bem-sucedido retorno à estética Beatle, mas logo em seguida a presença de Yoko irá se impor, destruindo o equivocado Sometime in New York City.

Ironicamente, o grande disco dos ex- Beatles, a verdadeira obra-prima, acabou sendo All Things Must Pass, o álbum triplo em que George Harrison deglutiu os antigos companheiros de banda, abrindo as comportas de sua produção musical, represada durante uma década à sombra de John e Paul. E foi assim, por estranhos caminhos antropofágicos, que a dialética de Lennon & McCartney brilhou pela última vez.


21 de junho de 2015
Marcelo O. Dantas

MILLÔR, UM NOME A ZELAR



Millôr se impõe uma forma fixa, a identidade nominal, e, dentro da prisão de si mesmo, expõe a liberdade



A história é velha e verdadeira. Aos 17 anos, Milton Fernandes viu a sua certidão de nascimento. A caligrafia do escrivão estava desenhada em excesso, era uma profusa confusão de arabescos. Apesar da opulência das linhas e traços, o documento tinha um sentido só, que apontava para um erro de origem: o prenome dele não era Milton, era Millôr. O rapaz gostou da novidade. Trocou o mero Milton pelo nome melhor. Millôr é dos poucos, pois, que rejeitaram a vontade dos pais. Livrou-se do nome imposto, se autonomeou (atenção, bancada vienense: o jovem em questão era órfão de pai e mãe), batizou a si mesmo. Assim virou Millôr, primeiro e único.

O que há num simples nome?, pergunta Julieta a Romeu, no balcão, e ela mesma responde, perguntando:

Aquilo que chamamos rosa, com outro nome não teria igual perfume?

Se Millôr tivesse continuado Milton, teria sido igualmente rosa, continuaria com o mesmo perfume? Há algo de impróprio em se reapropriar continuamente do próprio nome próprio? O cara tem um baita problema de identidade, né não? É um egocêntrico megalômano?

Nem tanto. É longa a tradição, nas artes plásticas, do auto-retrato. Pintar a si mesmo serve tanto de espelho como de disfarce. A série de auto-retratos de Rembrandt pertence à categoria do espelho. Ela registra a passagem do tempo e o artista que muda. O retratista retratado é primeiro guapo mancebo, aí amadurece, depois envelhece e por fim envilece, vira rosto vil. Já Caravaggio, que pintou a si mesmo na cabeça decapitada de Golias, usou o auto-retrato para perder a cabeça, se auto-amputar.

Millôr não se espelha nem se disfarça nem se amputa. Ele se propaga e se reitera. Seus auto-retratos não têm rosto. Eles escancaram um nome e escondem um homem. Ao contrário dos de Rembrandt, os seus auto-retratos não seguem uma seqüência. Não descrevem uma progressão. Vivem mais no espaço do que no tempo: se espalham em todas as direções, incorporando ao sujeito, ao ego, aquilo que está nos arredores do seu nome. À diferença do Caravaggio-Golias (que separa a cabeça do corpo, a mente do espírito, o retratado do retratista), Millôr mostra que cérebro, testa, tronco, membros, pensamento, traços, cores e coração podem formar um todo, desmembrado, que aponta para o infinito. Aqueles nomes todos são ele, Millôr. O que há neles de agudo, de colorido, de curvo e gracioso, tudo que há neles é Millôr.

Convém olhar esses nomes com vagar. Salvo engano, não há nada semelhante na história da arte. O artista se auto-impõe um espaço exíguo, uma forma fixa, os limites estritos de sua identidade nominal. E, dentro da prisão de si mesmo, expõe a liberdade individual. A liberdade tem graça porque transcende o indivíduo.

Outro dia, no seu estúdio, em Ipanema, ao escutar que seus nomes são geniais, Millôr sorriu. Disse que eles não são produto de genialidade, e sim da sua obsessão em se divertir. Ele começou a brincar com a palavra Millôr em 1938, na revista O Cruzeiro. Não parou mais. Perdeu a conta de quantos Millôres fez. Sua arte é a de brincar, de criar, de se recriar. [Mario Sergio Conti]



Memórias de um tempo em que a cachorra Teteca levantava a cabeça, embaixo da mangueira, na única sombra do quintal, e dava para o alto três latidos de protesto. Acho que para Deus. Acho que havia Deus.

por Millôr Fernandes


DOIS MARCOS DO SÉCULO XX

No dia 16 de agosto de 1924 foram inauguradas, nas ruas de Londres, as maravilhosas cabines telefônicas vermelhas, desenhadas por Gilbert Scott. No mesmo dia eu nascia no Meyer. As cabines de Scott não existem mais.


ECMENÉSIA

- Afim de amnésia e de a(m)nestia (perdoa, esquece!).

- Incapacidade da memória reter um certo período, embora permaneça intacta, ou até mais viva, em relação a outros períodos, sobretudo remotos.

- Volta imaginativa a um tempo idealizado, quase sempre da infância.

Dos dicionários que conheço, apenas o A Supplement to the Oxford English Dictionary registra a palavra, com dois abonamentos coincidentes:

1889 Billings Medical Dictionary. "Forma de amnésia em que há memória normal com relação a ocorrências anteriores a determinado período, com perda de memória de acontecimentos do que aconteceu depois dessa data."

1967 Brussel & Cantzlaar Chambers Dictionary of Psychiatry. "Amnésia com memória pobre para acontecimentos recentes mas com memória relativamente intacta para acontecimentos do passado remoto."

Uso ecmenésia só pra mostrar aos eruditos que também sou um deles. Mas, como não sou, emprego a palavra com o carinhoso sentido de querência.


ORIGEM

Essas coisas genéticas, essas formações familiares, esses liames do acaso, são realmente muito estranhos: meus avós maternos nasceram na Itália, meu pai nasceu na Espanha, minha mãe nasceu no Rio. Até hoje não entendo o mistério que os levou a me produzir no Meyer.

Ou em Vila Isabel?

Não me lembro da Vila, onde eu teria nascido, treze anos depois de Noel Rosa, numa casa quase colada à do poeta. Minha irmã Judith chegou a tomar aulas de primeiras letras com Martha, mãe dele.


DECADÊNCIA

Nasci no Meyer. Naquele tempo o subúrbio, quase rural, era uma glória.

Acabaram transformando o subúrbio no seu exato sentido etimológico - sub-urbe.


PLENITUDE

O Meyer era o umbigo do mundo. Vivíamos com a consciência, inconsciente, de que nunca teríamos que abandonar o bairro e a cidade (como muito mais tarde eu iria aprender que era o normal na maior parte das cidades pobres e tristes do Brasil) para sobreviver.


PLENITUDE I

Na época em que nasci, nascer no Meyer, como nascer na Vila, de Noel, bairro-irmão e filial, além de trazer um natural conhecimento de toda a cidade (o Meyer era o epikentron), era, todos sabem, um privilégio.


ANTECIPAÇÃO

O Meyer era pra nós, crianças, um bairro rural. Sou (fui) íntimo de muitos animais; gatos, cachorros e aves, sobretudo, é natural, galinhas. E era comum, não por sacanagem mas por obrigação - vamos lá, também um pouco por sacanagem -, a gente enfiar o mindinho no fiofó das penosas ao cair da noite, pra saber com quantos ovos contávamos pra o dia seguinte. Mais do que ninguém eu sei, na prática, o que é 'contar com o ovo no cu da galinha'.


FRANCISCANOS

Aprendi a nadar (mal e mal) num lagão lamacento, que se formava nos baixios do bairro depois de temporais. Crianças, brincávamos e nadávamos ali, com a consciência natural de que lama é ecologia, e que as rãs pegajosas, que agarrávamos sem nojo ou receio, eram nossas irmãs, sorellas ranas.


ESTIO


Houve um tempo em que havia um andar de cima e um porão. Houve um tempo em que o som de um amolador entorpecia a tarde. Havia uma moringa na janela, refrescando a água. Sempre, a qualquer momento, alguém ainda dormia, nas desencontradas horas da família. Na tarde estorricante do verão, uma cachorra chamada Teteca levantava a cabeça de vez em quando, num piso de cimento embaixo da mangueira, na única sombra do quintal ensolarado, e dava para o alto três latidos lancinantes de protesto. Acho que para Deus. Acho que havia Deus.


O LAR

A casa tinha a parte de baixo e a parte de cima (não se chamavam primeiro andar e segundo andar, nem conhecíamos a palavra piso) e um espaço abaixo do nível, um quarto. Chamava-se "porão habitável". Ao todo uma casa grande, normal habitação de classe média, classe a que, de certa forma, já não pertencíamos. Nosso pai tinha morrido e nossa mãe, aos 27 anos, tinha que arcar com o sustento dos quatro filhos, com minha irmã Ruth recém-nascida. É fácil imaginar o transe.

Só me lembro de minha mãe, depois de toda a faina diária, da qual nenhum de nós sabia nada, mãe era pra cuidar dos filhos, sentada na máquina de costura, altas horas da noite, 9 ou 10 horas da noite, naquele então.


PROUSTIANA

Lá vinha eu, menino, no frio da madrugada, depois de um dia de trabalho das oito da manhã às seis da noite e de mais quatro horas do colégio noturno, Liceu de Artes e Ofícios. Minha rotina era acordar antes das seis e ir dormir, quando cedo, à meia-noite. Piscina. É assim que se chamava. Pois ao chegar em casa só dava tempo de bater com a mão na parede e voltar ao trabalho.

Eu descia do bonde no Largo dos Pilares, andava quilômetro e meio pela Avenida João Ribeiro, passava a estação de Terra Nova, hoje desaparecida e, na mesma avenida, em frente ao Morro do Urubu, entrava em casa. Nenhum medo a não ser um susto ocasional quando um cavalo, ele mais assustado do que eu com o ruído dos meus passos no silêncio da noite, botava a cabeça sobre um muro e relinchava alto.

Inúmeras vezes subi o Morro do Urubu (para nós, meninos, dos Urubus), em busca de modestas aventuras. Mas o que havia era uns poucos casebres, pobreza mal pressentida, era assim que era. E paz, que só conhecemos quando a perdemos. E o que não havia era essa enfiada de quadrilhas de traficantes ferozes, seqüestrando e matando friamente, nem bravos policiais, liberando essas pessoas por acaso, e matando outras pessoas, também por acaso. Li ontem nos jornais.


UNIVERSIDADE DO MEYER

Que eu seja capaz de escrever como escrevo sem pensar sobre meu próprio jeito de escrever se deve, claro, a ser autodidata. Passei alguns anos pela escola, cinco no que antigamente se chamava primário, e cinco no Liceu de Artes e Ofícios. O que me faz um autodidata, pois em ambos educandários aprendi mais o que me ensinaram sem querer do que o que pretenderam, didaticamente, me ensinar. Um professor de inglês do Liceu me ensinou que against era uma gíria bancária e eu aprendi imediatamente, e me certifiquei depois de que o inglês dele era nenhum. Outro professor - quando eu disse, sobre a frase "a árvore era que lhe ouvia os gemidos", que o que era um pronome relativo pessoal, me corrigiu dizendo que era impessoal porque se referia à árvore, e quando eu corrigi de volta, dizendo que era pessoal porque árvore não ouve e aquela ouvia - não teve dúvida, me expulsou da sala. Desde então eu aprendi que "com otoridade não se brinca".

Mas, nesse mesmo Liceu, a lição mais importante me foi dada por um professor de história, Pedro Cardoso, me lembro do nome. Já altas horas da noite, terminadas as aulas (o curso era noturno, durante o dia eu já tinha que ser "famoso" na imprensa, isto é, ganhar a vida), quando a pequena multidão de alunos ia descendo pelas belas escadarias art-noveau do prédio na Avenida Rio Branco, centro do Rio, Pedro Cardoso me deteve num dos patamares e me execrou, devidamente, diante do povo: "Em toda sua vida nunca mais repita isso. Você podia roubar, bater a carteira de seu colega, isso não teria importância. Mas você gozou o seu colega na frente de todos os outros. Humilhou-o. Ele jamais lhe perdoará". Aprendi. Mas foi fora de aula.

Porém meu curso de autodidata foi mesmo no primário. Colégio Ennes de Souza (só muitos anos mais tarde, em Pedro Nava, eu iria descobrir que Ennes de Souza tinha sido um dos "voluntários" da pátria). Minha professora era Isabel Mendes, logo depois diretora, mais tarde (e até hoje), justamente, nome do colégio. Uma mulatinha magra, uma velhota de mais de vinte anos - que adorava ensinar. Mas o que me ensinou mesmo foi o prazer de aprender - a única coisa que um professor pode ensinar. Quando pode. Fora daí é o decoreba, que me diverte até hoje, quando lembro as preposições -a-ante-até-apóscom- contra-de-desde-para-per-perantepor- sem-sob-sobre-trás.

Isabel Mendes me estimulou a ler, a perceber, a querer saber, enfim, me incentivou essa variada, infinita, emocionante, e mórbida, curiosidade intelectual.

Aprendido objetivamente, me lembro apenas do dia em que ela me apontou o relógio dum corredor da escola e me explicou o funcionamento dos ponteiros (sou do tempo em que relógio tinha ponteiro). Maravilhado, num instante de iluminação, percebi como o aparelho marcava as horas. Levei vários dias procurando todo e qualquer relógio, pra verificar se o tempo de um coincidia com o tempo de outro, até perceber que a diferença entre um e outro era a vida que passava.


TEMPOS DE VINÍCIUS

(Nota de quem sempre foi fascinado pela absoluta ocasionalidade da vida, no total de sua extensão e em todos os seus momentos.)

Maravilhoso dia de primavera. Um sol ameno clareia o começo de tarde na Cinelândia. Encontro Vinícius de Moraes, que conheci a vida inteira, travamos uma conversa sem rumo. Estávamos ambos bem vestidos, paletó e gravata, como era próprio naqueles tempos. Ainda não tínhamos atingido a glória e a liberdade da esculhambação indumentária. Vinícius esperava uma amiga (passou a vida esperando uma amiga ou cantando uma que partiu), eu, como sempre sem saber, esperava apenas o destino. De repente este chega na figura de uma mulher baixa, vestida com simples elegância, soignê. Aproximadamente sessenta anos, idade inacreditável numa época em que eu não tinha mais de vinte. Vinícius me apresentou, ela me cumprimentou em castelhano, respondi com um monossílabo, depois não trocamos mais uma palavra. Atravessamos os três a Praça Paris, na Cinelândia, ainda gloriosa em seus cinemas, teatros e confeitarias. Vinícius e a mulher falavam e riam, eu só ouvia. Do outro lado da Avenida Rio Branco ficava um edifício de uns quatro andares - a avenida ainda tinha o aspecto belíssimo do início do século, quando foi traçada e construída.

Entramos no edifício, sede da Radional, companhia internacional de telefonia. Vinícius e a senhora pediram informações e vieram se sentar no banco em que eu estava, continuaram conversando sem tomarem conhecimento da minha presença, eu continuei ouvindo, distraído. Depois de algum tempo, um senhor veio anunciar que a ligação estava pronta. Só aí entendi: era uma ligação internacional o que esperávamos, coisa fascinante naqueles dias pré-internet. O homem indicou uma cabine telefônica fechada, com porta de vidro, mal dando pra duas pessoas. Mas Vinícius, sei lá por que, me puxou também para dentro da cabine. E lá fiquei, espremido entre os dois, enquanto a senhora, pela milagrosa telefonia internacional, agradecia ao mundo ter recebido o Prêmio Nobel.

Tratava-se, como já perceberam os mais cultinhos, da poetisa chilena Gabriela Mistral, naquela época consulesa do seu país no Rio. Tudo bem, mas por que é que eu fui parar dentro daquela cabine?


CIÚME

Leio em Rubem Fonseca: "Jamais me interessei em conhecer homens e mulheres famosos. Mas queria muito ter conhecido aquela telefonista de olhos grandes e vestido comprido que aparecera na inauguração da central telefônica do Rio de Janeiro, no século xx".

Me senti remota mas desgraçadamente traído por Rubem Fonseca nessa referência à telefonista. Afinal, ele e eu, coitado dele!, somos da mesma geração. Mas não!, fui olhar na capa da lista telefônica de Assinantes da Cidade do Rio de Janeiro, 1983: minha paixão é por uma moça magra também de vestido comprido, branco, sapatos brancos, um chapéu branco de abas cobrindo-lhe o rosto. Sentada no banco envernizado de uma central telefônica dos anos 20, ela remexe na bolsa, de cabeça baixa, como quem procura. uma ficha? Havia fichas? Está lá, sentada, imóvel no gesto imutável, rodeada por quatro cabines telefônicas e um balcão de madeira onde três telefonistas esperam o tempo devorá- las. Há um silêncio em volta que era o da época, e agora é o de sempre. Um relógio, pendente do teto, marca eternos dez pra uma. De que dia? De que ano? Não sei. Quando cruzei por aquela moça ela já estava sentada ali há muito tempo e eu já era um velho jornalista.


21 de junho de 2015
Mario Sergio Conti e Millôr Fernandes

MEMÓRIAS DA ILHA GRANDE NO TEMPO DO CÁRCERE




Os barcos não atracavam, descia-se nos ombros dos presos


Meu nervosismo não melhora com o tempo. Levo para a mesinha de cabeceira o meu "Ângelus" luminoso. De meia em meia hora, fico atento na marcha dos ponteiros. Tinha marcado o despertador para as cinco horas. Já às quatro horas, porém, estou de pé. Manhã sombria. E fria. Na meia-luz do gabinete, vejo um bilhete do Caíco: "Papai! Não enjoe. Não naufrague. Não demore! Votos do filho muito agradecido pelos 'extraordinários' encontrados à noite". É que deixei 30 miseráveis contos [de réis] para os três dias possíveis de ausência.

Tomo banho. Visto-me. Barbeio-me. Tomo, apenas, uma xícara pequena de chá puro. E saio, levando a capa de borracha e a malinha de mão. Às cinco horas, passa um ônibus Estrada de Ferro. Tomo-o. Logo num dos primeiros bancos, o Mário Acioly. Sentamo-nos juntos. Alegre. Barbeado. Novo. Um prodígio de conservação, física e moral.

Na Central, às seis horas. Tomamos café com pão. Eu tomo, ainda, dois comprimidos contra o enjôo. E compro um frasco pequenino de "Elixir Paregórico". Depois, vamos aos jornais. Às seis horas, chega o Lemos Brito. De ar cansado. Vermelho. É visível o sacrifício que faz com essas matinadas. Mas, domina-se e pilheria, como se nada fosse. É o Lemos Brito que compra as passagens para o trem, quase vazio, da Central. Onze e oitocentos por pessoa, da Estação Pedro ii até Mangaratiba.

A locomotiva elétrica corre de verdade. Um prazer, a viagem. Lindo, o despertar dos subúrbios. Colegiais, militares e trabalhadores em todas as estações. Um arzinho gelado entra pelas janelas. Vou lendo o relatório de 1944, do Ouropretano Sardinha, diretor de uma das colônias da Ilha, a Cândido Mendes: a outra é a Penitenciária Agrícola de Dois Rios, que tem à frente um coronel da Polícia Militar.

10H

Chegamos a Mangaratiba. A viagem será feita em lancha. Mas lancha moderníssima, que custou 1.400 contos. Chama-se Ministro Adroaldo. Cinzentinha. Nova. Uma beleza! Eu me sento, com o Mário Acioly, no banco dos fundos. O Lemos Brito põe uma boina caricata e vai para a frente.

São nossos companheiros de viagem vários funcionários do Ministério da Justiça. São os encarregados do inquérito administrativo a que responde o diretor da Colônia Candido Mendes, o Sardinha. Conversamos pouco. O Mário Acioly prefere dormir. Eu acho melhor andar, de um lado para o outro. O Lemos Brito já adota outro expediente: dirige a lancha, muito compenetrado, olhos fixos no horizonte, bússola e sextante à frente, mãos firmes no leme.

Durante hora e meia, tudo vai às mil maravilhas. Trepidação pequena. Jogo perfeitamente suportável. De repente, porém, vejo "cações" ao longe. E noto o mar já diferente. Há ondas, não muito fortes, mas bastantes para inquietar. A lancha entra a fazer ziguezagues. As sacudidelas se fazem mais sensíveis. "É o canal" - informa um marinheiro. Aí, estive quase por "devolver" os cafés e o sanduíche. Mas dominei-me.

Dentro em pouco, a Ilha Grande apareceu, com suas praias de areia escura e seu casario branco. Outras ilhas menores perto. Prancha com várias pessoas, automóveis. Crianças uniformizadas. Saltamos faltando dez para o meio-dia. Sol forte, a pino. Nenhum enjôo. Mas, bastante cansaço. Vamos a pé até a casa do diretor da colônia, o dr. Ouropretano Sardinha. Já o conhecia do Conselho Penitenciário. Baixinho. Nervoso. Avelhantado. Médico. Menos de 50 anos aparentes.

Seremos seus hóspedes, em casa. Por quantos dias, não sabemos. O programa é visitar as duas colônias. Nos dois lados da Ilha. Tudo depende do tempo de que necessitarmos. A senhora do Sardinha é uma pessoa encantadora. Foi bonita, possivelmente. Deve ter entre 35 e 40 anos. Morena. De olhos negros e grandes. Boca bonita, mas de dentes maus. Riso simpático e bom. O almoço que nos serve é magnífico. Maionese. Galinha assada. Bifes. Doces feitos em casa. E vinhos finos. A sesta é feita na varanda, em chaises longues. A vista mais parece Paquetá ou Icaraí.

A conversa gira em torno da proeza náutica do Lemos Brito, a quem o Mário Acioly substitui o tratamento de "professor" pelo de "comodoro". Notase, todavia, que tanto o Sardinha como a mulher estão preocupados com o inquérito. E isso é altamente constrangedor para todos.

15H

Vamos para a colônia. Em três automóveis. Nós na frente com o Sardinha. A comissão de Inquérito, depois. Por último o vice-diretor, o secretário e o médico. A impressão da visita é como todas as outras. Tudo a postos. Tudo em ordem. De encomenda.

Nota-se, todavia, mais tristeza do que no comum dos presídios. Todos os presos trabalham na lavoura. Isso lhes dá um aspecto sadio. Todos são corados. Mas há, no olhar de todos, uma expressão de mágoa ou de revolta. Visitamos os dormitórios. As camas não são más. A roupa, todavia, está longe de ser limpa. Os presos não usam mais uniformes zebrados. Mas continuam com uniformes lisos, de uma cor só, escura.

Campeia a homossexualidade. Uma das camas tinha travesseiros de fronhas coloridas. E cortinados de filó! Mais ainda: ao lado, na mesa, frascos de brilhantina e de perfume. E uma lâmpada vermelha... O apelido do preso era "Bolo Fofo". Às quatro horas - depois de percorrermos vários dormitórios - pátios de recreio - oficinas de padaria e cozinha - nenhum trabalho industrial - só lavoura - fomos assistir à concentração dos presos, chegados em turmas do campo. Ansiosos todos por ouvir a palavra do Lemos Brito, que está nos seus bons dias. Expõe, com muita clareza, o que foi o decreto do Indulto do Ano Santo, o que tem sido o trabalho do Conselho, a luta contra o juiz das Execuções, a demora na remessa dos processos e das folhas de antecedentes, etc. Por fim, exorta-os à paciência e à confiança. Há palmas, muitas palmas.

Fala, depois, o intérprete dos presos. Pelego autêntico. De avental branco. Lê um agradecimento servil ao diretor, aos guardas, ao Conselho, a todos. Como era natural, surge, a seguir, o orador avulso, livre, inesperado. Barra a figura do "pelego", fazendo uma porção de queixas. O mal-estar é geral. Há um sussurro surdo entre os presos. Mas tudo fica por isso mesmo.

Desmanchada a "forma", sofremos, todos, os assaltos individuais. Há os que se limitam a pedir providências quanto aos processos. Há os que se aventuram a formular queixas concretas. Há, finalmente, os que pedem dinheiro para cigarros e doces. Ficamos até seis horas tomando notas, prometendo, ouvindo...

19H

Recolhemos à casa do diretor. Todos sentimos, em silêncio, um começo de saudade. O Sardinha pergunta se queremos mandar telegramas. Aceitamos mandar um só, coletivo. Depois, ouvimos rádio. Afinal, vamos jantar. O mesmo acolhimento encantador à mesa. Comida simples, mas gostosa. Sem vinhos. Com cerveja e guaraná. Com doces, com café, excelentemente feito.

De volta à sala, o Sardinha propõe irmos ver, no cinema local, os documentários da colônia. O Mário Acioly se desculpa, alegando dormir cedo. Vamos, eu e o Lemos Brito. Na salinha acanhada de projeção, somos apresentados a duas visitas. Anunciam-nos jornalistas do O Globo. Felizmente não são. A mulher é redatora da Revista do Globo. Gaúcha. Edith Hervé. O homem... a acompanha. Não diz o que é, nem quem é. Cara boa. Simpática. Conversa ótima. Mas esquisitos, ambos. Os documentários são paupérrimos.

22H

Voltamos, pela praia. Já há luar. Mas ainda chove. Uns pingos grossos de alguma nuvem retardatária. A redatora da Revista do Globo me pergunta se eu sou parente do Viana Moog. Digo-lhe que não. E acrescento: "O Viana Moog é uma beleza de homem!" E ela calmamente: "E o senhor também é!" Depois pergunta-me qual o parentesco que tenho com "o escritor Sussekind de Mendonça, o da abde." Quando digo que sou o próprio, espanta-se. E é uma dificuldade para deixá-la em frente à casa em que está hospedada, com o "acompanhante". Francamente, me acontece cada uma...

8 de junho

Não durmo logo, nem durmo bem. Em todo caso, descanso o corpo.

Vou com o Sardinha ver a horta da Colônia. No caminho, ele me conta que, de madrugada, quando todos dormíamos, um preso morrera. Estava lá, estirado sobre uma mesa tosca, os braços cruzados sobre o peito, aguardando o caixão que os companheiros lhe faziam. Morte súbita. De coração. Isso impedira qualquer comunicação. Aliás, de sua ficha, na Colônia, nada consta quanto à possível família que pudesse ter. Somente os pais, já mortos há muito tempo.

Linda, exuberante, a mata da Ilha. Enormes extensões de terra por explorar. Vegetação incrível. Panoramas soberbos. E, em toda a parte, corrente, farta, pura, geladinha, uma água de tentar. Nunca vi água mais pura. Diz o Sardinha que, pelo exame, os técnicos do Ministério haviam chegado à mesma conclusão. As estradas estão bem conservadas. Ligam, tanto para o pedestre como para os veículos, as duas Colônias. Cortam a ilha imensa pelo meio, numa extensão de seis léguas.

Do alto de uma delas, se vê a Colônia Cândido Mendes, baixinha, com seu casario perdido entre o mar e a mata. Não é uma ilha - é um continente. A horta era uma beleza. Enquanto o Sardinha esteve afastado da direção, o funcionário subalterno que o substituiu - mulato analfabeto, casado com uma preta - dizimou-a. Nos vinte e poucos dias que já tinha depois do seu regresso, a plantação renascia. E que riqueza! Que feracidade! Que altura tinham as espigas de milho! De que tamanho os tubérculos! Que batatas! Que aipins!

Voltei maravilhado e faminto. A caminhada me deixara as pernas trôpegas. E o estômago exigente. Já com o Lemos Brito e o Acioly, tivemos um "desjejum" primoroso, com biscoitos, geléia, bolo e o pão fresco, feito na própria Colônia pelos presos.

10H

Iniciamos, em jeep, a marcha para a Colônia de Dois Rios. Só então tivemos a verdadeira percepção da enormidade da ilha. Tocando, em velocidade, levamos hora e meia para varar a distância. E os panoramas se sucediam numa riqueza incrível!

O outro lado da ilha é muito mais adiantado. O próprio mar é diferente. É agitado. É revolto. É Copacabana. Na Colônia Penal Cândido Mendes, parece uma lagoa. Tanto lhe quebra a ira das vagas a enseada que a protege, a enseada do Abrahão. Em Dois Rios não há porto de desembarque. As embarcações não chegam até a praia. Desembarca-se nos ombros dos sentenciados.

O diretor é um homem inteiramente diferente do Sardinha. Este é um intelectual, conhecedor do problema penitenciário, médico, culto, lido. Ele é um coronel da Polícia Militar. Formado, ou deformado, no Amazonas. Cara de índio manso. O Lemos Brito lhe dera 80 anos. Ainda não tem 65. Acolheu-nos com muita simpatia. Mas não tem trato. Não tem polimento nenhum.

Visitamos, com ele, pavilhões e oficinas. Tudo muito mais perfeito do que na outra Colônia. Mas vazio de alma. A organização, porém, deixa muito a desejar. Não se pode saber a que critério obedecem as transferências dos sentenciados. Dir-se-ia que ao puro capricho da politicalha daqui. Basta dizer que um condenado a três anos, cuja pena terminará no dia 11 deste mês, foi para lá no dia 2! E, de seus assentamentos, nada consta a respeito do início e da terminação da pena!

A farmácia é bem sortida. Mas o farmacêutico foi removido. E não se pode substitui-lo por um simples "prático", porque as lotações burocráticas desconhecem essa categoria no Ministério da Justiça! Há quase um mês, por conseguinte, a farmácia está virtualmente parada. Na enfermaria, entretanto, para 500 sentenciados e mais de 100 funcionários, com cerca de 300 pessoas das famílias respectivas, só havia três ocupantes - índice incrível, que bem mostra a salubridade do lugar, que ainda é o que há de melhor ali.

Horrível a impressão dos presos, amontoados no refeitório para um almoço incrível: um único prato de feijão, onde há pedaços de macarrão e alguns tacos de carne. Imundos os presidiários. Alguns, descalços. Todos de fisionomia carregadas, soturnas. Ouviram o discurso do Lemos Brito alheios como se se tratasse de um enviado de Marte. Quando ele se referia à "alimentação razoável", uma besourada surda correu toda a sala. Pensamos que se revoltariam ali mesmo.

Quando debandaram, cobriram-nos de pedidos. Alguns de dinheiro. Na sua maioria, entretanto, apenas de justiça, de misericórdia. Mais de 200 já estão com suas penas cumpridas. Só não são postos em liberdade pelos tropeços da burocracia. Isso é um crime! Uma vergonha, que não pode continuar assim.

14H

Voltamos à Colônia Cândido Mendes. O ambiente acolhedor dos Sardinhas ainda nos proporcionou um café delicioso com bolos. Às 3 horas, já estamos na lancha Ministro Adroaldo. O mar estava calmo. A direção do Lemos Brito já não oferecia perigo. A viagem correu, portanto, calma, imperturbável.

Vim, todo o tempo, conversando com a escritora Edith Hervé. É comunista "no duro". Filha de professor da Faculdade de Medicina, isso não a impediu de amasiar-se com o homem em cuja companhia estava. Esteve presente no Congresso da Bahia. Sobre ele escreveu para a Revista do Globo. A crônica nada revela de seu talento. É puramente noticiosa, informativa. Entretanto, foi à Colônia para estudar o meio, observar os tipos, pois pretende escrever um romance sobre a "Revolução Vermelha", de 1935. Antes de chegarmos, pede-me o endereço e o telefone. E faz-me prometer um encontro. Marco a Livraria Freitas Bastos, como podia marcar outro qualquer local, pois não pretendo ir. Não quero mais complicações na minha vida.

22H

Da Central, telefono para casa. Atendeme a empregada. Gilda está fora, com Irene. Os filhos, também. Chego ao Leme às 10 horas. Encontro a porta ainda aberta. Improviso um jantar com ovos e presunto, que vou comprar. Festa de todos, ao voltar. Ana Maria me garante que sentiram saudades. Eu acredito porque as senti também. Vamos dormir depois das 11 horas.


21 de junho de 2015
Carlos Sussekind de Mendonça

ENLARGE YOUR PENIS!!!




Mitos e realidades sobre os métodos de aumento do órgão masculino mais importante depois (depois?) do cérebro


Numa cena do filme Noivo neurótico, noiva nervosa, Annie Hall (Diane Keaton) conta ao namorado, Alvy Singer (Woody Allen), como foi sua primeira sessão de análise. Alvy lava pratos e escuta atentamente. Lá pelas tantas, Annie diz que o analista "mencionou algo sobre inveja do pênis; você sabia que as mulheres têm disso?" O franzino Woody Allen nem tira os olhos da pia. Melancólico, resigna- se: "Eu? Sou um dos poucos homens que sofrem do mesmo complexo".

Talvez Alvy Singer se sentisse um pouco reconfortado sabendo que, numa pesquisa feita nos eua, 99% dos homens disseram que aumentariam o pênis, caso houvesse uma forma mágica - sem riscos, constrangimento, esforço ou custo - de fazê-lo. (Claro que o leitor, esclarecido que é, encontra-se entre o 1% restante que jamais perdeu um minuto com tais questões pueris).

No Brasil, embora não haja dados estatísticos, as coisas não parecem ser muito diferentes. Não há semana em que Sidney Glina, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, não receba em seu consultório algum homem aflito, querendo saber se existe uma forma de aumentar o pênis. Para desilusão dos pacientes, Glina explica que ainda não foi desenvolvido nenhum tratamento eficiente e seguro. Há cirurgias plásticas mas, segundo Glina, são perigosas. A técnica mais comum consiste em cortar um ligamento que prende o pênis ao osso pélvico e puxá-lo de um a dois centímetros para fora. (Cerca de um terço do pênis fica dentro do corpo). 
Assim, ganha-se em comprimento. Enxertos de gordura e outros materiais podem engrossá-lo. Segundo Glina, no entanto, na literatura médica há mais estudos sobre conseqüências indesejadas das cirurgias do que seus supostos benefícios. (A gordura é absorvida, formando nódulos; a cicatrização pode puxar o pênis para dentro, deixando-o menor do que antes e, com o ligamento cortado, quando rígido, o pênis fica para baixo). Por isso, o Conselho Federal de Medicina considera todas as cirurgias de aumento peniano experimentais. "Só deveriam ser feitas em hospitais universitários, e de graça", diz Glina.

Carmita Abdo, psiquiatra e fundadora do Projeto Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas, também está cansada de tentar dissuadir homens que, depois de receber aqueles spams ("Enlarge your penis!", "Gain 2 inches!", "Aumente seu pênis já!"), acreditam que existam métodos capazes de fazer de qualquer Alvy Singer, em pouco tempo, um Long Dong Silver - o legendário ator pornô samoano, cujo pênis, ereto, media 47 centímetros. "Todo homem gostaria de ter o pênis o mais avantajado possível. Você encontra isso em qualquer faixa etária, em qualquer classe social." Até Vinicius de Moraes - como conta Chico Buarque, ao final do filme Vinicius - disse que, caso lhe fosse concedida outra vida, gostaria de voltar igualzinho, só com "o pau um pouquinho maior". Segundo Glina e Abdo, por enquanto, a única forma de aumentar o pênis é mesmo a proposta pelo poeta: morrer e nascer de novo.

Tarefa nada fácil é convencer os (im)- pacientes de que, neste ponto do corpo, ao contrário do nariz, orelhas e outros órgãos em que a cirurgia plástica manda e desmanda, anatomia ainda é destino. Afinal, ao digitar "aumento de pênis" no Google, o sujeito angustiado encontra 187 mil resultados, muitos prometendo o fim de seu complexo de inferioridade. Vão de tratamentos com bomba a vácuo a extensores com elásticos ou molas, passando por pesos, cirurgias, implantes, injeções de gordura, meta-acrilato, gel russo, cosmo gel, pílulas e até técnicas árabes de massagem "que sempre existiram, mas nunca foram transmitidos para a cultura moderna" e "que têm servido a milhões de homens através dos séculos". Tanto Glina quanto Abdo insistem: não há estudos que comprovem a eficácia de nada disso.

Se, em português, "aumento de pênis" tem 187 mil ocorrências, contra 87 mil de "Paz na Terra" e 18.800 de "Como ficar rico", é sinal de que a preocupação com o tamanho do pênis tem um lugar importante na ordem das coisas. Por quê? Carmita Abdo coordenou uma das maiores pesquisas já feitas sobre sexualidade no Brasil, entrevistando 7.100 pessoas. O resultado está no livro O descobrimento sexual do Brasil (Summus, 2004). Segundo a pesquisa, o maior medo dos brasileiros em relação ao sexo é não satisfazer o parceiro ou a parceira. Medo que aparece mais nos homens, 56%, do que nas mulheres, 45%. Será então que é para satisfazer as mulheres que, no amplo leque da anatomia, os homens gostariam de estar mais para o lado de Long Dong do que para o de Alvy Singer?
Sidney Glina e Carmita Abdo dizem que não. Abdo, em sua pesquisa, não encontrou queixas de homens nem de mulheres sobre o tamanho do pênis na qualidade da relação sexual. Glina concorda: "A maioria dos homens que vêm aqui no consultório e querem aumentar o pênis funciona muito bem sexualmente. O problema é no vestiário". Alvy Singer sabe bem como é isso. Quando Annie Hall lhe pergunta por que não tomou banho no clube em que acabaram de jogar tênis, ele responde: "Eu não tomo banho em lugares públicos. Não gosto de ficar pelado na frente de outros homens. Nunca se sabe o que pode acontecer". Infelizmente, Annie Hall não lhe pergunta: "Mas o que pode acontecer?". Limita-se a balançar a cabeça e dizer "Quinze anos?", referindo-se ao tempo que Alvy leva deitado no divã, digladiando- se com suas neuroses e sofrendo pelo fato de um charuto, às vezes, ser menor do que outros charutos.

Roberto Tulli, cirurgião vascular e plástico, foi duas vezes ao Programa do Jô falar sobre impotência e aumento peniano. "Nunca o telefone da produção tocou tanto durante a semana. Querendo o contato do médico", diz Marta Bortolotto, produtora do programa. De cada dez pacientes que entram em seu consultório, quatro querem aumentar o pênis. Tulli engrossa o coro com Glina e Carmita Abdo: a palavra "mulher" mal aparece na boca desses pacientes, eclipsada sob a enorme sombra de "vestiário". Assim sendo, Roberto Tulli desenvolveu um creme que, passado na glande, causa uma "intumescência". "A glande incha, puxando todo o pênis." O efeito é temporário, mas suficiente para uma melhor performance de vestiário.

O sexo não é apenas uma preocupação menor dos homens, mas alguns estão mesmo dispostos a arriscar seu bom funcionamento sexual para ganhar algum volume no vestiário. Glina conta de um paciente que, depois de algumas cirurgias malsucedidas, foi levado ao consultório pela própria mulher, empenhada em convencer o marido de que estava plenamente satisfeita com seu pênis. Não conseguiu. O paciente foi a Miami para mais uma cirurgia e, infeliz com os resultados, acabou se suicidando.

Se a preocupação com as mulheres não é uma questão crucial para quem quer aumentar o pênis, tampouco é o tamanho do mesmo. A maioria dos pacientes que procuram o ProSex, a clínica de Sidney Glina e outros médicos dizendo que gostariam de aumentá-lo estão dentro da média - 70% dos homens têm entre 13 cm e 16 cm de comprimento, em estado ereto. (Não que o leitor esteja preocupado com isso, mas a medição do comprimento se faz com uma fita métrica, pelo lado de cima, da pélvis até o fim da glande). Se, a crer nos resultados da pesquisa de Carmita Abdo, o prazer da mulher não cresce na proporção em que aumenta o pênis e a maior ambição dos que querem aumentá-lo é exibi-lo no vestiário, há de se pensar qual será o poder que os pênis grandes têm sobre os homens. Será que os mais bem dotados seriam conseqüentemente mais seguros, decididos, agressivos e, portanto, mais bem-sucedidos? Viveríamos numa falocracia, em que os diretores de multinacionais, presidentes de países e esportistas vitoriosos se encontram todos entre os 15% dos homens que têm pênis com mais de 18% cm? Estariam George Bush, Bill Gates e Ronaldinho entre os 0,001% dos homens com mais de 25 cm?

Sidney Glina diz que não é o que a experiência tem mostrado: ele atende a muitos executivos poderosos que, se pudessem, diminuiriam suas contas bancárias para ganhar alguns centímetros dentro de suas cuecas. Além do mais, se o tamanho do pênis fosse determinante no sucesso do indivíduo, teríamos uma elite de negros, uma classe média de caucasianos e a Ásia abandonada à sua própria sorte. Sim: os negros têm pênis maiores que o dos brancos, que os têm maiores que os asiáticos.

No passado distante, enquanto andávamos nus pela terra, grandes falos podem ter sido sinônimo de poder. De todos os primatas, o homem é não só o de maior cérebro, mas também o de maior pênis. Um gorila tem, em média, um pênis de 3,17 cm, um orangotango, 3,81 cm. Os cerca de 14 cm do homem talvez sugiram que, durante a evolução, o tamanho do pênis tenha sido um componente importante na escolha dos machos pelas fêmeas, simbolizando poder e força física. Essa, no entanto, é apenas uma suposição entre outras tantas, quando o assunto é evolução. Como diz Jared Diamond, professor de fisiologia na Universidade da Califórnia e autor do livro Por que o sexo é divertido (Rocco, 1999), não se sabe ao certo por que o homo sapiens tem o pênis desproporcionalmente maior do que o de seus primos mais próximos na natureza - embora tenhamos, talvez, uma boa explicação para a agressividade de King Kong.

Carmita Abdo diz que, quando o homem tem a idéia fixa de que seu pênis é pequeno, "não adianta você medir, explicar, mostrar, comparar, abrir livros: ele não se convence". Só sossega ao encontrar um médico que lhe ofereça o que ele procura. Não é difícil. Entre as milhões de pessoas que viram o médico Bayard Fischer no Programa do Jô estavam muitos destes inconsoláveis que, por mais que ouvissem explicações, não se conformavam com a idéia de que "mais vale um pequenino brincalhão do que um grande bobalhão" ou "não importa o tamanho da vara de condão, mas a mágica de que ela é capaz".

O gaúcho Bayard Fischer Santos é cirurgião plástico genital: faz himenoplastia (reconstituição de hímen), ninfoplastia (diminuição dos pequenos lábios), perineoplastia (estreitamento de canal vaginal) e garante que é possível, sim, aumentar o pênis em comprimento e espessura. Usa técnicas combinadas de cirurgia (aquela que corta o ligamento), fisioterapia com aparelho extensor (mínimo de 12 horas por dia, todo dia, por quase um ano) e preenchimento com substâncias como gordura, colágeno e gel russo, além de medicação.

Segundo ele, a não aceitação de seus métodos por outros médicos é conseqüência da ignorância, preconceito "e umas questões relativas a um laboratório, que eu não quero nem entrar" - e não entrou. Como prova de sua eficiência, Bayard Santos cita o Guiness Book of Records, que lhe outorgou o diploma de maior aumento peniano do mundo: um paciente seu teve 16 cm de ganho, passando de 11 cm para 27 cm. (Na verdade, o paciente continuou se automedicando e usando o extensor por mais alguns anos, por sua conta e risco, depois que o médico já dera o tratamento por terminado).

Bayard Santos é autor do livro A medida do homem, mitos e verdades (Editora imprensa livre, 2001) mistura de almanaque sobre o pênis e um compêndio de técnicas para (supostamente) aumentá-lo. O primeiro capítulo, intitulado "O homem é seu pênis", traz a seguinte citação, de Brian Richards: "Se um homem fosse pressionado a dizer qual a coisa mais importante do mundo, e em toda a sua história, a resposta mais lógica e correta seria o pênis". E não qualquer pênis: "Tamanho é importante", diz Bayard Santos. "Um pênis com menos de 13 centímetros escapa durante o ato, certas posições ficam impossíveis. Tem muita hipocrisia por aí. Uma mulher nunca vai dizer que gosta de pênis grande, porque vai parecer vulgar".

Algumas dizem. Fernanda Lima, para desespero dos 75% da classe média peniana, que estão na casa dos 15 cm, declarou à Playboy que "quanto maior, melhor". Para piauí, ela contemporizou: "Acho que, na real, o que importa nessa história de pau é a segurança que ele traz a seu dono. Homens de pau grande se sentem mais seguros pois sabem que não precisam trabalhar muito durante o ato. Impressionam já na chegada, mas isso faz com que muitos decepcionem também, achando que são gostosos e não precisam se esforçar. Já aqueles de pau tamanho padrão são mais esforçados, mais demorados, mais preocupados com preliminares e finalizações. Mas tudo isso pode ser muito relativo". Elza Soares disse, no programa Roda Viva, que não sabia dizer se tamanho era importante, pois em toda a sua vida, só tinha se deparado com os grandes. E sorriu...

Um advogado carioca de quarenta anos, que é paciente de Bayard Santos desde 2000, não se sentiria intimidado pelas preferências da bela gaúcha. Ele está feliz e contente com os tratamentos que, diz, o fizeram saltar da classe econômica dos 75% para a primeira classe dos 15%, acima dos 18 cm. "É uma coisa maravilhosa, que eu gostaria de propagar. Muda tudo, cara! A autoestima está lá em cima, voltei a estudar, fiquei muito mais centrado. Por exemplo, hoje eu saio de casa pra comprar uma plantinha, uma coisa que está faltando, sabe como é? Eu atribuo isso ao efeito psicológico, porque você perde a pressa, ansiedade, você está completo! Eu sou um cara bem afeiçoado, tenho um emprego legal, leio poesia, gosto de romantismo. Esse conjunto de coisas, mais um pau grande... Eu me considero imbatível!" O advogado gastou vinte mil reais com todo o tratamento. Fez a cirurgia para romper o ligamento, usou o extensor por dez meses e fez enxertos de colágeno e gel russo, para engrossar - "esse foi o pulo do gato!" Ele acompanha Bayard Santos em simpósios e conferências, mostrando, com orgulho, seu 18 x 18 para platéias de centenas de pessoas. O advogado só esconde o seu nome e sobrenome, que não quis ver citados nesta reportagem.

O tratamento seguido por Carlos Roberto é polêmico. Sidney Glina diz que o extensor não tem resultados comprovados em estudos científicos. Além disso, a maioria das pessoas, segundo o cirurgião Roberto Tulli, não agüenta usar o aparelho, mais de doze horas por dia, com uma pressão de até um quilo, durante mais de dez meses. Há alguns anos, Tulli chegou a receitá-lo a cinqüenta pacientes: apenas quatro conseguiram usá-lo até o fim. Desistiu de indicá- lo. Carlos Roberto, no entanto, diz que não teve problemas. "É só usar uma cueca samba-canção, botar ele para baixo e pronto. No começo machuca um pouco, mas você vai criando um calo e vai ficando legal, igual o dedo no violão."

Segundo Bayard Santos, seus pacientes não reclamam do extensor. Explica que, com o estiramento, o organismo entra em processo de mitose (divisão celular), aumentando lentamente de tamanho. O crescimento esperado é de cerca de dois milímetros por mês, ou dois centímetros após dez meses. Tanto Carlos Roberto quanto Dr. Bayard Santos dizem que muito marmanjo anda por aí com seu aparelho extensor enfiado dentro da calça, sonhando com o dia em que chegarão aos 20 cm de Humphrey Bogart, os 30 cm de Charlie Chaplin (a razão das calças largas de Carlitos?) ou, quem sabe ainda, aos 32 cm de Rasputin que, segundo o livro do Dr. Bayard Santos (de onde tiro estas medidas), fazia com que "homens e mulheres desmaiassem" à simples visão. Dona Zuleika, enfermeira de Bayard Santos, diz que dois Big Brothers passaram pela clínica e fizeram o tratamento, antes de exporem suas sungas ao escrutínio da nação. Cheia de mistério, diz que outras "pessoas famosas também".

Se o aumento peniano é fruto da mitose, como diz Bayard Santos, ou do mito, como defende a maioria dos profissionais, somente o tempo e o surgimento (ou não) de estudos poderão provar. No que tanto Bayard Santos como Sidney Glina concordam é que, dada a procura por métodos de aumento peniano, o futuro deverá trazer avanços nessa área (sem trocadilho, por favor). Enquanto isso não acontece, aqueles muito obcecados com a questão, que tirem as suas medidas. Os grandes podem ir correndo ao vestiário mais próximo. Os médios devem tentar ficar tranqüilos em meio à maioria silenciosa. Aos pequenos, sugere-se a prática de esportes individuais e resta o consolo de que, de acordo com a medicina, até com um pênis de 9 cm pode-se satisfazer uma mulher plenamente. (A ambição de namorar Fernanda Lima, no entanto, deve ser reconsiderada).


21 de junho de 2015
Antonio Prata

DIÁRIO ARQUIVADO


Para decepção dos pesquisadores de Guimarães Rosa, seus herdeiros impedem a publicação de cartas e anotações do autor de Sagarana


No fundo da quinta e última gaveta de um arquivo de metal branco, numa sala do terceiro andar da Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, está guardado um envelope pardo. Dentro dele, enrolado num papel protetor contra acidez e umidade, há um volume em formato de livro, com 20 centímetros de comprimento, 13 de largura e dois de lombada. A capa é feita de um papel mais grosso do que o miolo, com motivos gráficos que imitam mármore, numa cor indecisa entre o bege e o rosa-claro. Uma caligrafia miúda, com letras ligeiramente inclinadas para a direita, preenche boa parte do livreto. Entremeando as anotações, há pequenos desenhos toscos e, colados nas páginas, dezenas de recortes de jornais alemães. O conteúdo das anotações e das reportagens fornece indícios sobre a forma, a autoria, o período e o lugar em que o caderno foi feito. É um diário, escrito por um brasileiro que acompanha, na Alemanha, o começo da ii Guerra Mundial.

Ao longo das 208 páginas, o autor narra bombardeios, descreve o barulho das sirenes e diz como o silêncio das noites era recortado por tiros. Conta a primeira vez que viu um judeu com uma estrela amarela costurada na roupa. Relata como uma bomba no Jardim Zoológico de Hamburgo dizimou camelos. Registra o que anunciava uma pequena tabuleta num parque: "Lugar de brinquedo para crianças arianas". O autor do diário era um jovem diplomata que servia pela primeira vez fora do Brasil, no posto de cônsul-adjunto de Hamburgo. Aos 31 anos, tinha aspirações literárias, mas ainda não havia publicado nada. Chamavase João Guimarães Rosa.

Em agosto de 1939, data das primeiras anotações, ele não faz literatura. Sua escrita é prosaica, sem artifícios. Ainda assim, espalha pelo diário figuras de linguagem, observações e poemetos que, lidos hoje, são claramente "rosianos". Seus flertes com a poesia são constantemente relacionados à exaltação da natureza. "A noite começa debaixo das árvores", anota num canto, ao lado dos registros de um bombardeio e de recortes de anúncios de escritórios de advogados e de um hotel em Hamburgo.

Em outro ponto, põe no papel um poema que começa com a estrofe "As lagoas são armadilhas armadas para pegar a lua/ porque a lua não se reflete (não desce a) na mata, nem no chão (terra dura)". Ao lado dos escritos mais pessoais, de invencionices subjetivas, ele acrescenta o sinal M%, que significaria, segundo especialistas na obra de Guimarães Rosa, "meu 100%". O símbolo aparece, por exemplo, ao lado de um escrito intitulado A Ladeira: "A ladeira da vida inteira... Tudo é vaidade, tudo é besteira, só uma coisa é que é verdadeira: subindo a ladeira, sobe-se a ladeira da vida inteira...".

Mais próximas da linguagem que apresentaria em obras como Grande Sertão: Veredas são as listas de palavras. Numa delas, Rosa enumera vinte temperos usados para fazer uma sopa típica de Hamburgo. Noutra, arrola diferentes gestos - "de sensação", como "cabecear sonolento" ou "tremer de frio", "de sentimento", "de ação" e "de irritação", como o certeiro "tremer a cabeça como sexagenário".

Num dos comentários mais surpreendentes do diário, paradoxalmente, o jovem diplomata critica o maior escritor brasileiro pelo hábito de se valer de anotações na criação de suas obras: "Adquiri certeza, quase absoluta, de que ele, antes mesmo de compor os seus livros, ia anotando: pensamentos, frases etc., em livro ou em cadernos especiais, espécie de surrão ou alforje, de onde sacava, aos punhados, ou pinçava, um a um, os elementos de reserva que houvessem resistido ao tempo conservando-se bem (processo aliás muito louvável. Tanto quanto o hábito de 'compulsar' dicionários, visível em M. de. A.)".

"M. de. A." era ele, Machado de Assis. Na anotação que se presume a mais antiga do diário, pois seus escritos nem sempre são datados e ordenados, o jovem Rosa faz outras três observações sobre o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, a partir da leitura, como admite, "apressada" do romance. Na primeira, afirma que Machado "gosta, usa e abusa da construção terciária: silogística ou hegeliana (premissa maior - premissa menor - conclusão; ou tese - antítese - síntese). A cada passo a gente esbarra com vestígios desse vezo, quando não com a armação completa, a qual pode ser decomposta de várias maneiras: um pulinho para a direita, outro para a esquerda, outro para a frente... quando não para trás".

Os elogios ficam guardados para outro tópico: "De verdadeiramente interessante é no livro: a) o capítulo 'É minha', onde o autor descobre a 'lei da equivalência das janelas'; b) o capítulo 'O momento oportuno', onde escreve: 'Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos'; c) a filosofia 'humanitática' de Quincas Borba." Ao lado do "humanitática" o autor tasca outro dos seus "M%".

A catimbada fica para o final. Depois de afirmar que não pretende ler mais nada do escritor, "a não ser seus afamados contos" e, talvez, o começo do Dom Casmurro, ele escreve: "Acho-o antipático de estilo, cheio de atitudes para 'embasbacar o indígena'; lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota da originalidade; anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa a sua leitura". Rosa não pára aí: "Quanto às idéias, nada mais do que uma desoladora dissecação do egoísmo, e, o que é pior, da mais desprezível forma de egoísmo: o egoísmo dos introvertidos inteligentes". Para terminar, lança um "Bem, basta; chega de Machado de Assis". No canto direito inferior da página acrescenta a data: "Hamburgo, 15 de agosto de 1939". Duas semanas depois, Hitler invadiria a Polônia, marco zero da ii Guerra Mundial.

A diatribe contra Machado de Assis, morto no mesmo 1908 em que Rosa nasceu, acabaria por se revelar um momento raro não só nos diários, mas na vida do escritor, um homem de temperamento contemporizador, pouco dado a sinceridades indelicadas com seus pares. E, no entanto, assim como o conjunto do diário, a crítica jamais foi publicada em livro.

Não por falta de interesse. "O diário é de importância crucial para a compreensão da biografia e do processo de criação literária de Guimarães Rosa, além de ser muito esclarecedor sobre o cotidiano de um diplomata brasileiro na Alemanha, durante a ii Guerra", afirma Eneida de Souza. Professora emérita de literatura brasileira da Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG, ela é uma das poucas pesquisadoras que conhecem os escritos de Hamburgo. Outros dois são, não por acaso, seus colegas de universidade: os professores Reinaldo Marques e Georg Otte. O diário chegou até eles por veredas vicinais.

Em maio de 1973, Aracy Moebius de Carvalho, viúva do escritor, permitiu que Henrique Gregori, então presidente da Xerox do Brasil e futuro proprietário da editora José Olympio, fizesse cinco reproduções dos cadernos de Hamburgo.

Uma dessas cópias ficou com a mulher do empresário, Ana Elisa Gregori, que por sua vez a cedeu para uma tia, a poeta Henriqueta Lisboa. Com a morte de Henriqueta, sua biblioteca foi doada à UFMG. No dia 18 de dezembro de 1989 o volume com os escritos alemães de Rosa ganhou um carimbo azulado: "Biblioteca Universitária - 3354989-03 - ml-00007762-9". Nenhum arquivo público tinha até então as anotações do cônsul-adjunto Guimarães Rosa. Nem mesmo o do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, maior depositário de informações sobre o escritor desde 1973, quando comprou 20 mil documentos deixados por Rosa.

Mesmo com a chegada a uma biblioteca pública, o diário de Hamburgo seguiria pela sombra. No início de 2001, a professora Eneida de Souza e seus parceiros foram procurados pela editora Nova Fronteira, que desde 1984 publica a obra do escritor. A idéia era que Eneida e Reinaldo Marques, associados ao alemão Georg Otte, que poderia servir como tradutor dos recortes de jornais, preparassem o texto para publicação. Reinaldo Marques conta que a edição começou a desandar no final daquele ano, quando se noticiou que o diário alemão de Rosa viria à tona. "A família ficou preocupada e mandou recado, dizendo que deveríamos parar com o trabalho", recorda Marques. O diário voltou ao seu envelope pardo, que foi posto no fundo da gaveta de um arquivo.

Guimarães Rosa casou-se pela primeira vez em 27 de junho de 1930, dia em que completou 22 anos. Lygia Cabral Penna, sua noiva, era uma moça morena, vizinha desde tempos de infância. Tinha o apelido de Lili. Estava com 16 anos, era magra e usava cabelos lisos e curtos. No final do ano, Joãozito, como ela o chamava, formou-se em medicina. Orador da turma, fez um discurso repleto de citações, que terminava com um provérbio eslovaco: "Kdyz je nouze nejvissi, pomoc byva nejblissi!" (Quando mais terrível é o desespero, aí é que o socorro já vem perto!).

Pouco depois de casado, Rosa perambulou com a mulher pelo interior de Minas Gerais, trabalhando como médico. Lygia lhe deu duas filhas, ambas nascidas nessas itinerâncias, em partos feitos pelo próprio escritor. Vilma nasceu em Itaguara, em 1931, e Agnes em Barbacena, dois anos depois.

Em 1934, ele estava desiludido com a profissão. "Não nasci para isso", escreveu numa carta a um amigo. Prestou então concurso para o Itamaraty e foi aprovado em segundo lugar. A família Rosa se mudou para o Rio de Janeiro. Pouco depois de formado, Rosa foi designado para o posto de cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo. Em maio de 1938 o jovem diplomata toma um navio para a Alemanha. Viajou sem a mulher e as filhas.

Em Hamburgo, Guimarães Rosa conheceu sua segunda mulher, Aracy. Bonita, morena, de feições à la Vivien Leigh em E o vento levou, ela trabalhava na seção de passaportes do consulado brasileiro. Também havia se casado uma vez e tinha um filho, o pequeno Eduardo. Rosa e Aracy ficariam juntos até a morte do escritor, em 1967.

O espólio de Guimarães Rosa está dividido em três ramos: as duas filhas e a viúva. Vilma e Agnes moram no Rio de Janeiro. Aos 98 anos, Aracy vive em São Paulo, mas por conta de problemas de saúde tem seus direitos administrados por um neto, Eduardo Carvalho Tess Filho, de 50 anos.

Tess, especializado em direito internacional, mora em São Paulo. Seu escritório fica num casarão creme, numa zona valorizada, a Avenida Brasil. Quase sem se mexer na cadeira, com os cabelos imobilizados por gel, os olhos grandes e claros estacionados na parede oposta, ele enumera friamente problemas com as irmãs Vilma e Agnes. As desavenças começaram já na época do inventário. O testamento estabelecia, segundo Tess, que a avó teria direito à metade dos direitos autorais da obra do marido. Ele diz que, devido ao "comportamento das filhas", a feitura do inventário estendeu-se por um período "longo e desagradável". Como resultado, Aracy teria feito uma composição e dividido tudo por três. Naquele momento, definiu-se que qualquer publicação ou comercialização, qualquer licença ou autorização que envolvesse a obra de Rosa teria de receber a permissão do trio. Com uma única exceção: por terem sido doados em vida a Aracy, os direitos de Grande Sertão não entrariam no bolo.

Na interpretação de Vilma Guimarães Rosa, a primogênita, a situação é diferente. "Para publicar algo de papai, é preciso pedir autorização à minha irmã e a mim", ela diz, num tom de voz suave. Com 75 anos, Vilma publicou oito volumes de contos, além de um livro de memórias, Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai.

Ao menos num assunto, Tess e as irmãs Guimarães Rosa concordam: o diário de Hamburgo não sai da gaveta porque Agnes não deixa. "Agnes faz de conta que a separação do Joãozinho da mãe delas nunca houve", diz Tess, "e o diário de Hamburgo é justamente da fase em que ele conheceu minha avó".

O advogado sustenta que Rosa já embarcou para a Alemanha desquitado de Lygia e, portanto, a história de amor com Aracy não seria adultério. Já Vilma diz que o pai ainda era casado quando se envolveu com Aracy, que é citada constantemente no diário. "Por isso é que minha irmã fica danada; ela achou uma falta de respeito com minha mãe," afirma.

Agnes não entra em detalhes sobre seus motivos. "Católica apostólica romana", diz recear "sensacionalismos" em torno de seu pai. Formada em geografia, ela não escreve, mas se considera ótima leitora. No ano passado ela releu o diário de Hamburgo. "Não tenho interesse em que seja publicado, não tem nada ali que acrescente", diz. Mais adiante, confessa que acha algumas passagens interessantes. "Se eu pudesse fazer um expurgo e publicar só as coisas que interessam do diário, aí publicaria. Mas as picuinhas, os diz-que-me-diz, não."

Em 2001, quando Vilma, Tess e a editora Nova Fronteira se interessaram em publicar os escritos de Hamburgo, Agnes usou um expediente infalível para barrar o processo. "Insistiram tanto que eu pedi um preço absurdo. Quando você não quer uma coisa e diz que não quer, as pessoas não compreendem, e então resolvi pedir um valor que nem me lembro - uma loucura." Ela conta que, desde então, repetiu o expediente.

Vilma chegou a conviver com Aracy no final dos anos 40, quando foi morar com ela e o pai em Paris. "Ela foi muito boa para o meu pai", atesta. "Ela se apagou para que meu pai brilhasse." A irmã caçula conta que esteve poucas vezes com a madrasta: "Papai gostava muito de nos levar para um passeio à Ilha de Paquetá, aos domingos. Ele ia fazendo um joguinho com a gente, de sinônimos. Aracy ia junto. Ela tinha uma pontinha de ciúme, uma bobagem. Filha é filha, não tem como lutar."

Se alguns aprendem francês só para ler Proust, a austríaca Kathrin Rosenfield pode dizer que estudou português por conta de Rosa. "Quando comecei a ler Grande Sertão pela primeira vez, em 1984, um pouco antes de chegar ao Brasil, não conhecia o português. Entrei no sertão rosiano (e no meu, lingüístico) me orientando com meus conhecimentos de outras línguas latinas (o francês, o espanhol e o italiano)", explica ela no prefácio do seu livro Desenveredando Rosa (editora Topbooks). Professora de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ela estuda a obra do escritor desde aquela época e nunca conseguiu ver os diários de Hamburgo

"Acho lamentável que seja tão difícil conhecer os documentos de um autor da importância de Rosa", diz a professora. "Duplamente lamentável, aliás, porque esse desconhecimento cria também mitos como aquele que um colega me expôs um dia. Ele disse que, no serviço consular em Hamburgo, Rosa era mulherengo. Segundo esse relato, Rosa não teria dado o passaporte a uma bela judia por ela não ter respondido à cantada dele. Quando eu quis saber de onde vinha essa história, encontrei um cipoal inextricável de rumores."

Da mesma forma, o veto à publicação do diário por conta de menções a Aracy, que Rosa chamava de Ara, pode dar a entender que os escritos de Hamburgo contenham passagens picantes. Não é assim. "Ele sempre fala da Aracy, mas de forma muito tímida, quase não dá informações sobre ela", diz Reinaldo Marques. O máximo que se pode encontrar nos diários são registros como "Dormi em casa de Ara, que partiu hoje cedo para München". Ela é presença constante, mas discreta: "Comi a macarronada da Ara (!)"; "Lohengrin com Ara"; "Diz Ara que o jornal da tarde ataca furiosamente Roosevelt, chamando-o de 'inimigo no 1 da paz do mundo', e dizendo que ele deveria ser fuzilado".

Segundo a pesquisadora carioca Ana Luiza Martins Costa, além do diário de Hamburgo, pelo menos três outros conjuntos de anotações de Guimarães Rosa continuam no fundo das gavetas. Um deles é o diário que o escritor manteve em Paris, na passagem dos anos 40 para os 50, quando serviu na embaixada brasileira. "Nos escritos de Paris, ele fala sobre a ansiedade de escrever, sobre a questão da onisciência, sobre a necessidade de fixar coisas no papel", conta a pesquisadora. "Dizem que a família não gosta de publicar revelações pessoais, mas não há nada disso nos escritos parisienses."

Existem, também, anotações das viagens de Rosa pela Europa, arquivadas nos quatro armários do Arquivo Guimarães Rosa do IEB. A filha Vilma diz que Florença era uma das cidades prediletas do escritor. Ana Luiza acredita que a difusão das anotações que Rosa fez lá, na Toscana, seria fundamental para "explodir o estigma do sertão" que marcaria a obra do autor. Ela chama a atenção, por fim, para a troca de cartas do escritor com o pai, Florduardo Pinto Rosa. Dono de um armazém em Cordisburgo, ele recebia cartas constantes do filho, que lhe indagava sobre histórias reais do sertão. Parte da correspondência entre o pai e o filho foi publicada nas memórias de Vilma, Relembramentos.

O acesso às cartas trocadas por Rosa com seus tradutores para o francês, o inglês e o espanhol é igualmente difícil. Em alguns casos, o material está até preparado para publicação, como a correspondência com Harriet de Onis, uma das tradutoras da primeira edição de Grande Sertão em inglês. Para seu trabalho de mestrado, apresentado na Universidade Estadual Paulista em 1994, a pesquisadora Iná Rodrigues Verlangieri, hoje afastada da vida acadêmica, organizou toda a correspondência de Rosa com a tradutora americana, que também assinaria a versão de Sagarana. A professora tentou publicá-la durante algum tempo, mas não obteve nem resposta dos detentores dos direitos. Acabou desistindo.

Organizadora da correspondência de Guimarães Rosa com o tradutor alemão, Curt Meyer-Clason, outra pesquisadora, Maria Apparecida Faria Marcondes Bussolotti, também demonstra desânimo. Mesmo com a ajuda de Meyer-Clason, Cida, como costumam chamá-la, teve enormes dificuldades de conseguir a liberação das cartas. Ela iniciou o trabalho de organização em 1994, como tese de mestrado na usp. A dissertação foi apresentada em 1997, e ela teve de esperar seis anos até ver o material publicado. "Quando procurei Eduardo Tess para obter a autorização, ele pediu que eu contasse quantas vezes apareceria o título do livro Grande Sertão. Seria cobrada uma taxa correspondente a cada vez que ele fosse mencionado", relembra.

"É uma dificuldade real, eu mesma acabei desistindo", afirma a curadora do Arquivo Guimarães Rosa no Instituto de Estudos Brasileiros, Sandra Guardini Teixeira Vasconcelos, professora de literatura da usp. "Quando fui publicar em livro a minha tese de doutorado, resultado de anos de pesquisa no arquivo, tentei conseguir autorização da família para fazer um facsímile de alguns documentos da obra de Guimarães Rosa. Só consegui de uma parte da família, não do restante. No final, o livro saiu sem isso", conta a professora. "Não há a menor dúvida de que a postura da família atrapalha."

Pesquisadora de Rosa desde os anos 70, Sandra Vasconcelos diz que só tomou conhecimento recentemente do diário de Hamburgo. Ela acredita que os embaraços provocados pelos herdeiros explicam a inexistência de uma boa biografia de Guimarães Rosa. "Pensei em fazer uma e desisti", diz. "É tanta confusão para conseguir autorizações que as pessoas acabam mudando de idéia." Vilma Guimarães Rosa reconhece que a idéia é exatamente esta: dificultar a vida dos pesquisadores. "Não existem biografias dele e não damos licença para ninguém", diz ela. "Muita gente quer fazer sensacionalismo, quer ganhar dinheiro à custa de gente famosa", afirma a primogênita do escritor. "Quem quiser saber de meu pai que leia o meu livro e está muito bom."

Dono do maior acervo privado de literatura brasileira, o empresário e bibliófilo José Mindlin, de 92 anos, passou a vida se digladiando com herdeiros. "Muitos deveriam colocar no cartão de visitas, onde consta profissão, a palavra herdeiro. Sem ter trabalho nenhum, se beneficiam do trabalho do antepassado", afirma. Uma das principais estudiosas de Rosa, a professora Walnice Nogueira Galvão, da usp, tem a mesma opinião: "Para o artista, é uma obra de arte; para o herdeiro, é mercadoria". Mindlin acredita que a única saída para "os abusos de herdeiros" é a diminuição do período de validade da lei de direitos autorais. Atualmente, a propriedade intelectual vale até o 1o de janeiro seguinte ao dos 70 anos da morte do autor.

Lucia Riff, agente literária que administra direitos autorais de escritores de renome, tanto no time dos vivos (Luis Fernando Veríssimo) como no dos mortos (Carlos Drummond de Andrade), acha que é excessiva a irritação de pesquisadores e editores com os herdeiros. "Existe a noção de que ser herdeiro é algo quase ilícito, mas isso não acontece com quem herda apartamentos ou fazendas." Lucia Riff reconhece que não é fácil lidar com o espólio de um grande escritor. O herdeiro, diz ela, tem de estar disposto a considerar uma infinidade de pedidos de todo tipo, e muitas vezes completamente esdrúxulos. Ela conta que, recentemente, um dos maiores bancos brasileiros procurou- a para comprar os direitos de reprodução de uma frase de Drummond em talões de cheque no país todo. "Sabe quanto eles ofereceram por isso?" Ela responde: "Mil reais. Alegaram que já estava escrito mesmo, que era uma homenagem".

Ainda que defenda a posição dos herdeiros, Lucia Riff conta uma história exemplar. No final dos anos 90, foi contratada para cuidar dos direitos autorais de um projeto da editora Objetiva, o volume Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, organizado por Ítalo Moriconi, crítico e professor de literatura. Ele selecionou três histórias de Guimarães Rosa, Às Margens da Alegria, A Terceira Margem do Rio e Desenredo. Para liberar os três textos, no entanto, os herdeiros pediram um valor equivalente ao que havia sido gasto com outros noventa escritores. Moriconi não teve como publicar os três contos e explicou os motivos na abertura do volume.

O diário de Hamburgo termina de forma abrupta. Em 28 de janeiro de 1942, o Brasil anuncia o rompimento de relações diplomáticas com os países do Eixo. Dois dias depois, Guimarães Rosa termina suas anotações. Com a mesma caligrafia que permitia um bom espaçamento entre cada uma das palavras anota apenas: "Viemos para Berlin". A jornada do jovem diplomata na Alemanha não terminaria ainda. Logo em seguida, ele seria confinado pelo governo alemão num hotel na cidade turística de Baden-Baden, ao sul do país, em companhia de colegas como Cyro de Freitas Vale, do artista Cícero Dias e de outros diplomatas sul-americanos. Foi liberado somente cem dias depois, em troca de diplomatas (acusados de espionagem) alemães que estavam presos no Brasil. No verão de 1943, quando Hamburgo sofreu um dos maiores bombardeios da Guerra, a chamada Operação Gomorra, Guimarães Rosa estava bem longe, em Bogotá, servindo como primeiro-secretário na embaixada brasileira.

A Alemanha ficara para trás, e Rosa pouco falaria desse período. Uma faceta bem pouco conhecida da temporada de Hamburgo, não registrada nos diários, viria à tona depois. O casal Rosa e Aracy, mais ela do que ele, agiu para salvar judeus da perseguição nazista durante a estadia em Hamburgo. Aracy, funcionária da área dos passaportes, teria ajudado dezenas de judeus a escaparem para o Brasil. O feito foi reconhecido pelo governo israelense, e Aracy foi homenageada pela fundação Yad Vashen. O sobrenome Guimarães Rosa está afixado no memorial do holocausto da instituição, em Jerusalém.


21 de junho de 2015
Cassiano Elek Machado