segunda-feira, 20 de julho de 2015

AINDA ESTRANGEIRO



                                                   CARTA DA ARGÉLIA


Aprimeira vez que ouvi falar do escritor Kamel Daoud foi há poucos anos, quando uma amiga argelina o recomendou: para entender como o país havia mudado, era preciso lê-lo. “Se a Argélia é capaz de produzir um Kamel Daoud”, disse, “então ainda tenho esperança.” Ao ler as colunas dele em Le Quotidien d’Oran, um jornal em língua francesa, entendi o que ela quis dizer.
Dono de um estilo original e mordaz, Daoud foi acusado de racismo e até de odiar a si próprio. Depois do 11 de Setembro, por exemplo, escreveu que os árabes vinham “se destruindo” fazia séculos e que, enquanto fossem mais famosos por sequestrar aviões do que por fabricá-los, continuariam a se destruir. O comentário me pareceu uma provocação meio falastrona de um sujeito inteligente, mas que se deixara levar por suas metáforas.
Quanto mais eu lia Daoud, tanto mais o sentia compelido não pelo ódio a si próprio, e sim por um amor frustrado. Ali estava um jornalista de 40 e poucos anos, um homem da minha idade, que acreditava que as pessoas, tanto na Argélia como em todo o mundo muçulmano, mereciam coisa melhor que um governo militar ou o islamismo – o cardápio de apenas duas opções que lhes era oferecido desde o fim do colonialismo –, e que dizia isso com brio e veemência. Nada, porém, me preparou para a leitura de seu primeiro romance, Meursault: Contre-Enquête.
O romance, arrebatador, reconta O Estrangeiro, de Camus – lançado em 1942 –, e o faz do ponto de vista do irmão do árabe assassinado por Meursault, o anti-herói que é o narrador do romance original. A obra de Daoud, publicada na Argélia em 2013, não apenas dá nova vida ao clássico que o precede, como também expressa uma crítica vigorosa à Argélia pós-colonial – um país que Camus, um francês pobre nascido na Argélia, não viveu para ver.
Nos textos de Daoud, seja nos jornalísticos, seja nos literários, salta aos olhos o destemor com que ele defende as liberdades individuais – um destemor que me pareceu chegar às raias da irresponsabilidade num país em que são intensas as paixões coletivas despertadas pelo nacionalismo e pela religião. Fiquei me perguntando se sua experiência podia fornecer alguma pista da situação em que se encontra a liberdade intelectual na Argélia, um híbrido de democracia eleitoral e Estado policial. No fim do ano passado, tive uma resposta. Daoud já não era apenas um escritor: era um nome em relação ao qual se devia tomar uma posição, tanto na Argélia como na França.

Sua provação começou em 13 de dezembro, durante uma turnê de divulgação de Meursaultna França, onde foi recebido com resenhas entusiasmadas, vendeu mais de 100 mil exemplares e por dois votos não ganhou o Goncourt, o mais prestigioso prêmio literário francês.[1] Tarde da noite, ele estava na tevê, no popular programa de entrevistas On N’est Pas Couché~(Não Estamos Dormindo), e sentiu – ele me contou depois – “como se o peso de toda a Argélia estivesse sobre meus ombros”.
Daoud insistiu com a jornalista franco-libanesa Léa Salamé, uma das integrantes da bancada do programa, que se considerava argelino, e não árabe – uma postura nada incomum na Argélia, mas que sofre oposição dos nacionalistas árabes. Acrescentou que falava “argeliano”, e não o árabe. Disse que preferia encontrar Deus a pé, por conta própria, em vez de integrar uma “excursão organizada” a uma mesquita, e que a ortodoxia religiosa havia se tornado um obstáculo ao progresso no mundo muçulmano.
Na tevê, ele não disse nada que já não tivesse escrito em suas colunas ou no romance. Mas o fato de ter dito aquilo na França, país que governou a Argélia de 1830 a 1962, chamou a atenção de argelinos que tendem a ignorar a imprensa em língua francesa.
Um deles foi o obscuro imã Abdelfattah Hamadache, do qual se dizia ter sido informante dos serviços de segurança. Três dias depois do programa, Hamadache escreveu em sua página no Facebook que Daoud – um “apóstata” e “criminoso sionizado” – deveria ser julgado e executado em público pelo insulto ao Islã. Não estava exatamente conclamando seu assassinato, uma vez que apelava ao Estado, e não a jihadistas freelancers.
Mas a Argélia é um país onde setenta jornalistas foram mortos por rebeldes islamistas durante a guerra civil dos anos 90, a chamada Década Negra. Muitos desses assassinatos foram precedidos de ameaças anônimas por cartas, panfletos ou pichações nas paredes de mesquitas. A “fatwa via Facebook” de Hamadache, como ficou conhecida, era novidade de uma ousadia única, porque assinada. Provocou um clamor, e não apenas entre liberais.
Ali Belhadj, líder da proibida Frente Islâmica de Salvação (FIS), criticou duramente o imã, afirmando que ele não tinha autoridade para declarar Daoud um apóstata e que somente Deus tinha o direito de decidir quem era ou não muçulmano – um indício, disseram alguns, que a fis enxergava em Hamadache um instrumento do Estado. De fato, embora o ministro dos Assuntos Religiosos, Mohamed Aïssa, homem de modos amenos e inclinações sufistas, tivesse saído em defesa do escritor, o restante do governo manteve uma neutralidade inexplicável, recusando-se a reagir quando Daoud deu queixa de Hamadache por incitamento à violência.
Tal reação governista revela mais do que esperteza política. A principal lição que o Estado argelino aprendeu em sua guerra de uma década contra insurgentes islamistas foi que não havia como derrotar o islamismo no campo de batalha: em vez de esmagá-lo, era preciso cooptá-lo. Na verdade, a Argélia está uma década à frente de outros países em que, depois das revoltas árabes, as elites seculares batalham pela formatação de novos governos contra movimentos islamistas poderosos. Hoje próspero, o país tem uma confiança crescente de que seu modelo de compartilhamento de poder pode e deve ser exportado para vizinhos como Líbia e Tunísia. O caso Daoud, no entanto, está pondo à prova esse modelo.

Voei para Oran, a segunda maior cidade da Argélia, em 15 de janeiro, justo quando a guerra em torno da blasfêmia havia chegado à França, com o ataque à redação do Charlie Hebdopor jihadistas franceses de ascendência argelina. Em Oran, os apoiadores de Daoud diziam: “Somos todos Kamel Daoud”; em Paris, milhões de pessoas declaravam “Je suis Charlie”. Eu me perguntava como os acontecimentos na França afetariam a situação de Daoud. Na escala em Orly, abri o Le Monde e topei com uma entrevista do escritor sobre o Charlie, dizendo que temia novos “11 de Setembro em escala reduzida”.
Ser um escritor argelino é ser um estudioso da violência política. A Argélia conseguiu sua independência da França em 1962, depois de uma das mais longas e sangrentas lutas pela descolonização a que o mundo já assistiu. Seu sistema político, que as pessoas chamam simplesmente de pouvoir (poder), segue sob forte influência dos mujahedin, os “guerreiros sagrados” da Frente de Libertação Nacional (FLN) que lutaram contra a metrópole.
O atual presidente argelino, Abdelaziz Bouteflika, ingressou no Exército de Libertação Nacional em 1956. Hoje está em seu quarto mandato. Aos 78 anos, por causa de um derrame, ele despacha de uma cadeira de rodas equipada com microfone, já que sua voz está muito fraca. Morando, segundo se diz, numa villa nas proximidades de Argel, só consegue trabalhar poucas horas por dia. Quando, em novembro, ele foi hospitalizado na França, Daoud escreveu: “Até mesmo a questão do que vem depois se tornou secundária. Se já não há vida antes da morte, por que se preocupar com a vida após a morte?”
Bouteflika não é o único figurão do pouvoir cuja data de validade está prestes a expirar. Os chefes do Exército e do serviço de inteligência também estão a meio caminho dos 80. A Argélia está diante de uma potencial crise de sucessão tripla, e num momento em que os preços do petróleo estão caindo. Uma queda brusca poderia empurrar o país em direção a uma “ruptura violenta”, afirma Daoud.
Ninguém sabe se o pouvoir tem um plano de transição para a era pós-Bouteflika, suas maquinações são bastante obscuras. E o são deliberadamente. Corre que, quando o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy perguntou a um ministro argelino por que seu governo era tão pouco transparente, ele teria respondido: “Porque essa é a nossa força.” O segredo é um dos muitos códigos gerados pela guerra pela independência. Necessário numa revolta anticolonial que lutava contra um dos exércitos mais poderosos do mundo, mesmo depois da independência o sigilo continuou sendo o modus operandi do pouvoir argelino.
A Argélia é governada como se a guerra jamais tivesse terminado. Cada nova crise – revoltas por comida, guerra civil, protestos berberes, a Primavera Árabe – contribuiu para justificar um estado de beligerância permanente, assim como todo momento crítico serviu para postergar a questão sobre “o que vai acontecer depois da libertação”. Nas palavras de Daoud: “A meta é comida e moradia para todos? Por que não incluir a felicidade?” É a pergunta de um jovem, mas a Argélia não é governada por jovens desde os primórdios da década de 60.
Hoje, os décideurs – os homens que efetivamente tomam as decisões, e não os políticos que brigam numa Assembleia Nacional pluralista mas impotente – baseiam sua legitimidade em dois fatores: emanciparam o país do domínio francês e derrotaram uma onda de terrorismo islâmico na década de 90. Na opinião de Daoud, nenhum desses feitos é suficiente. A Argélia só será livre de fato quando “se libertar de seus libertadores”. Não basta derrubar o
governo, para Daoud a grande ilusão da Primavera Árabe. A sociedade é que precisa mudar, caso a Argélia pretenda se ver livre do autoritarismo e da devoção islâmica.
As palavras de Kamel Daoud têm atraído leitores eminentes: membros do pouvoir lhe telefonam com frequência, o primeiro-ministro francês Manuel Valls recentemente ligou para dizer o quanto havia admirado Meursault. “Os homens do poder são fascinados por pessoas como eu”, diz ele. “Não disponho de um Estado nem de um Exército. Sou apenas um sujeito que tem um apartamento e um carro. Mas sou livre, e eles querem saber: Como assim?”

Cheguei à Argélia em 16 de janeiro, uma sexta-feira em que, após as preces, milhares de pessoas – Hamadache inclusive – marchavam rumo à Place de la Grande Poste, no Centro de Argel, desafiando a proibição imposta a manifestações na capital. O “Protesto em defesa do profeta Maomé” havia sido convocado em repúdio à caricatura de Maomé que a capa do Charlie Hebdo estampara após o massacre de Paris. Aïssa, o ministro dos Assuntos Religiosos, se opusera à mobilização, mas pregadores radicais não tiveram dificuldade em inflamar o ódio.
“Je suis Muhammad” era um dos slogans mais comuns – uma frase curiosa para condenar a blasfêmia, já que alguns muçulmanos consideram um insulto grave alguém se anunciar como o Profeta. (O slogan havia sido proposto e divulgado pelo tabloide argelino Echorouk, publicado em língua árabe, uma plataforma para diatribes contra Daoud; depois, modificaram-no para “Je suis avec Muhammad” – Estou com Maomé.) Jovens agitavam a bandeira preta do Estado Islâmico e declaravam mártires os assassinos mortos na França. Como muitas manifestações na Argélia, essa também acabou em tumulto, com vitrines quebradas em nome do Profeta. Por sua atuação nos acontecimentos, Hamadache foi preso no bairro de Belcourt, berço de Camus, mas liberado logo em seguida.
Os protestos em Oran, onde o sentimento anti-islamista é intenso, foram bem mais discretos do que em Argel, mas veementes o bastante para travar o trânsito. Robert Parks, um acadêmico norte-americano muito próximo de Daoud, foi me pegar no aeroporto para me levar até o hotel.
Parks, que dirige um centro de pesquisa em Oran desde 2006, já me dissera que a Argélia vinha aos poucos, mas de forma segura, recuperando a própria confiança. Os argelinos estariam satisfeitos por terem evitado o tumulto das revoltas árabes e, graças a isso, haviam se permitido fazer uma avaliação mais sóbria, ponderada e favorável de sua própria situação. Quando um grupo de manifestantes marchou em nossa direção, porém, ele enveredou por uma rua secundária, temendo que nos confundissem com franceses.
A ousadia com que os islamistas tomaram as ruas era um lembrete do acordo que Bouteflika fizera com eles pouco depois de chegar ao poder, em 1999. Seu “projeto de reconciliação” ofereceu anistia àqueles que haviam lutado na guerra civil de 1992–2002, sob a condição de que depusessem as armas. O pouvoir nunca negociou com o braço político da FIS: questões com os rebeldes armados deveriam ser resolvidas a portas fechadas. Membros das forças de segurança responsáveis por mortes e desaparecimentos extrajudiciais jamais foram julgados. Combatentes islamistas se saíram ainda melhor: deixaram o maqui, a resistência nas montanhas, e retornaram à mesquita. Diz-se que muitos receberam empregos e casa própria.
O paradoxo da guerra civil recente é que, embora os islamistas não tenham conseguido derrubar o governo, o projeto de reconciliação de Bouteflika lhes permitiu ocupar mais espaço. Na prática, agora são uma ala do pouvoir, que não apenas os tolera como também admite que participem da Assembleia Nacional. E, para os generais (os décideurs mais influentes), essa presença possui o atrativo adicional de servir como advertência a outros argelinos – e aos aliados da Argélia em Washington e Paris – sobre o que pode acontecer se o Exército e os serviços de segurança afrouxarem as rédeas.

Não resta dúvida de que a Argélia fez grandes progressos desde a Década Negra. Bouteflika sofreu o derrame em 2013, e hoje mal aparece em público. Mesmo assim permanece relativamente popular, ainda que por falta de alternativa, e credita-se a ele a reconstrução do país depois da guerra civil. Fui trabalhar como correspondente do New York Review of Books na Argélia em 2003, um ano após o término oficial da guerra: era um país nervoso e traumatizado, o povo continuava com medo de carros-bomba e de postos de controle falsos, montados pelos rebeldes.
Embora radicais jihadistas sigam atuando no leste e no sul, hoje é um território em grande medida seguro, não apenas nas cidades, mas também nas estradas. A nova rodovia leste–oeste, construída com mão de obra chinesa, reduziu pela metade as dez horas outrora dispendidas entre Argel e Oran. A economia permanece fortemente dependente do gás natural e do petróleo (mais de 90% das exportações), mas as reservas hoje totalizam quase 200 bilhões em moeda estrangeira.
A Argélia conquistou a admiração das potências ocidentais, sobretudo dos Estados Unidos, por sua atuação no contraterrorismo regional, pela expertise e eficiência dos serviços de inteligência, além de seus hábeis esforços diplomáticos na Tunísia, na Líbia e no Mali. Nas palavras do ministro das Relações Exteriores, Ramtane Lamamra, o país é hoje “um exportador de segurança e estabilidade”.
O pouvoir tem sido astuto na manutenção dessa estabilidade. Protestos antigovernamentais ocorridos no início de 2011, depois de Mohamed Bouazizi se autoimolar na Tunísia, foram rapidamente contidos pelos meios habituais: milhares de soldados espalhados pelas ruas da capital, cortes nos preços do açúcar, da farinha e da gasolina, e oferta de dinheiro vivo aos jovens desejosos (ou que assim se declararam) de iniciar um negócio próprio. “A Primavera Árabe é um mosquito para o qual fechamos a porta”, gabou-se num discurso o primeiro-ministro Abdelmalek Sellal, acrescentando uma referência a uma marca de inseticida: “Se algum dia ele tentar entrar, vamos combatê-lo com Fly-Tox.”

Opouvoir não é secular nem islamista: ele segue uma política de indecisão deliberada e tanto tolera radicais como Hamadache como faz vista grossa àquilo que Parks me descreveu como um “experimento frágil” de abertura cultural. O melhor lugar para se observar esse experimento é Oran, berço do raï, um pop argelino que mistura música árabe e espanhola a disco music e hip-hop.
Na minha primeira noite, algumas horas depois das manifestações anti-Charlie, saí com Parks e a poeta Amina Mekahli, outra grande amiga de Daoud. Fã de Philip Roth, ela citou de memória passagens de A Marca Humana – o romance de Roth sobre Coleman Silk, um professor universitário negro que se passa por branco –, que falaria diretamente à angústia da vida dupla argelina.
As casas noturnas em Oran são, por definição, clandestinas, mas com lábia conseguimos entrar. Um garçom nos trouxe uma garrafa de Johnnie Walker Red Label e uma travessa de frutas frescas. A maioria dos clientes, argelina, tinha entre 20 e 30 anos. Para onde quer que se olhasse, viam-se calças de oncinha, minissaias, bolsas Louis Vuitton e batom.
Amina Mekahli me apresentou a um amigo, a quem chamou Gigi, o “famoso homossexual”. Ela explicou que aquele homem doce e andrógino, de 40 e poucos anos, postava-se às portas dos banheiros e fazia as vezes de correio amoroso: se um rapaz gostasse de uma garota, ele dizia a Gigi; quando a garota saísse do banheiro, ela seria informada do interesse do tal rapaz. “O legal”, disse minha amiga, “é que Gigi vem de um bairro operário e é aceito, embora ninguém mencione a palavra gay.” Não achei tão legal quanto ela, mas aí me lembrei do comentário de Camus, segundo o qual Oran é uma cidade em que “aprendemos as virtudes – temporárias, é claro – de um certo tédio”.
Oran decerto não é mais a mesma de Camus. Sob a dominação francesa, era uma cidade. Depois da independência, os europeus debandaram em massa e suas casas foram ocupadas por migrantes das aldeias vizinhas. Outros encontraram acomodação, péssima mas gratuita, nos conjuntos habitacionais que o Estado construiu ao estilo daqueles dos países da Cortina de Ferro. A linha do horizonte ficou mais vertical em anos recentes: os hotéis Sheraton e Méridien parecem importados de Dubai.
Ainda assim, a cidade preservou seu caráter lânguido, mediterrâneo. Nos pequenos cafés, as pessoas se distraem com xícaras de café preto ou chá de hortelã; à beira-mar, os restaurantes oferecem peixe grelhado, paella e uma paisagem de tirar o fôlego; barracas vendem calentita, uma baguete recheada com pasta de grão-de-bico, trazida pelos espanhóis. Na rua, as mulheres em geral vestem o hijab. Tarde da noite, porém, em casas como a que visitamos, jovens dançam, bebem e, como escreveu Camus em 1939, “se encontram, se olham e se medem, felizes por estarem vivos e causarem boa impressão”.
À meia-noite, ao chegarmos, o público parecia meio morno, mas às duas da manhã, quando Cheba Dalila – uma cantora de raï com uma voz profunda como a de Nina Simone – subiu ao palco, a pista de dança ferveu. Dalila ia de mesa em mesa, coletando o dinheiro de quem paga para ter o nome mencionado nas canções. O som do baixo era tão alto que eu podia senti-lo na barriga.
Uma mulher num jeans apertado vestia uma camiseta que dizia “Detroit, 1983”; homens dançavam com mulheres, os pares claramente interessados apenas um no outro. Tirei uma foto, mas o filho de Mekahli me advertiu: “É a máfia quem toca isto aqui.” A “máfia” ganha dinheiro com bebida clandestina e prostitutas. Ao que parecia, algumas das moças eram profissionais. “Para mim”, disse a poeta, “clubes como este são uma forma de nos reapropriarmos da identidade argelina. Aqui, a França não existe. Estas pessoas estão completamente descolonizadas.”

Aprimeira vez que visitei Daoud em seu apartamento, num condomínio fechado nos arredores de Oran, ele estava de pijama e, entre outras coisas, assistia tevê com o filho de 12 anos. Com os olhos na tela do computador, me contava as novidades da sua vida, digitava e-mails, espiava o Facebook e atendia ao telefone. Achei que não conseguiríamos conversar, e ele então propôs que eu me hospedasse em sua casa.
Dois dias depois, ao sair do hotel, desencadeei um pequeno incidente diplomático. O recepcionista foi falar com Daoud, que me esperava em seu carro. Se eu fosse embora, disse o empregado, nervoso, não haveria como saber do paradeiro do étranger – o estrangeiro, eu. O funcionário não podia se dar ao luxo de deixar escapar outro Hervé Gourdel – o turista francês Gourdel havia sido sequestrado e decapitado por islamistas radicais em setembro, nas montanhas de Cabília.
Meu anfitrião brincou que talvez fosse o caso de ele notificar a polícia por hospedar um americano. Isso sem dúvida acabaria por lhe render outros dissabores, mais uma prova de que se vendera às forças do imperialismo. Ele sabia como pensavam seus críticos, em parte porque já havia pensado como eles. É um ex-islamista munido do arrebatamento de um desertor. Passados dois anos de seu casamento, contou, sua ex-mulher foi se tornando cada vez mais religiosa e começou a usar o hijab. Divorciaram-se em 2008, depois do nascimento da filha.
O grande tema dos escritos de Daoud é a condição argelina. Ser argelino é ser “esquizofrênico”, dividir-se entre a fé religiosa e o individualismo liberal. Os estabelecimentos que vendem bebida alcoólica em Oran são legais, mas atuam como se fossem clandestinos; se as mulheres entrarem num café para homens, elas serão vistas como pouco mais que prostitutas, ainda que seja crescente a aceitação do sexo fora do casamento. Os argelinos estão ficando modernos, mas meio que escondido, como se mal o admitissem para si mesmos. Embora a hipocrisia possa configurar um passo rumo a uma sociedade civil mais tolerante, Daoud se irrita com isso. “Os islamistas pelo menos fizeram uma escolha”, diz.
A campanha de Kamel Daoud contra o islamismo angariou-lhe fãs ardorosos, sobretudo entre argelinos liberais francófonos, que a despeito de compartilharem das bandeiras que ele levanta são muito tímidos para expressá-las em público. Contudo, ele também é amplamente criticado, não só por islamistas, mas por nacionalistas e esquerdistas que o veem como um elemento hostil à sociedade.
Às vezes, Daoud dá a impressão de estar sendo muito provocador, como se quisesse comprar briga. Durante a recente guerra em Gaza, publicou uma coluna intitulada “Por que não me ‘solidarizo’ com a Palestina”. Tampouco se solidarizava com Israel: incomodava-o a lógica de que, por ser muçulmano, ele tinha de se solidarizar com a Palestina. Opunha-se às bombas lançadas por Israel não por motivos religiosos ou étnicos, mas por razões anticoloniais e humanitárias. O subtexto da coluna era, claro, a Argélia. O clamor por solidariedade à Palestina o desagradava não pela causa em si, mas pela pressão por unidade – mais uma vez, sob a bandeira da identidade árabe e islâmica.

Apressão coerciva pela unidade sempre foi característica do nacionalismo argelino. Durante a luta pela independência, os líderes da FLN, muitos deles berberes, reprimiram uma política de identidade berbere em nome da unidade nacional contra a França. Desde então, segundo Daoud, os argelinos têm sido ensinados a se ver como pertencentes unicamente ao mundo árabe e islâmico e a negar o que aprenderam com a história e a experiência: que, na verdade, a maior parte deles é de ascendência berbere, e não árabe; que uma considerável minoria ainda fala ou berbere (apenas recentemente reconhecida como língua nacional) ou francês (que se tornou “língua estrangeira” após a independência); e que mesmo o árabe que boa parte dos argelinos fala em casa é um arremedo recheado de empréstimos de outras línguas. (Daí a insistência de Daoud em chamá-lo de “argeliano”.)
Longe de representar uma alternativa à ideologia da unidade árabe-islâmica, os islamistas argelinos pregam uma versão mais religiosa desse pensamento. Disso resultaria uma Argélia “sitiada entre o céu e a terra”. Segundo Daoud, “a terra pertence aos libertadores”, ao passo que “o céu foi colonizado por pessoas religiosas que se apropriaram dele em nome de Alá”. Os argelinos “foram persuadidos de que são impotentes. Não conseguem levantar um muro sem a ajuda dos chineses”.
Essa sensação de impotência encontra expressão física na infraestrutura decrépita do país. “As ruas de Oran estão condenadas à poeira, às pedras e ao calor”, Camus escreveu num ensaio de 1954. “Quando chove, é um dilúvio e um mar de lama.” Salvo nas principais artérias, a situação hoje não é muito diferente. Numa noite de chuva, íamos de carro a um jantar num bairro burguês retirado de Oran. As ruas eram um lamaçal e quase atolamos. “É o fim da picada!”, explodiu o escritor.
Obcecado por limpeza, Daoud considera a tolerância do país à sujeira um sintoma político, ou mesmo espiritual. Sob a dominação francesa, os argelinos foram privados à força de sua terra. Tudo o que possuíam era o espaço interior, doméstico, e assim o espaço público era algo que não lhes dizia respeito: propriedade francesa, não constituía um problema deles. E, depois da independência, passou a ser uma questão do Estado. A religião apenas reforçou a noção de que as mazelas cotidianas estavam nas mãos de uma autoridade superior. “Nossos problemas ecológicos também são metafísicos”, disse. “Quem está esperando pelo fim do mundo não vai se preocupar com o presente.”
O islamismo floresceria sobre esse mal-estar mais profundo. A mesma sensação de ineficácia e tédio impele alguns à fuga, com o risco de morrer no mar. O irmão caçula de Daoud é um dos milhares de jovens argelinos – os chamados harraga – que fugiram para a Europa de barco. Um navio britânico o resgatou, e agora ele mora, sem documentos, no Reino Unido.

Hoje Daoud não é mais um muçulmano praticante e se diz filosoficamente próximo do budismo. Perguntei-lhe se ainda admirava alguma coisa no islamismo. “Acho notável a primazia da justiça, mais que da fé”, respondeu. “Também gosto da ausência de intermediários entre o indivíduo e Deus. O único papel do imã é conduzir as orações. Na relação direta entre Deus e o crente, o Islã é bastante liberal.”
Daoud poderia estar descrevendo o Islã que conheceu quando criança, em Mesra, uma aldeia no noroeste da Argélia. Os Daoud, conta, “tinham certeza de sua fé e, por isso, não precisavam defendê-la, ao contrário dos islamistas de hoje, incrivelmente frágeis”. O mesmo se podia dizer do vínculo de seus familiares com a terra: eram patriotas que viveram a guerra pela independência, mas que não sentiam necessidade de negar “as complexidades da vida sob o colonialismo”.
Na escola, ele aprendeu “uma história única”, uma narrativa inequívoca sobre mujahedininfalíveis lutando contra colonos franceses. Em casa, no entanto, os avós lhe contavam de franceses empobrecidos que conheceram em Mesra; do padre católico que sustentou a família deles em tempos de escassez; dos soldados franceses que preferiram desertar a torturar e matar. Mais tarde, ficaria sabendo que o primeiro grande amor de seu pai não havia sido sua mãe, e sim uma francesa com quem ele se envolvera durante a guerra.
O mais velho de seis filhos, Kamel Daoud nasceu em 1970, quando muitos viam a Argélia como um sucesso pós-colonial. O presidente, coronel Houari Boumédiène, enigmático e taciturno, era um dominador autoritário que transformou o país numa força regional, líder do movimento dos não alinhados. Sob o governo de Boumédiène, que tomou o poder num golpe militar três anos após a independência, o Exército se transformou na instituição dominante.
Mohamed, o pai de Daoud, era gendarme. Apesar da pobreza, conseguiu, como “membro de uma geração ascendente”, se casar com uma mulher de família próspera, proprietária de terras nas cercanias de Mesra. Ele, que estudou em escolas francesas, era o único membro da família que sabia ler. Ensinou o alfabeto ao filho e compartilhou com ele sua estante de livros em francês. Na biblioteca em Mostaganem, cidade portuária onde frequentou a escola, Kamel Daoud leu Júlio Verne, a ficção científica Duna e obras de mitologia grega. Mas o livro que mais o encantou foi O Renascimento das Ciências Religiosas, de Abu Hamid al-Ghazali, teólogo persa do século XI, que após uma crise religiosa tentou purificar a alma pela via da experiência mística.
Daoud disse que, ao descobrir Al-Ghazali, aos 13 anos, “o Corão já não me bastava: era apenas a face visível de um texto oculto”. Com o intuito de decifrar aquele texto oculto e mais sagrado, Daoud se tornou cada vez mais ascético. Quando leu que o silêncio abria o coração para Deus, passou a andar com uma pedra na boca, para que ela o impedisse de falar. Queria ser escritor, mas também queria se tornar um imã. “Era uma contradição, mas eu não a sentia como tal”, ele disse. “Quando você ora, constrói um sentido, da mesma forma que quando escreve. Deus é seu único leitor, mas, em essência, é a mesma coisa.”

De início, o Corão venceu. Para um adolescente ambicioso do começo dos anos 80, a religião era uma carreira mais promissora que a literatura. Chadli Bendjedid – o presidente que subiu ao poder em 1979, dois meses após a morte de Boumédiène – recuou do projeto de reforma agrária socialista de seu predecessor e começou a abrir a economia. As lojas se encheram de produtos de consumo ocidentais, mas a “desboumedienização” deixou um vácuo ideológico. Bendjedid preencheu-o com o Islã e a identidade árabe. Não só reprimiu a “Primavera Berbere” de 1980 – um movimento não violento que pretendia o reconhecimento da cultura e da língua berbere –, como intensificou a arabização da educação e promoveu a edificação de inúmeras mesquitas.
Encorajado por essas mudanças, o movimento islamista, antes sob o controle rígido de Boumédiène, pôs-se a treinar uma geração de rapazes. Daoud, um jovem místico islâmico que vestia jelaba e turbante, foi recrutado por seu professor de geografia, membro de uma célula islamista. O professor lhe apresentou os escritos dos fundadores do moderno islamismo sunita e o convenceu de que a salvação individual que ele buscava só seria alcançada por intermédio da salvação coletiva, sob a forma de um Estado islâmico.
Daoud cultivou a barba, distribuiu panfletos e se tornou o imã de seu colégio. Num acampamento islamista de férias, “vivíamos como se fôssemos companheiros do Profeta”. Era em acampamentos e agremiações esportivas que se doutrinavam jovens militantes do nascente movimento islâmico argelino, e Daoud parecia a caminho de se tornar um líder. Ao completar 18 anos, porém, largou o movimento. “Tinha o direito de viver e me rebelar”, contou. “E estava cansado. Num determinado momento, já não sentia coisa nenhuma. Não sei se é isso que significa perder a fé. Mas para uma pessoa religiosa o perigo não é a tentação: é o cansaço.”
Em 5 de outubro de 1988, três meses após Daoud romper com o islamismo, a Argélia experimentou a primeira de uma série de violentas manifestações antigovernistas. Armado de uma corrente e com a esperança de “quebrar coisas”, ele foi para Mostaganem. Quando chegou, os militares haviam começado a atirar nas pessoas. Um velho tentou usá-lo como escudo humano. Foi salvo por uma mulher que o tomou pelo braço e, fingindo ser sua mãe, o conduziu a um lugar seguro.
“Aquela geração de homens capazes de se escorar atrás de um jovem me tirou do sério”, disse. “Vi naquilo o indício de algo muito significativo.” Várias centenas de argelinos morreram no Outubro Negro. No ano seguinte, uma nova Constituição foi adotada, legalizando outros partidos além da Frente de Libertação Nacional e pondo fim ao Estado de partido único. A Frente Islâmica de Salvação emergiu como a mais poderosa oposição do país.
Em janeiro de 1992, para impedir que a FIS conquistasse o poder, o Exército cancelou o segundo turno das eleições nacionais. Privados da vitória nas urnas, os islamistas pegaram em armas e uma guerra civil brutal eclodiu. Daoud, estudante de francês na Universidade de Oran, se opôs ao cancelamento das eleições. “Mas eu estava pouco me lixando. Era um individualista. Odiava todo mundo. Observei os acontecimentos de longe e pensei: os caras vão se devorar uns aos outros.”
Ele havia optado por uma forma bem mais pessoal de revolta, movida a literatura, música e cerveja – seu primeiro gole de vinho (bebida que o Corão proíbe expressamente) só ocorreu depois dos 30 anos. Leu Baudelaire, Borges e o poeta sírio Adonis, e começou a escrever poesia e ficção.

Quando terminou a faculdade, Daoud foi trabalhar como repórter policial no tabloide mensalDetective. (“O que fez de The Wire uma série fantástica”, ele disse, “é que foi uma colaboração entre um escritor e um policial, os vira-latas do mundo.”) Viajando para cidades pequenas e remotas, escrevendo sobre julgamentos de assassinatos e crimes sexuais, Daoud se deparou com “a Argélia real”. Em 1996 o Detective acabou e ele foi contratado pelo Le Quotidien d’Oran.
Enquanto outros jornalistas reclamavam do perigo ao enfrentar rebeldes islamistas, Daoud foi entrevistar os insurgentes. Relatou alguns dos piores massacres da guerra civil, incluindo a matança de 1998 na aldeia de Had Chekala, onde mais de 800 pessoas foram assassinadas. A atuação como repórter ensinou-o a suspeitar de “posições acirradas e análises grandiosas”, e essa sensibilidade inspirou a coluna que começou a assinar.
Daoud não representava ideologia nenhuma e não falava em nome de ninguém. Para seus novos admiradores, era algo digno de comemoração: enfim, um espírito livre genuinamente argelino. Para os adversários, ele se tornou o rosto de uma “geração do eu”: egoísta, vazio, não argelino.
Meursault: Contre-Enquête surgiu de uma de suas colunas. A premissa do romance é engenhosa:O Estrangeiro, de Camus – em que um árabe não nomeado é assassinado numa praia de Argel –, seria uma história real. E bem que poderia ter sido, do ponto de vista de muitos argelinos. Há tempos, críticos nacionalistas falam como se o assassinato ali descrito tivesse acontecido de fato, e como se Camus, cuja oposição à independência do país muitos escritores conterrâneos tiveram dificuldade em perdoar, o tivesse cometido. A inspirada ideia de Daoud foi dar o passo seguinte: atribuiu a autoria do romance de Camus (narrado em primeira pessoa) ao protagonista Meursault, o assassino fictício de O Estrangeiro. Assim como “o árabe” nunca é nomeado em O Estrangeiro, o nome de Camus jamais é mencionado em Meursault: Contre-Enquête.
O livro é um monólogo confessional ao estilo de A Queda, do mesmo Camus. No romance de Daoud, o argelino Harun se dirige, num bar em Oran, a um francês não identificado. Musa, irmão do narrador, fora morto em 1942 por um colono francês de nome Meursault, que ficaria famoso por descrever o assassinato em um romance intitulado O Outro. Já velho, Harun está disposto a dar ao irmão uma identidade e uma história, e a corrigir a versão dos acontecimentos registrada por Meursault. E é precisamente isso que ele faz na primeira metade do livro, acertando velhas diferenças que nacionalistas argelinos tinham com O Estrangeiro – e críticos pós-coloniais também. (Edward Said, por exemplo, zombou da “canhestra sensibilidade colonial” de Camus.)

Asegunda metade do romance, porém, mostra que essa crítica pouco tem a ver com a Argélia de hoje e nega ao leitor a satisfação fácil de uma justiça anticolonial. É a Argélia, e não Camus, que está em julgamento. Harun, percebemos, é também um estrangeiro num país dominado pelo fervor religioso. A mesquita da cidade lhe parece tão imponente que “impede que se veja Deus”; o sujeito recitando o Corão soa como se estivesse representando todos os papéis, de “torturador a vítima”. Homens perambulam de chinelos e pijamas amarfanhados, “como se a sexta-feira os isentasse das exigências da civilidade”. Sexta-feira “não é o dia em que Deus descansou: é o dia em que decidiu fugir e nunca mais voltar”.
Harun revela ser ele também um assassino. Sua vítima, escolhida ao acaso poucos dias depois da independência, é o francês Joseph Larquais – um roumi, ou estrangeiro. A própria mãe de Harun, desejosa de vingar o assassinato de seu filho Musa, é cúmplice e facilitadora do crime. As novas autoridades punem Harun não pelo crime em si, mas pelo momento em que foi cometido. Como ocorreu depois do 5 de julho de 1962, o dia da independência, o assassinato não foi um ato de libertação, e sim um estorvo para o regime.
À procura do irmão, Harun na verdade encontra seu próprio duplo: ele, Harun, é o irmão argelino de Meursault – como ele, um criminoso em circunstâncias igualmente absurdas, um estrangeiro numa terra dividida entre “Alá e o tédio”. Quando um imã o exorta a aceitar Deus antes que seja tarde demais, Harun rejeita o apelo com violência, quase com as mesmas palavras que o Meursault de Camus emprega em sua conversa com o padre que, antes da execução, lhe pede para aceitar Cristo. “Restava-me tão pouco tempo que eu não queria desperdiçá-lo com Deus”, diz. “Nenhuma de suas certezas valia um fio de cabelo da mulher que eu amava.” Essa é apenas uma de muitas frases surrupiadas de Camus. Meursault, menos que uma crítica a O Estrangeiro, é sua continuação pós-colonial.
“O Estrangeiro é um romance filosófico, mas só conseguimos lê-lo como um romance colonial”, disse Daoud, quando lhe perguntei o que o atraíra na ficção de Camus. “A questão mais profunda em Camus é religiosa: o que fazer com Deus, se Deus não existe? A cena mais poderosa em O Estrangeiro é o confronto entre o padre e o condenado. Meursault é indiferente às mulheres, ao juiz, mas se enfurece diante do padre. E, em meu romance, temos alguém que se revolta contra Deus. Para mim, Harun é um herói numa sociedade conservadora.”

Meursault: Contre-Enquête foi publicado pela Éditions Barzakh em 2013, vendeu muito e recebeu resenhas bastante elogiosas na Argélia. Foi somente no ano seguinte, quando foi lançado pela prestigiosa editora francesa Actes Sud, e, mais ainda, ao ser nomeado para o Goncourt em setembro de 2014, que o romance provocou controvérsia no país de origem. Meio século depois da independência, a vida intelectual argelina segue existindo sob a sombra da antiga ocupação. Para muitos intelectuais, era inconcebível que Daoud pudesse ser bem-sucedido na França sem a ajuda da onipresente main étrangère, a “mão estrangeira” invisível, mas invariavelmente sinistra.
Em certo sentido, a “mão estrangeira” é o próprio idioma francês, que muitos escritores argelinos preferem ao árabe, mas que para os jovens é hoje uma língua estrangeira que eles só aprendem se for falada em casa ou se decidem estudá-la. Numa sexta-feira de manhã, tive um encontro com a romancista Maïssa Bey, uma das mais importantes escritoras argelinas em língua francesa. Fui a sua casa, em Sidi Bel Abbès, uma cidade colonial estranha e decadente. Era o dia das orações, as ruas estavam desertas. Eucaliptos lançavam delicadas sombras nas paredes das casas, pintadas com vivas tonalidades de azul, rosa e amarelo.
Maïssa Bey nasceu em 1950. Seu pai, um professor primário nacionalista, foi torturado e morto pelo Exército francês quando a filha tinha 6 anos. Como Daoud, ela escreve sobre os traumas de identidade do país e o pluralismo reprimido pela retórica da unidade nacional. Também como Daoud, prestou sua homenagem a Camus como um compatriota. “Muitos argelinos não conseguem conceber que ao escrever em francês você não esteja escrevendo para a França”, ela disse. “É como se, para eles, a guerra nunca tivesse terminado.”
A persistência desse complexo de colonizado explicaria a aguçada noção de tabu entre escritores na Argélia de hoje. “Há assuntos que você simplesmente não pode abordar, o Islã acima de tudo. É sagrado e, mesmo que você não critique a religião em si, mas apenas o modo como ela é praticada – como fez Daoud –, suas palavras serão distorcidas e manipuladas pelo pouvoir. E, caso você questione o discurso oficial sobre Israel ou a relação da França com a Argélia, estará procurando encrenca.”
O ataque mais surpreendente contra Daoud não veio de um jihadista, mas sim de um companheiro na derrubada de tabus: o romancista Rachid Boudjedra, que, sob ameaça semelhante dos islamistas, fugiu do país quatro décadas atrás. Boudjedra, publicado pela mesma editora de Daoud, ficou famoso em 1969 com La Répudiation (O Repúdio), romance escrito em francês sobre um jovem cujo pai larga a mulher e se casa com uma jovem bem mais nova. O filho transa com a madrasta para vingar a humilhação sofrida pela mãe; seu irmão, gay, se mata depois de ter um caso com um judeu. Encharcado de fluidos e excrementos corporais – sangue, fezes, sêmen –, e permeado de vívidas descrições de sexo e masturbação, La Répudiation foi um exemplo extremo de rebelião literária.
Logo que o livro saiu, Boudjedra partiu para um exílio voluntário que durou seis anos – primeiro em Paris, mais tarde no Marrocos. O escritor ainda mantém um apartamento em Paris e, depois de um breve período escrevendo em árabe, retornou ao francês. Se alguém poderia compreender a situação de Daoud, esse alguém seria Boudjedra. No entanto, ele ridicularizou Meursault, julgando-o um romance “medíocre”, e o fez no Ennahar, o canal árabe por satélite que, naquele mesmo dia, serviu de plataforma a Hamadache. Mais tarde, referiu-se a Daoud como “um daqueles escritores que estão atrás de uma chancela literária e vão lamber as botas dos franceses”.
Boudjedra é famoso por ser um homem difícil. Mas seu desdém não é um caso isolado e reflete um preconceito de classe mais difundido. Tendo lutado na guerra pela independência quando jovem, ele provém de uma importante família do campo, ao passo que Daoud se fez sozinho numa aldeia empoeirada. Tenho um amigo do ramo editorial argelino que compara Daoud a Rastignac, o alpinista social de A Comédia Humana de Balzac. Para os intelectuais de esquerda de Argel, basta essa imagem para fazer dele um aproveitador provinciano.

No dia seguinte a meu encontro com Maïssa Bey, peguei o trem das oito da manhã de Oran para Argel, a fim de visitar velhos amigos, entre eles o historiador Daho Djerbal, que conheci em 2003. Argel parecia bastante mudada. Caminhando pela Didouche Mourad, a principal rua de comércio, encontrei uma cidade renascida, pelo menos do ponto de vista comercial. Passei por uma loja da Swatch, por joalherias, agências de viagens e butiques da moda. Os cafés com mesinhas na calçada estavam apinhados.
Na Place de la Grande Poste, centenas de pessoas, na maioria homens, assistiam ao campeonato africano num telão ao ar livre. Folheei alguns volumes numa livraria adorável, instalada no endereço de outra que pertencera a Joaquim Grau, um pied-noir morto em 1994 por islamistas radicais. A feira livre no bairro operário de Bab el Oued, outrora um reduto islamista, se mostrava muito animada, com suas bancas repletas de aparelhos eletrônicos chineses, roupas, CDS, DVDS, além de frutas, legumes e verduras frescas.
Na redação da revista de história que edita, Djerbal tentou me convencer de que essa normalidade não passava de ilusão de ótica, produto efêmero de um florescimento do consumo alimentado pelos altos preços do petróleo. Não iria durar, e o acerto de contas com a realidade não seria agradável. O historiador esboçou um panorama da devastação promovida pela abertura econômica argelina – indústrias estatais de suma importância sendo apropriadas por amigos do regime, que depois as venderam; vastas fortunas particulares sendo acumuladas; a emergência de uma classe média parasita, que não gera nenhuma riqueza.
Eram essas pessoas que eu vira nas lojas da rua Didouche Mourad, que ele descreveu como uma aldeia de Potemkin que não sobreviveria à queda dos preços do petróleo ou ao fracasso do Estado na diversificação da economia. Talvez o desastre fosse iminente. Lembrei então que esse mesmo amigo me fizera um relato semelhante, doze anos atrás, sobre um desastre anunciado.
Mudei de assunto e comecei a falar de Kamel Daoud. Notei que Djerbal foi ficando cada vez mais impaciente, o que não era de seu feitio. Era como se eu lhe perguntasse sobre alguém de um escalão inferior ao seu. Daoud, disse ele, era parte do problema que ele acabara de descrever, um filho mimado do próprio Estado que atacava. No entanto, não havia como negar que era muito bom escritor, argumentei. Djerbal sorriu. “Não bom o bastante para o Goncourt. Além disso, a França jamais dará o prêmio a um argelino.” Ele parecia estar saboreando a derrota de Daoud, que, prosseguiu, “representa um estrato sem legitimidade histórica”.
Na Argélia, a expressão “legitimidade histórica” tem um significado muito específico. Quando a guerra pela independência irrompeu, em 1954, a fln proclamou sua própria “legitimidade histórica” como representante única da nação. Ter legitimidade significava representar uma força social coletiva e, portanto, ter o direito de ser ouvido. Boa parte dos intelectuais argelinos atribuía grande valor à legitimidade e à reivindicação implícita de falar em nome de uma causa maior: em nome da nação, do povo, da classe trabalhadora, dos berberes. O fato de Daoud falar apenas por si próprio talvez seja o que seus críticos julgam mais inquietante nele.

Num princípio de noite em Argel, provoquei uma briga de quatro horas graças à simples menção do nome “Daoud”. Estava num jantar oferecido por Samir Toumi, um escritor que mora num apartamento espaçoso e elegante, defronte do Teatro Nacional. A facção pró-Daoud era liderada por Sofiane Hadjadj, que dirige a Éditions Barzakh juntamente com sua mulher, Selma Hellal. (Ambos editaram juntos Meursault.) A facção anti-Daoud tinha à frente Ghania Mouffok, uma jornalista radical que admira a ficção do escritor, mas não gosta de sua coluna.
A jornalista, que conheci em Argel em 2003, tinha acabado de cobrir os protestos contra a extração de gás de xisto no sul do país, uma região historicamente marginalizada que é também a fonte das riquezas da Argélia (gás e petróleo). O movimento fizera renascer sua fé no espírito argelino de resistência. “Quando você pensa em tudo que passamos – mais de um século de colonização, décadas de ditadura, uma guerra civil brutal –, é um espanto que a gente ainda consiga erguer a cabeça”, disse. “É isso que Kamel Daoud não vê.”
Com um copo de vinho numa das mãos e um cigarro na outra, ela expôs os argumentos da promotoria. Daoud “escreve como se imperialismo e capitalismo não existissem”. Teria “ódio de si mesmo”. Não era surpresa que “o narrador de Kamel se sentisse mais próximo do homem que matou o árabe. Basta ler as colunas dele”. O romance era excelente, mas havia algo de “suspeito” no sucesso do livro na França. “Acho que ele oferece um conforto para leitores brancos”, concluiu.
“Adivinhe qual foi o primeiro país a querer traduzir o romance de Kamel?”, Hadjadj interrompeu. “Foi o Vietnã.”
“Pouco me importa se o romance vai ser traduzido no Vietnã”, retorquiu a jornalista. “O que me preocupa é o que os leitores franceses veem nele.”
Ela deu uma tragada no cigarro e fez uma pausa. “Escute, eu adoro Kamel. Ele foi brilhante no On N’est Pas Couché. Bonito, bem-falante, sexy. Alguns dias depois, eu o vi na tevê do Echorouk, e o sujeito que o entrevistava falava com ele como se ele fosse um inseto. Eu disse a Kamel: ‘Não vá a esses programas e não se comporte como se você fosse culpado. Reaja. A Argélia é um país que está fracassando, onde não se admite o sucesso. Se você tiver sucesso, as pessoas vão torcer para que fracasse. É um país difícil e pode ser brutal.’”

Como Ghania Mouffok podia criticar a Argélia de forma tão severa, se condenava Daoud por fazer mais ou menos o mesmo? Ela disse que reservava suas críticas aos poderosos, ao passo que Daoud atacava o povo. “Isso é infantil”, observou Daoud, quando lhe relatei as críticas. “Eu não critico o povo: critico pessoas. Está vendo aquele sujeito avançando o sinal vermelho?” – estávamos no trânsito. “Ele é responsável pelo que está fazendo. Se alguém joga lixo na rua, também é responsável por isso. Pessoas como Ghania pensam a mesma coisa, mas não escrevem o que pensam. E me acusam de odiar a Argélia, o que é absurdo. É claro que o capitalismo existe, e, se alguém tem um império, o imperialismo existe também. Só que o imperialismo não explica tudo. Nem nos isenta de resolver nossos problemas.”
Na visão da jornalista, a crença de Daoud na responsabilidade individual apenas “reproduz o desprezo do pouvoir pelo povo”. Na Argélia, acusar alguém de concordar com o pouvoir, ou mesmo de ser solidário a ele, é a cartada última e definitiva.
Se Daoud compartilha da opinião sombria que o pouvoir tem do povo, o pouvoir não parece ter grande simpatia por ele. Quando conheci Hamid Grine, o ministro da Comunicação, ele fez pouco das preocupações de Daoud com a fatwa. “Kamel não está mais ameaçado do que qualquer outro como ele”, disse o ministro. Hamadache, que no passado fora dançarino profissional, era um excêntrico sem seguidores, e o melhor era ignorá-lo. “O caso atraiu atenção porque vende jornais, mas a Argélia está de fato falando do preço das batatas, e não de Daoud.”
Na verdade, o ministro havia telefonado ao escritor na véspera. Não gostara de uma coluna recém-publicada, “O outro Je suis Mohamed”, que elogiava Mohamed Aïssa, o ministro dos Assuntos Religiosos, por sua campanha contra o incitamento islamista à violência em canais de tevê por satélite de língua árabe e de propriedade de argelinos. (“Hamid teria preferido uma coluna intitulada ‘Je suis Hamid’”, comentou Daoud.) Grine alegou ter sido o primeiro a defender Daoud. Suas declarações, porém, não foram lá muito enfáticas. Ele falara em particular com executivos dos canais por satélite que davam destaque a Hamadache, mas, ao contrário de Aïssa, evitou criticá-los publicamente, porque “na Argélia temos uma tradição de discrição”. (Um mês depois de nossa conversa, Grine fez declarações nos moldes das críticas de Aïssa.)
Hamid Grine tem 61 anos e também é um romancista que, como Daoud, escreve em francês. Disse-lhe que havia apreciado seu romance Camus dans le Narguilé, sobre um homem que ouve o boato de que Camus seria seu pai biológico. Grine queixou-se de que seu livro não havia contado com o “gigantesco esquema promocional” que catapultara Daoud ao sucesso na França e, além disso, sugeriu que sua visão de Camus talvez não fosse bem-vinda em Paris. Seu herói percebe que Camus não é seu pai e que os argelinos precisam abandonar a fantasia de reclamar Camus para si, como propunham escritores como Kamel Daoud e Maïssa Bey.
“Camus não foi um escritor argelino, e sim francês”, disse Grine. “Foi um colonizador dotado de boa vontade, um pied-noir. Fez gestos simpáticos aos argelinos, mas se opôs à independência.”
Grine não havia lido Meursault. “Tenho certeza de que é excelente. Meu filho leu e gostou. Eu só leio o que você está vendo aqui”, completou, apontando para a pilha de documentos oficiais sobre a mesa.
20 de julho de 2015
ADAM SHATZ


[1]Em 5 de maio deste ano, o júri do Goncourt conferiu à obra o prêmio de romance de estreia.

OS DICIONÁRIOS DE MEU PAI



Surpreendido pela nova edição do dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, sinto como se revirassem meus baús e espalhassem aos ventos meu tesouro. Trata-se de uma terrível (funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia

Pouco antes de morrer, meu pai me chamou ao escritório e me entregou um livro de capa preta que eu nunca havia visto. Era o dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Ficava quase escondido, perto dos cinco grandes volumes do dicionário Caldas Aulete, entre outros livros de consulta que papai mantinha ao alcance da mão numa estante giratória. Isso pode te servir, foi mais ou menos o que ele então me disse, no seu falar meio grunhido. Era como se ele, cansado, me passasse um bastão que de alguma forma eu deveria levar adiante. E por um bom tempo aquele livro me ajudou no acabamento de romances e letras de canções, sem falar das horas em que eu o folheava à toa; o amor aos dicionários, para o sérvio Milorad Pavic, autor de romances-enciclopédias, é um traço infantil no caráter de um homem adulto.

Palavra puxa palavra, e escarafunchar o dicionário analógico foi virando para mim um passatempo (desenfado, espairecimento, entretém, solaz, recreio, filistria). O resultado é que o livro, herdado já em estado precário, começou a se esfarelar nos meus dedos. Encostei-o na estante das relíquias ao descobrir, num sebo atrás da Sala Cecília Meireles, o mesmo dicionário em encadernação de percalina. Por dentro estava em boas condições, apesar de algumas manchas amareladas, e de trazer na folha de rosto a palavra anauê, escrita a caneta-tinteiro.

Com esse livro escrevi novas canções e romances, decifrei enigmas, fechei muitas palavras cruzadas. E ao vê-lo dar sinais de fadiga, saí de sebo em sebo pelo Rio de Janeiro para me garantir um dicionário analógico de reserva. Encontrei dois, mas não me dei por satisfeito, fiquei viciado no negócio. Dei de vasculhar livrarias país afora, só em São Paulo adquiri meia dúzia de exemplares, e ainda arrematei o último à venda na Amazon.com antes que algum aventureiro o fizesse. Eu já imaginava deter o monopólio (açambarcamento, exclusividade, hegemonia, senhorio, império) de dicionários analógicos da língua portuguesa, não fosse pelo senhor João Ubaldo Ribeiro, que ao que me consta também tem um, quiçá carcomido pelas traças (brocas, carunchos, gusanos, cupins, térmitas, cáries, lagartas-rosadas, gafanhotos, bichos-carpinteiros).

A horas mortas, eu corria os olhos pela minha prateleira repleta de livros gêmeos, escolhia um a esmo e o abria a bel-prazer. Então anotava num Moleskine as palavras mais preciosas, a fim de esmerar o vocabulário com que eu embasbacaria as moças e esmagaria meus rivais.

Hoje sou surpreendido pelo anúncio desta nova edição do dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Sinto como se invadissem minha propriedade, revirassem meus baús, espalhassem aos ventos meu tesouro. Trata-se para mim de uma terrível (funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia.
20 de julho de 2015
 Francisco Buarque de Hollanda

RAY KURZWEIL E O MUNDO QUE NOS ESPERA



Uma entrevista com o inventor e futurólogo americano

Quem chega em frente à sua casa em um bairro tranquilo de Boston logo imagina que lá dentro irá encontrar cenários futuristas, paineis imensos de monitores e engenhocas eletrônicas que materializam todas as previsões dos melhores escritores de ficção cinetífica. Um doce engano. A casa de Ray Kurzweil não é como, dizem, a casa de Bill Gates, toda administrada por um computador central. O CEO aposentado da Microsoft, aliás, é um de seus fãs mais ardorosos. "Kurzweil oferece um olhar único para um futuro no qual as capacidades do computador e da espécie que o criou ficarão ainda mais próximas uma da outra", diz Gates sobre o engenheiro.

É uma bela casa, de três andares e com muitos enfeites, nas mesas, nichos nas paredes e também algumas antiguidades. Por ali, vê-se pouco do que há dentro da mente desse homem respeitado por suas previsões, aparentemente mirabolantes, como a de que em algumas décadas, compraremos um computador pessoal centenas de vezes mais potente que o cérebro humano, por apenas mil dólares.

Com um sorriso cordial, sou recebido por Kurzweil em um dos poucos dias livres que tem. "São muitas viagens e palestras. Mas meu fôlego se renova a cada maratona", diz em tom de brincadeira. Todos os seus livros estão estrategicamente posicionados em uma mesinha auxiliar próxima ao sofá onde vamos nos sentar e conversar por cerca de duas horas e meia sobre o futuro.

Inventor desde a infância, Kurzweil é o responsável pelo desenvolvimento de algumas máquinas mirabolantes, algumas vingaram, outras não, incluindo o sintetizador musical, nos anos 70. Chamado para palestras, cursos e conselhos mundo afora, ele tornou-se um dos profetas da tecnologia mais respeitados no mundo. Em seu mais recente livro, The Singularity is Near (A Singularidade está próxima, ainda sem tradução para o português), diz que em 2029 a humanidade terá os recursos de inteligência artificial necessários "para que máquinas atinjam a inteligência humana, inclusive a inteligência emocional".

Acredita que será possível implantar no cérebro um computador do tamanho de um grão de ervilha para substituir neurônios destruídos pelo mal de Parkinson. Conselheiro de Bill Gates, Kurzweil projeta um futuro impressionante para a interação entre homem e máquina nos próximos anos. Sua projeção mais impressionante, é a da singularidade. "Máquinas cujo intelecto serão enormemente superiores aos humanos em todas as áreas dividirão e disputarão espaço conosco", prevê.

À primeira vista , parece um monte de balelas jogadas ao vento. Mas, se pensarmos nos avanços tecnológicos nos últimos 20 anos, veremos que eles pareciam balelas 20 anos antes. Anos mais tarde, diz, os avanços serão tão acelerados que aproximarão o homem de seu maior sonho: a imortalidade. Mais que um papo com o "Sr. Futuro", uma passagem só de ida, de primeira classe, para o século 21.

Foi no livro A Era das Máquinas Espirituais que o senhor usou pela primeira vez o termo Singularidade. Em linhas gerais, o que é a singularidade teconólogica?

Na verdade me familiarizei ao termo por volta de 1990. No meu último livro A Singularidade está Próxima eu efetivamente me debrucei sobre o ponto no tempo quando as tecnologias terão um papel explosivamente transformador. No outro livro, A Era das Máquinas Espirituais eu cheguei a tocar no assunto quando escrevi sobre a evolução dos computadores a níveis humanos de inteligência e o que isso significa em termos práticos. Quando falo sobre a singularidade quero chamar a atenção para um fenômeno que é o da ascensão exponencial da interação entre a biologia humana com a tecnologia que criamos. O paradoxo está no fato de que a inteligência biológica pode ser educada e melhor organizada, não pode mais passar por evoluções significativas, ao passo que a inteligência não-biológica, a dos computadores, tem sua capacidade multiplicada por mil a cada década que passa. Esse ritmo está diminuindo para menos de uma década.

Chegaremos a um tempo, então, que a inteligência dos computadores superará a nossa?

Não tenha dúvida disso. O cérebro humano possui uma capacidade de cerca de 1.026 cálculos por segundo (CPS), e isso não mudará muito ao longo dos próximos cinquenta anos. Nosso cérebro usa o sistema eletroquímico de transmissão de dados que viajam por entre os neurônios milhões de vezes mais lento que nos computadores. Comunicamos nosso conhecimento e idiomas usando nossa linguagem um milhão de vezes mais devagar que os computadores podem transmitir suas informações. Veremos uma grande disparidade por volta de 2040, quando a inteligência não-biológica que criamos será um bilhão de vezes mais rápida que os 1.026 cálculos por segundo do nosso cérebro. A palavra "singularidade" é uma metáfora para explicar este fenômeno. Emprestei o termo da Física e seus estudos sobre os buracos negros.

Como vê a evolução da mídia nesse processo? A explosão de novas plataformas, como a internet, os gadgets, como celulares, o Kindle, o iPad lançado recentemente, e outros fatores irão comprometer as mídias tradicionais como os jornais impressos, rádio e sobretudo a televisão?

Pelo contrário. O que vemos por enquanto são plataformas novas e potentes que permitem a convergência dos métodos tradicionais de comunicação de massa. Na internet posso ler uma reportagem clicar no link e ver o vídeo da reportagem e do mesmo texto acessar análises e comentários, além de interagir com esse conteúdo. São os conteúdos híbridos. O iPad, ao que me parece presta muito bem este serviço de maneira mais portátil apenas. O que ele faz por meio de seus aplicativos a internet tradicional já possibilita há muito tempo.

A televisão, que é ainda o meio de comunicação de massa hegemônico no mundo, está ameaçada em sua forma tradicional no futuro próximo à singularidade?

As telas estarão em todos os lugares, nos vidros das vitrines, carros, em óculos especiais, até mesmo nas nuvens de nanobôs programadas para exibirem cenários nos ares ao simples toque de um dedo. De certo modo a televisão nunca será abandonada. Gostamos das histórias, no Brasil mesmo, sei que há uma grande paixão pelas novelas. Aqui nos Estados Unidos amamos as séries. O que muda é o modo de fazer e de exibir. Num futuro não tão distante interagiremos mais com as programações das emissoras. Novas emissoras, via internet, irão surgir e poderemos montar nossa própria grade de programação. O hábito de estar em frente a uma tela persistirá cada vez mais forte, ainda mais no futuro em que os conteúdos poderão ser exibidos em realidade virtual com o telespectador efetivamente dentro da história. O que está comprometido de vez é a grade fixa de programação. O que muda significativamente é a criação dos roteiros, que poderá muito bem ser feita por um computador identificando o perfil de cada telespectador.

Isso quer dizer o fim dos roteiristas?

Não vamos dizer que seja o fim, mas o nascimento de um novo roteirista. E de atores também. Quem disse que precisarão ser de carne e osso? Não pode ser um avatar de alguém de carne e osso?

Muitas previsões sobre o futuro da tecnologia feitas nas décadas passadas se mostraram imprecisas. O que garante a segurança das projeções que o senhor faz? Há alguma técnica?

Eu conto com uma equipe de pessoas que pesquisam dados sobre diferentes indústrias e fenômenos, além dos pesquisadores que nos abastecem de informações a respeito de seus trabalhos nos campos mais variados ligados ao desenvolvimento da tecnologia. Semicondutores, nanotecnologia, desenvolvimento de materiais, entre muitos outros. Também muitas das projeções são baseadas em modelos matemáticos que se mostraram eficazes ao longo de todas essas décadas. Em cima desses modelos eu uso o que os matemáticos chamam de extrapolação de dados e tento construir novos modelos matemáticos para serem aplicados a diferentes fenônemos e indústrias. Muitos futuristas não usaram este tipo de metodologia e se basearam apenas em adivinhações e na intuição. Tenho feito algumas previsões desde os anos oitenta, quando escreviA Era das Máquinas Inteligentes. Lá está cheio de previsões tecnológicas sobre os anos noventa e o início do século 21 baseadas nesses modelos e que se provaram perfeitamente acuradas. Se nós entendermos quanto irá custar, por exemplo, um milhão de dados pro segundo, ou ainda quanto irá custar um par de bases de DNA para modelar uma proteína, ou outra medida de informação tecnológica em diferentes pontos no tempo, podemos construir cenários futuros para a tecnologia perfeitamente plausíveis e praticáveis.

Esses modelos se aplicam em relação à capacidade dos computadores como um todo?

Sim. Podemos aplicar a equação do preço/performance para o caso específico dos computadores. O que vemos são computadores e componentes cada vez menores ao passo em que estão cada vez mais potentes e com mais e mais memória. Há uma projeção, uma lei matemática por trás disso que quando extrapolada para daqui 25 anos nos leva a esse acréscimo de um bilhão na capacidade de processamento. Cada vez menores e extremamente poderosos.

É o encontro efetivo da computação com a nanotecnologia...

A nanotecnologia tem papel fundamental nessa evolução das máquinas e a superação da inteligência humana por elas. Já estamos vendo algumas aplicações primárias nesse campo, mas elas não representam a visão completa da nanotecnologia, aquela visão articulada pelo Eric Dexter [cientista, engenheiro americano, considerado um dos pais da nanotecnologia] lá pelos idos de 1986. Temos visto uma crescente capacidade de manipularmos a matéria no nível molecular. Um dos caminhos para criar nanotecnologia é começar com mecanismos biológicos e modificá-los a ponto de estendermos o paradigma biológico, que é ir além das proteínas. Essa visão de manipulação das moléculas, usando processos programáveis para fazer crescer objetos de maneira organizada com propriedades específicas já é uma visão de 20 anos atrás. Haverá uma rápida progressão em novos métodos na construção de nanocomponentes sem usar o método molécula a molécula como tem sido feito, mas átomo a átomo com suas propriedades específicas de armazenar e processar a informação. A Intel, por exemplo, já identificou isso e seus engenheiros já trabalham com pesquisa de novos métodos e vê na nanotecnologia o futuro de seus microprocessadores. A nanotecnologia já é um negócio bilionário para algumas empresas e será determinante em breve.

Quando?
Daqui cinco anos, por volta do ano 2015, teremos uma real dimensão da nanotecnologia em nossas vidas. Estaremos mais avançados no caminho da cura de terríveis doenças, como o câncer, problemas cardíacos e diabetes, tudo por meio da revolução na biotecnologia que nós já falamos. Com o desenvolvimento de medicamentos por meio da nanotecnologia, em apenas cinco anos poderemos ver progressos significativos nas pesquisas de como parar e até reverter o processo de envelhecimento.

O senhor diz que seremos imortais e que já se prepara para isso. Será o fim das religiões? Quantos poderão ter acesso a esse processo de imortalidade?

Ou pode ser o começo de novas religiões (risos). Não tenho dúvida quer caminharemos para a imortalidade, seja por meio de processos que revertam o envelhecimento das células biológicas, ou mesmo por meio da transferência de nosso conteúdo cerebral para um meio físico além do corpo, um novo hardware. Um robô construído a nossa imagem e semelhança é um dos modelos. E como tudo o que é lançado em temos de tecnologia, começa com preços altos e vai barateando a medida em que se insere no mercado.

A questão é saber se com a transferência de todo conteúdo de nossa mente para outro meio, também persistirá a consciência...

Essa é uma excelente questão que dá margem a discussões intermináveis entre os filósofos e outros teóricos. Acho que nesse ponto, o melhor a fazer é refletir bastante em cima de pesquisas e todos os questionamentos. é preciso deixar os neurocientistas descobrirem se a geração da consciência se dá pura e simplesmente por processos químicos ou não.

O que acha?

Ainda não sei. Melhor não arriscar essa previsão. (risos)


20 de julho de 2015
Marcelo Lapola