sábado, 11 de janeiro de 2025

O JANEIRO BRANCO E O IDOSO

 O JANEIRO BRANCO E O IDOSO

Repentinamente, o idoso ocupa o centro de um cenário social, para o qual até então, gozava de certa invisibilidade.

Pergunto-me sempre, quando algum fato inusitado ganha transparência, e se torna quase matéria obrigatória, que diariamente encontramos em crônicas, em artigos de saúde, comentários variados que buscam definir o perfil e os hábitos do idoso, e até mesmo artigos sobre a importância do idoso, no campo econômico, como um nicho que aporta grandes recursos financeiros e econômicos.

O que me intriga, e gosto de observar, é que a esse novo personagem que ganha importância, talvez até um pouco desmedida, pouca voz se lhe dá, para que expresse seus sentimentos e emoções, quanto a esse estágio da existência.

Salvo alguns artigos de psicologia e de psiquiatria, nos quais esse idoso é abordado, sob ângulos que revelam suas relações com familiares, com a sociedade, com as instituições de longa permanência, ou sua solidão, ou sobre seus sentimentos e percepções que naturalmente acompanham esse momento da vida, predomina uma imagem, digamos cronológica, da qual decorre o interesse de apurar a identificação de práticas e hábitos de saúde, que podem nos levar à longevidade tão desejada pelo ânsia inconsciente de imortalidade.

A campanha de cunho nacional, abrangente em sua preocupação com o bem-estar mental e emocional da sociedade, justifica-se, pois num tempo de profundas mudanças, em que princípios e valores já não acompanham esses tempos transitórios, fica o ser humano sem um Norte que o guie para portos seguros da razão e da civilidade.

Faço estas reflexões, porque observo que está em andamento a perda da nossa humanidade, a medida que mergulhamos num novo mundo, em que  o avanço de uma tecnologia, remodela as relações humanas, criando um novo ambiente e abrindo intervalos e vazios na nossa comunicação, aquela que cria proximidade, intimidade e afetos. 

E aqui assinalo um paradoxo, pois a intensificação das "comunicações tecnólogicas" talvez seja uma das expressões mais acentuadas da tecnologia em toda essa mudança, que assola perceptivelmente o nosso atual 'modus vivendi', mas que provoca um efeito reverso, e nos distancia e nos empurra para a perda do diálogo, do intimismo do lero-lero,  da fofoca, do quase antigo prazer da "conversa fiada", da cadeira na calçada ou na varanda, que nos dava o tom de humanidade.

 A cor branca é a junção de todas as cores de luz e reflete todos os raios luminosos, não absorvendo nenhum.

Aí talvez esteja a metáfora que aproxima a idosidade da luz branca, e que toma o título de JANEIRO BRANCO: a velhice traz no seu patrimônio vivido, um mundo de memórias que já não mais existem, mas que guardam imagens e momentos grandiosos, de um tempo diferente do presente.

Paisagens, costumes, culturas, hábitos... todo um universo existencial que se torna memória da idosidade, de tempos idos,  vividos e esquecidos, e embora acumule tudo isso, não absorve nenhum, posto que a sombria perda da memória, ameaçando a saúde mental, bloqueia todo o passado de uma vida.

Por isso, o velho não se lembra, ou não quer se lembrar, mergulhando no egoísmo do silêncio... Foge da nostalgia. Também por isso, a necessidade de acordar a sociedade através de uma campanha pública pela saúde mental, a que acrescento minha maior preocupação com o idoso.

11 de janeiro de 2025

prof.mario moura


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

A FICÇÃO CHAMADA NATAL

 A FICÇÃO CHAMADA NATAL

O Natal tornou-se uma ficção! Uma grande ficção! Paro para refletir: o que celebramos nesta data, em que supostamente, teria nascido o Salvador, o Cristo?

Uma pergunta simples, mas que nos envergonhamos ao responde-la. Seria a festa da chegada da Boa Nova, a vinda do Amor, do "amai-vos uns aos outros, como eu vos amei!" Ou a realidade nos diz que "não se trata mais disso?" 

São outros tempos, e o Cristianismo tornou-se apenas uma crença, sem compromisso, ou obrigações com os meus semelhantes. 

Aliás, constumo interrogar-me, vez ou outra: quem é o meu próximo?" Nesse turbilhão de individualismos, quem é o meu próximo? Aquele que concorda comigo, aquele que divide comigo o conforto de uma mesma classe social, e que não me obriga a aceitar que divida seus sofrimentos comigo, ou aquele que apenas me convida para o riso fácil, o divertimento, a alegria?

Pergunta um pouco mais difícil, também é possível de ser feita: em que se transformou o ser humano? Quando foi que aguçamos nossas garras, quando aumentamos a ganância, quando ampliamos o nosso ego, que nos engoliu?

Ou será que tal pergunta é ociosa, pois que sempre tivemos as garras afiadas, pois que sempre fomos gananciosos, porque sempre invejamos a riqueza alheia?

Milhares de pessoas morrendo em guerras sucessivas, na Ucrânia, na Coréia do Norte... Centenas de mísseis sobre Israel, civis palestinos vítimas de bombardeios... A ferocidade de organizações terroristas... guerras que sequer sabemos onde estão ocorrendo...

No banquete de Natal, com a família em torno de uma farta mesa, com boas bebidas, esquecemos que logo ali na esquina, um desabrigado, encolhido tenta dormir, burlando a fome e o frio.

Quão distante estamos dessa "promessa" do Cristo!!

Quantos indigentes estão a espera de uma esmola...

O exercício da consciência, nos encurrala em becos sem saída! Ou nos conformamos com a miséria humana, ou invejamos a coragem dos missionários que se internam em povoados da África, ou até mesmo aqui, no sertão nordestino, com escassez que revela o milagre da vida continuar existindo, apesar de curta e sofrida.

Como escrever uma crônica de Natal, quando a realidade do nosso mundo é um soco na boca do estômago? Fechar os olhos e a consciência para o sofrimento de grandes agrupamentos humanos, que nos cercam, seria uma solução? Começo a crer que sim, pois que assim vivemos, nos esforçando para não enxergar as dores que assolam a vida de milhares de pessoas ao nosso redor.

As crianças abençoadas esperam Papai Noel, para trazer-lhes os sonhados presentes de Natal!! Porque as crianças são a luz do mundo!

Ingênuas, elas esperam Papai Noel,  porque esquecem o sofrimento e a amargura, até mesmo a sede, as dores e a fome, enfeitiçadas que são, quando olham as luzes coloridas que enfeitam as cidades.

Ainda assim, diante da nossa cegueira, alimento secretamente a esperança de que a exaustão de tanto sofrimento, acordará o coração do homem, porque a vida é bela e exuberante!

Termino, lembrando-me do que disse Carl Sagan:

"Diante da vastidão do espaço e da imensidão do tempo, é uma alegria partilhar um planeta e uma época com vocês."

03 de dezembro de 2024

prof.mario moura