terça-feira, 18 de agosto de 2015

OS GRANDES IMPOSTORES DA HISTÓRIA

Com o apoio da ciência, o pesquisador Jan Bondeson elucida alguns dos maiores mistérios de identidade do século XIX. 

Em seu livro 'Os Grandes Impostores' ele reúne alguns dos enigmas que assombraram a Europa, mas não resistiram ao avanço da medicina e dos modernos testes de DNA



Princesa Anastácia, filha do último czar russo Nicolau II: uma impostora que afirmava ser Anastácia e ter sobrevivido à execução da família real foi desmascarada por um teste de DNA (Reprodução/VEJA)


Nunca existiu uma criança alemã criada em uma masmorra, sem contato com seres humanos e alimentada a pão e água. 
Kaspar Hauser, o jovem selvagem celebrado no filme de Werner Herzog de 1974, realmente existiu no início do século XIX, mas inventou a própria história para conseguir dinheiro, conquistar a generosidade alheia e, quem sabe, alguma fama. 

Jan Bondeson, professor da faculdade de medicina da Universidade de Gales, na Grã-Bretanha, vasculhou bibliotecas e documentos históricos sobre o caso e, juntado a esses indícios os avanços da ciência moderna, descobriu que, por critérios hoje óbvios para a medicina, o garoto bem desenvolvido física e mentalmente jamais poderia ter um passado tão desolador.

Em seu livro Os Grandes Impostores, recém-lançado no Brasil, Bondeson narra casos como esse, fazendo uma análise minuciosa de episódios conhecidos como os maiores mistérios de identidade do século XIX. Como um narrador de livros de detetive, ele recolhe pistas, examina as relações e tenta desvendar seus enigmas.

"A ciência do século XIX era inútil para investigar esses casos. As modernas técnicas de DNA deram neles um golpe fatal", diz Bondeson.

Biblioteca

Os Grandes Impostores
livro os grandes 
impostores(Reprodução/VEJA)Jan Bondeson, professor da faculdade de medicina da Universidade de Gales, apresenta um estudo sobre grandes mistérios históricos do século XIX. 

Usando seus conhecimentos médicos e históricos e juntando a eles os resultados de testes de DNA dos últimos anos, tenta desvendar os enigmas, que ainda fazem parte do imaginário mundial.

Autor: BONDESON, JAN

Editora: DIFEL

A maior parte dessas histórias não sobreviveu ao desenvolvimento científico e, principalmente, aos testes genéticos, acessíveis desde os anos 1990. Essa é a principal ferramenta para os casos de identidade duvidosa abordados no livro. 

Qualquer cabelo, pedaço de roupa ou carta secreta pode ser submetida à análise e ter sua veracidade comprovada. Príncipes sumidos ou filhos bastardos, hoje em dia, são facilmente desmascarados pela ciência.

"Para muita gente, um impostor é um vigarista do século XX. Não engolimos mais essas histórias com facilidade", explica Bodenson, autor de outros 13 livros, dois quais apenas um, Galeria de Curiosidades Médicas, havia sido traduzido para o português, em 2000.


História romântica - Nas páginas do livro, o reumatologista nascido na Suécia se concentra em uma época em que a medicina e a ciência como conhecemos ainda não estavam desenvolvidas. 
Exames de sangue, testes psicológicos ou material genético contido em cromossomos ou mitocôndrias não eram sequer ideias da ficção. Por isso, avaliar a autenticidade de documentos, confissões ou verificar se uma pessoa era mesmo quem dizia ser era uma árdua tarefa. 

O poder político europeu do período, que deixava de ser fundamentado em linhagens consanguíneas e era balançado por revoluções populares, tampouco ajudava a verificar a verdade dos episódios. 
Era comum surgirem herdeiros desaparecidos, monarcas imortais, casamentos secretos ou pessoas simples depois identificadas como nobres sumidos.

Além disso, o imaginário desse tempo ainda era impregnado por histórias míticas e o pensamento mágico fazia parte do cotidiano.

Não havia a separação clara entre a história convencional, baseada em evidências, e sua versão romântica, feita por teóricos de conspirações ou intelectuais amadores. Ficção e fatos históricos reais se misturavam e ficavam à mercê do narrador.

"Muitas dessas lendas e mistérios históricos se incluem em um conjunto de lendas típicas, algumas das quais têm origens muito antigas. A lenda do herdeiro desaparecido, como a do francês Luís XVII, reflete a longa ausência de Ulisses e seu retorno como um pleiteante. 

A história do simplório misterioso que acaba se revelando um príncipe, caso do czar russo Nicolau I, remonta a histórias populares medievais", explica Bodenson. 
"Eles têm muitos aspectos míticos e essa é uma das razões por que se tornaram tão famosas."

Experiência médica - O autor começou a se interessar no início dos anos 1990 pelas histórias de identidade duvidosas, comuns no século XIX. 
Paralelamente a seu trabalho como pesquisador na Universidade de Gales, começou a ler sobre pessoas que pleiteavam ser filhos de reis ou herdeiros de grandes fortunas. 
Percebeu que faltava reunir todos os fatos históricos relacionados a elas, as conclusões científicas e, principalmente, os resultados dos testes de DNA feitos com esses personagens.

Usando sua experiência médica - que vê os indícios das doenças, analisa suas causas e faz as relações para descobrir sua solução - resolveu ir atrás de documentos da Biblioteca Britânica, da Biblioteca Nacional da França e da Alemanha para pesquisar sobre esses personagens. Visitou as cidades e os museus locais para conhecer o ambiente e passado de cada uma das histórias. Levou dois anos para juntar todas as informações e reuni-las em livro. 
O resultado é uma apresentação de todos os indícios históricos e científicos e um exame preciso do que levou esses personagens a, até hoje, permanecerem no imaginário mundial.

Confira abaixo os principais mistérios históricos que não resistiram ao avanço da ciência:

Os grandes impostores desmascarados pela ciência


(Foto: Reprodução/VEJA)
O enigma de Kaspar Hauser


Famoso pelo filme de Werner Herzog, de 1974, Kaspar Hauser foi um garoto real, de 16 ou 17 anos, que apareceu em Nuremberg, na Alemanha, em 1828. 
Ele dizia que havia vivido até então em uma masmorra, não havia tido contato com humanos e era alimentado apenas de pão e água. 
O jovem tornou-se o centro as atenções da cidade e, em pouco tempo, surgiram rumores de que deveria ser o príncipe herdeiro da família real de Baden, no sudoeste da Alemanha, que havia sido roubado do berço em 1812. 
Kaspar Hauser viveu com alguns tutores, mas foi assassinado em 1833. 

A bibliografia destinada a desvendar a real identidade Kaspar Hauser dispõe de pelo menos 400 livros e 2 000 artigos. Alguns são a favor da teoria do príncipe e outras, de que Hauser era um garoto pobre que foi abandonado na cidade e inventou a história da masmorra para despertar a generosidade alheia. 

A análise dos documentos históricos mostra que a história da masmorra é disparatada — o jovem teve um bom desenvolvimento físico e mental e tinha aprendizado ágil, algo que não poderia acontecer em uma prisão pequena e escura. Já desmentir sua procedência real é mais difícil. 

Em 1996, a revista alemã 'Der Spiegel' patrocinou um exame de DNA para comprovar a história. Uma mancha de sangue na roupa de Kaspar Hauser, guardada em um museu alemão, foi comparada à ao DNA da realeza de Baden: elas não têm relação. 

O mais provável, de acordo com os historiadores mais recentes, é que Kaspar Hauser fosse o filho ilegítimo de uma família respeitável, criado em alguma fazenda isolada e abandonado na cidade quando os parentes não queriam mais o manter. Contar uma história fantástica e comovente sobre como foi maltratado seria uma ótima estratégia para conseguir dinheiro, conquistar amigos e fama.

“A história de Kaspar Hauser tem alguns temas característicos dos contos de fadas tradicionais: o príncipe aprisionado, o ingênuo com poderes extraordinários, o órfão à procura de suas verdadeiras origens. 
Na literatura e nas artes, Kaspar Hauser adquiriu vida própria”, escreve Bondeson em seu livro.


18 de agosto de 2015
Rita Loiola

ATENDIMENTO FISIOLÓGICO EMERGENCIAL


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O que há de novo no Brasil é que as necessidades elementares têm um custo diferenciado



Como se pode ver acima, multiplicam-se nos dias de hoje os registros de estabelecimentos no interior do país que cobram pelo uso de instalações sanitárias, não estando claro se a medida afeta apenas aquelas pobres almas compelidas a satisfazerem suas necessidades fisiológicas em momentos e locais inoportunos ou também os fregueses dos bares e restaurantes(o que justificaria forte ação dos órgãos de defesa dos consumidores de cerveja).

A fim de colocar a questão no devido contexto histórico, cumpre lembrar que o pagamento pelo uso dos sanitários públicos– as famosas sentinas que acolhiam simultaneamente usuários de ambos os sexos – foi instituído há quase dois milênios pelo imperador Vespasiano diante da necessidade de reequilibrar as finanças romanas após as loucuras de Nero. A medida provocou fortes reações por parte dos cidadãos que já pagavam pelo banho, mas a nova cobrança deu origem, no direito tributário, ao princípio ainda vigente do non olet (não fede), significando que é válido taxar até mesmo as atividades menos nobres – como ainda ocorre com a prostituição na Alemanha. Não obstante, já houve tempos mais generosos em que o poder público atendia gratuitamente os necessitados mediante os elegantes pissoirs que tanto alívio trouxeram a nossos avós. Não contam, obviamente, esses cubículos que as autoridades fornecem hodiernamente por ocasião de grandes eventos e cujas características claustrofóbicas impedem o desfrute de alguns minutos de lazer e reflexão.



que há de novo no Brasil é que as necessidades básicas têm um custo diferenciado, aparentemente proporcional ao tempo que cada qual exige para ser atendida em condições normais. Entretanto, tendo em conta ser quase impossível cumprir o primeiro daqueles imperativos sem o acompanhamento do segundo, não fica claro se o usuário, pagando pelo mais caro, também será cobrado pelo outro, o que sem dúvida configuraria abuso de poder econômico.

De todo modo, mesmo não ocorrendo dupla cobrança, é controversa a forma pela qual essa nova classe de empresários do setor de “atendimento fisiológico emergencial” determina os valores a serem pagos pelo usuário. Em tese, tudo estaria resolvido caso existisse um odorímetro capaz de registrar a ocorrência do evento mais dispendioso e de transmitir a informação ao responsável pelo estabelecimento. É notável a façanha científica do pesquisador dinamarquês Povl Ole Fanger ao definir um olf como “o odor emitido por uma pessoa sentada que toma aproximadamente 0,7 banho por dia, trabalha num escritório e goza de boa saúde”. No entanto, não há consenso nos meios científicos com respeito a quantos olfs terá produzido aquele filho da mãe que me precedeu no banheiro do aeroporto, nem existe um aparelho capaz de resistir às exigências da função requerida.

Nessas condições, economistas de primeira linha foram consultados com vistas a fixar os parâmetros para a cobrança em questão, estando suas recomendações listadas abaixo juntamente com as objeções de outros economistas de escol (confirmando que essa gente não se entende nem nas horas de maior agonia):

1) Com base exclusiva na declaração do ex-necessitado ao sair. É bem sabido que, na iminência de um descontrole esfincteriano, parcela importante da população se mostra propensa a pagar o que for exigido pelo acesso imediato a um vaso sanitário; mas se sabe também que, aliviadas as tripas, a consciência consequentemente passa a pesar bem menos, com o que não seria digna de crédito a mera declaração do usuário.

2) Mediante a presença de funcionário que acompanhasse o cliente durante o processo; apesar de seguro, o método é pouco indicado devido à exiguidade do espaço utilizado, sendo que, no caso dos equipamentos em que a pessoa obra de pé (chamados em certas regiões de “privada de freira”), a presença de um observador se revela fisicamente impossível. Outro inconveniente de tal solução é o custo da mão de obra, sobretudo porque os encarregados da fiscalização sem dúvida reivindicariam na Justiça pesada taxa de insalubridade.

3) Pela supressão do papel higiênico, que só seria fornecido a pedido expresso do interessado. Tratar-se-ia de um método promissor caso não fosse tão prevalecente em tais situações o uso do dedo ou de retalhos de jornal, como se pode observar em muitas facilities espalhadas por todo o território nacional.

4) Instalando um sistema pelo qual a descarga só poderia ser acionada após uma inspeção visual para fins de determinação do preço; embora aparentemente viável, a solução se mostraria pouco eficaz na prática, pois é bastante comum faltar água na maioria dos banheiros dos estabelecimentos em causa, impedindo a confirmação da ocorrência mais recente.

Em conclusão, à luz de suas complexas implicações tecnológicas, trata-se de um problema merecedor de maiores investigações, mas que, numa primeira abordagem, parece justificar a arraigada preferência nacional por se mijar nos muros e cagar no mato.


18 de agosto de 2015
Jorio Dauster

SOBRE JESUS...

Análises apontam que papiro que menciona esposa de Jesus não é falso
Estudo mostra que o documento data do século VI ao IX


Papiro contém escritos na língua copta, que afirmam: "Jesus disse-lhes: 'Minha esposa...'" Papiro(Karen L. King/Harvard Divinity School/VEJA)

Um pedaço de papiro antigo que menciona certa "esposa" de Jesus não é uma falsificação, afirmam cientistas da Universidade Columbia, da Universidade Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que realizaram uma análise do documento, divulgada nesta quinta-feira no periódico Harvard Theological Review.

Acredita-se que o fragmento seja proveniente do Egito. Ele contém escritos na língua copta, entre os quais o seguinte trecho: "Jesus disse-lhes: 'Minha esposa...'". Outra parte diz: "Ela poderá ser minha discípula". Pelo fato de a tradição cristã afirmar que Jesus não era casado, o documento suscitou debates sobre o celibato e o papel das mulheres na Igreja.

O jornal do Vaticano declarou que o papiro era falso, juntamente com outros estudiosos, que duvidaram de sua autenticidade baseados em sua gramática pobre, no texto borrado e na origem incerta. Mas uma nova análise científica do papiro e da tinta, bem como da escrita e da gramática, mostrou que o documento é de fato antigo. "Nenhuma evidência de fabricação moderna foi encontrada", declarou a Harvard Divinity School em um comunicado. Os resultados mostraram que o papiro data de algum momento entre os séculos VI e IX

"A equipe concluiu que a composição química e os padrões de oxidação são consistentes com papiros antigos, ao comparar o fragmento do Evangelho da Esposa de Jesus (Gospel of Jesus' Wife, em inglês) com um fragmento do Evangelho de João", escrevem os pesquisadores no estudo.

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Origem desconhecida - A origem do papiro é desconhecida. Karen King, historiadora da Harvard Divinity School, conta que o recebeu de um colecionador - que pediu anonimato - em 2012. A pesquisadora ressalta que o fato de a ciência mostrar que o papiro é antigo não prova que Jesus era casado. "A questão principal do fragmento é afirmar que as mulheres que são mães e esposas podem ser discípulas de Jesus, um tema que foi muito debatido no início do cristianismo, num momento em que a virgindade celibatária era cada vez mais valorizada", explicou Karen em comunicado.

Leo Depuydt, professor de Egiptologia da Universidade Brown, escreveu um artigo, também publicado no Harvard Theological Review, descrevendo por que acredita que o documento é falso. "O fragmento do papiro parece perfeito para um esquete do Monty Python", declarou, citando o famoso grupo de comediantes britânicos.

Ele apontou erros gramaticais e a impressão de que as palavras "minha esposa" foram enfatizadas em negrito, recurso inexistente em outros textos coptas antigos. "Como um estudioso de copta convencido de que o fragmento é uma criação moderna, sou incapaz de fugir à impressão de que existe algo quase engraçado no uso das letras em negrito", escreveu. King publicou uma refutação às críticas de Depuydt, dizendo que o fato de a tinta estar borrada era comum e que as letras abaixo de "minha esposa" estão ainda mais escuras.

Oito perguntas e respostas sobre o Jesus histórico



1 de 8(Foto: VEJA.com/VEJA)

Os autores dos Evangelhos conheceram Jesus?

A maior parte dos historiadores concorda que nenhum dos evangelistas foi testemunha ocular da vida de Jesus. Os Evangelhos, na verdade, faziam parte de uma grande variedade de textos que circulavam nos primeiros séculos depois de Cristo e representavam o que algumas das comunidades cristãs pensavam (os Evangelhos que foram deixados de lado pela tradição católica se tornaram conhecidos como apócrifos). Os textos têm autoria anônima, e os pesquisadores possuem poucas informações sobre sua exata origem geográfica. O que se sabe é que eles foram criados a partir de relatos, 

memórias, tradições e textos mais antigos, que circulavam entre as primeiras comunidades cristãs. 

Eles teriam sido escritos entre o ano 60 e o 120, e só no século II é que seus autores foram atribuídos — o primeiro Evangelho a Marcos, e o último a João. Com o passar dos séculos — e com a ortodoxia cristã tendo relações cada vez mais próximas ao Império Romano — surgiu a preocupação de delimitar exatamente quais os textos que guardavam a memória verdadeira sobre Jesus. 

Por volta do século IV, depois de sérias disputas teológicas, a Igreja finalmente escolheu quais haviam sido inspirados por Deus — criando o cânone do Novo Testamento. "Decidiu-se assim quais textos seria destruídos e quais preservados, e quais tradições cristãs seriam perseguidas e quais aceitas pela Igreja", diz André Chevitarese, professor do Instituto de História da UFRJ e autor dos livros "Jesus Histórico - Uma Brevíssima Introdução" e "Cristianismos: Questões e Debates Metodológicos" (Editora Kline), em entrevista ao site de VEJA. 

Dentre os textos do Novo Testamento, aqueles que os historiadores atribuem, de fato, a alguém que conviveu com Jesus são as encíclicas escritas por Paulo — pelo menos sete delas teriam sido ditadas pelo apóstolo. "Na forma como o Novo Testamento está organizado, os quatro Evangelhos aparecem antes dos textos de Paulo. No entanto, as encíclicas foram escritas primeiro. 
O pesquisador tem de começar a ler por elas — assim fica mais fácil entender a evolução das primeiras comunidades cristãs."

2 de 8(Foto: Reprodução/VEJA)

Como era a família de Jesus?

A família de Jesus é citada em diversos pontos das escrituras, de Maria e José até seus irmãos e primos. No Evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito, seus parentes são mostrados de forma bastante distanciada. Em certo momento, eles tratam Jesus como maníaco, afirmando que suas atividades como pregador só poderiam ser fruto da loucura. Jesus se afasta, e passa a defender uma nova percepção de família, formada por aqueles que estão juntos dele, fazendo a vontade de Deus. 


Nos outros Evangelhos, no entanto, a família é mostrada como sendo muito mais próxima do movimento de Jesus — com destaque especial para a figura de Maria, presente em momentos-chave da história. Em Atos dos Apóstolos, o livro bíblico que narra o que acontece com os discípulos após a ressurreição, a família recebe ainda mais destaque: os parentes de Cristo estão entre os principais pregadores da nova religião cristã que passa a ser construída. 

Dessa vez, o destaque fica para Tiago, irmão de Jesus e um dos principais líderes do cristianismo primitivo. "Do primeiro texto, em que a família vê Jesus como um louco, ao último, onde são eles que levam adiante o cristianismo, parece haver uma contradição — mas não necessariamente. Pode ser que, com o passar do tempo, a família tenha se reaproximado de Jesus, e tomado seu lugar na Igreja", diz André Chevitarese. 
A citação bíblica aos irmãos de Jesus é alvo de grandes discussões entre acadêmicos e teólogos, pois pode afrontar uma das principais crenças da igreja católica: a da virgindade de Maria. 
Ao longo dos séculos, os teólogos católicos esboçaram possíveis explicações para isso. Uma delas diz que eles seriam, na verdade, meios-irmãos de Jesus, filhos de um primeiro casamento de José. Outra explicação afirma que o termo grego utilizado no texto bíblico original pode significar tanto primo quanto irmão, e teria havido uma confusão nas traduções. 

Essa segunda interpretação também pode estar correta. "A noção de família que se apresenta no contexto do século I mediterrâneo é muito diferente da atual. Ela é uma família extensiva, onde todos os parentes orbitam em torno de uma figura masculina mais velha. Nesse ambiente, o primo pode, sim, ser um irmão."

3 de 8(Foto: Hulton Archive/Getty Images/VEJA)

João Batista existiu?

Assim como Jesus, João Batista é um personagem histórico. Segundo diversas fontes da época, ele era um importante pregador judeu que viveu na Galileia durante o século I. O tipo de movimento messiânico comandado por João e Jesus era bastante comum na época. Esmagados pelo Império Romano, os camponeses judeus eram levados a esperar pela intervenção de um salvador que fosse mudar os rumos da história. O historiador judeu Flávio Josefo cita dezenas de candidatos a messias em seus textos. 

Segundo as fontes históricas, o movimento liderado por João Batista chegou a ser, por certo tempo, mais importante que o de Jesus. "O número de páginas que Josefo dedica a Batista é muito maior do que o dedicado a Jesus. O historiador narra como Herodes reconhece sua força e manda matá-lo. 
Isso mostra que era Batista quem realmente desafiava Roma em sua época", diz André Chevitarese. Na verdade, segundo os historiadores, Jesus pode ter sido um discípulo de João Batista — teria sido com ele que aprendeu a batizar, exorcizar e a desafiar as autoridades romanas. Acontece que, em algum momento, discípulo e mestre romperam. "As ideias dos dois eram muito diferentes. 
Enquanto João acreditava em preparar o caminho para um personagem divino intervir na história, Jesus dizia que essa personagem já veio, e era ele mesmo", diz o pesquisador. 
Os próprios Evangelhos podem servir para mostrar o quanto João Batista era importante em seu tempo histórico. Segundo os pesquisadores, a necessidade que os evangelistas demonstram ter de citá-lo em seus textos se deve ao fato de sua memória ainda continuar forte no século I. 
Assim, os autores precisam mostrar que esse personagem, que até então permanecia independente do cristianismo, poderia ser amarrado à sua própria teologia. "Os cristãos tiveram a necessidade de mostrar que João Batista enxergou em Jesus o Messias. Assim, eles conseguiram demonstrar ainda mais o valor de Jesus."


4 de 8(Foto: Reprodução/VEJA)

Jesus sabia ler?

Jesus demonstra saber ler em dois momentos da Bíblia. O primeiro deles acontece no Evangelho de Lucas, quando ele entra em uma sinagoga na cidade de Nazaré e começa a ler textos escritos pelo profeta Isaías. O segundo é mostrado no Evangelho de João, onde Jesus aparece escrevendo. 
Logo depois de intervir no apedrejamento de uma mulher — usando o conhecido desafio de "quem nunca tiver pecado que atire a primeira pedra" — ele se abaixa e começa a escrever no chão. O problema é que ambos os trechos apresentam problemas. Não existe nenhum indício de sinagoga em Nazaré e, mais importante, o verbo grego para ler é o mesmo para memorizar — Jesus poderia simplesmente ter decorado a passagem de Isaías. 
Ao mesmo tempo, o trecho tirado do Evangelho de João (capitulo 8, versículo 8) é bastante discutido entre os pesquisadores. 
Muitos deles vêm a passagem como uma alteração tardia feita à Bíblia, adicionada já no século V. A verdade é que as estimativas dos historiadores mostram que entre 95% e 98% da população que vivia naquela região do mediterrâneo era analfabeta. 
Seria natural que Jesus, um camponês pobre que nasceu e nunca saiu daquele ambiente, estivesse dentro dessa estatística. "Na verdade, o maior incômodo com o fato de Jesus ser analfabeto vem do mundo contemporâneo. Hoje, se assume que uma liderança — politica, religiosa ou econômica — precisa ter feito até faculdade, quanto mais saber ler. Mas essa não era uma demanda dos discípulos."


5 de 8(Foto: Thinkstock/VEJA)

Qual era a religião de Jesus?

"Jesus nasceu judeu, viveu judeu, e morreu judeu", responde André Cheviterese. Foi só nos séculos seguintes à sua morte que a Igreja começou a se distanciar do judaísmo e a se aproximar do Império Romano. Nesse processo, a teologia cristã vai se tornando cada vez mais arredia aos judeus, resvalando até no antissemitismo — o que transparece nos Evangelhos, principalmente no de João. "Acho que a base para se entender isso está na tensão que é criada entre a comunidade cristã joanina [que se pretendia seguidora do apóstolo João] e a religião judaica. A partir da década de 80 do século I, seu proselitismo se torna tão agressivo que eles são expulsos das sinagogas. 

A partir daí, se tornam muitos hostis", diz o pesquisador. Assim, no Evangelho de João (capítulo 8, versículo 44), Jesus se refere aos judeus como Filhos do Diabo, adoradores de um Deus homicida e mentiroso. Do mesmo modo, a narração deixa de mostrar Jesus sendo morto de forma sumária pelos romanos. 
Segundo os textos, ele é assassinado a pedido dos judeus — Pôncio Pilatos até lava as mãos. "Essas passagens não deixaram de ser repercutidas desde então, e foram usadas, inclusive, para perseguir os judeus. Por sorte, a Igreja se desviou dessa visão nas últimas décadas", afirma o historiador.


6 de 8(Foto: Reprodução/VEJA)

Jesus seria casado com Maria Madalena?

Maria Madalena é uma das figuras mais importantes e disputadas de todo o cristianismo. Ela costuma ser usada como a prova de que Jesus teria apóstolos e apóstolas — o que contraria a doutrina religiosa de só permitir padres do sexo masculino. 
Mais que isso, ela é uma personagem central dos Evangelhos, pois é a primeira a visitar o sepulcro de Jesus e perceber que seu corpo não estava lá — e a primeira a reconhecer o Cristo ressuscitado. Do século I ao IV, houve uma grande disputa dentro do cristianismo para decidir se mulheres poderiam ou não assumir funções de proeminência nos ritos religiosos. "No ano 591, o papa Gregório Magno proferiu uma homilia onde juntava duas personagens diferentes citadas no Evangelho de Lucas. 
Ele afirma que uma mulher vista como pecadora (uma prostituta) e Maria Madalena eram a mesma pessoa. Desse modo, sugere que as mulheres são demoníacas", afirma Chevitarese. No século XIX, a Igreja finalmente voltou atrás: Maria Madalena deixa de ser prostituta e é promovida a santa. 
Mesmo assim, sua imagem como pecadora continua entranhada no imaginário cristão. Quanto às teorias que defendem seu casamento com Jesus, elas têm origem em uma passagem do Evangelho de Felipe, um dos livros apócrifos, onde os dois personagens aparecem se beijando. "Analisando esse trecho com os olhos de hoje, alguns pesquisadores enxergaram um elemento erótico na cena. Mas no mesmo evangelho Jesus beija seus apóstolos homens. Isso não tinha nada de anormal. Usar isso para afirmar que Jesus tinha um caso com Maria Madalena passa longe de fazer história."


7 de 8(Foto: Reprodução/VEJA)

Jesus foi traído por Judas?

Os pesquisadores costumam concordar que Jesus foi traído e entregue por um de seus discípulos para o exército romano. Mas o traidor é desconhecido. A figura de Judas — desde seu nome até seus trejeitos — parece ter sido criada sob medida para objetivos teológicos. "Ele é fruto de uma teologia evidentemente antijudaica. Seu nome remete a Judá, a Judeia. 

Suas características também vêm das caricaturas que se fazem dos judeus: ele ama o dinheiro, é traidor e ladrão. Do século 2 em diante, isso vai, de novo, ser usado como ferramenta antissemita. Quando pensado em seus efeitos de longo prazo, isso é muito cruel. 

É só lembrar da malhação de Judas, por exemplo", diz Chevitarese. As próprias narrativas da morte de Judas servem como exemplo de que o personagem é mais fruto da teologia do que de história. No Evangelho de Mateus, ele se enforca. No Ato dos Apóstolos, ele tropeça, rasga a barriga e morre. E nos textos de Papias, um autor cristão contemporâneo ao Evangelho de João, ele come até explodir.


8 de 8(Foto: Fred De Noyelle/Godong/VEJA)

Jesus foi crucificado?

A crucificação é, sim, um fato histórico. Já o contexto que a cerca, como o julgamento de Jesus e a via-crúcis, não é. Ser pregado em uma cruz era a penalidade aplicada pelos romanos aos escravos que matavam seus senhores, aos escravos que se rebelavam e aos rebeldes políticos — categoria onde Jesus poderia ser facilmente incluído. 

O historiador Flávio Josefo, por exemplo, cita uma cena onde milhares de judeus foram crucificados após uma rebelião em Jerusalém. Quanto à Via Crúcis e ao julgamento, eles dificilmente seriam realizados pelo governo romano naquelas circunstâncias. Jesus foi preso em Jerusalém, na sexta-feira que antecede a Páscoa. Acontece que nessa época do ano a cidade estava lotada de judeus de todos os cantos, desde o Mediterrâneo até o Oriente Médio, vindos para as festividades. 

Além disso, a Páscoa judaica não é uma festa apenas religiosa, mas também política — ela celebra a passagem dos hebreus da escravidão para a liberdade. "Nesse ambiente explosivo, é claro que as autoridades romanas não iam prender uma liderança judaica, fazer um julgamento público e colocá-lo para desfilar de forma humilhante pela cidade, arrastando uma cruz. Isso seria uma provocação desnecessária, um tiro no pé", diz Chevitarese. 

Pôncio Pilatos é um personagem histórico. Os pesquisadores sabem, a partir de escavações arqueológicas da década de 1960, que ele realmente foi um procurador romano radicado na região da Judeia. Mas não existe nenhum registro dos ritos seguidos pelo personagem na Bíblia. As autoridades romanas, por exemplo, nunca se ofereceram para soltar um prisioneiro judeu, a gosto do público. "Essas passagens foram colocadas para reforçar o caráter messiânico de Jesus. Elas são baseadas em profecias do Antigo Testamento, mas sua plausibilidade histórica é zero."



(Com Agência France Presse)

18 de agosto de 2015

O QUIBE DA JANDIRA






O delivery da deputada comunista



Os quibes, quentinhos, foram postos à mesa diante da dona do restaurante Líbano Rio Express. Era hora do almoço, e os salgados vinham bem a calhar. O pequeno estabelecimento de comida árabe, inaugurado há seis meses, fica no 2º andar de uma movimentada galeria comercial de Copacabana, entre lojas de bijuteria, confecções de biquínis fosforescentes e vendinhas de artigos para turistas.

Os quatro quitutes, dispostos com capricho no prato, como um trevo de quatro folhas, vinham acompanhados de um simples limão, já partido. A dona do estabelecimento achou pouco, e mandou trazer também o molho de alho. Parecia preocupada com a opinião do cliente potencial. “Tá fininha a massa? Crocante?”, quis saber. “Repara como o recheio é úmido, temperadinho. Não está macio? Não está bom?” Estava. A descrição que ela fazia era precisa, e o quibe não faria feio nas melhores casas de comida árabe da cidade. Não havia razão para a ansiedade da proprietária, a deputada federal Jandira Feghali.

Além de neófita no ramo da gastronomia, Jandira é um dos principais quadros do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB, cujos militantes, visando a uma sociedade sem classes, lutaram e foram massacrados pelo Exército brasileiro na região Norte, durante a guerrilha do Araguaia, nos anos 70.

Jandira entrou no partido mais tarde, no início da década de 80, época em que concluía seus estudos de medicina. Com 1,79 metro de altura e quadris largos, ela se espremeu num Voyage “sem ar-condicionado”, em 1986, e rodou o estado do Rio de Janeiro atrás de votos para ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa. Ganhou um problema de coluna desbravando as estradas fluminenses, o que a obrigou a interromper a campanha por alguns dias. Ainda assim, Jandira se elegeu.

Em 1990, deu novo passo e chegou à Câmara dos Deputados, em Brasília. Cumpre hoje o quinto mandato federal. Tem um eleitorado fiel, e sua atuação legislativa se destaca por projetos nas áreas da saúde e da cultura. Fisicamente, Jandira é reconhecível, sobretudo, pelos cachos volumosos de seu cabelo castanho-alaranjado.

Apesar do sucesso na carreira política, a mandatária comunista passou a considerar alternativas profissionais, de uns tempos para cá. “Queria deixar alguma coisa para os meus filhos, para o meu final de vida”, disse a deputada numa quinta-feira escaldante de janeiro, numa pequenina sala anexa à sua loja. “Sempre tive, também, a vontade de valorizar culturalmente a minha ascendência.”

Seu pai veio do Líbano para o Brasil em 1948, aos 18 anos de idade. Pretendia apenas passear, contou Jandira, mas se apaixonou pela filha de uma família de conterrâneos que vendia tecidos em Curitiba, e por aqui ficou. Foi na capital paranaense que Jandira nasceu, em 1957. Mas logo pegou a estrada, com os pais. Perseguindo oportunidades comerciais variadas, o casal viveu em Londrina e São Paulo, antes de se estabelecer na Baixada Fluminense.

Foi lá que seu irmão, Ricardo Feghali, descobriu o talento para a música. Ricardo é guitarrista e tecladista do grupo Roupa Nova, que nos anos 80 fez sucesso com canções como Donae Whisky a Go Go. A própria Jandira toca bateria, e participou do grupo embrião do Roupa Nova, nos anos 70. Com o restaurante, ela e o irmão voltaram a se reunir num empreendimento comum. O multi-instrumentista é seu sócio na casa de comida árabe.


A deputada ainda falava do passado familiar quando o garçom apareceu, de repente, trazendo o produto mais famoso do Líbano Rio Express: o quibe de peixe, pièce de résistance da casa. Jandira explicou que herdou a receita do pai. Em uma de suas empreitadas comerciais, Albert Feghali começou a vender o quitute, com grande sucesso, no interior de São Paulo.

Seguiu-se um novo momento de apreensão. Numa das primeiras críticas gastronômicas que a loja recebeu, o jornalista reclamou do exagerado ponto do sal no quitute. Jandira atribuiu o problema ao tempo que o quibe provado pelo crítico passara no mostruário. “Ficou desidratado”, justificou-se. Esse que havia sido servido agora, recém-saído do fogão, estava equilibrado. A carne do peixe, finamente desfiada, compunha um recheio suculento envolto pela leve farinha do quibe, crocante no ponto ideal.

A casa serve in loco os clientes que aparecem no balcão. Mas sua especialidade mesmo é a entrega por encomenda, limitada aos bairros em torno de Copacabana. Há planos de expansão. Jandira e o irmão se uniram a um terceiro sócio, empreendedor antigo no ramo da gastronomia carioca, e com ele pretendem abrir, em breve, um restaurante maior, também em Copacabana. Vislumbram ainda uma terceira casa, no Leme. “Teremos novos pratos e uma carta de vinhos”, anunciou. Quando esse dia chegar, será possível ampliar a área de entrega para cobrir toda a Zona Sul da cidade.

Além das ambições comerciais, a deputada faz planos políticos para 2014. O partido lançou, no final do ano passado, sua pré-candidatura ao governo do estado. Naquela tarde, em sua loja, Jandira disse que, passadas mais de três décadas da filiação ao PCdoB, ela ainda crê no triunfo do socialismo. “Não acredito no capitalismo como solução para os problemas da humanidade”, explicou. “Nunca, nele, você vai superar a desigualdade, a má distribuição de renda. A marca do capitalismo é a exploração do trabalho e a concentração.”

Perguntei se a revolução significaria a transferência para o Estado de todas as propriedades e empreendimentos. Jandira argumentou que não, que há muito tempo já não se pensa assim. “Até Cuba está liberando os táxis para a iniciativa privada”, lembrou. “Pequena e média propriedade, não se discute. O que se fala hoje é em planejamento nos meios de produção maiores, estratégicos.” Afinal, com um sorriso no rosto, deu o exemplo que mais importava. “Essedelivery aqui, por exemplo, ninguém ia tomar.”



18 de agosto de 2015
Rafael Cariello

AMIGOS DE CAMINHADA...









Eu nunca trocaria os meus amigos surpreendentes, a minha vida maravilhosa, a minha amada família por menos cabelo branco ou uma barriga mais lisa. Enquanto fui envelhecendo, tornei-me mais amável para mim, e menos crítico de mim mesmo. Eu tornei -me o meu próprio amigo... Eu não me censuro por comer um cozido à portuguesa ou uns biscoitos extra, ou por não fazer a minha cama, ou para a compra de algo supérfluo que não precisava. Eu tenho direito de ser desarrumado, de ser extravagante? e livre.

Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento.

Quem vai me censurar se resolvo ficar lendo ou jogar no computador até às quatro horas e dormir até meio-dia? Eu Dançarei ao som daqueles sucessos maravilhosos dos anos 60 & 70, e se eu, ao mesmo tempo, desejo chorar por um amor perdido... Eu vou.

Vou andar na praia com um calção excessivamente esticado sobre um corpo decadente, e mergulhar nas ondas com abandono, se eu quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros no jet sky. Eles também vão envelhecer.

Eu sei que às vezes esqueço algumas coisas. Mas há mais algumas coisas na vida que devem ser esquecidas. Eu me recordo das coisas importantes. Claro, ao longo dos anos meu coração foi quebrado. Como não pode quebrar seu coração quando você perde um ente querido, ou quando uma criança sofre, ou mesmo quando algum amado animal de estimação é atropelado por um carro? Mas corações partidos são os que nos dão força, compreensão e compaixão. Um coração que nunca sofreu é imaculado e estéril e nunca conhecerá a alegria de ser imperfeito.

Eu sou tão abençoado por ter vivido o suficiente para ter meus cabelos grisalhos, e ter os risos da juventude gravados para sempre em sulcos profundos em meu rosto.

Muitos nunca riram, muitos morreram antes de seus cabelos virarem prata.

Conforme você envelhece, é mais fácil ser positivo. Você se preocupa menos com o que os outros pensam. Eu não me questiono mais. Eu ganhei o direito de estar errado. Assim, para responder a sua pergunta, eu gosto de ser idoso.

A idade me libertou. Eu gosto da pessoa que me tornei. Eu não vou viver para sempre, mas enquanto eu ainda estou aqui, eu não vou perder tempo lamentando o que poderia ter sido, ou me preocupar com o que será. E eu vou comer sobremesa todos os dias (se me apetecer).
Que nossa amizade nunca se separe porque é direto do coração!



18 de agosto de 2015
anônimo
(Recebido por email)

http://umaraposanaestrada.blogspot.com/2015/08/amigos-de-caminhada.html


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

SERENDIPIDADE 2

Você sabia?

Velcro 1
Outro dia lhes falei sobre a estranha palavra serendipidade que, embora seja abonada por bons dicionários, ainda não foi reconhecida pelo Vocabulário Oficial da Academia. Uma distração, sem dúvida.
ArquimedesO termo serendipidade exprime a faculdade ou a sorte de inventar algo ou fazer alguma descoberta por mero acidente ou por dedução impelida pelo acaso. O exemplo clássico é a história de Arquimedes – aquele grego antigo que, ao ver flutuar um sabonete na banheira, descobriu um princípio da física. É verdade que a história não registrou a marca do sabonete, mas isso não vem ao caso.
Uma notável invenção suíça seguiu o caminho da serendipidade. Trata-se de um objeto comum, que utilizamos com frequência, sem imaginar como era o mundo antes que ele existisse. Falo do velcro, aquelas geniais tirinhas que grudam e desgrudam sem precisar colar nem costurar. Um achado!
Velcro 2Pois saibam meus distintos leitores que o velcro foi criado pelo engenheiro suíço George de Mestral (1907-1990), originário de família abastada. Numa tarde do outono de 1941, Monsieur de Mestral passeava com seu cachorro num bosque. Horas mais tarde, já de volta a casa, notou que tanto suas roupas quanto o pelo do animal estavam apinhados de pequenas bolinhas, daquelas que chamamos carrapicho.
George de Mestral
George de Mestral
Velcro 4
Chateado, pôs mãos à obra para arrancar, uma a uma, aquelas bolinhas espinhudas. Tomou especial cuidado com o cachorro que, sozinho, não conseguiria se livrar daqueles incômodos penduricalhos.
Enquanto executava a tarefa, a ideia do velcro começou a germinar em sua imaginação. Examinou os carrapichos no microscópio, comparou com o tecido de sua roupa, e… acabou entendendo o princípio. A partir daí, Monsieur de Mestral cuidou da parte comercial. Dez anos mais tarde, patenteou seu invento na Suíça e, no ano seguinte, nos demais países.
Castelo da família De Mestral
Castelo da família De Mestral
Velcro é contração de velours + crochet (veludo + crochê). Como gilete e xerox, é marca registrada que se tornou nome comum. Sem sombra de dúvida, é a criação suíça mais difundida no mundo. Há muito mais tirinhas de velcro em circulação do que canivetes. A NASA, por exemplo, não dispensa esse material para fixar objetos no interior de cápsulas espaciais.
14 de agosto de 2015
José Horta Manzano

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

AS CRISES DA VIDA E O CAMINHO DA REALIZAÇÃO DO SER HUMANO



01

Tudo o que vive é marcado por crises: crise do nascimento, da juventude, da escolha do parceiro, da escolha da profissão etc. Por fim, advém a grande crise da morte, quando passamos do tempo para a eternidade. O desafio posto a cada um não é como evitar as crises. Elas são inerentes a nossa condição humana. A questão é como as enfrentamos, que lições tiramos delas e como podemos crescer com elas. Por aí passa o caminho de nossa autorrealização e de nossa maturidade como seres humanos.
Toda situação é boa, cada lugar é excelente para nos medirmos e mergulharmos em nossa dimensão profunda, deixando emergir o arquétipo de base que carregamos (aquela tendência de fundo que sempre nos martela) e que quer se mostrar e fazer sua história. Cada um de nós está só. É a tarefa fundamental da existência. Mas, sendo fiel nesse caminhar, a pessoa já não está só. Construiu um centro pessoal a partir do qual pode se encontrar com todos os demais caminhantes. De solitário, faz-se solidário.
A geografia do mundo espiritual é diferente daquela do mundo físico. Nesta, os países se tocam pelos limites. Na outra, pelo centro. É a indiferença, a mediocridade, a ausência de paixão na busca de nosso eu profundo que nos distanciam de nosso centro, e assim perdemos as afinidades.
MELHOR SERVIÇO
Qual é o melhor serviço que posso prestar às pessoas? É ser eu mesmo como ser de relações e, por isso, sempre ligado aos outros.
A realização pessoal não consiste na quantificação de capacidades pessoais que podem ser efetivadas, mas na qualidade, no modo como fazemos bem aquilo que a vida nos cobra. A quantificação, a busca de títulos, de cursos sem fim, pode significar em muitas pessoas a fuga do encontro com a tarefa de sua vida: de se medir consigo mesmo. Foge no acúmulo do saber inócuo que mais ensoberbece e afasta dos outros do que nos amadurece para poder compreender melhor a nós mesmos e ao mundo.
A realização pessoal não é obra da razão, que discorre sobre tudo, mas do espírito, que é a capacidade de ser todo em tudo o que faz. Espiritualidade não é uma ciência ou uma técnica, mas um modo de ser inteiro em cada situação.
A primeira tarefa da realização pessoal é aceitar a nossa situação com seus limites e suas possibilidades. Em cada situação está tudo, não quantitativamente distendido, mas qualitativamente recolhido, como num centro. Entrar nesse centro de nós mesmos é encontrar os outros, todas as coisas e Deus.
O ÚLTIMO LIMITE
Outra tarefa imprescindível para a realização pessoal é saber conviver com o último limite, a morte. Quem dá sentido à morte dá sentido também à vida. Quem não vê sentido na morte também não descobre sentido na vida. Vamos morrendo lentamente, a prestações, porque, quando nascemos, começamos já a morrer, a nos desgastar e nos despedir da vida.
Essa despedida é um deixar para trás não apenas coisas e situações, mas sempre um pouco de nós mesmos. Temos que nos desapegar, nos empobrecer e nos esvaziar. Despojamo-nos de tudo, até de nós mesmos, no último momento da vida, na hora da morte, porque não fomos feitos para este mundo nem para nós mesmos, mas para o Grande Outro que deve encher nossa vida: Deus! Quem conseguir incorporar as negatividades, mesmo injustas, em seu próprio centro alcança o mais alto grau de hominização e de liberdade interior.
As negatividades e as crises pelas quais passamos nos dão esta lição: de nos despojarmos e nos prepararmos para a total plenitude em Deus.

10 de agosto de 2015
Leonardo Boff

"MÍDIAS SOCIAIS REDUZEM A CAPACIDADE DE APRENDER"


Richard Sennett, historiador e sociólogo norte-americano, é considerado atualmente um dos maiores intelectuais em sociologia urbana. Ele concedeu uma entrevista ao repórter Leandro Colon, correspondente do jornal Folha de S.Paulo, em Londres, publicada hoje. Para Richard Sennett, as redes sociais “tiram espaço para a surpresa e reduzem a inteligência do público”. Vale a pena conferir.
Richard Sennett

O sociólogo americano Richard Sennett, 72, afirma que a onda das mídias sociais tem reduzido a capacidade das pessoas de adquirir conhecimento externo.
Em entrevista à Folha, ele diz que o modelo cada vez mais customizado da internet cria um cenário sem elemento "surpresa" no cotidiano.
Um dos sociólogos mais prestigiados, Sennett publicou em 1977 o clássico "O Declínio do Homem Público", em que aborda, entre outras coisas, as mudanças de comportamento do homem desde o século 18, sobretudo em relação a intimidade, individualismo e exposição.
O que escreveu há quase 40 anos, diz ele, ainda se aplica hoje, agora num contexto do mundo eletrônico da web.
Nascido em Chicago, Sennett recebeu a reportagem na London School of Economics, onde leciona. É professor também da New York University e entre seus livros está "Juntos", obra de 2012 em que defende o conceito de cooperação entre os indivíduos.
O sociólogo, que integra a comissão de reorganização urbana de Atenas como parte da conferência da ONU de 2016 sobre o futuro das cidades (Habitat 3), diz que a criação de cooperativas informais é fundamental para países como Grécia e Brasil reagirem às turbulências econômicas.
Na entrevista, Sennet critica os shoppings no Brasil e as "cidades inteligentes".
O sociólogo estará em Porto Alegre no dia 24 de agosto e em São Paulo no dia 26 para palestras no evento Fronteiras do Pensamento.

FOLHA - Como o sr. vê as mudanças no comportamento das pessoas tantos anos depois de publicar "O Declínio do Homem Público"?
RICHARD SENNETT - Há 40 anos, havia muitas questões sobre a transformação da presença física das pessoas em público, e agora temos os mesmos problemas: perguntamo-nos sobre a presença na web. As mídias sociais aumentam a discussão entre o público e o privado.
Não tínhamos nada parecido nos anos 70 e fico impressionado como ainda nos atingem questões sobre a noção do uso de espaço público para autoexposição e interação real. Como analista social, é deprimente para mim que esses problemas persistam, agora no espaço eletrônico.

O sr. acha que atingimos o ápice da falta de privacidade?
O mais triste sobre o ciberespaço é que há cada vez menos chance para a surpresa.
Quando você caminha na rua, coisas que não espera podem acontecer. Quando está no Facebook, isso é feito tão sob medida que fica difícil a ideia de aprender alguma coisa que não soubesse, afinal, tudo é customizado, feito para seu perfil. Isso é um tipo de redução de quão inteligente o público a minha volta pode ser.

Por que o sr. critica as "cidades inteligentes"?
Elas removeram o elemento indutivo de aprendizado sobre o entorno. Como um dos líderes do Habitat 3, uma de nossas discussões é como evitar o mau uso da tecnologia que envolve a liberdade das pessoas. Essa tecnologia tem feito as pessoas ficarem sem pensar sobre isso.
Os governos autoritários, por exemplo, amam essas cidades, porque sua capacidade de vigilância é incrível. Há cidades americanas que usam os sensores de tráfego, de velocidade para coordenação, para identificar o número de motoristas negros e brancos. Isso acaba usado de forma diferente de seu propósito [original], vira um instrumento de dominação.

Recentemente, o sr. criticou o conceito de shoppings das cidades latino-americanas.
Fiquei impressionado com tantos estacionamentos nos shoppings no Brasil ocupando espaços públicos. São espaços cosmopolitas mal utilizados. Não há nada para fazer a não ser parar carros, as crianças não podem entrar nem usá-lo. Como na China, são espaços que separam a nova classe média dos pobres. Se você é pobre na China, não pode ir ao shopping.
O que os shoppings também fazem é destruir os negócios locais, isso é um grande problema aqui no Reino Unido, pois os centros das pequenas cidades não podem competir com grandes redes.

Qual sua opinião sobre a cidade de São Paulo?**
É uma cidade muito avançada, com muito capital humano. O grande desafio é como colocar essa capital para trabalhar para todos. Eu adoro São Paulo, é uma cidade de torres, mas também tem problemas de segurança. O trânsito nem me incomoda (risos), porque sou muito paciente, posso ver meus e-mails, ouvir música clássica, um violino de Wagner.

O sr. trabalhou na organização dos Jogos Olímpicos de Londres. A próxima Olimpíada será no Rio. Qual seu conselho para as autoridades?
Eu me envolvi no planejamento dos locais dos jogos, o que fazer com eles depois da Olimpíada. Queríamos evitar o que ocorreu com a Grécia em 2004 [após os Jogos, várias arenas foram abandonadas]. Os lugares precisam ser utilizados imediatamente após o evento. Se você espera cinco, seis anos, eles começam a se degradar, e é isso que tentamos evitar em Londres.

Passamos por uma crise econômica no Brasil, na Europa temos o exemplo da Grécia nos últimos cinco anos. O sr. acredita que seu conceito de "cooperação" entre as pessoas poderia ajudar esses países a superar tais problemas?
Não creio que possa ajudar a superar, mas acredito que pode ajudá-los a enfrentar os problemas. Conheço muito bem a questão da Grécia, por causa do Habitat 3. Lá, o governo tem falhado em apoiar isso, e a União Europeia basicamente criou um cenário de punição para o país.
Na Grécia, há cooperativas informais de família dividindo recursos. Uma delas, em Atenas, foi criada para garantir que as crianças tomem café da manhã antes de ir para a escola, porque uma das consequências da austeridade é que muitas famílias não conseguem garantir isso. O governo grego não faz nada.
Uma imagem global é sobre a necessidade da cooperação no local de trabalho. Mas na política econômica, se a estrutura formal de apoio falha, gera situações como a de Grécia, Itália, Portugal.
A cooperativa é a única medida de defesa. Um coisa terrível no liberalismo [econômico] é que as pessoas são cada vez mais donas de indivíduos em detrimento da cooperação informal.

O sr. acredita que haja uma solução para a Grécia?
Em 1953, 50% da dívida alemã foi abolida pelo governo grego, mas hoje isso é [usado como] um tipo de hegemonia, uma punição cruel. A Alemanha tem bloqueado qualquer tipo de alívio [aos gregos]. O país nunca vai se recuperar se toda hora tiver que pedir mais dinheiro para pagar dívida. Isso nunca deixará o país ser saudável.

Como vê o drama imigratório da África para a Europa?
É uma política de combate, sem muita esperança, porque estão mirando nos barcos, nos imigrantes que tentam chegar a Itália e Grécia. Entristece-me ver que a União Europeia está em colapso, não sabe o que fazer com um problema humanitário, como a imigração, e econômico, como as políticas de austeridade que estão falhando.

O sr. defende que as pessoas deveriam cada vez mais ter ações das empresas que trabalham. Isso não é uma contradição do modelo capitalista?
É um tipo de social capitalismo que contradiz o capitalismo liberal. No Reino Unido, na loja de departamento, John Lewis, os empregados têm ações. Depende de como se manuseia, do quão preocupada a empresa é com isso. Não se espera que o vendedor seja o dono dela, mas que o direito de ter ações lhe dê voz.
No regime liberal, o círculo de controle se reduz, cada vez menos pessoas tomam as decisões. Eu gostaria de ver o monopólio de empresas como Microsoft, Google, Amazon quebrado. Mas quando elas têm um competidor, compram-no ou fecham-no.
Quando começou a crise de 2008, achei que haveria um movimento para destruir isso, mas essas empresas se mostraram mais resistentes e sobreviveram.

10 de agosto de 2015
LEANDRO COLON
DE LONDRES