terça-feira, 14 de julho de 2015

O PERFUME DE JESUS


mês passado, parti mais uma vez para o meu retiro espiritual, no deserto do mali, o saara. 

foram 40 dias, solitário, como um falso tuaregue, me alimentando apenas de gafanhotos e mel silvestre.

beduínicamente, asceta por vocação e misantropo por natureza, magro como um faquir, levitei mil vezes em meio aquele mar de areia como se fosse alma pura. 

meditei, em lótus, transmigrei almas, senti no ar a essência inefável dos incensos de mosteiros, dancei com os sátiros de dionísio, chamei xamãs, imaginei chuvas e cheirei os quatro sovacos de shiva.

lá, no meio do nada, tive um insight que mudou completamente a minha vida, cheguei a conclusão, veja que assertiva, de que moisés, esse sim, foi um verdadeiro divisor de águas.
finalmente, retornei à civilização; renovado. 

ao chegar em casa, nada de política, só falava de religiões. daí, recebo de um amigo uma mensagem pelo zap com o link de uma reportagem, supostamente religiosa.

clico, leio que a boa bispa sônia, aquela bonitona que foi interceptada na alfândega, nos esteites, com uma bíblia recheada de dólares, havia lançado um perfume com essência de Jesus.

com mil diabos, pensei.

perfume de jesus? essa bispa pegou uma cana dura nas estranjas, ela e o marido, ambos líderes da igreja renascer, sonegando moeda estrangeira no estrangeiro. 

presa em flagrante, talvez tenha tido a fragrante ideia ainda no cárcere. 

com a mente limpa após o retorno do deserto, farejei aí a descarada máscara da fuleiragem. esses feiticeiros estão indo longe demais, disse comigo mesmo.

eu, de minha parte, aceito o que vem de deus, mas não o que vende deus. 

por isso, me senti no dever de desmascarar essa safadeza. 

em verdade vos digo, e a verdade precisa ser dita, o nosso bom Jesus, irmãos e irmãs, não era lá um cabra muito cheiroso.

veja o presépio, aquela presepada.

o menino jesus nasceu deitado numa manjedoura imunda, cheia de feno, urina e fezes de animais, cercado por toda sorte de bichos: burro, vaca, cavalo, porco espinho, três ovelhas e um gambá; sente o cheiro.

já adulto, cultivava uma barba longa e suja e seu rosto encardido, castigado pelo inclemente sol da judeia, era emoldurado por uma juba de felino da savana.
metido num vestidão de algodão cru, meio esquisito, e calçado com umas sandálias de couro de burro,o filho de deus caminhava como um carteiro, debaixo de um sol escaldante.
dá pra sentir o cheiro daqui.

sovaco, pescoço, virilha... tudo parecia feder a suor. e não há, veja que curioso, um único relato no Livro em que o cordeiro de deus tenha parado para tomar um banho, refrescar o rosto debaixo de uma bica, lavar as canelas empoeiradas ou aliviar as partes íntimas.

é certo que ele não parecia muito afeito a higienes. 
as únicas vezes que o viram perto da água foram:

em seu batizado, quando joão batista o afogou e o desafogou nas águas do jordão. mas atentai bem, isso foi coisa rápida, não deu sequer para tirar-lhe o suor do corpo.

saiu mais pra fedido que pra cheiroso; rato molhado.

numa outra vez, singrava o rio no barco de pedro. quando, de repente, foi surpreendido por uma tempestade. 

coisa curiosa.

porque sabemos que pedro é o cabra que faz chover, mas nesse época ele ainda não tinha status de santo, de são, o que significa que naquele momento era o próprio pai, deus, tentando dar uma banho no filho divinizado.

ao sentir as bátegas da chuva que caíam aos cântaros, o que fez o mestre? num estalar de dedos - qual um luan santana - fez a chuva parar.

que esse n
egócio de banho de chuva não era muito com ele também não.

ainda uma outra vez, não percam as contas, dentro do mesmo barco, o messias foi visto entrando na água.

não ficou muito claro no relato bíblico, mas parece que jesus estava apertado para ir ao banheiro, ou atrasara-se para algum encontro. como a embarcação não tinha motores, e ele tinha pressa, resolveu descer do barco e se adiantar.

cesar cielo ou michael Felpes teriam feito o percurso a nado em 9 segundos, imagina o filho de deus!

qual nada, o galielu não mergulhou e nem nadou, preferiu ir caminhando sobre as águas.

vai vendo.

e pra finalizar, conta o livro que certa vez jesus entrou na casa das irmãs marta e maria, com os seus doze amigos barbudos, depois de longa caminhada.

madalena, sentindo de longe o cheiro da rapaziada, sugeriu - isso tá aqui na minha bíblia - uma chuverada ou um banho de mangueira coletivo no quintal de sua tenda.

mas o mestre, arredio, só permitiu que lhe lavassem os pés. 

e olha que os pés cansados, maltratados pelas caminhadas, rachados pela aridez do deserto, calçados por aquelas velhas e desgastadas sandálias de couro de burro, deviam estar num chulé dos diabos. 

tanto é que madá os lavou, quem não se lembra, com perfume. com perfume, irmãos!

Atentai para esse detalhe. a coisa tava tão azeda que água somente não resolveria.

sei não, confio no mercantilismo e no faro comercial dos pastores pentecostais, mas esse troço de perfume com a essência de jesus me parece um mal negócio.

dona sônia, a bispa, é chegada a luxos e fuleiragens. dizem que costuma tomar banho de sais lendo salmos na hidro da igreja - tudo pago com moedas de dizimistas - faz esfoliações com palhas de junco trazidas da galileia e flutua nas águas mornas, oriundas do mar morto, em seu seu ofurô particular.

por isso, essa tara pela cosmética e pelos perfumes.

o diabo é que o mestre, curador de almas e negador da carne, jamais se preocuparia com o odor de seu sovaco.

jesus sabia onde as coisas não cheiravam bem, por isso é que destruiu um camelódromo que ficava nas portas do templo, uma antiga perfumaria. 
sinto, e devo dizê-lo como um dever cívico, um inconfundível cheiro de picaretagem nesse negócio.palavra da salvação.

14 de julho de 2015
Lelê Teles

sexta-feira, 10 de julho de 2015

ONZE DA NOITE É HORA DOS SOLITÁRIOS



DE SEU POSTO NA SEÇÃO DE LATICÍNIOS DO SUPERMERCADO ZONA ZUL, LOJA 9, NA PRAÇA GENERAL OSÓRIO, EM IPANEMA, FRANCISCO É UM BEM HUMORADO OBSERVADOR DAS MANHAS E HÁBITOS DE SEUS FREGUESES. EM APENAS UM MÊS E MEIO NO POSTO, JÁ FEZ VÁRIAS AMIZADES. É O SEGUNDO EMPREGO COM CARTEIRA ASSINADA DESSE RAPAZ DE 21 ANOS QUE MORA NO BECO DO BICHEIRO, NA VILA VINTÉM.


2 de agosto, QUINTA-FEIRA Às 13 e 20, saio de casa para apanhar o trem rápido, que passa às 14, e, no caminho da estação, encontro o tio de um amigo, que me dá os parabéns pela vitória do meu Botafogo. Uma figura, esse tio do meu amigo. Eu não entendia por que ele passava o dia inteiro na rua, para cima e para baixo, com umas gaiolas com passarinho. Aí conheci a mulher dele e entendi. Ela é muito feia.

Às vezes, consigo pular o muro da estação e economizo uma passagem. Não é muito, mas são 2 reais. Nos últimos dias não tem dado, porque o pessoal da ferrovia passou graxa em cima do muro e já vi um cara que pulou e ficou todo lambuzado. Recebo vale-transporte, mas, de qualquer maneira, uma parte vem descontada do meu salário, que é uma miséria.

Quando entro no trem, já fico esperando alguém com alguma história triste, uma doença. Trem é lugar desses papos. Todo dia tem um. Hoje apareceu um homem que precisava de dinheiro para comprar uma prótese de olho. Ele pedia o dinheiro e abria o olho para mostrar. Sempre que o trem passa pela estação Maracanã, fico olhando o prédio da Uerj. Um dia eu chego lá. Quero ser cirurgião ortopédico. Estou economizando para fazer o pré-vestibular. Já tenho 320 reais na gaveta perto da minha cama.
Falta pouco para o fim da viagem e estou vendo que, o tempo todo, uma gordinha não tirou os olhos de mim. Está dando muito mole, mas não adianta, tenho de trabalhar.

São 15 e 40, e chego ao trabalho de bom humor. Atendo um casal conhecido, seu Ricardo e a mulher. Ele gosta de comprar de tudo para os filhos, mas a mulher manda ele parar. "Pra quê tudo isso?", ela diz.

Acaba o meu dia de trabalho e vou pegar o ônibus para a estação do trem. Chego em casa às 2 e meia da manhã, tomo um banho e desabo na cama.

SEXTA-FEIRA Saí mais cedo de casa. Queria passar na cidade para comprar um jeans. No caminho encontrei o Morcegão. Ele sempre me pede dinheiro para jogar na máquina de azar, mas hoje não deu. A grana está contadinha. A cena do trem hoje foi um cego, acompanhado do filho, pedindo dinheiro. Não dei. Fui direto comprar a calça. Entrei na loja, mas custou muito até ser atendido. Acho que foi por causa da sacola do supermercado que eu carregava com o uniforme. A cada dois dias, ando com essa sacola para casa e para o trabalho. Calça bege e camisa azul, que são lavadas em casa. Por isso a gente ganha dois uniformes, que ainda têm dois pares de sapatos pretos. Comprei, finalmente, a calça: 42 reais. Quarenta, com um desconto de 2 reais que o cara me deu.

Na chegada ao trabalho, os três funcionários na seção estavam estressados. É muito trabalho e pouca gente para trabalhar. São três pessoas num lugar onde deveria ter cinco. O problema é que não tem espaço para cinco atrás do balcão.

A fila cresce e vou atendendo. Um cliente me fala que vai demorar, porque vai comprar muita coisa. E compra mesmo. Gastou o que daria dois meses do meu salário. Era para um café da manhã, ele disse. E a fila não pára de crescer. Uma cliente fica exaltada com a demora. Ela tem razão, mas a demora também é porque os clientes pedem tudo fatiado na hora. A cliente está cada vez mais irritada e começa a xingar a gente. Até que algumas pessoas da fila pedem para ela ir embora, se não quiser esperar.

Jantei aquela comida do refeitório. Feijão e arroz é todo dia. O resto varia: um dia tem frango, outro carne. A verdura é legal, mas a fruta da sobremesa está sempre meio passada. O suco é legal também, manga, maracujá. O duro é a caminhada. São 25 minutos de ida e outro tanto para voltar, porque eu trabalho na filial da praça General Osório, em Ipanema, e o refeitório é na avenida Nossa Senhora de Copacabana, lá no Posto 5.

Quando volto para o balcão, chega um casal brigando e entra na fila. O cara também quer brigar comigo, mas o pessoal da fila manda ele descontar a raiva em outra pessoa, porque eu estava trabalhando e não tinha feito nada para ele.

Escolhi um ônibus via Lapa para chegar ao trem. Fiz mal. Fiquei na Lapa até 1 e 20 da manhã, num engarrafamento. Eram quase 3 horas quando cheguei em casa. O céu da favela vizinha, a Fumacê, estava iluminado. Pelas balas traçantes. São os alemão, o pessoal de outra facção do tráfico que quer tomar as bocas da favela. Lá no Fumacê quem manda é o Terceiro Comando.

SÁBADO Hoje a única coisa fora do normal em casa é que vai ter almoço. Há tempos não tem, porque minha mãe anda muito cansada. Ela tem 45 anos e está grávida: aos 21 anos vou ganhar um irmãozinho. Eu queria que ele se chamasse Ítalo, mas a minha mãe prefere Rian. Vai acabar sendo esse nome, claro. O Paulo Henrique, meu outro irmão, tem 13 anos, e a Crysli tem 5.

O dia no trabalho vai ser longo. Só saio às 2 da manhã de domingo. Logo que começo a trabalhar, chega um senhor que atendo há tempos. Carlos é o nome dele, um cara nota 10. Está sempre alegre, fala com todo mundo, cumprimenta. Depois vêm uns grupos de franceses e de chilenos. Nos entendemos através de sinais. É divertido atender estrangeiros.

Anoitece sem que eu veja. Noto porque as pessoas começam a me dar "boa-noite". O movimento no Laticínios cresce como nunca vi. Uma mulher me pede informações sobre um produto, e o pessoal pensa que ela quer furar a fila. Chove reclamação. Num momento de calmaria, outra freguesa me contou que brigou muito com o marido porque ele disse que ela estava uma baleia.

Quase 3 da manhã, chego à Central do Brasil para pegar o trem. Às 4 e 40 estou em casa, abro a porta e falta luz. Dia duro.

DOMINGO Acordo com barulho de tiros por perto. Os caras estão atirando da minha rua na polícia. Depois eu soube que foi porque se negaram a pagar o arrego. Foram uns trinta minutos de tiros.
Nove e meia já estou no trem, e bastante cansado. Vai ser outro dia daqueles, de meio-dia à meia-noite atrás do balcão.

Logo chega um cliente gay e me passa um papel com números de telefone. Diz que é para eu ligar a cobrar. Não adianta eu falar que gosto de mulher. Ele vai embora dizendo que eu não sei o que perdi.
Perto das 22 horas, chega uma cliente que mora em São Paulo e vem ao Rio para cuidar do pai. Ela só gosta que eu atenda. Hoje pediu para eu estender a mão e esfregou a mão dela na minha. Disse que era para eu lembrar do perfume dela quando fosse embora. Gostei.

SEGUNDA-FEIRA Hoje é FOLGA. Vou à casa do Gilmar, meu amigo de infância. Ele também nasceu na Vila Vintém. Brigou com a mãe e o irmão, e estava juntando as roupas para ir morar na casa da irmã. Essa história do Gilmar é longa. A mãe não gosta da namorada dele, acha que ela sai com todo mundo.

Parto para a casa de outro amigo de infância, o Fernando. A mãe dele pede que eu o acorde. Fernando chegou em casa de manhã, não trabalha, só quer saber de festa. Ele já acorda contando várias mentiras, exagera tudo. Mas é gente boa. Diz que é ecologicamente correto: só consome etanol.
No meio da tarde, ajudo Gilmar a levar as roupas para a casa da irmã. Não sei o que falar para ele, fico quieto. Gilmar me conta que a mãe lhe deu hoje um tapa na cara. Ele é sangue bom, coração maior que ele. Esses, e mais o Caolho, são os amigos de infância que me restam. Rafael, Baiano, Rogério, Daniel, acho que uns nove amigos que eu tinha desde pequeno, se meteram com o tráfico e morreram.

Passo em casa e minha avó fala que o primo Dejan, que trabalha na construção civil em São Paulo, pode me arrumar um emprego que pague mais. Prometo que vou pensar. Não sei se é bom sair agora que vai nascer o meu irmãozinho. Acho que devo ficar e ajudar a minha mãe. Eu faço assim: ganho 420 reais. Com os descontos, dá 168 reais por quinzena. A primeira quinzena eu entrego para minha mãe. Com a segunda, pago a conta da luz e trato da minha vida. O resto das despesas meu padrasto, o Paulo, é quem paga, porque a minha mãe não trabalha. Acho que é por causa da depressão. Ela toma uns remédios tarja-preta. Acho que a gravidez dela, por causa desses remédios, é de risco. E da idade, claro.

Esperei um pouco por causa de mais um tiroteio. Durou pouco. Deu para sair rapidinho e ir à lan-house ver os recados no Orkut. Um deles era de uma cliente do mercado que mora em Curitiba. Ela me conta que está morrendo de saudade do Rio, e que talvez venha em setembro. Na saída, encontro o Mau-Mau, um amigo, com dois dentes quebrados. Ele gosta de uma garota que tem um namorado. Mau-Mau é muito religioso, está sempre na igreja. Na verdade não é bem uma igreja, fica numa garagem. Lá, ele falou para o cara largar a garota porque Deus tinha dito que ele, Mau-Mau, é que ia ser o namorado dela. O cara quebrou os dentes dele, e ainda o deixou com um olho roxo. Que história para terminar a folga...

TERÇA-FEIRA Saio para o trabalho debaixo de bronca da minha avó. Ela acha que, ontem à noite, fiquei assistindo televisão e não falei com ela direito. Na minha rua está cheio de gente com fuzil na mão. Acho que vai ter guerra hoje.

No trabalho a coisa também não vai bem. Mal eu chego e um colega, o Caveirão, me conta que quase saiu pancada entre ele e o Capitão Sujeira, outro colega do Laticínios, por causa de limpeza ali na área de trabalho. O Caveirão foi falar para o Capitão que ali não era o lixão da casa dele, que ali precisava ser limpo, essas coisas. O Capitão ficou bolado. Pouco depois, o Capitão brigou com a demonstradora de queijo que trabalha com a gente. Ela mandou ele tomar um banho, escovar os dentes e lavar a camisa. Fechou o tempo.

Hoje decidi não jantar. Aquela caminhada até o posto 5 às vezes desanima. Comprei um pacote de biscoitos e fui passear um pouco na orla, para sentir aquele cheiro de mar. Assisti a três moleques de rua roubarem um sanduíche e um suco das mãos de um turista e voltei para o trabalho. Não sei por que, mas sempre achei que essas coisas só acontecessem na África.

Entro no Laticínios e a padeira vem por trás e pega uma azeitona do balcão frigorífico. Quando se virou para voltar à padaria, o segurança já estava chegando. Ele tinha visto e deu a maior bronca nela. Dia carregado.

SEXTA-FEIRA Estou muito cansado. Acho que dormi mal. Cochilei várias vezes no trem e no ônibus. O dia foi todo complicado. De madrugada, quando estava voltando para casa, depois de já ter saído do ônibus, ouvi os gritos de uma mulher. Ela saía de casa puxando uma garota, que estava passando mal. Ela tomou remédio para tirar o bebê, mas a gravidez estava muito adiantada. Um vizinho levou elas de carro para o hospital. Fiquei pensando nisso e na gravidez da minha mãe antes de dormir.

SÁBADO O Caveirão, não o meu colega, o blindado da PM, chegou cedo hoje na favela. Teve muito tiro, mas na hora de sair já tinha terminado tudo.

No trabalho, parece que vai ter festa. O gerente vem me dar os parabéns porque o Laticínios da nossa loja foi o que mais vendeu em julho. Está todo mundo feliz porque vai ganhar um dinheiro a mais este mês. Mas só quem tem mais de seis meses de trabalho. Eu não ganho: só tenho um mês e meio. Mas não vou perder essa. Aproveito e peço ao gerente para trabalhar mais cedo no domingo, porque está perigoso nos fins de semana lá na Vila. Ele topou, vai ser das 10 às 22 horas. Vou chegar cedo em casa.

TERÇA-FEIRA O dia hoje é de pouco movimento. É quando demoram mais a passar as horas de trabalho. Pelo menos foi divertido, porque tem um funcionário novo na minha seção. Tem pouco mais de um mês que veio de Alagoas. Sorte dele que já conseguiu emprego. Falei para ele que, no Rio, mulher a gente chama de "mandioca". Ele acreditou e me disse que, no domingo, pegou "duas mandiocas" no forró.

QUARTA-FEIRA Amanheço com gripe e um pouco de febre. Pode ser por causa do trabalho atrás daquele balcão frigorífico. Não é nada. Vou ao banco pegar a minha quinzena e volto para casa. Minha mãe quer dinheiro para comprar um caderno novo para o meu irmão. O dele está com só duas folhas em branco.

Saio para o trabalho e encontro com um garoto da favela. Ele tem uns 13 anos, é amigo do meu irmão. Chega perto e me pede um real para comprar um pão, porque não tinha comido nada ainda. Caderno, pão, ainda bem que recebi a quinzena.

No trabalho descubro que o funcionário novo continua acreditando em tudo. Já contei para ele que a história da "mandioca" foi só sacanagem, mas um colega disse para ele que ele vai ganhar muito dinheiro. Daqui uns três meses, já vai poder comprar uma moto, ele disse. Só não disseram que é uma moto de brinquedo, e ele está fazendo planos de trazer a namorada de Alagoas para o Rio.
São 17 horas, a hora das mulheres que queimaram calorias nas academias aparecerem para recompor as calorias. Só compram importados. Daqui a mais ou menos uma hora, um pouco mais, vão chegar os musculosos. Os homens vêm da malhação e compram peito de peru light. São mais preocupados que as mulheres com essa coisa de produtos light.

É também a hora dos estudantes e das velhinhas que compram comigo. A garotada fala sem a gente perguntar: "Aí, cara, tá vendo isso aí que eu tô comprando? É a minha janta, podes crer". As velhinhas dizem: "Meu filho, isso aí é para eu lanchar antes de dormir". Quase sempre compram um pouco de mortadela.

Às 19 horas começam a chegar os engravatados e as mães com filhos. Elas compram de tudo e dizem que, se não forem até em casa segurando os pacotes, as crianças comem tudo pelo caminho. O pessoal que chega de terno e gravata é engraçado. Eles compram peito de peru e queijo minas light. Quando compram presunto, sempre pedem uma fatia para provar. Pelo movimento, quarta e sábado são os dias de renovar os estoques na geladeira da casa dos clientes.

Mais tarde, lá pelas 22 horas, ainda vão chegar as pessoas que saíram da casa dos pais para morar sozinhas. Antes de comprar, muitas ligam para as mães pelo celular e fazem umas consultas. Quase sempre acabam comprando só queijo e presunto.

O movimento só diminui por volta das 23 horas, depois da briga do pão quente. A padaria é aqui ao lado do Laticínios, e eu fico só olhando. Às vezes, quando chega o pão novo, e tem muita gente esperando, parece que essas pessoas passaram o dia sem comer. E são sempre as mesmas.

QUINTA-FEIRA Estou com dor no corpo. Minha mãe pede o restante da quinzena para pagar uma conta de luz. O trem hoje está freqüentado. Tem três pedintes: um cego com as filhas, uma senhora que quer esmola e um senhor com um bebê. Diz que a criança está doente e ele precisa de dinheiro para os remédios. Tudo isso num vagão só.

Já chego ao trabalho cansado. Às 17 horas, a loja enche de estudantes, velhinhos e o povo que vem das academias. Hoje todos querem queijo prato.

Perto das 20 horas, um funcionário do açougue passa e diz que vai "secar" o Flamengo no jogo. Ele é vascaíno, mas não deu certo e o Flamengo ganhou.

Vinte e três horas é a hora dos solitários. A maioria é de homens e são quase sempre os mesmos. Hoje uma mulher falou comigo sobre a guerra do Iraque. Guerra é sempre uma barbaridade.

Quando desço do ônibus tem quatro caras estranhos do outro lado da rua. Resolvo tomar um caminho contrário ao da minha casa. Não estou a fim de passar por eles.

SEXTA-FEIRA Minha avó me acorda. Minha mãe está sentindo as dores do parto. É o bebê. Mas a mãe diz que não está na hora, e me manda ao supermercado Guanabara pagar duas parcelas das compras do mês. Arroz, feijão, carne, farinha. A conta de casa é alta. É muita gente.

Como somos cinco, com duas crianças, e mais um por chegar a qualquer momento, este mês está difícil. Por causa do bebê, tivemos compras extras: berço, fraldas e roupas para ele.

Começo a trabalhar às 16 horas. É a hora das empregadas domésticas que trabalham no final de semana. Elas sempre compram azeite, queijo prato, mortadela, salaminho, presunto, queijo minas. Sempre acima de meio quilo.

Às 18 horas são os casais que nunca sabem direito o que levar para casa no fim de semana. Olham tudo, perguntam, e muitas vezes não compram nada. É também a hora do pessoal que sai da praia e vai jantar frios ou sanduíche.

Bem mais tarde, lá por volta das 21 horas, chegam as pessoas que vieram passar o fim de semana no Rio. Compram de tudo que está à venda no Laticínios, e sempre dizem que eu tenho sorte de morar no Rio.

É engraçado o que a gente descobre das pessoas. Os solteiros também aparecem nas sextas-feiras. Trabalham a semana inteira, e na folga não querem saber de arroz. Levam azeitonas, queijo prato, presunto. Quase sempre meio quilo.

Os artistas e os casais gays chegam lá pelas 23 horas, fazem muita piada. Os gays sempre dão um jeito de falar alguma brincadeira sobre sexo. Não digo nada. Os artistas repetem a pergunta sobre quanto tempo os frios duram na geladeira. Depende, eu digo. Se não ficarem muito tempo fora do gelo, enquanto a pessoa está comendo, podem durar bastante, uma semana.

Estou quase chegando em casa quando encontro minha mãe e meu padrasto. Estão a caminho do hospital. O meu irmão vai nascer. Mais de 4 da manhã e uma enfermeira traz um recado da minha mãe: eu e meu padrasto devemos ir para casa porque o bebê não vai nascer ainda.

SÁBADO Nasceu de manhã cedo. Meu padrasto me acorda com a notícia. O cara nasceu com 4 quilos e 50 gramas. Mede 50 centímetros. É grandão. Nem sei qual foi o meu peso quando nasci. Fico feliz que correu tudo bem. Minha mãe falou para o Paulo que esse deu mais trabalho, ela sentiu dores por mais tempo. Pena que só vou poder ir ao hospital amanhã.

Hoje é o dia de maior movimento. Gente de todo o tipo. Solitários, casais, gente da minha idade, domésticas, estrangeiros, pessoas que fazem as compras da semana, do mês e, no final, passam ali no balcão para completar com frios e queijos. É dia de compra grande. Tem gente que leva mais de 2 quilos de presunto e queijo. É uma loucura, a fila não diminui, sai um, entra outro. Tem casais que se encontram nos fins de semana. Dá para perceber, porque ficam na fila se beijando o tempo todo. É engraçado adivinhar a vida das pessoas.

DOMINGO Acordo às 10 horas, ansioso para ir ver o meu irmão. Preciso esperar até as 2 da tarde, que é o horário de visitas, e parece que o tempo em casa não passa. Pouco depois de meio-dia, saio finalmente para o hospital Albert Schweitzer com o meu padrasto. Não é longe. A maternidade fica no 10o andar e a fila do elevador está enorme. Tento subir correndo pelas escadas, mas o fôlego termina no 3o andar. É melhor seguir devagar.

No quarto 1004 está a minha mãe, sorridente, com meu irmão. Ele é grande e cabeludo. Nasceu com as unhas tão grandes que arranhou a cara toda na primeira noite. Agora botaram umas luvinhas nele, para não se machucar mais. Tento pegar ele, mas foi só abrir o olho e começou a chorar. Só aceita a minha mãe.

Uma horinha só e acaba a visita. Volto para casa e fico pensando na minha família. Minha mãe não trabalha e meu padrasto tem 44 anos. Se ele sair do emprego, ninguém mais vai dar trabalho para ele. A responsabilidade pela família vai sobrar para mim. Acho que o meu dinheiro para o pré-vestibular vai para um preparatório para concurso público. O meu sonho mudou hoje, e vai ficar para mais tarde. Mas eu vou realizar, nem que demore 50 anos eu vou ser ortopedista.

Começo a arrumar a casa para parar de pensar no futuro. Dou um banho na minha irmã, boto toda a roupa suja na lavadora e vou para a rua conversar um pouco com os amigos. Eles estão muito animados, contam da festa que eu perdi, que só faltava eu, essas coisas. Acabei voltando para casa, para não deixar a minha avó sozinha com os meus irmãos, que são uns bagunceiros.

Paro um pouco para conversar com a minha avó. Ela acaba me dizendo que a "vida é dura para quem é mole" e diz que eu tenho que fazer por onde para ser recompensado. Já ouvi muito isso. Vou dormir.

10 de julho de 2015
Francisco A. Barbosa

ENTRE RATOS



Iván Izquierdo procura nos animais as chaves da formação e do armazenamento da memória


Porto Alegre, Hospital São Lucas. Instalado no segundo andar, R-1 não sabe que está sendo observado. Ele tem pouco tempo de vida, só se alimenta com comida desidratada, divide um modesto aposento com quatro colegas e não vê a luz do sol.

Sem vida sexual e sem filhos, sua rotina é sempre a mesma: de casa para o laboratório, do laboratório para casa e, apesar de não fazer trabalho voluntário, não é remunerado pelo que faz. Um tampão de resina acrílica lhe recobre o cérebro, protegendo o corte que lhe tirou um pedaço de pele e osso. Foi dentro de uma caixa, revestida de metal e fórmica branca, que aprendeu o básico: se pisar na grade de ferro, levará um choque elétrico. Horas depois, ele recebe a injeção de uma droga, por meio de uma cânula cravada em seu cérebro. Em poucos dias, não se lembrará mais que a placa de metal provoca choque.

R-1 é um rato de laboratório sem nome, identificado apenas por um traço de caneta na cauda. No ano passado, participou como cobaia de um experimento inédito. Um dos autores da pesquisa é Iván Antonio Izquierdo, neurocientista de origem argentina, naturalizado brasileiro, fundador do Centro de Memória, unidade de pesquisas biomédicas da PUC gaúcha. Izquierdo está completando 70 anos de vida, o seu cinqüentenário de dedicação à medicina e à pesquisa, e quatro décadas de estudo das drogas que afetam a memória e os processos bioquímicos que regulam sua formação, sua evocação e sua extinção. Ele mora em Porto Alegre, com Ivone Moraes, com quem tem dois filhos e quatro netos. Segundo Miguel Nicolelis, neurobiólogo da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, "Iván é o neurocientista brasileiro mais citado e mais reconhecido fora do Brasil".

O estudo protagonizado por R-1 e outras centenas de ratinhos, publicado em janeiro passado, foi apresentado pela imprensa como a descoberta da "droga do esquecimento". A expressão alude ao filme americano Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança, no qual o personagem vivido por Jim Carrey recorre a uma empresa que apaga suas lembranças de uma ex-namorada. O experimento do grupo de Izquierdo, desenvolvido em parceria com a equipe de Jorge Medina, da Universidade de Buenos Aires, foi publicado na revista Neuron. Foram testadas quase 500 cobaias ao longo de dois anos. Alternadamente, uma parte da experiência era feita em Porto Alegre e outra em Buenos Aires. Nesse intervalo, Medina e Izquierdo visitavam-se regularmente, para acompanhar de perto os avanços um do outro.

O trabalho resultou na descoberta do momento-chave da persistência da memória, que ainda não havia sido definido por experimento científico algum. Izquierdo e sua equipe conseguiram apagar a memória de um rato por meio do bloqueio da ação da proteína BDNF (do inglês brain-derived neurotrophic factor, fator neurotrófico derivado do cérebro), que atua decisivamente no processo de persistência da memória no hipocampo, região cerebral envolvida na formação, no armazenamento e na evocação de lembranças. A experiência impediu que uma tarefa, ensinada à cobaia horas antes, fosse armazenada em seu cérebro e se tornasse uma memória duradoura.

O fulcro do estudo não é a possibilidade de criar uma droga que anule a memória, mas a descoberta de que o momento-chave para a perpetuação de determinada lembrança situa-se na 12a hora após a aquisição da nova informação. É nesse período que ocorre a síntese de proteínas responsáveis pelo armazenamento duradouro de uma memória recém-adquirida. Ao interferir na ação dessa síntese protéica, impedindo que ela se concluísse, Izquierdo e seus colegas fizeram com que a memória do rato fosse afetada.

O método usado para entender como funciona o mecanismo de síntese das proteínas no cérebro teve como efeito colateral a anulação da memória do animal. Esse desdobramento indireto deu origem à suposta "droga do esquecimento", expressão que Izquierdo abomina. Ele não viu e não gostou do filme americano que explorou essa hipótese. Ele explica que, por ser tóxica, a droga usada para bloquear a proteína BDNF, a anisomicina, não poderia ser aplicada diretamente no cérebro humano. "Seria impossível colocar uma cânula diretamente no cérebro, injetar uma droga por meio dela e apagar uma memória específica sem prejudicar outras funções vitais", ele diz. Nosso cérebro é bem mais complexo que o de um rato e, além disso, o animal é morto logo depois da experiência.

Izquierdo defende que não se devem produzir drogas que apaguem uma memória, seja ela qual for. No caso de traumas ou fobias, o professor recomenda que se trate com terapia e remédios. Para ele, a pessoa não deve esquecer aquilo que a incomoda, mas manter essa lembrança fora de alcance para poder viver. Sigmund Freud deu a esse mecanismo o nome de habituação, tratamento psicoterápico de extinção consciente de um trauma, fobia ou lembrança fortemente desagradável. Em um de seus artigos, Izquierdo conta que muitos brasileiros - "nessa sua obrigação de ter de ser um povo feliz" - o abordam perguntando por que não apagamos de vez as memórias ruins. Ao que ele responde: "Não as apagamos porque nosso cérebro é mais inteligente que nós". Reprimidas, as memórias ruins ficam numa posição de difícil acesso, em vez de serem apagadas, raciocina Izquierdo, porque precisamos conservá-las para saber como reagir caso sejamos expostos novamente a experiências semelhantes.

O cientista americano Joe LeDoux, que divulgou em março passado um experimento no qual foi apagada uma memória de medo em um rato, concorda com o colega brasileiro. O animal foi submetido à aplicação de choques elétricos na presença de dois tipos de campainhas, com sons diferentes. Assim, ele formou duas memórias de medo distintas, uma para a campainha A e outra para a campainha B. Depois de instaladas as memórias, fizeram soar a campainha A, que provocou no animal a evocação da lembrança do medo do choque. Simultaneamente à emissão do som dessa campainha, foi aplicada no seu cérebro uma droga que provoca amnésia - a U0126. A droga agiu sobre a amígdala, parte do cérebro que tem o mesmo nome do órgão da garganta e é responsável pelas memórias ligadas à emoção e ao medo. Mais tarde, ao soar novamente a campainha A, o animal já não demonstrava medo do choque, ao passo que o medo da campainha B mantinha-se intacto.

Em entrevista para a rede americana ABC, LeDoux disse o seguinte: "Acreditamos que a memória é vulnerável. Podemos melhorá-la ou enfraquecê-la. Estamos tentando entender como isso funciona, e não criar um novo medicamento". A diferença entre o experimento de Le Doux e o de Izquierdo é que o americano apagou uma memória específica já armazenada, e o brasileiro interferiu no momento da persistência de uma nova memória, impedindo que ela se armazenasse por longo tempo. LeDoux atuou na amígdala, onde a memória de medo estava armazenada, e Izquierdo interferiu no hipocampo, região relacionada com a formação das memórias.

Martin Cammarota, o braço direito de Izquierdo na pesquisa, explica o caminho usado para entender o bloqueio da memória: "Na ciência ocidental, para compreendermos como funciona um sistema, primeiro fazemos com que ele funcione mal e, a partir daí, inferimos como é que ele funciona bem. O que buscamos não é uma droga do esquecimento, ou uma droga da lembrança, mas entender como funciona o processo fisiológico normal que ocorre numa região do cérebro quando um animal aprende uma nova tarefa". Como Izquierdo, Cammarota considera que uma mente saudável já opera no limite máximo de sua capacidade de memória, sendo uma aberração tentar melhorar aquilo que já funciona bem. Ambos só admitem o uso de uma droga que possa melhorar uma mente doente.

No mês passado, Izquierdo preparava um artigo sobre a reconsolidação da memória. A reconsolidação ocorre quando recordamos uma memória antiga ou em estado latente - mas que está fora de acesso por falta de uso e por isso é considerada esquecida - e a regravamos no cérebro. A recordação da memória extinta pode ocorrer pela influência de um fator externo, uma dica ou um "gatilho". Ao ser recordada, essa memória é regravada pela segunda vez. "Ninguém lembra daquele colega de escola que sentava três fileiras atrás e depois nunca mais foi visto", diz Izquierdo. "Com o passar do tempo, todos os dados sobre esse coleguinha desaparecem. Mas se pouco tempo depois de tê-lo visto pela última vez, na aula, o encontramos na rua, ocorrerá o processo de reafirmação da lembrança que temos dele, devido à sua evocação. Esse processo de reafirmação de uma memória, por meio da sua evocação pouco depois, se denomina reconsolidação." Na vida diária, como a extinção predomina sobre a reconsolidação, a maioria de nossas memórias fica fora de alcance. No entanto, uma memória em vias de extinção pode vir à tona e ser reconsolidada. Já as memórias esquecidas são irreversíveis - elas se apagam para dar lugar a novas memórias.

A memória mais remota de Iván Izquierdo vem de sua primeira infância. Ele se lembra, com pouca exatidão mas grande intensidade, de uma amiga de seus pais, Dolly Mondragon, que ele conheceu antes de completar 3 anos de idade. A imagem que conserva dela é marcante: uma mulher de saia preta e pulôver verde, morena de cabelos compridos. Ele se lembra bem da sensação de bem-estar que tinha a seu lado, mais que de suas feições. "Tínhamos um elo emocional fortíssimo, nos gostávamos muito", lembra Izquierdo. Dolly morreu naquela mesma década de 30. Se o cérebro humano se comporta como o do rato no que diz respeito à persistência da memória, na 12a hora após o encontro do menino Izquierdo com Dolly ocorreu uma síntese de proteínas em seu hipocampo que resultou no armazenamento dessa memória de forma definitiva em seu cérebro. Essa memória não se extinguiu porque vem sendo reconsolidada a cada vez que ele se lembra dela. Além disso, hormônios ligados às emoções liberados durante seus encontros, ocorridos há quase setenta anos, atuaram como reforço, fazendo com que essa memória emocional prevalecesse sobre outras memórias neutras da vida de Izquierdo. Desafiado num teste que lhe fiz, Izquierdo reconsolidou um fato que estava adormecido em sua mente: conseguiu escalar, com certo esforço, o time campeão do Grêmio na Taça Libertadores da América em 1983.

Um fato histórico influenciou a escolha profissional de Iván Izquierdo. Na Argentina de 1955, depois do golpe que derrubou Juán Perón, muitos intelectuais retornaram do exílio ou reassumiram seus postos acadêmicos. O país vivia a chamada Revolução Libertadora, que duraria três anos. A área de pesquisa médica ganhou novo impulso com a volta de seus cientistas ao comando de institutos de pesquisas. Dentre eles, o fisiologista Bernardo Houssay era a maior estrela, pois havia ganho o prêmio Nobel de Medicina em 1947. Quando Iván Izquierdo entrou na faculdade de medicina, viu-se num meio extremamente favorável à pesquisa científica.

Izquierdo recorda seu primeiro dia de trabalho: 2 de janeiro de 1957. Morava em Buenos Aires, tinha 19 anos e estava no 2o ano de faculdade. Chegou às 6 e meia da manhã à garagem de um casarão do bairro de Palermo, onde funcionava a sede do Instituto de Biologia e Medicina Experimental, dirigido pelo primeiro prêmio Nobel de Medicina da América Latina e, portanto, ídolo nacional argentino. Pouco acessível, Houssay provocava receio nos mais jovens. Naquele primeiro dia, a tarefa de Izquierdo resumiu-se à pesquisa com um sapo, usado como cobaia para o estudo do efeito da cortisona sobre a liberação de espermatozóides no animal. Foi o bastante para saber que tinha encontrado seu universo.

Data daqueles tempos seu interesse pelo estudo do sistema nervoso. A curiosidade pelo tema da memória lhe fora despertada pela leitura de Jorge Luís Borges, que dela fez um dos temas centrais da sua obra. Izquierdo explica: "Borges escreveu contos magníficos sobre objetos reais criados pelo pensamento ou pela memória. O estudo da memória é um lado da ciência em que a magia está sempre presente". Izquierdo costuma recorrer ao exemplo do personagem do conto Funes, o Memorioso, a cada vez que é perguntado por que motivo não conseguimos nos lembrar de tudo. Funes é um camponês que, após um acidente, adquire memória absoluta: ele não consegue mais viver em paz, porque se lembra de cada detalhe de tudo que já viveu, e isso o impede de pensar livremente. "Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes, não havia senão pormenores, quase imediatos", escreve Borges. Ao contrário do que prega o senso comum, esclarece Izquierdo, nossa capacidade de armazenamento e evocação de memória é saturável. Perdemos memória constantemente, para darmos lugar a outras, novas. Izquierdo cita um colega americano, James McGaugh: "O aspecto mais notável da memória é o esquecimento". Já o pensador italiano Norberto Bobbio diz: "Somos aquilo de que nos lembramos". Izquierdo acrescenta: "Somos aquilo que conseguimos lembrar".

Izquierdo se diz contrário a dogmas: "Deus me livre das ideologias", escreveu num de seus livros. Mesmo assim, foi considerado subversivo pelo regime de extrema direita na Argentina. Em 1973, morava há seis anos em Córdoba, onde fundara o departamento de farmacologia da universidade local. Estava casado e seus dois filhos já tinham nascido. Descobriu que o telefone de sua casa estava grampeado. Depois de uma conversa telefônica com um amigo considerado comunista, recebeu uma ameaça de morte numa ligação anônima. "Continue falando com esse bolchevique de merda, que nós vamos apagar você e a sua família", disse-lhe a voz no telefone. Izquierdo achou que era hora de se mudar.

Surgiu então a oportunidade de trabalhar em farmacologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, onde morava a família da mulher. Fez as malas e partiu. O início foi difícil. "Chegamos a Porto Alegre e encontramos terreno pouco fértil para a pesquisa científica", ele lembra. "Tínhamos uma vida de imigrante, com dois filhos, não tínhamos casa, e a profissão não tinha prestígio algum." Hoje, com 34 anos de carreira no Brasil, Iván Izquierdo acumula 36 prêmios, participa de 23 sociedades científicas, dentro e fora do país, e fala cinco idiomas além do português. No final de abril, foi eleito para a National Academy of Sciences, nos Estados Unidos. Nos últimos vinte anos, apenas sete cientistas brasileiros integraram a academia americana.

Iván Izquierdo é um homem de ombros largos, 85 quilos, altura mediana e mãos grossas. Usa a aliança no dedo mindinho, tem cabelos brancos fartos e ondulados. Veste tênis e jeans sob o jaleco do laboratório e caminha sem pressa com uma bolsa a tiracolo, que contrasta com seu jeito sério. Do sotaque argentino, ainda traz o som fechado nas vogais. Ele fala de seus estudos em tom pausado e didático. Avesso à notoriedade, Izquierdo sempre se refere a seu trabalho no plural - fizemos, pesquisamos, descobrimos, publicamos. No prefácio do livro Memória, ele escreve: "Creio que o culto à personalidade não faz parte da ciência". No 2o Simpósio Internacional de Neurociência, em Natal, em fevereiro, ele se preocupou em passar a palavra a dois de seus colaboradores, bem mais jovens que ele, Cammarota e Marco Prado, apesar de os jornalistas só demonstrarem interesse em ouvir o mestre. Meses depois, Izquierdo foi homenageado pela Universidade Federal do Paraná com o título de doutor honoris causa. Após a premiação, em Curitiba, fez um breve discurso de agradecimento e no final arrematou com a frase "Yo no me lo creo". Explicou que é uma expressão argentina, que significa que não acredita em tudo que dizem a seu respeito. Ele vê o mundo dividido entre aqueles que se acreditam e os que não se acreditam.

A memória, com relação à sua função e à sua duração no cérebro, divide-se na de trabalho, na de curta duração e na de longa duração. A de trabalho - ou operacional - é aquela que dura alguns segundos e não deixa traço bioquímico. Nós a utilizamos continuamente, de forma quase automática, para, por exemplo, compreender uma conversa ou anotar um número de telefone. Essas informações não ficam armazenadas, é impossível recuperá-las mais tarde. Essa memória é processada fundamentalmente pelo córtex pré-frontal, a parte mais anterior do lobo frontal no cérebro.

Já as memórias de curta e longa duração têm uma divisão mecânica, ou seja, ocupam algumas das mesmas áreas do cérebro, que são o córtex entorrinal e o hipocampo. "Fora as áreas da linguagem, usamos as mesmas regiões do cérebro e mecanismos moleculares semelhantes para construir e evocar memórias totalmente diferentes", ensina o professor. Existem memórias que duram a vida toda, que têm um substrato químico sólido e sofreram a síntese protéica. Já a memória curta dura no máximo seis horas e envolve um processo paralelo e até certo ponto independente daquele da memória de longa duração. "Enquanto a memória de longa duração não está construída, alguém tem que mantê-la, para podermos conversar, por exemplo", diz Izquierdo. "São processos paralelos, ocorrem nas mesmas estruturas cerebrais - não sei se nas mesmas células - mas são independentes. É como morar num hotel enquanto sua casa está sendo construída."

A descrição desse mecanismo paralelo de formação das duas memórias, que ocorre simultaneamente, foi mais uma das descobertas da equipe de Izquierdo na UFRGS, nos anos de 1997 e 1998. Os conceitos de curta e longa duração já existiam, mas até então ninguém havia provado que eram processos independentes e paralelos. Pensava-se que podiam ser contínuos. Essa dúvida foi levantada pelo psicólogo e filósofo americano William James, há mais de um século. James dizia: "Enquanto a memória definitiva é construída, onde funciona a memória primária, a memória de gravação que estamos usando?" A equipe de Izquierdo partiu dessa pergunta. Fizeram a pesquisa com ratos, aplicando-lhes drogas antes do início das duas memórias - de curta e longa duração - e conseguiram interromper a de curta duração enquanto a outra persistia. O estudo resultante foi publicado na revista Nature.

Em agosto do ano passado, outro trabalho de Izquierdo foi publicado na revista Trends in Neuroscience. Ele condensa quinze anos de pesquisa, feita também em parceria com o laboratório de Jorge Medina. Eles conseguiram descrever a base bioquímica da memória mediante o estudo da LTP (do inglês long-term potentiation), ou potencialização de longa duração. A ação da LTP foi descrita pela primeira vez, há 34 anos, pelo fisiologista inglês Timothy Bliss, em parceria com o norueguês Terje Lomo. Num estudo com dezoito coelhos anestesiados em laboratório, a dupla nórdica aplicou choques elétricos de curta duração e alta freqüência no hipocampo dos animais e constatou que houve uma resposta de fortalecimento - ou potencialização - nas sinapses dos animais, que poderia durar minutos ou horas. Demonstraram que um estímulo externo intenso tornava a conexão neuronal, a sinapse, mais potente.

Esse processo ficou conhecido como um modelo experimental de aprendizado, e até então não se havia comprovado sua validade como base fisiológica da memória. A equipe de Izquierdo conseguiu demonstrar que a LTP, que era considerada apenas uma hipótese de aprendizagem e armazenamento de memória, é de fato a própria base da memória no hipocampo. Como é justamente na sinapse que são armazenadas as memórias, esse processo induzido em laboratório demonstra o que acontece quando aprendemos algo via hipocampo. A cada vez que uma nova informação é armazenada no cérebro, formam-se novas sinapses, ou se fortalecem as que já existem. Por meio do experimento em ratos, o grupo de Izquierdo conseguiu identificar a série de reações bioquímicas que ligam a LTP ao processo de aprendizado no hipocampo. Ele ressalta, porém, que "além da LTP, fora do hipocampo há outros processos paralelos e diferentes que também armazenam memórias".

Izquierdo considera o neuroanatomista espanhol Santiago Ramón y Cajal o maior neurocientista de todos os tempos. Há mais de cem anos, ele descobriu a sinapse, estrutura elementar no estudo da memória. Em seu livro A Arte de Esquecer, Izquierdo escreve: "Ramón y Cajal postulou, em 1893, que as memórias têm sua base biológica em modificações estruturais das conexões utilizadas pelo cérebro durante sua aquisição. As neurociências da época não estavam ainda maduras para acolher esse postulado". Cajal viveu numa época sem grandes recursos para a pesquisa, e comprou o primeiro microscópio do próprio bolso. A microscopia eletrônica só seria inventada quatro décadas depois. Ele ganhou o prêmio Nobel de Medicina em 1906, pela descoberta da estrutura neuronal. Cajal intuiu que o aprendizado não se dava pela multiplicação de neurônios no cérebro. Mais: que a memória se formava por meio do fortalecimento de conexões entre neurônios preexistentes, o que reforçaria a comunicação entre eles, e propôs que a sinapse era o meio de armazenamento da memória.

Hoje, sabe-se que as sinapses crescem, diminuem, estão sempre em movimento e que a falta de estímulo pode atrofiá-las. Sempre que aprendemos algo novo, estamos fortalecendo ou aumentando a rede de sinapses. Se não usamos a memória, as sinapses se retraem, e a informação se perde. "No caso de Alzheimer, a doença não acontece por falta de uso da memória, mas por lesões cerebrais que matam sinapses e células nervosas", explica Izquierdo. "A destruição é provocada por alterações metabólicas, que se dão em determinados genes. Esses genes começam a não se expressar corretamente e produzem proteínas erradas."

Ele conta que as perguntas mais freqüentes de amigos e leigos em ciência se referem justamente à busca da memória perfeita. Todos querem saber o que se deve fazer para manter uma boa memória e quais são os primeiros sintomas do mal de Alzheimer, doença neurodegenerativa caracterizada pela perda irreversível e progressiva da memória. O professor ensina que o melhor exercício para fortalecer a memória é a leitura, mais que outras atividades correlatas que exigem concentração e aprendizado, como assistir a um filme ou jogar um videogame. Ele explica que a leitura exige a simultaneidade de múltiplas funções cerebrais. Enquanto você lê e reconhece a palavra "memória", em fração de segundos seu cérebro mira na letra M e deixa em lista de espera todas as palavras que começam com ela. Ao mesmo tempo, ele registra que é uma palavra feminina e exclui a possibilidade de palavras masculinas. Ele avança mais um pouco e encontra a letra E, e descarta do catálogo palavras começadas com M que não servem: macaco, moleque, muxoxo. Até ler o conjunto todo, o cérebro inclui e elimina uma infinidade de combinações, até que a palavra seja entendida e registrada. Ao compreendermos o sentido de uma única palavra, nossa memória de trabalho - aquela que funciona instantaneamente - faz o escaneamento cerebral que permite incluir ou descartar tudo que não está incluído num determinado contexto. Milhões de sinapses são ativadas em regiões cerebrais diferentes e novas associações são feitas a partir daí. Essa rede de sinapses sai fortalecida a cada vez que entendemos e armazenamos o que foi lido.

Quanto à pergunta sobre o aparecimento do Alzheimer, Izquierdo adverte: "Geralmente, ninguém se dá conta até ver que é tarde demais - e aí nada se pode fazer. O que há são alguns paliativos, que nem funcionam muito bem". Em todo o mundo, as pesquisas no campo da memória convergem para o estudo e o tratamento do Alzheimer. Cientistas do mundo todo trabalham com a intervenção artificial dos processos bioquímicos da memória para entender como funciona e, por isso, se abriram várias frentes de pesquisa. Izquierdo descobriu o momento-chave da persistência da memória, Le Doux instalou uma memória específica num rato e em seguida a apagou seletivamente; pesquisadores de Harvard aplicaram em humanos uma droga que suavizou o estresse gerado no momento da recordação de um episódio traumático. O mapeamento e a manipulação da memória em diferentes estágios - fixação, reconsolidação, evocação e extinção - vêm sendo utilizados como meio de se chegar ao objetivo comum de combate ao Alzheimer.

Iván Izquierdo fala da doença com a experiência de quem viveu de perto seus males. Seu pai, o farmacologista Juán Antonio Izquierdo, morreu aos 82 anos com Alzheimer. Na fase terminal, já não reconhecia o filho, mas sabia identificar seus tangos preferidos quando os escutava no rádio. Chegava a corrigir o locutor, que ao final de uma música anunciava a ficha técnica: "O nome da orquestra está certo, mas não é de 1926, como disse o locutor, é de 27". Ele identificava o ano da gravação pela forma como o bandeonista tocava uma nota. Izquierdo relembra: "Para isso ele tinha memória, mas para saber que eu era seu filho, não". Ele lembra uma visita que fez ao pai doente, em Buenos Aires, há quase vinte anos. Estavam a sós quando Izquierdo levantou-se para ir ao banheiro. Ao passar pelo pai, fez-lhe um pequeno afago na cabeça. Na volta, percebeu que o pai estava com os olhos úmidos e ouviu dele:

- Ei, Iván, pega essa caixinha aí. Agora venha comigo ao banheiro.

- Preciso ir junto?

- Precisa.

E quando chegaram lá, o pai disse:

- Pega essa caixinha e vira toda no lixo.

- Pai, mas esse é o seu remédio. Custa dinheiro e é para sua memória.

- Pode jogar tudo fora. Esse carinho que você fez na minha careca vale muito mais que esse remédio, que não serve para nada e só me causa diarréia.

"Nesse dia, e em tantos outros, me dei conta de que ele tinha razão. Fui ficando mais tempo a seu lado e sua memória foi melhorando." Duas semanas depois, suspenderam o tratamento com tacrina, remédio que já não fazia mais efeito algum, devido ao avançado estágio da doença. "Ainda assim, por muito tempo depois disso, minhas mãos no seu ombro continuaram a ter seu valor terapêutico", conta o filho.

Iván Izquierdo não se atormenta com a hipótese de vir a sofrer de Alzheimer algum dia. Ele diz que "quando se chega aos 70, esse é um assunto que se deve encarar com mais naturalidade. Isso pode acontecer, mas hoje eu acordei e não aconteceu. Eu posso vir a ter Alzheimer, eu posso até morrer com Alzheimer, mas se hoje eu não tenho, tudo indica que no próximo mês não vou ter, e nos próximos seis meses provavelmente também não. Então dá pra pensar num futuro positivamente". Ele dá o exemplo de Ronald Reagan, ex-presidente americano, que concluiu um segundo mandato já acometido da doença. "Mesmo assim, ganhou a Guerra Fria", comenta o cientista. Reagan veio a morrer de Alzheimer somente 15 anos mais tarde.

Segundo Marco Prado, "hoje está claro que a qualidade de vida está fortemente relacionada com a doença de Alzheimer: leitura, alimentação, interação com os pares, convívio familiar". Prado diz que é difícil separar qual o componente que determina isso, mas explica que esse modelo pode ser reproduzido em animais de laboratório. "Num ambiente enriquecido e controlado, é possível suavizar os sintomas de Alzheimer e até melhorar o comportamento do animal", conclui Prado. O próprio Izquierdo segue à risca recomendações de uma vida regrada: às vésperas de completar 70 anos, faz exercícios aeróbicos três vezes por semana, dorme oito horas por dia, lê todas as noites, come churrasco sem culpa - "a carne sempre me cai bem" -, dirige no trânsito de Porto Alegre e trabalha diariamente de 9 às 5. Conta que fumou por mais de cinqüenta anos, mas há quatro largou o cigarro, não sem muito sacrifício. Nos últimos dezoito meses, publicou 49 artigos científicos. Evita levar trabalho para casa, mas não se desliga da internet e gosta de se distrair com joguinhos no computador. Tem sempre um poema na ponta da língua e acaba de ler o romance O Caçador de Pipas. "O livro contém horror em demasia, eu estava numa fase da vida em que preferia não ouvir histórias horripilantes, mas é um livro magnífico", diz.

Izquierdo calcula que, em 35 anos de trabalho em universidade, teve contato direto com cerca de mil alunos. Conhecido por seu espírito conciliador, contabiliza apenas duas expulsões de alunos. Uma delas ocorreu há quinze anos, quando um estudante disse a uma professora visitante, judia, que a pele dela era diferente, e por isso ele nunca a tocaria com a mão. Ele foi até o aluno:

-Tu falaste isso?

- Sim, falei.

- Então, vais juntar tuas coisas e ir embora, já, enquanto eu estiver aqui olhando.

Izquierdo se indigna quando lembra que o estudante sequer entendeu o alcance do seu ato: "Ele confirmou numa boa". Em outra ocasião, soube que um dos alunos, para se divertir, torturava animais do laboratório. O sujeito amarrava uma pata do rato à grade metálica e lhe dava choques sucessivos até que o animal não resistisse. Izquierdo apareceu de surpresa e o pegou no flagra: "Eu arranquei o fio com a mão, sacudi o cara pelo braço e o mandei embora. Era um bárbaro". Ele não admite crueldade com as cobaias. "São animais que ao final do experimento temos que matar, mas até para isso exigimos todo o cuidado possível para que o animal não sofra, senão isso vira um açougue", afirma.

Sócio e amigo de Iván Izquierdo, Jorge Medina, de Buenos Aires, conta que o colega foi orientador de mestrado e doutorado de mais de 60 jovens cientistas, e ainda hoje é continuamente procurado para essa função, não apenas pelo seu saber, mas também por seu lado educador. "Ele ensina muito mais que ciência, ensina lições de vida, mostra como enfrentar as dificuldades fora do mundo acadêmico", diz Medina.

Em fevereiro de 2003, Izquierdo havia sido convidado a dar uma palestra no Simpósio Internacional de Neurociência, nas Bahamas, patrocinado pela PEW, fundação privada de apoio à pesquisa científica. Na véspera de sua apresentação, a escritora Laurie Garrett discursara sobre política no Terceiro Mundo para uma platéia de bolsistas latinos e jovens cientistas americanos. O assunto causou alvoroço, pois os ânimos estavam aquecidos devido à iminente invasão americana ao Iraque (que se daria um mês depois). Houve gritaria, bate-boca e animosidade, pró e contra o presidente Bush. Com esse pano de fundo, havia expectativa em torno da palestra de Izquierdo, que não teria como evitar o assunto. Como ele se dirigiria a uma platéia de jovens cuja metade era formada por americanos que naquele momento apoiavam o presidente Bush? Antes de começar a falar de ciência, declarou apenas: "Não podemos ser antiamericanos. Eu mesmo morei e trabalhei nos Estados Unidos, um de meus filhos é nascido lá. Gosto de jazz, de blues, e não podemos ser simplesmente contra nossos colegas americanos. E como gosto muito deles e os respeito, me sinto no dever de alertá-los, como fazemos quando percebemos que algo não vai bem com um amigo. Acho que é hora de apontar-lhes o dedo, como quem diz: 'amigo, você está com a braguilha aberta'." Assim, descontraiu a platéia, deu seu recado diplomático aos americanos e engatou no tema científico do dia.

Em 1962, depois de se doutorar em Buenos Aires, ele ganhara uma bolsa de estudo de dois anos na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Antes de partir, decidiu fazer uma viagem pela América do Sul com um amigo, à la Ernesto Guevara e Alberto Granado. Sabiam que o dinheiro daria no máximo para chegar a Porto Alegre, mas embarcaram assim mesmo. De lá, tentaram chegar ao Rio para o carnaval, mas não encontraram passagem. Como prêmio de consolação, foram convidados a passar o feriado na casa de praia de um amigo de seu pai, com a mulher e o filho. Iván disse ao amigo: "O pior que pode nos acontecer é esse filho ser um chato, mas vamos lá". Entrou no carro e não era um filho, e sim uma filha. Acabou casando com ela. A união com Ivone já dura 44 anos. Autor de onze livros de neurociência e seis de contos e crônicas, que trazem coletâneas de artigos seus publicados em jornais, o professor tem na gaveta mais seis contos inéditos à espera de um tratamento final. "Ainda preciso depurar o estilo", avalia.

Ele passou por uma fase difícil quando se aposentou pela UFRGS, em 2003. "No mesmo lugar em que eu tinha trabalhado durante 25 anos, de repente eu não tinha mais voz nem voto no departamento que ajudei a criar", ele lembra. "Sentia-me um inútil. Para dar aula, eu tinha que pedir permissão, para ter um bolsista, eu tinha que ter permissão." Por sorte, na mesma época surgiu o convite da PUC gaúcha para a instalação do Centro de Memória, que seria inaugurado dois anos depois. Ali, considera-se feliz. Suas principais atividades são o acompanhamento de experiências no laboratório e a produção de artigos. Passa a maior parte do tempo escrevendo. "Enquanto escrevo eu reflito melhor sobre o meu trabalho", diz. Com freqüência, é convidado para compor bancas examinadoras em todo o Brasil, mas tem recusado todas, para se poupar para viagens em que faz palestras e participa de congressos.

O professor atende ele mesmo as ligações que chegam direto à sua mesa e organiza pessoalmente a agenda de compromissos. Na porta da entrada de seu gabinete, há uma placa do exército americano: You are leaving the american sector - US Army (Você está saindo do setor americano - Exército dos EUA). No chão da sala, repousa um radinho, sempre sintonizado na Rádio Guaíba, que toca de Moon River a clássicos do tango. Sobre a mesa, está o laptop azul-marinho. Nas paredes, há três fotos da família, duas de seus netos e uma em que aparece com a mulher em Helsinque, na Finlândia, além de dois quadros pintados com cenas do centro antigo de Buenos Aires e uma bandeirinha da Argentina. Izquierdo almoça no trabalho, geralmente um sanduíche de croissant e café, e usa um discreto aparelho de audição.

Numa tarde recente de inverno em Porto Alegre, vestindo suéter de lã azul-marinho sob o crachá da PUC, onde se lê: I. A. Izquierdo - Famed Professor, ele conseguiu apanhar um mosquito no ar com a mão. Ficou orgulhosíssimo com a própria destreza. Apesar da boa disposição física e mental, e do prestígio profissional, Izquierdo conta que há catorze anos sofreu pela primeira vez uma forte crise de depressão. Ele voltava de um congresso em Buenos Aires, onde havia estado com amigos, hospedara-se no hotel Sheraton, que não conhecia e do qual gostou muito. Chegou em casa e, no final da noite, soube de uma crise na família. Dormiu e acordou subitamente, às 5 da manhã, desesperado: "Algo ocorreu na química do meu cérebro que me transformou de uma pessoa que estava tranqüila e apenas tinha ouvido uma notícia ruim num cara que queria morrer. Foi uma sensação indescritível". Pensou que, a partir dali, sua carreira científica estaria encerrada. Tratou-se com psicoterapia e remédios, e toma antidepressivos até hoje.

Proveniente de família católica, não se considera um praticante, embora seja profundamente religioso. Nunca duvidou da existência de Deus, mas deixou a religião de lado no final da adolescência. Retornou a ela justamente devido ao trabalho científico, quando se deparou com problemas que ultrapassavam sua compreensão. Se os problemas existiam, conclui, não existiam pelo acaso, mas por uma seqüência de razões, que ele não compreendia, mas alguém sabia. "Daí a vislumbrar a idéia de Deus é um passo", diz. "Eu vejo um bando de pássaros voando e não sei quantos são, mas alguém sabe. E essa é a prova de que Deus existe." Izquierdo sabe que, como cientista, na melhor das hipóteses, conseguirá responder como as coisas acontecem, mas não por que.

No final de maio, um grupo evangélico inaugurou o Museu da Criação, no estado americano de Kentucky. O museu criacionista é uma resposta aos museus de história natural que têm como base a teoria evolucionista. Os criacionistas renegam as teses do Big Bang - a grande explosão que teria dado origem ao universo há 18 bilhões de anos - e da evolução das espécies, e só crêem no que está escrito na Bíblia. O museu coloca no mesmo barco - literalmente - todos os seres vivos. Há uma Arca de Noé com humanos, um casal de cada espécie animal e dinossauros. Izquierdo considera a corrente criacionista "uma insensatez completa", mas pondera que "alguém deu o pontapé inicial nesse grande jogo que chamamos universo". Ele acha difícil crer que coisas tão complexas e organizadas tenham surgido do nada, e por isso crê em Deus. "O problema", diz ele, "é que, uma vez que se acredita em Deus, pode-se acreditar em qualquer coisa que nos contem sobre ele, pois não temos como provar o contrário."

R-1 pertence à classe dos seres complexos e organizados e seria, portanto, filho de Deus. Seu destino foi selado ao ser comprado, por 9 reais, por um laboratório de pesquisas biomédicas. De sua curta biografia, pouco se sabe. Talvez tenha vivido dois anos. Foi entregue à ciência com 1 mês de vida e, quando atingiu 200 g de peso, tornou-se apto a virar cobaia. Tinha pêlos brancos e olhos vermelhos. Quando não estava na mesa de pesquisa, ficava numa estante com luz e temperatura controladas. Logo que chegou, recebeu um traço de caneta em sua cauda, daí passou a ser chamado de Rato-1. Se fossem dois traços, seria o R-2 de sua equipe. Prestou-se a apenas um experimento e teve parte de sua memória apagada. Foi guilhotinado depois de usado.


10 julho de 2015
Raquel F. Zangrandi

JOGO DOS SETE ERROS



A construção do teatro do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro conclui, depois de mais de meio século, um marco do modernismo arquitetônico. Mas o resultado valeu a espera?


"Ora veja: eu quis fazer esta coluna, mas não tinha armação desse tipo", sussurrou um dos grandes arquitetos do século XX. O desabafo, em tom de superioridade, e talvez com uma ponta de inveja, foi feito por Le Corbusier, enquanto ele caminhava pelo piloti do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o MAM, ainda em construção. 
Era o final de 1962, quando da terceira e última viagem do projetista franco-suíço ao Brasil, num banquete em sua homenagem. O motivo da viagem foi seu projeto da embaixada francesa em Brasília, nunca construído. Havia um clima de despedida no ar. Além de representantes oficiais - diplomatas do Brasil e da França -, compareceram alguns dos principais arquitetos brasileiros. Entre eles, Lucio Costa e Affonso Eduardo Reidy, o projetista do MAM.

O discurso do ex-ministro da Educação de Getúlio Vargas, Gustavo Capanema, emocionou Corbusier, que estava com 75 anos. Sua conturbada, mas frutífera, relação com o Brasil, iniciada no final dos anos 20, terminava com um balanço ambíguo. Se, de um lado, apesar de inúmeras tentativas, ele nada edificou por aqui, do outro, a arquitetura moderna brasileira, ainda que com vida própria, dava sinais evidentes de ter incorporado suas lições. 
No almoço, vestindo terno claro e usando os acessórios que o identificavam (os pesados óculos de aro redondo e a gravata-borboleta), Corbusier sentou-se ao lado de uma senhora dezesseis anos mais jovem, que usava um vestido com pregas e estava com os braços à mostra. Era Carmen Portinho, companheira do projetista do museu. A posição de destaque dela à mesa não se devia a seus laços com Reidy: além de dirigir o museu, ela fora também a responsável pela sua construção. Ou seja, era a anfitriã do banquete.

Carmen Portinho foi a terceira brasileira a receber um diploma de engenharia. Se o pioneirismo acadêmico não bastasse, ela também dirigiu a Escola Superior de Desenho Industrial, a Esdi, e editou a revista municipal de engenharia. Com uma personalidade política e expansiva, ela serviu de suporte para o desenvolvimento do talento de Reidy, um homem reservado e tímido. 
Nunca oficializado, o casamento deles durou quase trinta anos e não deixou descendentes. Deixou para a cultura brasileira, contudo, um invejável conjunto de obras públicas que pensaram juntos - ela como diretora do Departamento de Habitação Popular do Rio, e ele como arquiteto responsável pelos projetos. Nesse espólio, está o Museu de Arte Moderna. Mesmo não sendo público, o museu foi criado e construído por eles, como oferecimento da municipalidade, e ambos não receberam honorários.

O museu, fundado em maio de 1948, surgiu graças à iniciativa de Nelson Rockefeller, que convenceu políticos e empresários da então capital federal da importância de a cidade ter uma instituição cultural do gênero. As duas primeiras sedes foram temporárias: o último piso do Banco Boavista, na avenida Rio Branco, e parte do piloti do Ministério da Educação e Saúde. Ambas foram desenhadas por Niemeyer que, preferido de Capanema, por pouco não foi designado para desenhar a sede à beira-mar. Com a segunda diretoria eleita, tendo à frente Carmen e a empresária Niomar Muniz Sodré, o museu deslanchou. A fim de construir sede própria, em dezembro de 1952 o MAM ganhou da prefeitura um terreno de 40 mil metros quadrados, numa área a ser aterrada, no Flamengo, com o desmonte do morro Santo Antônio.

A obra de Reidy foi a primeira de porte, no Brasil, a usar o concreto à vista. O ponto forte do desenho é a solução estrutural do volume de exposições: a coluna em V, que invejou Corbusier, apóia no braço interno a laje do primeiro piso (o salão de exposições) e, no braço externo, a cobertura. 
O pórtico formado pelos pilares de fora sustenta o segundo piso, por meio de tirantes. O mote desse malabarismo estrutural, tal como pregava a arquitetura moderna, é deixar a paisagem fluir pela construção. Essa é a origem dos pilotis, dos ambientes contínuos, do uso do vidro, das rampas e circulações generosas. A filosofia do projeto foi a de criar um espaço de liberdade, de diluir a noção de espaços público e privado.

Desde os primeiros esboços de Reidy, fica clara essa intenção. Numa sequência de três croquis explicativos, quase um diagrama, ele demonstra o desejo de que o prédio não influísse na "belíssima paisagem". Para isso, há poucos pontos de apoios deixando "livre grande parte do pavimento térreo". O desenho-diagrama é ilustrado com o pavilhão de exposições. Disposto no sentido leste-oeste do terreno, o pavilhão é o mais significativo dos três que compõem o museu. Situados em extremidades opostas, os outros dois são o bloco-escola e o teatro.

Carmen Portinho encarava a construção do museu como uma missão cívica. Deve-se a ela a correlação entre projeto e obra. Além da dificuldade em colocar de pé a complexa estrutura, havia também o detalhamento minucioso de Reidy, um dos mais rígidos e exigentes arquitetos brasileiros. 
Em seu projeto, por exemplo, o perfil das janelas coincide com a junta dos tijolos, e as tomadas, nos banheiros, ficam bem no meio dos azulejos. Não se fez economia na construção. Por isso, o museu foi executado em partes. Reidy só conheceu o bloco-escola, inaugurado por Juscelino Kubitschek em janeiro de 1958. Aos 54 anos, ele morreu de câncer nos pulmões em agosto de 1964. 
Três anos mais tarde, o pavilhão de exposições foi aberto. Um incêndio fez desaparecer parte do acervo em 1978 e o museu foi reaberto só quatro anos depois do fogo, após uma restauração malsucedida. Em 1999, outra restauração mais minuciosa deixou o MAM no prumo. Mas o teatro ficou para trás. Carmen morreu em 2001, aos 98 anos, sem imaginar que ele seria construído.

O teatro só foi construído devido a um hipermercado. Em 2002, ao participar do projeto de um Extra no Maracanã, onde havia ainda uma construção de interesse histórico - a primeira fábrica de cerveja da cidade -, o arquiteto Luís Antônio Rangel entrou em contato com a Rio Arte. O seu cliente gostaria de restaurar o edifício e passar a gestão dele para a prefeitura. 

Foi assim que ele conheceu o presidente da instituição, o também arquiteto Ricardo Macieira. Eles não só se tornaram amigos como projetaram juntos o Centro Coreográfico do Rio, inaugurado em 2004. Quando César Maia se reelegeu prefeito, Macieira foi nomeado secretário da Cultura. 
Antes de assumir, conversou com conhecidos sobre idéias para tocar no governo. Para o novo amigo, perguntou: "o que você acha que devo construir?" De bate-pronto, Rangel respondeu: "pelo amor de Deus, completa o teatro do Reidy!", e contou a história do projeto. Macieira registrou a idéia.

Ele lembrou da conversa meses depois, ao saber do interesse de um grupo paulista em construir uma casa de espetáculos no Rio. "Estávamos procurando há mais de cinco anos um lugar no Rio", diz Gladston Tedesco, um dos sócios da Tom Maior Empreendimentos, que controla a Tom Brasil e o Tom Jazz, em São Paulo. Tedesco, corpulento e falante, cuida da parte administrativa. Seu sócio Paulo Amorim, mais tímido e reservado, faz o trato com os artistas. Ambos trabalharam no governo Quércia.

Em 1995, eles abriram o primeiro Tom Brasil, na Vila Olímpia, e em 2003 outra casa, na chácara Santo Antônio. Ambas foram inauguradas por João Gilberto, em shows inesquecíveis, o que lhes conferiu um atestado técnico de qualidade do sistema de som. Do ponto de vista arquitetônico, a primeira foi mais bem cuidada, pois a segunda sofreu com o corte de verba. Além dos espetáculos, eles usam a estrutura do Tom Brasil para abrigar eventos corporativos. "Não é raro que uma apresentação musical dê prejuízo", relata Tedesco. "Por isso, no ano passado, em São Paulo fizemos 96 shows contra 140 eventos, que são uma garantia de lucro."

Era exatamente uma casa desse gênero, para shows e eventos, que Amorim e Tedesco queriam abrir no Rio. Tentaram primeiro um acordo com o Canecão e depois com a Marina da Glória. Nas conversas com os administradores da Marina, Macieira conheceu a dupla. Por problemas de contrato e de tombamento da área da Marina, as negociações não foram adiante. Macieira lembrou do museu e falou com Tedesco: "Olha, pouca gente sabe, mas existe no MAM um projeto de um teatro que nunca foi construído. Como faz parte do desenho original, pode ser que se consiga construir agora". Levantando as sobrancelhas, seu interlocutor respondeu: "Isso me interessa".

No encontro seguinte, Macieira e os dois empresários paulistas se reuniram em torno da mesa de um restaurante no Rio com João Maurício de Araújo Pinho e Carlos Alberto Gouvêa, presidente e vice-presidente do museu. Dias depois, a direção do MAM foi a São Paulo, para conhecer de perto os empreendimentos. Começou um namoro, que logo chegou ao altar. 
Para a cúpula do museu, a idéia representaria a possibilidade de independência financeira. Para os empresários, a oportunidade de abrir no Rio uma casa bem localizada, num conjunto arquitetônico nobre. "Não queríamos nada na Barra", lembra Tedesco. O contrato de vinte anos, renovável por mais vinte, reza o seguinte: o grupo paulista fica responsável pelo financiamento e pela construção do teatro, pagaria um aluguel reajustável para o museu e teria uma participação proporcional à quantidade de vezes que o espaço fosse utilizado.

Do ponto de vista formal, o teatro é a peça mais expressiva do conjunto. Enquanto as outras duas construções são contidas, o teatro, pelo próprio uso, possui formas curvas e tem uma massa mais densa e pesada. A idéia foi descrita por Reidy em 1953: "Na extremidade leste do conjunto ficará situado o teatro, com mil lugares. 
O palco terá uma largura disponível de 50 metros, 20 de profundidade e 20 de altura livre. A construção cênica baseia-se num sistema de carros movimentados eletronicamente, que se deslocarão para os espaços laterais e de fundo do palco. A boca de cena terá 7,5 metros de altura e 12 metros de largura, podendo chegar a 16 metros em caso de abertura total, para a realização de concertos sinfônicos".

Ou seja, era um teatro de grande dimensão para uso cênico, com acústica para atender também a apresentações musicais. Existem apenas dois teatros cariocas com capacidade maior: o Municipal (2 365 lugares) e o João Caetano (1 220 lugares), ambos construídos antes do projeto de Reidy. O teatro daria uma estrutura invejável ao MAM: que outro museu no mundo possui um teatro com essa dimensão? O Masp, para ficar com um exemplo nacional, tem somente dois pequenos auditórios.

Pelos desenhos originais, percebe-se que o foyer seria dividido em dois níveis: um no térreo e outro no piso superior, que coincidiria com a parte mais alta da platéia (que teria também um balcão). Assim como no Municipal, o foyer superior se abriria para uma generosa varanda, um terraço-jardim, cujo piso é a marquise que protege a entrada e conecta o museu ao teatro. No subsolo, estariam o fosso da orquestra, os camarins e duas salas de ensaio, com 450 metros quadrados cada.

Mas não era nada disso que os empresários do Tom Brasil desejavam. Eles queriam uma casa de show que pudesse alternar, dependendo do gênero, de 2 500 lugares sentados (em configuração de mesas) a 6 000 espectadores de pé (como uma imensa pista de dança). E, para os eventos corporativos, seria necessário fazer cozinha industrial, capaz de servir pratos quentes para até 6 000 pessoas.

Pela qualidade do desenho e de seu entorno, desde 1965 o museu é protegido por tombamento federal. Depois disso, os órgãos estadual e municipal que cuidam do patrimônio histórico também criaram leis para protegê-lo. Em miúdos: o museu é quase blindado, pois qualquer modificação, mesmo que mínima, deve ser aprovada por diversos órgãos públicos, que costumam ser rigorosos. 
Quando existe tombamento em mais de um âmbito, a praxe funciona assim: se não há disputa política, todos esperam e acompanham a resolução da esfera superior. No caso do MAM, foi o órgão federal - o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Iphan - quem deu as cartas. E no início de 2005, a superintendência fluminense do Instituto, na época dirigida pela arquiteta Thays Pessotto, entendeu o seguinte: o que interessava preservar era o volume externo, que deveria ser construído de acordo com o que foi imaginado por Reidy, mesmo que o uso e os interiores fossem alterados. Era tudo o que a direção do MAM e os empresários paulistas queriam ouvir.

Faltava um arquiteto para bolar o novo arranjo. Pelo telefone, Rangel recebeu a notícia do secretário da cultura: "Arrumei um pessoal que vai fazer esse negócio". Além de ter fomentado a retomada da construção, Rangel tinha no currículo uma qualificação especial para trabalhar naquela idéia: durante mais de dois anos, ele foi estagiário de Reidy no projeto do museu. "Reidy era um cara muito sério", recorda o arquiteto, que gosta de contar histórias da época. Ele lembra que, com a nova capital federal na pauta do dia, perguntou ao mestre: "Doutor Reidy, o senhor não entrou no concurso de Brasília?" A resposta negativa que ouviu foi ácida: "Eu faço as coisas com mais seriedade".

Formado no início dos anos 60, Rangel tem escritório num prédio antigo do Flamengo que era residencial e agora tem uso misto. Fica lá só à tarde: pela manhã acompanha, como contratado pela prefeitura, a construção da Cidade da Música, na Barra, desenhada pelo francês Christian de Portzamparc. Sua faceta profissional mais conhecida é em restauração (além do Centro Coreográfico do Rio, fez ainda a recuperação do Copacabana Palace) e, principalmente, em hotelaria. É dele o desenho do Le Méridien da avenida Atlântica, feito com Paulo Casé, seu ex-sócio.

Tudo caminhava bem: empresários bem intencionados, um museu de renome prestes a ganhar independência financeira, um marco da arquitetura modernista a ser concluído com a ajuda de um ex-aprendiz, e a cidade que ganharia um equipamento cultural de peso. O que poderia ser melhor? Algo na receita, no entanto, desandou. Para entender o que aconteceu, é preciso comparar o projeto original com a obra finalizada. O que resulta é um jogo de sete erros.

A primeira dessemelhança diz respeito ao uso. A mudança de uso - de teatro para casa de espetáculos - em vez de ser complementar, conflita com as atividades do museu. Gerido por terceiros, o espaço não é pautado pela programação cultural do museu. João Maurício se defende: "Adoraria que apresentássemos ópera - aliás, nem sei se adoraria -, mas as coisas mudaram". 
Segundo ele conta, nos últimos anos investiu-se para atrair o público jovem, por exemplo com desfiles de moda. O presidente alega também que o museu não conta com receita do governo. Segundo afirma, quando iniciou sua gestão, havia uma dívida de cerca de 10 milhões de reais, e hoje o MAM está tão azul quanto o céu de inverno carioca. Parte da dívida foi conseguida com a receita gerada pelos eventos, inclusive festas de casamento.

O argumento dos empresários paulistas é outro: "Quem no Brasil visita um museu?" pergunta Tedesco. "Revitalizamos aquilo tudo: na região, havia ponto de drogas e prostituição. Hoje está completamente diferente. E, depois que inauguramos, triplicou a freqüência do museu." Os empresários informam também que, vez ou outra, há parceria entre o MAM e a casa de shows: ao comprar um ingresso, o espectador ganha uma entrada para o museu. "Não houve mudança de uso: houve uma atualização", diz, por sua vez, o atual superintendente do Iphan, Carlos Fernando de Andrade.

O problema da mudança de uso é outro. Um dos preceitos básicos da arquitetura moderna é que a forma segue a função. Assim, o teatro do MAM não tinha aquela forma por acaso: sua expressividade era fruto dos espaços que ele abrigaria. Dito de outro modo, a expressão volumétrica de Reidy para um teatro de 1 000 lugares se tornou falsa com outro uso. O volume da caixa do palco, por exemplo, só teria aquela altura para abrigar os urdimentos (a parafernália que suporta a troca de cenários, iluminação e outros recursos). Na casa de show, aquele volume não tem função. 
A cozinha e o público maior, igualmente, exigem acessos diferentes, estacionamento e rotas de fuga com outras dimensões, como as duas saídas laterais que não estavam previstas no projeto. Ficam as questões: se era para modificar o uso, não seria mais verdadeiro construir um volume diferente? O que é melhor, um Reidy falso ou outra coisa, mais verdadeira?

O segundo dos sete erros diz respeito, especificamente, à relação interior-exterior. Para os arquitetos modernos, como Reidy, há uma continuidade entre os conceitos daquilo que se vê dentro com aquilo que está por fora. Eles não concebem o exterior como se fosse uma casca de ovo, nem o interior como se fosse um cenário: há uma unidade. A partir do momento que o projeto do interior de Reidy foi para o lixo, a unidade se perdeu. Mesmo admitindo a mudança de uso, e só valorizando o lado externo, os problemas persistem: o foyer transparente, por exemplo, faz parte de dentro ou de fora? Um usuário do museu que visite o espaço durante o dia leva um choque ao avistar aqueles interiores, mesmo sem entrar no teatro. Fica a segunda pergunta no ar: por fazer parte do conjunto, o desenho de Rangel, com suas virtudes e defeitos, já nasceu tombado?

Continuando a comparação do passado com o presente, da utopia com a realidade, o terceiro erro se refere ao volume. Nesse caso, a questão é concreta: as alterações feitas feriram a lógica da diretriz do Iphan. "Externamente, o projeto de Reidy foi seguido no milímetro", afirma João Maurício. Não é bem assim. Era impossível atender às inúmeras solicitações novas do interior do prédio num volume predefinido. A saída que Rangel encontrou foi simples e radical: se não dá para mudar para cima, vamos para baixo da terra. Mesmo com a dificuldade do lençol freático alto, o arquiteto usou profundamente o subsolo, botando nele a cozinha industrial e todos os demais serviços. Nesse caso, foi fundamental sua experiência em hotelaria, pois ele aprimorou a lógica utilizada pelo Tom Brasil em São Paulo. "É na verdade um programa de convenções", ele diz.

Mesmo assim, só a área do público e do palco não caberiam no volume de Reidy. Por isso, Rangel propôs ao Iphan que o caixilho do foyer avançasse 10 metros sob o espaço da marquise, que estava vazia no projeto de Reidy. Das três linhas de pilares da marquise, duas ficavam para fora do teatro e uma para dentro. A proposta, infelizmente, foi aceita pelo Instituto, e o desejo de liberdade de Reidy desapareceu nos 500 metros quadrados que o novo foyer invadiu. Massudo e fechado, como é todo teatro, certamente essa era a peça mais difícil de lapidar. Reidy tratou de deixá-lo mais leve por meio de elementos secundários, dos quais a marquise era o principal. Quando o volume finalmente foi construído, admiradores de Reidy, acostumados com a leveza do pavilhão de exposições, ficaram chocados. "Não é nada daquilo!", ouvi de um professor, especialista em arquitetura moderna.

A gravidade desse terceiro erro abriu a porteira para passar uma boiada de modificações no volume externo - algumas ilegais. Uma das mais graves se refere à rampa lateral. O terraço-jardim, sob a marquise de entrada do teatro, era conectado ao térreo através de uma rampa ao ar livre. Tanto a marquise como a rampa já estavam construídas, ou seja, eram tombadas. Vendo na rampa problemas de segurança, os empresários pediram sua demolição. A superintendente do Iphan, Thays Pessotto, atendeu ao pedido. (Ela é hoje assessora do presidente do Instituto e não quis falar sobre o assunto.) "O nível de violência hoje no Rio é muito diferente do que existia há 50 anos", justifica Tedesco. "Não tínhamos como fechar aquela rampa, e tudo ficaria vulnerável." Já João Maurício argumenta que a rampa atrapalharia a saída de emergência, cuja legislação ficou, de Reidy a Rangel, mais rigorosa. O presidente do museu acha que a o fim da rampa é uma mudança "insignificante". E o arquiteto diz que desenhou uma escada "ao sabor de Reidy" para substituir a rampa. O desenho do ex-pupilo, de fato, lembra a que o mestre utilizou em sua casa, em Itaipava.

Só que uma escada, mesmo de Reidy, é muito diferente de uma rampa. Quando subimos um plano inclinado, como era o caso da rampa destruída, ao lado de um jardim de Burle Marx, podemos apreciar a paisagem com calma e segurança. Já o ritmo duro dos degraus de uma escada torna essa contemplação mais difícil. A rampa torna maior a percepção de continuidade entre o térreo e o terraço-jardim. É o que Le Corbusier chamava de "passeio arquitetônico": um percurso que dá visões diferenciadas.

Para piorar, a escada que vingou não é a que foi aprovada. O arquiteto se defende: "Não digo que minha proposta seria igual ou melhor do que a solução em rampa. Era apenas uma solução factível. Mas aquela coisa que está lá não é o meu desenho!" Trata-se de uma escada desengonçada, cercada de grades, cujo desenho envergonharia um aluno do primeiro ano de arquitetura. Junto à escada, foi feito ainda um "puxadinho" no caixilho.

Existem outros elementos do volume que não correspondem ao projeto original, entre eles a falta da abertura superior da fachada principal (que também ajudaria a deixar mais leve a massa construída), a estação de energia (que poderia ser subterrânea, atrapalhando a visão do volume) e a bilheteria. Para vender ingressos, Reidy tinha pensado em um volume circular externo, pequenino, embaixo da marquise. Como a área externa foi ocupada pelo foyer, Rangel criou na lateral alguns volumes circulares semelhantes, de concreto e tijolos.

Os tijolos utilizados, assim como os outros que Reidy havia previsto para a parte posterior do palco, são diferentes dos escolhidos na década de 50. Não é um crime trocar um material, desde que exista argumento pertinente. Ele pode não mais existir (como alguns tipos de pedras), não ser mais fabricado ou ser proibido (como o amianto ou o jacarandá). Mas a troca de tijolos maciços refratários para tijolos de revestimento comum por causa de rapidez e falta de rigor na execução - tudo o que Carmen e Reidy não aprovariam - parece muito esquisita. O MAM, seguindo o viés brutalista, foi construído com poucos tipos de materiais, todos deixados à vista. A lógica desse raciocínio é transmitir a idéia da "verdade construtiva": quando vemos um painel de tijolo, ele é realmente construído com tijolos, e não com um material falso, de revestimento, que o imita.

A troca de materiais externos por "genéricos" é o quarto erro na comparação entre o desenho cinqüentenário e a obra executada. Além dos tijolos, há diferença no tipo de vidro do foyer e no concreto. E aí se chega à técnica construtiva, ao quinto erro. A cobertura, no desenho dos anos 50, tinha estrutura de concreto armado. Ela tem hoje treliças metálicas, escolhidas por serem mais baratas e de execução mais rápida. Nos anos 80, Carmen reagiu com irritação, na imprensa, quando colocaram telhas metálicas na cobertura do MAM, sabendo que elas só poderiam ser vistas do alto de prédios, ou de aviões e helicópteros. Imaginem o que ela diria a respeito dessas novas trocas?

Outro ponto, este mais grosseiro, diz respeito ao concreto aparente. Reidy fazia questão de marcar o concreto com texturas. Nas colunas e nas empenas do pavilhão de exposições há uma caligrafia própria, que procura desvendar o processo construtivo. Na casa de espetáculos, a construtora sugeriu ao arquiteto uma técnica mais moderna e rápida de concretagem, a de formas deslizantes, que dá origem a uma configuração totalmente diversa do concreto. Enquanto o concreto aparente de Reidy convida o olhar, o das formas aparentes dá vontade de sair correndo. Algo semelhante ocorreu com o volume ovalado da caixa de palco, que foi estruturado em metal e fechado com chapas cimentícias. O resultado? Em vez de uma linha contínua, ficou evidente que o volume é formado por uma série de trechos de retas. Que comentário faria Le Corbusier?

A falta de dinheiro, somada à pressa de inaugurar, aumentou todos os problemas. "Exigi que a construção só fosse iniciada quando estivesse disponível todo recurso necessário", diz João Maurício, que temia ganhar um esqueleto como vizinho. Para fazer a obra, que custou 25 milhões de reais, os empresários paulistas pediram empréstimo no BNDES, que não o concedeu. Eles tentaram obter uma linha de crédito no Banco do Brasil. O acordo foi feito, verbalmente, mas o escândalo do mensalão fez com que o banco, fugindo dos holofotes, desistisse do empréstimo. Sem dinheiro, eles recorreram à Vivo, que paga para ter seu nome vinculado à casa de shows. Quem financiou a obra foi a própria construtora, a Company, de São Paulo. O dinheiro entrou apenas oito meses antes da inauguração. "É muito difícil fazer uma obra com data marcada para abrir", informa Tedesco.

Mas e o sétimo e último erro? É a ocupação. Não, não vou reclamar das baias que servem aos serviços de manobristas. Mas como aceitar as grades que fecham a área de carga e descarga do teatro? Além das cercas, há por cima um arame farpado que, em vez de espaço cultural, mais faz lembrar Guantánamo. E o gesto de liberdade de Reidy? Não dá para imaginar que, dentro dos 40 mil metros quadrados do terreno do MAM exista um quintalzinho, ainda mais se tratando de uma área nobre, o eixo de circulação de acesso ao museu e a casa de shows.

"Eu tinha a obrigação moral de fazer o projeto do Reidy e pensei que o Iphan e o museu fossem segurar a barra", diz, cabisbaixo, Rangel. Algumas modificações não constam do projeto aprovado pelo Iphan - como a escada desengonçada e o puxadinho do vidro lateral - apesar de o órgão ter acompanhado a execução. "Duas arquitetas do Iphan visitavam a obra toda semana", relata Tedesco. "Toda semana é exagero", diz o atual superintendente, Carlos Fernando. "Acho a obra muito mal acabada, mas que eu saiba não há pendência alguma de aprovação. Se houvesse, a obra estaria embargada." João Maurício é pragmático: "Foi o melhor que conseguimos fazer. Não está bom?" Dá para imaginar a resposta de Reidy e Carmen...

A programação de shows da casa de espetáculos é intensa e variada. Talvez seja um caso de justiça poética, mas João Gilberto não a inaugurou. Quem fez o show de abertura, em 10 de novembro passado, foi outro Gilberto, o ministro da Cultura, a quem o Iphan está subordinado.


10 de julho de 2015
Fernando Serapião