sexta-feira, 13 de novembro de 2015

EU, UM VELHO


Veja isto aqui. Se observar as juntas superiores dos dedos da minha mão esquerda vai pensar que fui torturado pela KGB. Melhor, é como se eu fosse um apanhador agarrando as bolas do famoso Candy Cummings, o inventor do lançamento em curva e que largou o beisebol em 1877. Para dizer de outro modo, se eu apontasse uma arma para você com essa mão, mirando seu nariz, a bala atingiria seu joelho esquerdo. Artrite.

Agora, ainda de frente para você, se eu cubro com a mão meu olho esquerdo, o melhor dos dois, tudo o que eu vejo é uma borrada versão periférica do teto, do piso, das paredes ou janelas tanto à direita como à esquerda de nós, mas seu rosto e sua cabeça desaparecem: não há absolutamente nada no centro. Mas não é motivo para desespero: se eu cobrir o olho direito, você reaparece. E se afasto a mão e o observo com os dois olhos, o buraco e o vazio somem e você ressurge em 3-D – e hoje, na verdade, com ótima aparência. Degeneração macular.

Estou com 93 anos e me sinto bem. Para ser sincero, me sinto muito bem, a menos que nas últimas quatro ou cinco horas eu tenha esquecido de tomar os comprimidos de Tylenol; nesse caso, daqui a pouco vou começar a sentir umas pequenas dores agudas descendo pelo antebraço esquerdo até a base do polegar. Herpes-zóster, em 1996, e os consequentes danos nos nervos.

Tal como muitos homens e mulheres de idade avançada, eu me viro com uns tantos stents arteriais que permitem que o coração continue batendo. Também tenho uma minúscula concha plástica que prende e fecha um orifício congênito no coração, descoberto quando eu já estava com 80 e poucos anos. No hospital Mass General, o cirurgião que consertou esse FOP (um Forame Oval Patente – adoro dizer isso) era um ator especializado em personagens incomuns, nascido no México, que além de usar tamancos e colar de miçangas era um ardoroso fã do jogador de beisebol Derek Jeter. Com essa cirurgia e a colocação dos stents, assim como uma passageira angioplastia com balão e dois ou três alarmes falsos, virei uma espécie de veterano das mesas de exame, impassível diante de câmeras de raio X postadas sinistramente acima do meu corpo nu em uma sala de cirurgia escura e gélida; lá no alto a pequena tela de tevê exibe meu coração como um lustre suspenso amarrado a veias e artérias pegajosas. Mas nada disso importa. Tomo um betabloqueador cor-de-rosa e uma estatina branca já no café da manhã, junto com várias outras pílulas menos importantes, e saio rumo à academia para ruínas humanas – e assim se passaram alguns anos desde o meu último problema de saúde.

Embora mais grosso, meu joelho esquerdo é menos firme que o direito. Foi jogando futebol em priscas eras que ele estourou, mas ultimamente não me lembro de sentir nada de errado por aquelas bandas. Marquei uma cirurgia para substituir a articulação do joelho, a ser realizada por um especialista famoso (cujo nome aparece no programa do Metropolitan Opera, na coluna dos principais apoiadores), mas mudei de ideia na última hora, optando por outra solução – injeções de pelo de rã sintético ou crista de galo, uma coisa assim –, e as dores que me atormentavam milagrosamente desapareceram. Agora, ao caminhar na rua, sempre uso bengala – “Para de apontar isso!”, me lembro da Carol, minha mulher, me dando bronca –, o que me proporciona uma ligeira e agradável vantagem na hora de chamar um táxi.

A região médio-inferior da coluna está torta e sinuosa como uma estradinha secundária em Connecticut, resultado de uma hérnia de disco surgida há sete ou oito anos. Uma brincadeira que me custou 6 ou 7 centímetros de altura: já fui como Gary Cooper e agora estou mais para Gepeto. Depois de passar dias gemendo no chão, me aplicaram uma bendita anestesia epidural, pondo fim ao tormento. “Agora você pode sentar”, disse o médico, tirando da cabeça a touca de banho. “Me diga uma coisa, já ouviu falar de Dominic Chianese?”

“Não é o Tio Júnior?”, respondi, confuso. “Daquela série… ?”

“É, é ele mesmo”, disse. “Bem, a gente tem um quarteto de bandolins, e nas quartas à noite tocamos no hotel Edison. Será que você não poderia plantar uma notinha na New Yorker?”

Já passei por poucas e boas, mas consegui evitar o pior. Tenho consciência da minha sorte, e secretamente bato na madeira, agradeço por mais um dia e sinto um prazer furtivo por ter sobrevivido tanto. As dores e os insultos são suportáveis. Ainda que minha conversa talvez esteja ficando coalhada de lacunas e pausas, aprendi a enviar uma discreta patrulha apache até a frase seguinte, aquela que está despontando no horizonte, a fim de verificar se há algum lapso na paisagem mais adiante. Se me enviam sinais, faço uma pausa significativa, ahn-ahn, até que me ocorra algo diferente para dizer.

Por outro lado, ainda sei quem é Keats, ou Dick Cheney, e sempre me lembro do que preciso ir buscar na tinturaria. Por enquanto, ainda não estou como Christopher Hitchens, Tony Judt ou Nora Ephron; ou seja, não morri, tampouco vegeto numa instituição no interior do estado. O declínio e o desastre pairam sobre mim, mas prefiro não pensar nisso. Não me admira se, nessa mesma hora na semana que vem, eu estiver rodeado de parentes – todos tristes e chocados, mas também um pouco irritados por estarem ali –, decidindo, depois do ocorrido, o que fazer comigo. Deve ser essa permanente sensação de ter sobre a cabeça um cofre de 2 toneladas pendendo da ponta de uma corda roída, que faz com que todos se mostrem tão contentes ao me ver de novo. “Nossa, você está muito bem! Qual é o segredo?”, exclamam bondosamente quando me encontram por acaso na rua ou deixando uma sala de raio X, enquanto no pequeno balão sobre suas cabeças dá para ler com toda a clareza: “Caramba – ele ainda consegue ficar de pé!”

Melhor seguir em frente. Tivemos um fox terrier de pelo liso, o Harry, que sempre vinha com surpresas. Desenfreadamente sociável, como tantos de sua raça, o amadurecimento o tornou um pouquinho mais contido, e ele aprendeu a cultivar um relacionamento animado e particular com cada novo visitante ou velho conhecido que encontrasse na sala de estar. Quando os meus amigos chegavam para jantar em casa, ele despertava da soneca do início da noite e, tranquilo, rodeava a mesa, arremedando o maître de um restaurante três estrelas: Tudo bem com vocês? Está faltando algo? Como estava ocrème brûlée? Embora os terriers não sejam cães aquáticos, Harry apreciava quando saíamos de caiaque no Maine, sentado imóvel como uma carranca entre as minhas pernas durante uma hora ou mais, mirando os corvos-marinhos e os iatistas de passagem. De volta à cidade, consolidou na vizinhança sua beleza e fama de simpático a ponto de uma artista local chegar a fazer retrato a óleo dele, de frente, com técnica pontilhista, usando como base uma foto que ela tirou furtivamente no Central Park. Harry partiu (outra das suas surpresas) numa tarde de junho há três anos, poucos dias depois de completar 8 anos. Sozinho em nosso apartamento no 5º andar, como sempre durante o dia, ele ficou desconcertado com uma forte trovoada e saltou de uma das janelas da sala – que tinha ficado ligeiramente aberta devido ao calor sufocante daquele dia. Eu o conhecia bem e pude imaginar o que ele deve ter sentido na breve duração dessa queda: o frescor bem-vindo da chuva no focinho e nos ombros, a vibração do ar e do espaço livre em volta do corpo estirado.

Agora na minha décima década, posso testemunhar que a desvantagem da idade avançada é o espaço que se abre para notícias desagradáveis. Viver muito já é mais que suficiente. Quando Harry se foi, Carol e eu não conseguimos segurar as lágrimas; dispusemos o corpo dele no banheiro, sobre um tapetinho, e ficamos admirando os trechos pardos mais claros no dorso e o tom quase preto das orelhas ainda escurecidas pela chuva, passando de um para o outro uma caixinha com lenços de papel. Nem todas as lágrimas eram para ele. Dois meses antes, minha linda filha, a mais velha, dera um fim à vida, e a força e o mistério oceânicos desse acontecimento não haviam deixado espaço ao pranto. Podíamos enfim chorar sem trava nenhuma, por Harry, por Callie, por nós mesmos. Harry nos libertou.

Fazer uma ou outra observação sobre a idade é o que pretendo aqui, mas é inevitável que eu me estenda um pouco sobre a perda. “A maioria das pessoas da minha idade já morreu. Pode conferir”, como disse o jogador Casey Stengel, que na época tinha 75. Para os sociólogos, na atual sociedade talvez a frase de Casey fosse mais apropriada à faixa dos 85 anos, mas a ideia continua valendo. Nós, os tiozinhos, carregamos uma agenda atulhada de nomes dos nossos mortos: maridos ou esposas, filhos, pais, amantes, irmãos e irmãs, dentistas e analistas, companheiros de trabalho, amizades de férias, colegas de escola e chefes – em algum momento, conhecemos todos eles, integraram nossa inabalável paisagem cotidiana. Não me admira, portanto, que estejamos um tanto encurvados. Mais surpreendente, para mim, é o fardo crescente de essas partidas não terem nos soterrado, e que mesmo a dor de uma perda quase intolerável logo ceda lugar a uma sensação mais distante, ainda que insistentemente bruxuleante. Os mortos se foram, mas seus gestos, olhares e tons de voz, e até mesmo algumas peças de roupa – aquele lenço amarelo-pálido da Saks – ressurgem de modo inesperado, tal como os respectivos laivos de ternura ou irritação.

Nossos mortos quase são em número maior do que podemos contar, e queremos arrebanhá-los, conduzi-los e encerrá-los em alguma parte a fim de mantê-los em ordem. Gosto de pensar nos meus como se fossem companheiros de um cruzeiro a bordo do Île de France (uma ideia surrupiada do filmeOutward Bound). Ali está meu pai, ainda muito elegante em seu smoking, acendendo um Lucky Strike. E Ted Smith, prestes a mencionar sua cidade natal, Gloucester. E, mais adiante, Slim Aarons. E Esther Mae Counts, do 4º ano do primário: como vai, Esther Mae? Olha ali o Gardner – com Cecille Shawn, por alguma razão. Veja, é o Ted Yates. Anna Hamburger. Colba F. Gucker, mais conhecido como Chefe. Bob Ascheim. Victor Pritchett – e Dorothy. Henry Allen. Bart Giamatti. Minha prima mais velha, Jean Webster, que casou tardia e inesperadamente com um inglês, Capel Hanbury. Kitty Stableford. Dan Quisenberry. Nancy Field. Freddy Alexandre. Olho ao redor em busca de outros e às vezes quase consigo evocar alguém a meu bel-prazer. Callie está de volta, num telefonema. “Pai?” É ela, não há dúvida, sua voz um pouco mais alta, mas terna – “Pa-ai?” –, com uma ponta de impaciência. Está com pressa. E agora Harold Eads. Toni Robin. Dick Salmon, o rosto afogueado de tanto rir. Edith Oliver. Sue Dawson. Herb Mitgang. Coop. Tudie. Elwood Carter.

Esses nomes – melhor armazenados na memória do que encaixotados e removidos para algum lugar. Velhas cartas são interessantes, mas em conjunto lembram documentos históricos, e os álbuns de fotos, embora encantadores, deixam um travo soturno, como calda de chocolate. Já os filmes amadores são sensacionais: Zeke, um labrador há muito desaparecido, de novo vivo, correndo de um lado para o outro com a bola de tênis na boca; minha irmã Nancy, arrasadoramente linda aos 17, fumando um cigarro manchado de batom a bordo do Astrid, a brisa agitando o cabelo castanho preso num rabo de cavalo; minha mãe rindo, e mais uma vez escapando para fora do quadro, agitando constrangida as mãos diante do rosto – tinha na época uns 35 anos. E eu, aos 11, sentado de pernas cruzadas, debaixo de uma mesa de pingue-pongue. Ó, nos deixe em paz.

Minha lista de nomes é banal mas assombrosa, e não passa de uma fração ínfima: são apenas aqueles que emergem em um ou dois minutos. Todos com mais de 60 anos sabem disso, mas só que tem uma diferença: minha lista é mais comprida. Não que eu fique repassando com frequência, mas, quando acontece, o batalhão de mortos lá está, a postos, alerta e de prontidão. Por que eles me apoiam tanto, me alegram tanto, me recordam da vida? Não entendo. Por que não me vejo tomado de uma tristeza sem fim?

Agora, o que realmente importa é o atendente de jaleco branco da memória, me passando em silêncio as amostras laboratoriais de mim mesmo. Dias antes de morrer, há quase dois anos, Carol ficou semiconsciente na cama, em casa, alternando períodos em que respirava de maneira fraca ou imperceptível e outros nos quais a respiração era profunda, entrecortada e ofegante. Em seguida, num gesto delicado, passava levemente a ponta da língua na arcada superior dos dentes. Vez após outra esse mesmo gesto se repetia. Já me esqueci – graças a Deus, talvez – de tanta coisa que ocorreu naquela derradeira semana e nas semanas seguintes, mas essa é uma imagem que sempre volta.

Carol continua por aqui, ainda que nem sempre eu possa contar com ela. Durante quase um ano, eu costumava despertar da breve soneca do final da tarde na poltrona da sala e, por um momento, antes de recobrar a lucidez, eu a sentia sentada na outra cadeira, bem em frente. Não era um fantasma, mas uma presença, tão viva quanto antes e no mesmo instante de novo desaparecida. Ocorria com frequência, e quase cheguei a contar com isso, mesmo sabendo que não iria durar. E um dia acabou.

Gente da minha idade, e também amigos mais jovens, parece ser capaz de relembrar quadros inteiros da infância, assim como trechos da aurora de suas vidas: conversas, determinadas comidas, festas de aniversário, doenças, piqueniques, pousadas de férias, idas ao balé, aquela vez em que… Não é o que acontece comigo, e isso me incomoda, mas aí, sem qualquer aviso, do nada, algo emerge. Estou andando pela Ludlow Lane, em Snedens, com minhas duas filhas pequenas, numa manhã de verão, anos atrás. Tenho quase 40 anos, e elas, 9 e 6, e estou me queixando da subida íngreme até a nossa casa, no alto da colina. Talvez eu esteja ficando velho, comento. Em seguida, digo que um dia vou ficar velho de verdade e elas vão ter que cuidar de mim. Imito um velho balbuciando algo sem sentido e começo a andar com passos trôpegos. Callie e Alice dão gargalhadas e me amparam, uma de cada lado. Quando paro, elas querem mais, e repetimos a cena sem parar.

Estou renunciando a muita coisa, claro. O trabalho – bem, ainda estou trabalhando, mais ou menos. Leio muito. O mundo que desmorona, e sua inevitável insistência. Coisas que me deixam o tempo todo excitado ou deprimido. A rotina diária – mas como explicar isso? Talvez com o comentário recentemente feito no Facebook por uma mulher que conheço e vive na Austrália. “Santo Deus, acabou a noz-moscada!”, ela diz. “Como isso foi acontecer?” Nos últimos tempos, é assim que correm muitos dos meus dias.

Pessoas íntimas e parentes – estes, no meu caso, agora não tão próximos, mas sempre ao alcance, sempre ao meu lado. Meus filhos Alice e John Henry e a minha nora Alice – pois é, mais uma Alice–, e minhas netas Laura, Lily e Clara, que juntas e separadamente se mostraram tão implacáveis quanto um pelotão de fuzileiros navais no dia em que enterramos Carol. E também em outros dias, e de outras maneiras. Por exemplo, Laura, que, quando necessário, aparece quase de um dia para o outro pronta a me levar de carro, juntamente com meu cão e minhas coisas, por 800 quilômetros até a costa do Maine, e depois refaz o mesmo trajeto de volta no final do verão. Horas de conversas e de sono (meu, não dela) e renovação – os moinhos abandonados em Lawrence, Massachusetts, a Cat Mousam Road, o rio Narramissic ainda por lá – além de um par de noites em comum, à luz das velas do verão.

Amigos em profusão me levam para jantar ou cozinham para mim em casa. (Uma tarde, topei com um frango recém-assado diante da minha porta; duas horas depois, outro surgiu no mesmo lugar.) Amigos me convidam para a ópera, ou para ir ao supermercado no domingo de manhã, ou para jantar com seus filhos numa delicatéssen, ou para um casamento na capela Rockbound, ou aparecem em casa com sorvete para assistirmos a mais um jogo dos Yankees. Eles me salvaram a vida. No primeiro verão depois que Carol se foi, conversei com um conhecido não muito próximo, mas que há décadas eu encontrava com prazer, sobre rotinas alteradas, médicos, passeadores de cães, e sobre a revista. Então fiz uma pausa, e ele disse: “Além disso, você tem a gente.”

Numa ocasião anterior, ouvi outra frase, também breve e comovente. Certa tarde, numa época em que pensava ter perdido quase tudo, disse a meu analista de longa data: “Não sei como vou superar tudo isso.” Silêncio, e aí: “Também não sei. Mas você vai conseguir.”

Sou um resmungão de primeira, mas admito que me invade uma alegria inegável diante do meu uísque Dewar’s no começo da noite, de Robinson Cano entre os batedores de beisebol, das páginas iniciais (mais uma vez) de Encontro em Samarra ou dos últimos versos de “Poem”, de Elizabeth Bishop. Quando ouço os mais breves acordes de Handel ou Roy Orbison, ou Dennis Brain tocando os primeiros compassos de seus assombrosos concertos de Mozart para trompa. (Esse disco da gravadora Angel talvez tenha sido uma das primeiras compras que Carol e eu fizemos logo depois do casamento, e posso ouvi-lo em uma manhã ensolarada de domingo na vitrola do apartamento sem elevador da rua 94.) Também os rostos relembrados e depois os nomes de Jean Dixon ou Roscoe Karns ou Porter Hall ou Brad Dourif em mais uma reprise no Netflix. Chloë Sevigny em Ponto de Encontro. Gail Collins num de seus dias bons. Patinação no gelo com a família perto do Harlem na década de 80, com os empregados do parque, chapados de juventude ou de fumo, girando ao nosso redor e sorrindo.

Pesquisas recentes e não tão recentes (entre as quais o Grant Study, que acompanhou por seis décadas alguns alunos de Harvard formados na década de 40) confirmam que a maioria de nós, com mais de 75 anos, continua a se surpreender com momentos felizes. Podem me incluir nessa lista. Nossos filhos são adultos e vivem suas vidas – que, esperamos, sejam plenas e satisfatórias. Quanto a nós, as ambições ficaram para trás. Se nossas mulheres ou maridos continuam com a gente, sentimos um fio de contentamento escorrendo das confiáveis nascentes da rotina, da afeição palpitante em longos silêncios, da calma presente no ligeiro tédio de velhos amigos, das histórias repetidas, das opiniões antiquadas. E também o débil resfolegar dos golfinhos emergindo à superfície do mar sob nossas janelas noturnas.

Nós, os matusaléns – mas, afinal, que espécie de criatura é essa, algo entre uma árvore e uma enguia? –, nós, os mais velhos, aprendemos um ou dois truques, entre os quais o da invisibilidade. Estou conversando com amigos de confiança – velhos amigos, ainda que na verdade não tão velhos assim: estão na faixa dos 60 – e, enquanto matamos o vinho, discutimos um assunto sério, como o aquecimento global em Nyack ou o travestimento de Virginia Woolf. Aproveito uma pausa e falo alguma coisa. Eles me olham com cortesia e então retomam a conversa exatamente no ponto em que haviam parado. Como assim? Com licença? Não acabei de dizer algo? Por acaso deixei a sala? Ou tive o que os neurologistas chamam de AIT – Acidente Isquêmico Transitório? Não era minha intenção dominar a conversa, mas algum tipo de reação cairia bem. Não nessa noite, porém. (Há conhecidas minhas que começaram a notar isso depois dos 50.) Quando menciono o fenômeno a alguém na minha faixa etária, recebo acenos de cabeça e sorrisos de confirmação. É verdade, passamos a ser invisíveis. Estimados, respeitados e até amados, mas não mais interessantes a ponto de valer a pena prestar atenção em nós. Você já teve a sua vez, tio; agora é a nossa.

Venho me perguntando por que não penso sobre essa visitante prestes a chegar, a morte. Ela não me saía da cabeça há três ou quatro décadas, se bem que como uma estranha. Naquela época a morte me apavorava, pois eu tinha muitos compromissos. A situação oposta e compulsória – nenhum encontro para jantar ou exercícios de sedução, nenhum negócio urgente, nenhuma diversão, nenhuma chamada, nenhum afazer, nenhum toque ou palavra de resposta – deixou um vazio que eu não posso avivar nem preencher: uma situação que conhecia de pesadelos infantis e despertares bruscos. Bem, ainda não, pelo menos não logo mais, provavelmente não, assim eu costumava me consolar e, com o passar do tempo, esse adiamento bem-vindo, mas tediosamente repetido, acabou virando menos uma ameaça do que uma obrigação familiar – chá com a tia Molly em Mont-clair, um dia desses, mas não agora. Enquanto isso, a morte estava constantemente no palco ou mudando de traje para a cena seguinte – como o carrancudo jogador de xadrez do filme de Bergman; o cavaleiro noturno de rosto encoberto da Idade Média; o visitante desajeitado de Woody Allen, tropeçando ao entrar no quarto pela janela; o sujeito de camisola reluzente em W.C. Fields – e no meu espírito ela deixou de ser um espectro para se tornar uma celebridade pouco importante, esperando a hora de ser entrevistada no programa de David Letterman.

Ou quase isso. Alguns conhecidos meus pareciam ter perdido todo o medo quando agonizavam, chegavam até mesmo a aguardar o fim com impaciência. “Estou cheio de ficar aqui deitado”, disse um deles. “Por que está demorando tanto?”, perguntou outro. A morte vai acabar batendo à minha porta, e ficar por muito tempo, e mesmo que não esteja ansioso por tal encontro sei que agora já a conheço quase que bem demais.

Em mim, e em todos nós, também há outro tipo de fastio em relação à morte, embora a gente mal se dê conta disso. Nós nos tornamos seus incansáveis voyeurs: ela está no noticiário, na edição matutina, na noturna e também na da hora do almoço – não estou me referindo à morte de celebridades, mas à morte de todos nós, os mais comuns dos mortais. Alguém atropelado à beira da estrada, coberto com um lençol. Uma família morta, retirada de um prédio em ruínas, esburacado por balas, bem longe daqui. Os mortos em acidentes de trânsito. Os mortos em inundações, furacões e tsunamis, incluídos na categoria “vítimas”. Os caídos em combate, apresentados em silêncio na tela da tevê, com aparência jovial e bem cuidada. Os inimigos abatidos no campo de batalha, os recém-descobertos mortos em guerras, em quantidade cada vez maior. Números assombrosos e atordoantes não só das guerras deste ano, mas das anteriores, e de outras mais antigas, e das quais alguns de nós até participaram. Todas as mortes em conflitos, acidentes naturais, tiroteios em escolas, crimes urbanos, brigas domésticas de que cada um de nós escapou por pouco – e diante das quais nos sentimos mal, e pretendemos visitar os locais e deixar coroas de flores ou flores de papel.

Não há como negar: nunca há nada de novo quando se trata da morte, com exceção de seu aperfeiçoamento. Mesmo que de segunda mão, nós nos tornamos peritos em morte; sabemos mais a seu respeito do que os médicos-legistas, nos sentimos tão à vontade com ela quanto aqueles pobres-diabos de séculos atrás tentando sobreviver a epidemias que devastavam continentes. A morte é uma merda, mas… – bem, é melhor mudar de canal.

Eu vou levando. Vez por outra me ocorre que, aparentemente, tenho mais vigor e esperança que alguns de meus coetâneos, mas não é o caso de me vangloriar. Não frequento clubes de leitura ou de bridge; não estou aprendendo mandarim nem progredindo em algum instrumento. Em um esforço esporádico para evitar que o cérebro seja tomado pelo bolor, comecei a decorar poemas curtos – de Auden, Donne, Ogden Nash e outros –, que recito para mim mesmo quando, à noite, saio com o meu fox terrier Andy, o sucessor de Harry.

Também passei a escrever um blog, e estou gostando da facilidade e liberdade dessa forma de publicação: é um pouco como fazer aviõezinhos de papel e depois observar como se saem quando arremessados da janela. Todavia, a essa altura não deveria talvez ter realizado algo mais erudito ou complexo do que isso – parágrafos tardios e sólidos, obras consistentes, referências substanciais no currículo? Ai, ai, temo que não. Os pensamentos sobre a idade são breves, muito breves. Não leio a Bíblia nem me apego a preceitos de vida, exceto talvez aos que o jornalista Walter Cronkite formulou para os velhos, mas que ele nunca declarou ao vivo: Jamais confie em gente metida. Nunca recuse uma bebida. Não despreze uma ereção em hipótese alguma.

Recorro a piadas, e até mesmo a piadas sobre a morte.

PROFESSOR: Bom dia, turma. Como este é o primeiro dia de aula, cada um de nós vai se apresentar. Vou chamar um por um, e vocês vão dizer o nome e, talvez, o que o pai ou mãe de vocês faz. Vamos começar por você, aí no fundo…

MENINO PEQUENO: Meu nome é Irving e meu pai é mecânico.

PROFESSOR: Um mecânico! Obrigado, Irving. O próximo?

MENINA PEQUENA: Eu me chamo Emma e minha mãe é advogada.

PROFESSOR: Que bacana, Emma! O próximo?

OUTRO MENINO: Meu nome é Luke e meu pai morreu.

PROFESSOR: Puxa, Luke, que triste… Todos nós sentimos muito, não é, classe? Luke, você poderia nos dizer o que o seu pai fazia antes de morrer?

LUKE(agarra o próprio pescoço): Ele fazia “N’gungghhh!”

Nada mal – me disseram que os alunos do 4º ano primário adoram essa piada. Outra.

Um sujeito e sua mulher tentavam muito ter um bebê, mas nunca conseguiam. Passam os anos, e eles sempre insistindo, em vão. Como gostam muito um do outro, todo esse esforço é prazeroso, ainda que com o tempo aquilo comece a entristecê-los. Por fim, ela fica grávida e, depois de tomar o máximo de cuidado durante a gravidez, dá à luz um menino com 4 quilos e 200 gramas. O casal não se aguenta de tanta felicidade. Na mesma noite, ainda no hospital, ela pede ao marido que vá ao jornal local e coloque um anúncio de nascimento, para que todos os amigos fiquem sabendo da boa-nova. Na manhã seguinte, ela logo lhe pergunta sobre o anúncio.

“Claro que coloquei”, responde o marido. “Mas não fazia ideia de que essas notas no jornal fossem tão caras…”

“Como assim?”, pergunta a mulher. “Quanto foi?”

“Foram 837 dólares. Está aqui no recibo…”

“Nossa, 837 dólares!”, ela exclama. “Não pode ser! Você deve ter feito alguma coisa errada. Me conte tudo.”

“No jornal, a moça no balcão me entregou um formulário para ser preenchido”, ele começa. “Escrevi o seu nome, o meu, e o nome e o peso do pequeno Teddy, assim como a data em que voltaríamos para casa e estaríamos recebendo os amigos. Devolvi o formulário, ela contou as palavras e perguntou: ‘E quantas inserções?’ Respondi que duas vezes por semana durante catorze anos. E foi só. Daí ela me apresentou a conta…”

Ouvi essa anedota mais de meio século atrás. Minha primeira mulher, Evelyn, e eu fomos convidados para um chá na casa de um casal mais velho e elegante que pouco antes havia se mudado para nossa pequena comunidade no condado de Rockland. Já haviam passado dos 70 e eram muito simpáticos, e naquela ocasião estávamos apenas nós quatro. Tínhamos acabado de nos conhecer e fiquei surpreso quando ele virou para a mulher e pediu que ela contasse a piada do casal que queria ter um filho. “Essa não”, ela replicou, “eles não vão gostar dessa…”

“Vão sim, querida – eles vão adorar”, ele insistiu com um sorriso. Eu me retorci por dentro e já me preparava para uma risada forçada quando ela começou, timidamente. Depois, claro, não conseguíamos parar de rir.

Mais tarde, na mesma noite, Evelyn comentou: “Você notou a expressão do Keith enquanto a Edie contava a piada? E a expressão dela? Você acha que eles ainda… sabe, continuam fazendo?”

“Acho, sem dúvida, fazem sim”, disse. “Estava pensando exatamente nisso. Eles são surpreendentes…”

Naquela época, era uma coisa inusitada, ainda que hoje talvez seja o.k. Me lembro da frase numa coluna do New York Times, escrita por um sujeito que acabara de perder a mulher: “Dormimos nus na mesma cama durante quarenta anos.” E também do meu maravilhoso colega Bob Bingham, agonizando com pouco menos de 50 anos, a quem um amigo perguntou o que lamentava não ter feito, ou o que faria de outro modo se tivesse a oportunidade. Ele pensou um pouco e disse: “Transaria mais.”

Transaria mais. Mais amor; mais intimidade; mais sexo e romance. Não importa como, mas que siga existindo, não importa a idade. Esse clamor, esse ardor, foi confirmado por Simone de Beauvoir e Alice Munro e Laurence Olivier e todos os velhos conhecidos que voltaram a se casar ou a namorar. Laurence Olivier? Pensei nele por causa do que disse numa entrevista: “Por dentro, todos temos 17 anos, e lábios vermelhos.”

Esse é um assunto que exige cautela, sobretudo quando levantado por um viúvo recente como eu, mas vou me arriscar a romper a etiqueta e acrescentar que Carol e eu, vez por outra, chegamos a discutir essa questão. Nenhum de nós via muito sentido numa fidelidade retroativa. Para nós, o cônjuge falecido – e sempre imaginávamos que seria eu –, embora não estivesse mais por perto, sabia ou soubera que seria amado para sempre. Não há por que se conter, querido – siga em frente, não perca tempo. Uma das últimas coisas que ela disse foi: “Se não tiver achado ninguém um ano depois de eu ter partido, bem, só me resta voltar e ficar te azucrinando.”

Ficar velho é a segunda maior surpresa da minha vida, mas a primeira, a léguas de distância, é a incessante necessidade de vínculos profundos e amor íntimo. Nós, da velha guarda, ansiamos todos os dias e todas as horas por conversas, pela domesticidade rotineira, pela companhia no cinema ou no museu, por alguém no carro quando voltamos à noite para casa. É por isso que somos tão numerosos em sites de encontros como Match.com e OkCupid – mas, certamente, não apenas por isso. Remar no Éden (para recordar o verso de Emily Dickinson: “Remando no Éden – / Ah – o mar”) não é algo restrito aos mais ágeis e jovens, aos que estão namorando ou acabaram de se conhecer ou de casar, ou mesmo às semifinais com duplas mistas dos casais na meia-idade, graças a Deus. Não vou fazer aqui nenhuma confissão ou revelação pessoal, mas tais sentimentos nos mais velhos em geral costumam ser tratados como um segredo meio indecente. O fator de invisibilidade – vocês já tiveram a sua vez – volta a se manifestar. Estou convencido, no entanto, de que todos no mundo preferiam estar com alguém hoje à noite, juntos no escuro, ao alcance da doçura tépida de uma coxa, de um pé ou de parte de um ombro descoberto. Aqueles de nós que perderam isso, seja qual for a idade que tenham, jamais perdem o desejo: basta olhar para nós. Diante de uma nova oportunidade, nós a agarramos com avidez, outra vez atordoados e alterados.

Nada é fácil com essa idade, e os primeiros encontros podem ser uma aventura cheia de risco. A reticência e o constrangimento se introduzem no quarto. E também a felicidade. Um viúvo velho e rico que conheci casou-se com uma enfermeira que encontrou no hospital, mas depois tinha dificuldade para lembrar o nome dela. Sempre a chamava de “garota”. Outra conhecida minha, com mais de 80, duas vezes viúva, ainda partilhou um terceiro amor, com um frágil mas vivaz professor do Meio-Oeste que já se aproximava dos 90, e os dois conviveram felizes por dois ou três anos, antes de ele também morrer. Quando ela ligou para os filhos dele e combinou de ir buscar suas coisas, encontrou tudo amontoado no lado de fora da casa em que ambos haviam vivido.

Mas, que se danem eles e tudo isso, não é mesmo? Um brinde a vocês, caros e velhos amigos. Vocês é que estão certos, todos vocês. Lancem o anzol, a linha e o peso – tanto faz por que e como – alguém à noite – que seja um amor para sempre, ou pelo menos até a próxima semana. Para nós e para qualquer um que se sinta incomodado, qualquer um que seja mais jovem e ainda estranhe a ideia de um casal de velhos transando, lembro o que disse John Updike: “Sexo ou morte: eis a escolha” – uma frase que aparece (de forma ligeiramente distinta) num dos seus últimos contos, “Playing with Dynamite”.

Esse é um grande dilema, uma excelente escolha em termos de seguro, quero dizer. Acho até que está incluída em algum artigo da Lei de Seguridade Social. Pode acreditar em nós, que algo aprendemos sobre o vazio da perda, e continuamos a seguir adiante, sabendo que temos sorte e ainda não estamos completamente sós.



13 de novembro de 2015
Roger Angell

terça-feira, 10 de novembro de 2015

LEI CAVALO DE TRÓIA



Suas origens e o esquema das fundações internacionais para legalizar o aborto no Brasil.





O acaso não produz ordem. Essa premissa, básica no pensamento de Santo Tomás de Aquino, tem sobrevivido a todas as épocas e culturas porque se baseia numa análise da realidade que não pode ser refutada. 
Nunca se ouviu dizer que um bolo de cenoura com calda de chocolate tivesse sido produzido sem que uma pessoa, dotada de inteligência, não seguisse a risca uma receita, organizando ingredientes e tempos, a fim de alcançar o ponto certo da massa e a doçura exata da calda. 
Tampouco se ouviu dizer que um livro fosse publicado sem que uma cadeia inteira de inteligências, desde o escritor, passando pelo editor, diagramador e produtor gráfico, não tivessem se debruçado com afinco para a realização de tal obra por um determinado tempo.

Nada acontece por acaso. Mas infelizmente, quando adentramos no mundo político, muitas pessoas realmente acreditam que determinados efeitos de certas leis são fruto do mero acaso, criadas ao léu por gente muito bem intencionada, como se nada daquilo houvesse sido pacientemente planejado e pensado. 

Um exemplo disto foi a recente sanção da presidente Dilma ao famigerado PLC03/2013 - agora batizada de Lei Nº 12.845/2013 - que para imensa maioria das pessoas representa apenas uma lei amiga das pobres mulheres vítimas de estupro, mas que na realidade, tratava de um passo decisivo num longo caminho, iniciado há 25 anos com a vinda da fundação MacArthur ao Brasil, para a implementação do aborto total e irrestrito em nosso país.

Para quem ignora o desenvolvimento da história, os agentes dos acontecimentos, as fontes primárias nas cadeias dos eventos, tudo se torna Teoria da Conspiração. Contudo, quando um agente diz que vai conduzir um processo para atingir determinado fim, quando esse mesmo agente diz que está atingindo suas metas e por fim torna público sua satisfação no trabalho concluído, acreditar em Teoria da Conspiração é agir como um avestruz que enterra a própria cabeça no buraco. Quando afirmamos que a Lei Nº 12.845/2013 pode também ser chamada de Lei Cavalo de Tróia, estamos apenas constatando a realidade tal qual ela se apresenta a quem quer que preste atenção ao próprio executor dos eventos.

No ano de 2004, a Fundação MacArthur, publicou um relatório chamado "Lessons Learned 1990-2002" confessando sua atuação como agente de legalização do aborto no Brasil desde 1988, através do financiamento de ONGS que trabalhariam como lobbystas para aprovação de políticas públicas para o atendimento de mulheres "vítimas de violência de gênero", celebrando a criação da Norma Técnica para o aborto e a criação de uma legislação mais liberal que incluia outras tantas exceções para a aplicação do aborto total e irrestrito no nosso país. 
O eixo desse trabalho, anunciado de antemão por essa fundação seria sempre através da capitalização das vítimas de violência sexual, e assim foi feito desde o começo da década de 90, sendo o PLC 03/2013, a Lei Cavalo de Tróia, apenas mais uma etapa nessa empreitada.

Não por acaso a Lei Cavalo de Tróia, aprovada como PLC 03/2013, se tratava de uma alteração de projeto de lei que tramitava na casa desde 1991, a então PL 20-1991, criada 3 anos após a entrada da Fundação MacArthur no Brasil, e que pretendia a obrigação de se realizar abortos em todos os hospitais do SUS para casos de violência segundo as normas internas criadas pelo Hospital do Jabaquara - o primeiro hospital brasileiro com tecnologia e atendimento para o abortamento previsto para os casos de estupro conquistada pela então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina do PT em 1989. 

A Lei Cavalo de Tróia é o ressurgimento do projeto de lei de 1991, criada pelo PT de São Paulo e Minas Gerais (na época, assinadas pelos deputados Eduardo Jorge e Sandra Starling) e a Norma Técnica que acaba de ganhar força de lei na Lei Cavalo de Tróia e que prevê o abortamento para qualquer mulher em qualquer tempo ou época da gestação, é nada mais do que a extensão a todo o país da norma interna do Hospital do Jabaquara, que foi o grande laboratório do movimento pró-aborto no Brasil.

Quem realmente defende que a PLC03/2013, recentemente sancionada pela presidente Dilma, trata apenas de um instrumento de defesa de pobres mulheres vítimas de estupro, ou está tão mal informado que merece desconfiança ou padece de profunda má-fé. 

Apresentamos abaixo um estudo que documenta e prova que a aprovação do PLC03/2013 foi uma grande vitória dentro de um longo caminho de tentativas insistentes ocorridas em solo nacional por fundações internacionais, associadas a partidos de esquerda - como PT e PSDB - e ONGS feministas financiadas por dinheiro estrangeiro, para a aprovação total e irrestrita do aborto no Brasil. 
Eles disseram que iam fazer, disseram que estavam fazendo, e agora, que a auto-estrada para a prática do aborto no Brasil está feita, não podemos culpar o acaso e a aleatoriedade para com essa triste e quase acabada obra da cultura de morte em nosso país.

Divulgue esse documento entre sua família, seus amigos, sua rede de contatos, e ajude a abrir os olhos de tantos quantos ainda não abriram os olhos para o fato de que o Brasil está sendo assaltado por fundações internacionais associadas a partidos de esquerda e ONGs feministas a olhos vistos, contra a expressa vontade de 87% da população contrárias a prática do aborto. 

Não adianta mais ligar e enviar emails a nossos representantes políticos para pedir que não aprovem o aborto no Brasil através do veto de um outro projeto de lei abortista, é preciso denunciar TODO o esquema fabricado há 25 anos, o envolvimento de políticos com os investimentos de fundações internacionais como a MacArthur, Ford, Rockfeller, deixando claro a todos os políticos brasileiros que nós sabemos o que estão fazendo, suas intenções e projetos, e que ninguém mais pode alegar inocência e ignorância. Esse documento deve ser lido em escolas, paróquias, Igrejas, associações, clubes, e a todas as pessoas de bem desse país.

Cronologia da Leia Cavalo de Tróia, clique aqui para acessar ou copie e cole no seu navegador:

http://www.documentosepesquisas.com/cavalodetroia.pdf


10 de novembro de 2015
Cultura da Vida

DA SIMPATIA CÍNICA À CORRUPÇÃO POLÍTICA



O brasileiro tornou-se recordista mundial da indignação fingida. Somos a terra dos zumbis que se auto-hipnotizaram de tanto respirar o ar fétido das relações insinceras, da informalidade compulsória, da superficialidade transformada em convenção social, da tristeza por motivos fúteis, da dissipação mental com aparência de alegria, da intelectualidade de verniz, da falsa espontaneidade, dos abraços fáceis, dos sorrisos inconseqüentes, do horror a normas e leis, do calor humano que esconde a mais terrível indiferença com relação ao próximo. É como se à nação inteira tivesse sido dada uma demoníaca beberagem, estranho elixir cujo efeito foi tornar as narinas brasileiras insensíveis ao fedor moral.


A estupidez generalizada por todos os estratos sociais, doença coletiva que nos acomete de maneira agônica, vai tornando a genuína amizade uma impossibilidade social. Entre nós, todo benfeitor parece fadado a beber o néctar da ingratidão, a constatar que, por trás da bonomia aparente, do presumível caráter pacífico, o brasileiro acabou por perder o vislumbre da verdadeira solidariedade. Em suma, na terra dos boas-praças, os vínculos interpessoais estão sempre à beira de romper-se: lânguidos, emotivos, hiper-sensíveis, patologicamente susceptíveis, somos um povo cheio de gente afetada por ninharias. Eis o motivo por que uma bobagem pode deflagrar reações desproporcionais, pôr fim a amizades de anos, ou melhor, a amizades fakes. Sim, porque uma amizade que acaba nunca começou — ou então começou torta, ou então começou unilateralmente, ou então começou pelos motivos errados.


Em contrapartida, coisas bastante sérias, atos gravíssimos, infrações éticas cabeludas, nada disso parece capaz de desfazer tais simulacros de amizade — entremeados de maledicência, de inveja, de disse-me-disse. Assim são as relações medíocres: conformadas ao que há de pior, chafurdadas porcinamente na lama, mas sem que ninguém reclame, devido a um tipo peculiar de osmose espiritual. Neste cenário, um sujeito injuria o outro, fala dele pelas costas (ou até pela frente), puxa-lhe o tapete no trabalho, mas tudo bem: ambos continuarão a manter a relação espúria da meia amizade, da empatia frívola medida por atos exteriores convencionais, como prendas de aniversário, telefonemas episódicos e saídas fortuitas para uma cervejinha.


Não é a troco de nada que o brasileiro costuma tomar qualquer objeção como afronta pessoal. Não é à toa que se sente mortalmente atingido ao ouvir pequenas verdades. Acostumado ao compadrio, ao multissecular jeitinho, aos favorecimentos mais ou menos ilícitos, a um horizonte de demagógica paz entre as pessoas, a não dizer o que pensa por medo de ser desagradável, ele virou um ser convenientemente híbrido. Trata-se de umanfíbio adaptável aos ambientes mais insalubres, amoldável às situações mais infames, em meio às quais costuma rir com desonra, tem por hábito escancarar os dentes com o ar mais malicioso do mundo. Sergio Buarque de Holanda, em meados do século passado, mostrou certo faro ao falar do “homem cordial” brasileiro, mas o seu diagnóstico carecia de profundidade filosófica e de base antropológica para poder chegar à clara visão das nossas deformidades.


Em nome da simpatia opressora que paira magicamente sobre as consciências, as pessoas sérias no Brasil são ridicularizadas nas empresas, nas escolas, nos clubes, nas esquinas. Aqui é vergonhoso ser ético, é socialmente condenável agir por princípios morais — pois o princípio geral, a norma consuetudinária de ação, sedimentada ao longo dos anos, é não ter princípio nenhum. Por isso as pessoas a quem o vulgo toma por inteligentes são em geral criaturas hipocritamente abertas a novidades as mais abstrusas. São também criaturas tendentes a seguir a boiada do momento, a opinião vigente difundida por engenheiros sociais. Hoje “somos todos Charlie”, amanhã “somos todos Amarildo”, depois de amanhã “não é apenas por vinte centavos”, e ao final de três dias não é bosta nenhuma — até surgir novo slogan deflagrador do frenesi, da histeria coletiva com ares de razoabilidade.


A nova geração de jovens belicosos, impermeáveis a qualquer opinião que não seja a do seu grupo, é efeito colateral do caráter indolente que dominou a nação por tanto tempo — conseqüência da afetividade desbragada na qual o Brasil foi aos poucos sucumbindo. A valentia desses pobres-diabos, maneira camuflada de auto-emulação, é uma forma lastimável de fraqueza ética. Na prática, valentões e covardões são antípodas complementares, pois entre a sinceridade orgulhosa e o comedimento hipócrita existe um liame secreto. Estes dois arquétipos humanos estão irmanados na hiper-sensibilidade psicótica que cresce a olhos vistos entre nós.


Neste ponto, digamos com tristeza: o brasileiro médio nunca se caracterizou pela afeição à racionalidade, mas sim pela emotividade fluida. Por isso sempre oscilou entre a irreligião de matiz agnóstico e o sincretismo religioso, que é uma forma de superstição — e mesmo o catolicismo em Pindorama sempre tangenciou a nossa atávica inclinação à superficialidade e à afetação social de intenções altruístas. Ora, misturar tudo é não tomar partido de nada, uma maneira elegante de ser covarde, e a verdadeira religiosidade implica ir a águas profundas, viver os dilemas humanos com ânimo corajoso, tomar partido, autoconhecer-se, não ter medo de perder amigos por amor à verdade.


No presente momento, o país está submerso no maior lodaçal político da história da República. Esta desgraça não surgiu do nada, pois é fruto de alguns graves defeitos do Brasil como coletividade difundida no tempo e no espaço. Defeitos que o ex-presidente Lula parece encarnar com notável perfeição: malandro, indolente, esperto, caviloso, preguiçoso, susceptível, etc. Neste cenário, vemos surgir uma profilática ojeriza cívica a gente com o perfil do Sr. da Silva, gente que a população não quer mais ver no poder. Pela primeira vez em muitíssimas décadas, aflora uma indignação veraz da parte das pessoas de bem que não suportam mais o estado de coisas em que vivemos.


É a oportunidade histórica de começarmos a expurgar das instituições tipos humanos representativos do pior que há no caráter nacional — e constatamos isto sem otimismos irresponsáveis, mas apenas como uma luz tênue neste horizonte enevoado.

Afinal de contas, se ao longo do tempo passamos do cinismo em forma de simpatia à corrupção política, será impossível fazermos da atual antipatia por nossos políticos o ponto de inflexão de uma mudança significativa?



10 de novembro de 2015
Sidney Silveira

VOCÊ SABE QUAL É A CAUSA DA OBESIDADE?

A causa da obesidade não é o sedentarismo. A causa da obesidade não é o consumo de “calorias”. A causa da obesidade é o consumo de CARBOIDRATOS, tanto pior quanto maior a quantidade e/ou o índice glicêmico. Açúcar não é alimento, é veneno saboroso. Amido também. 

obesidade
Refrigerante é água com açúcar, gás e aromatizante. Causa, sim, obesidade. Não por ser “caloria vazia”, mas por ser carboidrato – a substância que estimula a produção de insulina, o hormônio que joga o açúcar para dentro das células e impede a gordura de sair de dentro das células.
Pão é uma bomba de carboidratos (além de ter glúten, que aumenta a permeabilidade intestinal de 100% dos seres humanos e aumenta o nível de inflamação sistêmica, que danifica os vasos sanguíneos e aumenta o risco de infartos, AVCs (derrames), tromboses e outros danos, além de aumentar a chance de doenças auto-imunes, mas este artigo é sobre carboidratos). Massa é uma bomba de carboidratos (e também tem glúten). Qualquer doce ou salgadinho é uma bomba de carboidratos. Batata é uma bomba de carboidratos.
Frutas não são tão inocentes como se pensa. As mais vendidas são verdadeiros doces que dão em árvores. Foram tão modificadas por seleção artificial para conter mais açúcar que são verdadeiras bombas de carboidratos.
Se você quer ou precisa emagrecer, precisa cortar os carboidratos da dieta. Não adianta fazer exercícios. Não adianta cortar as gorduras. Tem que cortar os carboidratos (e os óleos vegetais de soja, milho, girassol e canola, que também são obesogênicos e causam outros problemas de saúde, como um grande aumento da vulnerabilidade ao câncer, mas, de novo, este artigo é sobre obesidade e carboidratos).
Para emagrecer e cuidar de sua saúde, faça uma dieta paleolítica de baixo carboidrato.

10 de novembro de 2015
Arthur Golgo Lucas

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

PIADA DO ANO...

PIADA DO ANO: LULA DEVOLVE TRIPLEX E QUER RECEBER OS R$ 47 MIL


Marisa e Lula mudam a história do triplex… 
A mulher do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Marisa Letícia, desistiu de ficar com um apartamento triplex na praia das Astúrias, em Guarujá (SP), construído e comercializado pela empreiteira OAS, segundo a assessoria do petista.
Marisa visitou o condomínio algumas vezes, já que tinha a opção de compra do imóvel, mas vai pedir por meio de seus advogados que a OAS devolva o valor que ela investiu na fase de construção do prédio, informou a assessoria.
Lançado pela cooperativa habitacional Bancoop, o empreendimento foi transferido para a OAS em 2009 após a cooperativa entrar em crise financeira.
O Ministério Público de São Paulo afirma que o rombo nos cofres da Bancoop ocorreu em razão de desvios promovidos por ex-dirigentes da cooperativa, entre eles o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, preso na operação Lava Jato sob a acusação de intermediar propinas ao PT resultantes do esquema de corrupção na Petrobras. Vaccari nega a prática dos crimes.
A OAS também é acusada na Lava Jato por supostamente ter pago suborno para obter vantagens em contratos da estatal de petróleo. A empreiteira diz que não cometeu delitos.
VISIBILIDADE
Como informado pela Folha em dezembro, Lula e Marisa passaram a cogitar desistir da aquisição do imóvel após no fim do ano passado, quando o triplex ganhou visibilidade na imprensa.
À época, corretores locais avaliavam que o preço do imóvel seria de R$ 1,5 milhão. Na eleição de 2006, Lula informou à Justiça Eleitoral ter pago à Bancoop R$ 47.695,38 pelo apartamento.
A assessoria de Lula informou que o investimento de Marisa durante a fase de construção do prédio continuou até 2010, mas não informou o total despendido para garantir a opção de compra da unidade.
Com a decisão de agora, Marisa vai pedir a devolução dos valores pagos durante a fase de construção do condomínio nas mesmas condições oferecidas aos cooperados da Bancoop que desistiram do negócio, segundo a assessoria de Lula.
O condomínio em Guarujá é constituído por duas torres com quatro unidades por andar e é localizado na avenida da praia das Astúrias, em Guarujá. O triplex fica no 16º andar, de frente para o mar. Tem área de 297 m², sala com varanda e uma piscina de 3 m x 4 m e 80 cm de profundidade.
DECORAÇÃO
Em outubro a revista “Veja” informou que a OAS pagou por benfeitorias no triplex, entre elas a instalação de um elevador privativo.
Procurada pela Folha, a OAS informou que o triplex ainda não foi vendido e ainda pertence à construtora. Sobre as obras na unidade, a construtora afirmou que “apenas foram feitas obras para decorá-lo, instrumento de venda usual no mercado e adotado pela empresa em vários de seus empreendimentos”.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Era só o que faltava. Com a cumplicidade da Folha, Lula e d. Marisa mudam a história do triplex. O imóvel pertencia a ela, que o comprara por R$ 47 mil da cooperativa do amigo Vaccari, e foi até declarado por Lula à Justiça Eleitoral. Agora, já não pertence mais. A distraída d. Marisa, coitada, tinha apenas uma opção de compra, que jamais concretizou. Mas quer os R$ 47 mil de volta. Como se vê, é uma história mais fantasiosa do que a venda de carne moída por Eduardo Cunha. Merece o título de Piada do Ano. (C.N.)

09 de novembro de 2015
Flávio FerreiraFolha

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

ASTROFÍSICA ATÉIA SE CONVERTE A CRISTO: "EU PERCEBI QUE EXISTE UMA ORDEM NO UNIVERSO".



Repercutiu em sites de todo o planeta, recentemente, o testemunho de pesquisadora do Departamento de Astronomia da Universidade do Texas e professora de Astrofísica na Universidade Southwestern. A incrível história de Sarah Salviander e sua conversão a Cristo começa com os seus estudos científicos e culmina com a morte da filha. Vale a pena investir cinco minutos em ler o depoimento dela.

Eu nasci nos Estados Unidos e fui criada no Canadá. Meus pais eram ateus, embora preferissem se definir como ‘agnósticos’. Eles eram carinhosos e mantinham uma ótima conduta moral, mas a religião não teve papel nenhum na minha infância”.

“O Canadá já era um país pós-cristão. Olhando em retrospectiva, é incrível que, nos primeiros 25 anos da minha vida, eu só conheci três pessoas que se identificaram como cristãs. 
A minha visão do cristianismo era intensamente negativa. Hoje, olhando para trás, eu percebo que foi uma absorção inconsciente dessa hostilidade geral que existe no Canadá e na Europa em relação ao cristianismo. Eu não sabia nada do cristianismo, mas achava que ele tornava as pessoas fracas e tolas, filosoficamente banais”.

Aos 25 anos, quando abraçava a filosofia racionalista de Ayn Rand, Sarah entrou em uma universidade dos EUA: “Entrei no curso de Física da Eastern Oregon University e percebi logo a secura e a esterilidade do objetivismo racionalista, incapaz de responder às grandes questões: qual é o propósito da vida? De onde foi que viemos? Por que estamos aqui? 
O que acontece quando morremos? Eu notei também que esse racionalismo sofria de uma incoerência interna: toda a sua atenção se volta para a verdade objetiva, mas sem apresentar uma fonte para a verdade. 
E, embora se dissessem focados em desfrutar a vida, os objetivistas racionalistas não pareciam sentir alegria alguma. Pelo contrário: estavam ferozmente preocupados em se manter independentes de qualquer pressão externa”.

A atenção da jovem se voltou completamente ao estudo da física e da matemática.
“Entrei nos clubes universitários, comecei a fazer amigos, e, pela primeira vez na minha vida, conheci cristãos. Eles não eram como os racionalistas: eram alegres, felizes e inteligentes, muito inteligentes. Fiquei de boca aberta ao descobrir que os meus professores de física, a quem eu admirava muito, eram cristãos. 

O exemplo pessoal deles começou a me influenciar e eu me via cada vez menos hostil ao cristianismo. No verão, depois do meu segundo ano, participei de um estágio de pesquisa na Universidade da Califórnia, num grupo do Centro de Astrofísica e Ciências Espaciais que estudava as evidências do Big Bang. Era incrível procurar a resposta para a pergunta sobre o nascimento do Universo. 

Aquilo me fez pensar na observação de Einstein de que a coisa mais incompreensível a respeito do mundo é que o mundo é compreensível. Foi aí que eu comecei a perceber uma ordem subjacente ao universo. Sem saber, ia despertando em mim o que Salmo 19 diz com tanta clareza: ‘Os céus proclamam a glória de Deus; o firmamento anuncia a obra das suas mãos’”.

Depois desse insight, a razão de Sarah foi gradualmente se abrindo ao Mistério:
“Comecei a perceber que o conceito de Deus e da religião não eram tão filosoficamente banais como eu pensava que fossem. Durante o meu último ano, conheci um estudante finlandês de ciências da computação. 

Um homem de força, honra e profunda integridade, que, assim como eu, tinha crescido como ateu num país laico, mas que acabou abraçando Jesus Cristo como o seu Salvador pessoal, aos 20 anos de idade, graças a uma experiência particular muito intensa. Nós nos apaixonamos e nos casamos. 
De alguma forma, mesmo não sendo religiosa, eu achava reconfortante me casar com um cristão. Terminei a minha formação em física e matemática naquele mesmo ano e, pouco tempo depois, comecei a dar aulas de astrofísica na Universidade do Texas em Austin”. 


06 de novembro de 2015
movcc

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

ORATÓRIA DO PODER

Vultos da República

Quem é a turma que põe palavras na boca dos chefes de Estado



Numa tarde de setembro passado, circulando a bordo de um par de suspensórios cor de lavanda, Marco Aurélio Garcia mostrava o seu pequeno latifúndio – agora ampliado – no 3º andar de um recém-reformado Palácio do Planalto. Assessor especial de política externa de Luiz Inácio Lula da Silva desde o primeiro mandato do presidente, há mais de quinze anos Garcia tem o ouvido do companheiro petista para questões internacionais. Sabe ser espaçoso quando quer e sumir do noticiário quando necessário.

Na ocasião, faltavam pouco mais de duas semanas para o primeiro turno da eleição em 3 de outubro e “mag”, como é identificado na correspondência palaciana, estava fascinado com a leitura de Nixon e Kissinger: Parceiros no Poder, do historiador americano Robert Dallek. Crônica definitiva da parceria de Richard Nixon com seu secretário de Estado Henry Kissinger na condução da política externa da Casa Branca entre 1969 e 1974, a obra é um deleite para quem atua nessa área. O acesso inédito a 20 mil páginas de transcrições de telefonemas oficiais de Kissinger permitiu ao historiador escancarar as motivações pessoais por trás das maquinações públicas e privadas da dupla.

“Não sei como os dois conseguiram sobreviver. Foi um enfrentamento permanente, uma guerra”, constata Garcia. “Se eu trabalhasse numa situação de confronto semelhante, teria pedido o boné depois do primeiro mês”, garante ele. Professor licenciado do Departamento de História da Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas, esse gaúcho bon vivant e de humor afiado, acaba de ser mantido no cargo pela presidente eleita Dilma Rousseff.

Exatamente há um ano, em dezembro de 2009, Garcia e Rousseff testemunharam um momento de oratória do poder ou – para os admiradores de Luiz Inácio Lula da Silva – de poder da oratória, do qual tiraram ensinamentos distintos. Ambos integravam a delegação brasileira presente à Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a cop 15 – mag como assessor especial e coautor do discurso oficial que Lula pronunciaria, Dilma como futura candidata oficial à sucessão do presidente. Para a então chefe da Casa Civil, aquela cúpula de 113 chefes de Estado e de governo reunidos em Copenhague, na Dinamarca, era uma chance para observar estadistas em exercício conspícuo do cargo.

Lula leu seu discurso numa quinta-feira, véspera do encerramento da conferência que já rumava para seu inexorável naufrágio e à qual o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, só compareceria no último dia. Recebeu os esperados encômios ao apontar a teimosia com que países ricos punham o planeta em risco e anunciou que o Brasil assumia o compromisso de reduzir suas emissões de gases do efeito estufa entre 36,1% e 39,8% até 2020. À noite, haveria um banquete real oferecido pela rainha Margrethe ii no faustoso Castelo Christiansborg.

Ainda antes do banquete, contudo, pôs-se em marcha uma romaria de chefes de governo para falar com Lula no Hotel d’Angleterre. Houve encontros com Gordon Brown, da Inglaterra, e Lars Løkke Rasmussen, primeiro-ministro dinamarquês, que se mostrou um tanto desanimado com os descaminhos da cúpula. Houve confabulações com o sempre saliente Nicolas Sarkozy, da França, e com a despojada chanceler Angela Merkel, da Alemanha.

Terminado o banquete, seguiram-se mais encontros noite adentro, a ponto de o presidente Lula comentar que nem nos seus tempos de cut tinha lembrança de algo tão bagunçado. Foi naquela madrugada que o telefone do quarto de Marco Aurélio Garcia começou a tocar. Primeiro foram os delegados de alguns hermanos latino-americanos, querendo saber o que o presidente brasileiro negociava sem a presença deles. Em seguida, Garcia atendeu Celso Amorim que, também acondicionado na cama, lhe informou que os organizadores da cúpula acabavam de avisar que Lula deveria discursar uma segunda vez na manhã seguinte, na ocasião do encerramento da conferência. Tradução: urgia a elaboração de novo texto de discurso.

Assim, na manhã da sexta-feira, Garcia se instalou com o laptop no foyer do Bella Center, o qg da cop-15, e começou a alinhavar um aide-mémoire a partir de ideias colhidas com Amorim. Estava ciente de que não haveria tempo hábil para preparar um novo discurso. Enquanto isso, Lula fazia reuniões de última hora com os primeiros-ministros da China e da Índia, além do presidente sul-africano, na tentativa de esboçar uma linha comum de ação.

“De repente”, relembrou Garcia, “vi pessoas se aglomerarem diante das telas de televisão. E ouço a voz do Sérgio Ferreira [o intérprete de Lula há 18 anos] se esmerando na tradução. Levantei, fui ver o que era e na tela estava Lula, já na tribuna do plenário, fazendo seu discurso de improviso. Não tinha à mão qualquer anotação, citava os dados do dossiê de cabeça. Exerceu o que chamamos de lulismo às últimas consequências. Saiu da tribuna sob ovação.”

Dilma Rousseff assistiu à mesma cena mais de perto. Única integrante da delegação brasileira a já estar na plateia, presenciou o presidente ser convidado a abrir os debates, embora estivesse escalado para ser o terceiro ou quarto orador da sessão. “Não havia papel que ele pudesse consultar, o Marco Aurélio tinha sumido”, conta um membro da equipe que ouviu o relato de Dilma. “A capacidade de improvisação de Lula naquela sessão plenária informal a estarreceu.”

Para a economista pouco palanqueira, que no primeiro sábado de 2011 se torna a 36ª presidente da República, a oratória como “arte de conquistar a alma” não cai fácil. Aos 63 anos de idade e perfil essencialmente técnico, a presidente eleita passará por um batismo triplo nas próximas semanas. Ele se inicia no dia 17 deste mês, no Salão Vermelho do Tribunal Superior Eleitoral, onde Dilma deve discursar após ser diplomada para exercer seu mandato.

Não se espera que ela redija o texto de próprio punho, como fez Jânio Quadros em 1961, cuja peça de retórica se encerrava assim:

Honra-me ser o primeiro chefe de Estado a receber, nesta nova capital, o seu diploma, e na pessoa do ínclito ministro presidente, rendo as minhas homenagens a todos os dignos juízes que ilustram a Justiça Eleitoral brasileira. A eles, e só a eles, deve a instituição o elevado e merecido conceito que desfruta.

Meus Senhores!

O preço da liberdade, que o voto dos meus patrícios me outorgou, é a servidão à causa pública. Dentro da lei e em estrita obediência à lei, serei livre para impor e exigir de todos o exato cumprimento do dever.

Dessa liberdade, faço a minha escravidão.

Após a diplomação, a nova chefe de Estado terá pela frente os dois discursos de posse propriamente ditos. No dia da troca da guarda, o mais formal será lido da tribuna do Congresso. Pouco depois, já com a faixa presidencial a lhe cruzar o peito, deverá falar do parlatório do Palácio do Planalto para o povo reunido na praça dos Três Poderes.

A julgar pelo discurso da vitória sobre José Serra, proferido na noite do domingo 31 de outubro, ainda é cedo para apontar qual será o estilo Dilma. Os retoques finais no seu pronunciamento de recém-eleita haviam sido lavrados poucas horas antes do fechamento das urnas. Dilma tinha retornado a Brasília de jatinho com Tarso Genro, vinda de Porto Alegre, e rumara para a sua antiga casa do Lago Sul. Ali a versão final do texto estava sendo polida pela troica de choque Palocci-Cardozo-Dutra – respectivamente, Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, José Eduardo Cardozo, secretário-geral do Partido dos Trabalhadores, e José Eduardo Dutra, presidente do pt. O conjunto da peça teria sido urdido por Palocci, sem intervenção do consagrado marqueteiro baiano João Santana, responsável pela propaganda de campanha da vencedora.

Os 45 parágrafos deixam à mostra uma autoria múltipla pouco harmoniosa, com frases avulsas, ora na primeira pessoa do singular, ora do plural, entremeadas de anáforas, a repetição de palavras no início de uma frase: Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa. Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto. Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos […] Zelarei, enfim, pela nossa Constituição […].

Em compensação, foi dela a ênfase no ineditismo do Brasil ter elegido uma mulher para presidente, presente já na saudação inicial (“Minhas amigas e meus amigos”). Na mesma linha está a apropriação intencional do Yes, We Can (“Sim, nós podemos”), que a esta altura já deveria pagar direitos de propriedade à campanha de Barack Obama. Saudando as oportunidades iguais para homens e mulheres como uma conquista essencial da democracia, Dilma comunicava à nação que a elegeu desejar que “os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas e lhes dissessem: sim, a mulher pode!”. Apesar de não ser um discurso para os anais da história, a oratória de Dilma conseguiu lhe insuflar um sopro de vida: a presidente eleita pareceu dona das palavras que lia. Estava à vontade com aquelas frases e, durante 25 minutos, se comunicou com a nação.

Foi um avanço em relação à longa campanha eleitoral, quando lia e relia os textos que lhe eram submetidos. Seu tipo e tamanho de letra preferidos, para facilitar a leitura, são Arial 22. Ao contrário de Lula, Dilma Rousseff armazena informação e adquire segurança por meio da palavra escrita. O livro mais recente que comprou na Amazon e baixou no seu leitor eletrônico iPad foi uma biografia de Abraham Lincoln, o estadista que traduziu em palavras a rota que vislumbrou para fazer dos Estados Unidos uma nação. Seu célebre discurso de Gettysburg, de apenas três parágrafos, 272 palavras e dois minutos de locução, é certamente o mais sucinto e profundo da história americana. Foi pronunciado no cemitério da cidade onde ocorreu a batalha de mesmo nome, que definiu o curso da Guerra Civil e deixou mais de 7 mil soldados mortos em apenas três dias de combates.

Há oito décadas e sete anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais – proclamou Lincoln em novembro de 1863. Eis-nos reunidos para dedicar uma parte desse campo ao derradeiro repouso daqueles que, aqui, deram a sua vida para que essa Nação possa sobreviver. É perfeitamente conveniente e justo que o façamos. Mas, numa visão mais ampla, não podemos dedicar, não podemos consagrar, não podemos santificar este local. Os valentes homens, vivos e mortos, que aqui combateram já o consagraram, muito além do que nós jamais poderíamos acrescentar ou diminuir com os nossos fracos poderes. […] Cumpre-nos a nós, os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente – que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção – que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação com a graça de Deus venha gerar uma nova Liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da face da terra.

Poucos são os presidentes eleitos, ou os escribas encarregados de seus discursos, que não buscam amparo nas frases históricas que tiveram a capacidade de fixar para sempre o espírito do tempo. Na visão do filósofo, teólogo e educador escocês George Campbell (1719–96), a arte da retórica teria como meta alcançar quatro objetivos: iluminar a compreensão humana, aguçar a sua imaginação, mover a sua paixão e influenciar a sua determinação. Não raro, esse uso instrumental da palavra alheia é explicitado de forma despudorada.

A jornalista americana Peggy Noonan trabalhava na assessoria do presidente Ronald Reagan há menos de três meses quando recebeu uma incumbência. Cabia a ela redigir o discurso que seu chefe deveria proferir por ocasião do quadragésimo aniversário do desembarque aliado na Normandia. Como contaria mais tarde, Noonan se sentiu paralisada ao receber a instrução de “escrever algo no estilo Gettysburg, ou seja, faça o povo chorar”. Esboçou vinte versões, que resultaram num dos dois discursos mais célebres de Reagan (o outro contém a frase “Sr. Gorbachev, abra o portão, derrube este muro”, dita em Berlim, à sombra do muro homônimo).

Peggy Noonan conseguiu fazer chorar os últimos veteranos de 1944 que assistiam à cerimônia no alto da falésia de Pointe du Hoc. Ou terá sido a prosódia e o gestual de Ronald Reagan que levaram os veteranos e demais presentes às lágrimas? Certamente a conjunção dos dois talentos:

Passaram-se quarenta verões desde que vocês aqui lutaram. Vocês eram jovens quando conquistaram esse penhasco; alguns de vocês ainda eram quase meninos, com as vastas alegrias da vida pela frente. Ainda assim, aqui vocês tudo arriscaram. Por quê? Por que o fizeram? O que os compeliu a afastar o instinto de autopreservação e arriscar suas vidas nestes penhascos?… Olhamos para vocês e adivinhamos a resposta. Foi fé e crença, foi lealdade e fraternidade. Os homens da Normandia tinham a certeza de que faziam o certo, a certeza de estarem lutando pela humanidade, fé de que um Deus justo por eles teria compaixão neste desembarque ou no próximo. Foi a certeza enraizada – e Deus seja louvado por não termos perdido isso – de que existe uma diferença moral profunda entre o uso da força para libertar e o uso da força para conquistar.

Dos mais de cinquenta discursos de posse proferidos por presidentes dos Estados Unidos em 221 anos de Constituição (considerando-se os mandatos múltiplos de seus 44 presidentes), apenas um punhado entrou para a posteridade. A admiração de Barack Obama por Lincoln – que foi deputado no Illinois, mesmo estado em que o atual ocupante da Casa Branca construiu carreira política – é quase obrigatória. Ele considera que o discurso de posse feito por Lincoln em 1861 e lido à beira de uma guerra fratricida, é a peça de oratória mais decisiva da história americana. Nos dois últimos parágrafos, lê-se:

Em suas mãos, meus compatriotas insatisfeitos, e não nas minhas, está a grave questão da Guerra Civil. O governo não os atacará. Não haverá conflito em que não sejam os senhores os agressores. Os senhores não juraram perante os céus destruir o Governo, mas eu, de minha parte, prestei o mais solene juramento de preservá-lo, protegê-lo, e defendê-lo.

Temo encerrar este discurso. Não somos inimigos, mas amigos. Não devemos ser inimigos. Mesmo que nossos ideais tenham forçado os laços de afeto que nos unem, não devemos deixar que eles sejam desfeitos. Os ecos míticos da memória, vindos de cada campo de batalha e de cada túmulo de patriota, que alcançam cada coração e cada lar, por todo este vasto país, aumentarão o coro da União quando, como certamente o serão, forem tocados pelos espíritos mais benignos que nos habitam.

Dois anos atrás, pouco antes das eleições de novembro de 2008 nos Estados Unidos, justo quando a figura e retórica de Obama contagiavam o mundo, chegou às livrarias americanas um livro esplêndido sobre o ofício de escriba presidencial. Em português, o título do livro White House Ghosts seria “Fantasmas da Casa Branca”, na tradução literal. Na acepção política, é um feliz trocadilho com ghost-writer, invenção da língua inglesa para designar quem escreve textos sob encomenda que serão imortalizados por outrem. Ao longo dos últimos setenta anos, ghost-writer se tornou sinônimo de speech-writer, foi encurtado para ghost e o indigesto vocábulo passou a circular por gabinetes do poder mundo afora como se tivesse brotado na língua nativa.

O pedigree do autor do livro não poderia ser melhor: Robert Schlesinger é filho do falecido historiador e ghost de John Kennedy, Arthur Schlesinger Jr., escreve melhor do que o pai e consegue responder às perguntas mais essenciais do metiê. Como, por exemplo, se um ghost deve fazer ou promover uma política, se devem prevalecer as preferências retóricas do escriba ou dos assessores mais próximos do estadista. A obra chegou às livrarias no momento em que Obama atropelava os prognósticos eleitorais graças, sobretudo, a sua oratória e capacidade de comunicação pessoal. A força dessa ferramenta que dominava tão bem desestabilizou a corrida para a Casa Branca, e ele chegou ao poder como a figura mais inspiradora do século xxi.

Ocorre que, assim como nenhum estadista pode desmerecer a força das palavras, tampouco deve subestimar seus limites – o contexto é tudo. John F. Kennedy, no início dos anos 60, teve plena compreensão das duas coisas. Barack Obama, não. E nesse caso a responsabilidade pelo desapontamento mundial com a sua presidência não pode ser atribuída à força dos seus magistrais textos de campanha e posse. O que faltou foi a capacidade de transformar em realidade a esperança gerada por palavras. E isso não há ghost-writer que resolva.

Se houvesse, Jonathan Favreau seria o cara. Aos 29 anos de idade, ele forma uma dupla privilegiadamente afinada com o 44º presidente dos Estados Unidos. Ocupa o cargo de diretor do Departamento de Discursos da Casa Branca, com salário equivalente ao dos assessores mais graduados – 172 mil dólares anuais. Com o currículo abarrotado de honrarias acadêmicas, Favreau foi um ativista de causas sociais e tinha apenas 23 anos quando chamou a atenção de Obama. Candidato a uma cadeira de senador estadual na eleição de 2004, o atual presidente ensaiava um discurso quando o rapaz, cujo apelido é “Favs”, interrompeu-o e explicou que o texto podia ficar melhor. Não se separaram mais e desde então o presidente define Favreau como sendo o seu “telepata”. Foi dele a ideia de turbinar o slogan Yes, We Can. Ele foi, também, o principal escriba da magnífica peça de retórica que é o discurso de posse de Obama. Favreau, como ghost, sabe extrair o que há de mais notável no intelecto do presidente. Mas nem juntos nem em separado conseguem mudar a taxa de desemprego do país.

No Brasil, a paisagem formal da retórica e da oratória presidenciais, que já não era cintilante, turvou-se de vez com a entrada em cena de um chefe de Estado de língua presa e pendor improvisante chamado Lula. “Não se pode ser ghost-writer do Lula”, argumenta o diplomata Marcos Azambuja, um fino observador da vida brasileira. “Teria de ser alguém especializado em literatura oral. No fundo, Lula é um repentista extraordinário, um espontaneísta. Ele capta tudo e funciona não em relação ao texto que recebeu, mas em função da relação que estabeleceu com seu público naquele momento e ambiente específico.” Aos 75 anos de vida e 45 de Itamaraty, Azambuja mantém língua e intelecto deliciosamente afiados. “Lula pode até ler de forma competente textos que o Celso ou o Marco Aurélio lhe prepararam, mas jamais será aquela Kate Winslet”, complementa, o rosto roliço saboreando a referência à divina protagonista do filme O Leitor.

Garcia tende a concordar. “Lula estabeleceu um tipo de promiscuidade única com seus ouvintes. Nunca o vi nervoso antes de um discurso – ele sobe e fala, o que não quer dizer que sempre fale bem. Ele é completamente psicanalisado – fala tudo”, resume, referindo-se à ausência de peias do superego presidencial. E o assessor especial, não estaria falando demais pelas normas do metiê? “Meus antecessores eram menos exibidos do que eu”, reconhece ele de bom grado, ressalvando apenas não estar bem lembrado de como era o poeta Augusto Frederico Schmidt, ghost e assessor de Juscelino Kubitschek. Pela narrativa do escritor Autran Dourado, ghost do ghost de jk e autor de uma frase marcante da oratória presidencial brasileira (“Deus poupou-me o sentimento do medo”), Schmidt era tudo, menos dado ao recato. Certa manhã, ao passar pelo apartamento do poeta na rua Paula Freitas, Autran foi recebido pelo mordomo que o encaminhou ao escritório em que o dono da casa trabalhava em todo seu esplendor: “Encontrei o poeta vestido à sua maneira – nu, com apenas um robe de chambre sobre os ombros. Não era uma figura muito agradável à vista: gordo, grande, peludo, o sexo à mostra, ele se esfalfava no seu artigo para o Correio da Manhã ou num poema.”

Em matéria de retraimento e decoro, zelo e cautela extremas, o governo Lula pode contar com um ghost mineiro por excelência: o ministro Luiz Dulci, chefe da Secretaria-Geral da Presidência, cargo que será ocupado por Gilberto Carvalho na Presidência Dilma. Na topografia planaltina, seu gabinete situa-se um andar acima da sala do presidente. Dulci foi deputado federal com 26 anos de idade, líder de um dos maiores sindicatos do Brasil – o dos professores – tem prestígio, é benquisto dentro do pt e traz no currículo idiossincrasias culturais como conhecer grego e latim. Seu domínio da língua portuguesa fez com que somasse ao cargo de atribuições elásticas a tarefa de redator dos textos políticos da Presidência. Estreou com o discurso de posse do primeiro mandato de Lula, em 2003, e viu transitar por seu gabinete um volume intimidante de rascunhos.

Dois anos atrás, ficou encarregado de produzir o discurso que Lula pronunciaria no Salão Nobre da Academia Brasileira de Letras, por ocasião do centenário da morte de Machado de Assis. Segundo relatos de assessores, o texto de Dulci teve a habilidade de não sugerir que o presidente lera todos os livros do mestre. Tampouco incluiu qualquer personagem da obra do escritor. Optou por discorrer mais sobre o homem do que o autor Machado e limitou-se a inserir opiniões que Lula pudesse ler de forma crível. Trabalho de ourives. “O presidente tem uma retórica própria, diferente da maioria dos oradores”, explicou o ministro numa tarde de setembro último, desconfortável no papel de entrevistado. “Ele vai do particular ao geral, do concreto ao abstrato. Ele raciocina em público, não vai direto à conclusão, compartilha o seu processo de raciocínio com os ouvintes.” Para Dulci, uma das facetas mais singulares do presidente, que ora se despede, está na sua preocupação em expor de modo acessível o funcionamento do Estado, seus limites e possibilidades.

A linha de montagem encarregada de produzir discursos de política externa para Lula – mais de 3 mil até agora – passa por etapas. Em geral o Itamaraty gera a informação bruta e precisa, Garcia e sua equipe colocam o molho e o texto retorna ao chanceler Celso Amorim, que opina sobre a propriedade ou não da redação. Muitas vezes a gênese da versão final só vem à luz dentro do avião que leva a comitiva para o exterior – portanto, sem celulares tocando. Já de chinelo de dedo, camisa regata e relaxado, o presidente chama o seu chanceler: “Celsinho, como está a questão no país xis?”

Dada a sua capacidade de reter dados e aprender através da conversa, esta tem sido a forma mais eficaz do presidente abordar temas complexos. A trinca de diplomatas que trabalha com Garcia funciona em sistema de compartilhamento de ideias e hierarquização zero. Todos, sobretudo o chefe, aprenderam a “lular” os discursos do presidente. Isto é, não devem inserir vocábulos como “perfunctório” nem palavras proparoxítonas. “Tampouco devemos produzir peças por demais literais. Deve ser, na medida do possível, um texto que o Lula escreveria, e se não escrevesse, que gostaria de ter escrito”, explica o assessor especial.

E Marco Aurélio Garcia, qual discurso gostaria de ter escrito? A carta-testamento deixada pelo presidente Getúlio Vargas uma hora antes de se suicidar. Na época, Marco Aurélio era um menino de 13 anos que estudava no colégio Cruzeiro do Sul de Porto Alegre, e ficou impactado não com o parágrafo que entraria para a história: Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. […] Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História. O pedaço de frase que Garcia pinça de memória é outro: … o povo, que agora se queda desamparado. Coisa de gaúcho.

Uma urgência física e intelectual parece tomar conta do embaixador Marcos Azambuja durante a entrevista sobre retórica e oratória brasileiras. Ele se ergue das profundezas do imenso sofá da sala do apartamento da Praia do Flamengo e se dirige a uma estante de livros. “Me acostumei a procurar textos no Google porque minha biblioteca se resume a duas prateleiras do meio. As mais baixas não alcanço porque não consigo mais me curvar e as mais altas não alcanço porque encolhi”, vai logo explicando. Ao alcance das mãos miúdas estão apenas os volumes que realmente são vitais para a sua sobrevivência. De uma só tacada, extrai o que procurava: o segundo volume das Obras Completas de Machado, em papel-bíblia, do qual consta o texto O Velho Senado. “É uma peça maravilhosa, uma das melhores crônicas políticas da história do Brasil”, explica, perdendo-se na leitura em voz alta das memórias de Machado sobre a oratória dos velhos senadores do Segundo Império: Zacarias fazia reviver o debate pelo sarcasmo e pela presteza a vigor dos golpes. Tinha a palavra cortante, fina e rápida. […]Quando se erguia, era quase certo que faria deitar sangue a alguém…

Azambuja aproveita para observar uma diferença gritante no gestual de palanque de brasileiros e americanos. “Todo presidente dos Estados Unidos usa o dedo – não é um dedo agressivo, é um dedo que aponta para alguém na plateia anônima, que individualiza a multidão e estabelece um contato inexistente”, explica o diplomata. “Já no Brasil o que funciona é a prática do dedo em riste, como se o orador falasse para alguma divindade. A retórica nacional é cadenciada de forma retumbante, de bater no peito e dizer ‘Porque eu…’. Na verdade, ela é bastante ordinária.” Por essas terras, só lhe ocorrem três oradores de talento notável: o gaúcho Leonel Brizola, o carioca Carlos Lacerda e o maior de todos, o baiano Rui Barbosa, “com sua retórica ao mesmo tempo empolada, redundante, pedante, gongórica, porém eloquente”.

Ghosts e speech-writers nasceram e floresceram no sistema presidencialista dos Estados Unidos. Do outro lado do Atlântico, em terras inglesas, a profissão nunca teve grandes perspectivas de alçar voo. O sistema de governo parlamentarista da Grã-Bretanha exige agilidade verbal instantânea de seus líderes. Na sabatina constante a que todo político britânico se submete na Câmara dos Comuns, um orador não duraria uma semana se não pensasse com a própria cabeça – e rápido. Impossível autor e tribuno não serem a mesma pessoa. Falar bem é um dos atributos da artilharia política, e carreiras se constroem no terçar de armas retóricas com o adversário. Winston Churchill, um dos mestres da arte, chegou a desmaiar na primeira vez em que subiu à tribuna para discursar.

A prosa de Churchill não jorrava fácil no papel. Segundo o seu secretário particular, John Martin, no período dos grandes discursos de guerra pronunciados na Câmara dos Comuns e transmitidos pelo rádio, Churchill investia cerca de uma hora para cada minuto de oratória – o que significa, para cada meia hora de fala, trinta horas de ditado, escrita, reescrita, ensaio em voz alta e polimento. (Certa vez, desculpou-se: “Peço perdão pelo tamanho do discurso que farei. Não tive tempo de escrever um mais breve.”) Tanta aplicação pouco lhe serviria caso não fosse o escritor e orador que foi.

Único estadista a receber o Nobel de Literatura, Churchill foi agraciado “por sua maestria nas descrições históricas e biográficas e por sua brilhante oratória em defesa dos valores da humanidade”, conforme explicou o comitê sueco em 1953. Não deixa de ser irônico que o orador mais vulcânico da era moderna tivesse a língua levemente presa, pronunciando a letra “s” como se fosse “ch”. Com sua voz anasalada, mesmerizava plateias até a última sílaba. Ninguém se dispersava enquanto não concluísse o discurso. Tinha a força da palavra, o domínio do verbo e a certeza da mensagem. A ideia de delegar essa ourivesaria a um assessor lhe seria ofensiva.

No caso do general Charles de Gaulle, a ofensa começaria pela ideia de contratar alguém cujo metiê é designado por um anglicismo. Como autor e ator do famoso L’Appel du 18 juin 1940, a convocação à resistência ao nazismo lançada a partir de um estúdio da bbc em Londres, De Gaulle também inovou na arte da oratória. Seu chamamento não foi um apelo à França como nação. Foi um discurso/diálogo, que exigiu uma resposta interior e individual de cada cidadão francês. O paroxismo da política, em suma.

James C. Humes, que serviu de redator para cinco ocupantes da Casa Branca, foi entrevistado recentemente pela National Public Radio de Nova York a propósito do lançamento de seu livro de memórias, Confissões de um Ghost-Writer da Casa Branca (inédito no Brasil). Até então, sua obra mais conhecida tinha a brevidade de parcas 26 palavras e fora escrita a seis mãos com outros dois craques do verbo que, como ele, trabalharam para Richard Nixon – William Safire e Pat Buchanan. Trata-se da inscrição que homenageia o pouso da cápsula Apollo 11 na Lua, no dia 20 de julho de 1969. Aqui homens do planeta Terra pisaram pela primeira vez na Lua, em julho de 1969 d.C. Viemos em paz em nome de toda a humanidade, diz a placa de aço inoxidável fincada no solo lunar pelos astronautas.

Na entrevista, Humes relembra que Ronald Reagan costumava dizer que 80% do que se chama liderança é resultado da capacidade de comunicação. “Não consigo imaginar como alguém possa pretender chegar ao poder sem a habilidade de vender e inspirar, que é a essência da comunicação”, assegurava o presidente. Talvez por isso, Humes tornou-se um requisitado professor de língua e liderança na Universidade do Colorado. De Dwight Eisenhower, seu primeiro chefe na Casa Branca, guarda lembranças pouco afetuosas: “Quem trabalhava com ele se sentia um soldado raso a serviço de um general de cinco estrelas. Eu tinha medo dele”, relembra aos 76 anos de idade. Tampouco esqueceu o comentário que lhe foi assoprado por Alice Roosevelt Longworth, a irrequieta filha mais velha do presidente Theodore Roosevelt, quando ele desembarcou em Washington, ainda calouro. “James”, cochichou a velha senhora, “em Washington, primeiro existe o poder; depois, uma camada abaixo, está a ilusão do poder; e por fim, há o acesso à ilusão do poder.” Pela narrativa do veterano escriba, a profissão de ghost-writer está coalhada de profissionais da terceira categoria.

Humes aprendeu que nem sempre presidentes gostam de ideias novas, pois elas podem desarrumar o que parece estar em ordem; sustenta que a maioria prefere que se recorra a conceitos simples, esculpidos de forma a ganharem a eloquência de ditos visionários e brilhantes. Franklin D. Roosevelt cairia do pedestal se tivesse falado “Não entrem em pânico”. Ao invés disso, entrou para a história com a frase criada para ele por Samuel Rosenman, juiz da Suprema Corte de Nova York: “Acredito profundamente, e disso quero assegurar-lhes, que a única coisa de que devemos temer é o próprio medo”. John F. Kennedy, no fundo, queria apenas dizer “sejam patriotas”, quando o inigualável ourives Theodore Sorensen compôs as dezenove palavras que até hoje são transmitidas de geração em geração: Não pergunte o que o país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país. E o esquálido repertório da oratória política brasileira seria ainda mais raquítico sem o eventual lustre retórico. Ninguém se lembraria de “Eu sou corajoso”. Autran Dourado pôs mãos à obra para que jk pudesse dizer: Deus poupou-me o sentimento do medo.

No fundo, diz Humes, o ghost-writer é uma espécie de esteticista. “Um esteticista não faz a tua esposa parecer mais bonita? Fazemos um pouco a mesma coisa – fazemos um presidente soar mais bonito.”

Como já disse um dos mais talentosos praticantes da arte, Arthur Larson, assessor de Einsenhower, o processo de feitura de um discurso presidencial pronunciado por quem irá implementar a política ali defendida se assemelha à montagem de um esqueleto de dinossauro a partir do fragmento de um osso. Em tese, basta uma única pista, uma só ideia real, para que o ghost-writer arregimente argumentos capazes de sustentá-la. Sem isso, na melhor das hipóteses, ele produzirá um lindíssimo discurso à procura de uma ideia, e não o inverso. Permanece implícita, ontem como hoje, a noção de que políticas e palavras devem se manter inextricavelmente unidas. No Brasil ou alhures, a história é um cemitério de presidências falidas por não terem conseguido honrar o que prometeram em seus discursos de posse. Como já dizia Walter Isaacson, o biógrafo de Henry Kissinger, o perigo de divorciar a retórica da política ronda todo presidente. Com ou sem ghost-writers.


04 de novembro de 2015
Dorrit Harazim