terça-feira, 25 de agosto de 2015

ETERNIDADE É PARA SEMPRE


        Espírita acha que Deus não pode te dar uma única vida e depois a eternidade. Ele argumenta que uma vida só não basta para aprender tudo, saber tudo, fazer tudo. E, depois, fazer o quê na eternidade? Então, tá. 


       A eternidade depois uma única vida e uma única morte não faz sentido, mas uma eternidade de idas e vindas, sem fim, sem saber se estamos de volta à terra sendo punidos ou premiados pelo que fizemos na vida passada, aí espírita acha que faz sentido. Uma eternidade de vida aqui na terra, indo e vindo, indo e vindo?! Eu, hem? Que coisa mais apavorante.
PS: ao lado de Deus, não haverá mais lágrimas nem sofrimento. Ninguém vai sentir frustação de não saber o que gostaria. Nós vamos conhecer e saber das coisas que nos dizem respeito. Só não saberemos tudo, porque a onisciência é atributo de Deus. Não saberemos jamais, por exemplo, como é ser Deus. O mais, tudo (nos) será claro e explicado. O céu não chama paraíso por acaso.
Quem escolhe o inferno? Aí, eu não sei. Lá, a vida é infernal.

25 de agosto de 2015
in Miriam Macedo

QUINCAS BORBA, MEU CACHORRO


Eu e Quincas na pracinha do Morumbi
Eu e Quincas na pracinha do Morumbi
Tenho um cachorro chamado Quincas Borba. Ninguém sabe a idade dele. Dois veterinários divergiram de maneira tão cabal sobre esse assunto que deixei minha curiosidade para lá. Um disse que ele tem um ano e meio. Outro, que está para lá dois seis anos.
É um adorável vira-lata. Passou a infância, a adolescência e sabe-se lá mais o quê andando pelas vielas do Paraisópolis, uma das maiores favelas de São Paulo.
Quincas foi resgatado da miséria por uma ONG chamada Cão Sem Dono. Encontrei-o engaiolado (e muito triste) num petshop perto de casa. Foi amor à primeira vista. Ele tinha olhos grandes, profundos. Animados por movimentos lentos. Não fosse tautológico, diria que ele tem “olhos de ressaca”,  assim como Machado descreveu o olhar de Capitu.
Os antecedentes genéticos do Quincas são uma incógnita. A pelagem branco e preto denuncia algum tataravô Border Collie, o que explicaria sua fantástica inteligência. Foi a amálgama do nosso relacionamento de mais de um ano.
Quincas Borba não havia ‘pronunciado’ um único ganido sequer até outro dia. Achei inclusive que era mudo. Surdo não, nunca, dada sua incrível capacidade de entender tudo o que falo. Uma tarde foi até a varanda do apartamento onde moramos e latiu. Depois se calou novamente. Até hoje.
Seu mutismo, no entanto, não impediu a nossa interação. Ja falei que entender, ele entende tudo. Nunca houve uma ordem a que não atendesse prontamente. Aliás, houve uma: na fazenda de parentes, matava compulsivamente galinhas e pintinhos por puro deleite sádico. Matou 40 num fim-de-semana. Não adiantou ralhar, por de castigo, nada.
Quincas me ajudou muito num desses períodos de recuperação de casamentos que ficam para trás. Sem vontade de gastar com um terapeuta, escalei Quincas para me ouvir, e ouvir, e ouvir… Assim, ‘orientou’ inúmeras sessões de terapia. Revelou-se um digno cão freudiano, um psicanalista aprisionado num corpo canino.
Passamos a caminhar e a correr numa pracinha no Morumbi bem perto da minha casa. Todos os dias, religiosamente, íamos juntos buscar nossas endorfinas ao longo de seis quilômetros de caminhada. Eu na frente, ele seguindo meus passos de perto, sem coleira. Nunca fugiu, nunca perdeu o passo. Ganhou uma cinturinha marombada enquanto eu me livrava da barriga de chope.
Foi aí que ele me mostrou como o racismo está impregnado no mundo pet. Nessa pracinha, peruas com seus micropets cheios de lacinhos ficavam apavoradas quando meu Quincas se aproximava para filar uma cheirada em de algum cachorro. Elas puxavam forte a coleira, jogavam os micropets no colo e saiam apavoradas arfando. “Ai, um vira-lata se aproximou da minha cadelinha Maria Antonieta!…”
Mas Quincas não apenas venceu o preconceito, como ainda se tornou amigo de todas as madames e lulus do Morumbi.  Hoje ele caminha altivo entre umas e outros. Eventualmente ouve-se alguém gritando “Quincas!…”
Outro dia uma senhora interrompeu minha corrida para perguntar sobre o Quincas. Disse que antes tinha medo dele porque andava sem a coleira. Mas ficou encantada ao perceber que ele se dá bem com todos os cachorros do pedaço. E que resiste à tentação de  brincar com outros cães apenas para me acompanhar nos exercícios.
Expliquei a ela que somos bons amigos, chapas mesmo, e que sempre tivemos respeito mútuo e afeto recíproco.
Ela perguntou como era o nome completo do cão. Eu disse “Quincas Borba”.
Ela perguntou por quê.
Eu disse que era por causa do Machado.
Ela retrucou: “Whattttttttt ?”
“Nada. Deixa pra lá”, respondi, recomeçando corrida.
25 de agosto de 2015
in blog do panunzio

sábado, 22 de agosto de 2015

ARQUEÓLOGO DECAPITADO PELO ESTADO ISLÂMICO ERA UM DOS MAIS IMPORTANTES DO ORIENTE MÉDIO

Kaled Al-Assaad, de 82 anos, era um dos pioneiros da arqueologia síria, comparado a Howard Carter, que descobriu a tumba do faraó Tutancâmon, no Egito


O arqueólogo Kaled al-Asaad(VEJA.com/AFP)


Terroristas Estado Islâmico (EI) decapitaram e penduraram nesta terça-feira (18) um dos pioneiros da arqueologia síria, figura fundamental para a preservação de Palmira, cidade romana de 2 000 anos, considerada patrimônio da Humanidade pela Unesco e um dos mais espetaculares sítios arqueológicos do Ocidente. Kaled al-Asaad, de 82 anos, descobriu diversos túmulos antigos, cavernas e um impressionante cemitério datado da época da civilização bizantina (entre os séculos V e XV), que fica no jardim do Museu de Palmira. Por seu trabalho, é conhecido como o Howard Carter da Síria, em referência ao arqueólogo britânico que descobriu o túmulo do faraó Tutancâmon, no Egito.

"Kaled al-Asaad era um dos mais importantes pioneiros da arqueologia síria no século XX", disse Maamoun Abdulkarim, chefe do departamento de antiguidades e museus em Damasco. De acordo com Abdulkarim, o EI capturou al-Asaad há três semanas e tentou fazer com que dissesse onde estavam alguns dos tesouros históricos de Palmira, que alguns arqueólogos esconderam dos terroristas com o intuito de preservá-los.

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Cientista reconhecido - O experiente arqueólogo, formado em história e educação pela Universidade de Damasco, foi, durante quatro décadas, o cientista responsável pelas relíquias da cidade. Após sua aposentadoria, em 2003, trabalhava no departamento de antiguidades e museus de Palmira, cidade que funcionava como um importante entreposto comercial da antiga Rota da Seda, que passava pelo noroeste de Damasco. Era uma dos cientistas mais importantes do Oriente Médio e, em sua carreira, escreveu livros essenciais para a compreensão de aspectos da história da cidade e do Império Romano, como As esculturas de Palmira ou Zenobia, a Rainha de Palmira e do Oriente, além de diversos artigos em publicações científicas internacionais.


"Não é possível escrever a história de Palmira ou qualquer coisa relacionada à cidade sem mencionar o Kaled al-Asaad", disse ao jornal britânico The Guardian Amr al-Azm, cientista que trabalhou no departamento de antiguidades de Palmira e conhecia o arqueólogo. "É como falar de egiptologia sem fazer alusão a Howard Carter."


De acordo com Azm, o arqueólogo decapitado trabalhou nas primeiras escavações de Palmira e na restauração de diversas áreas do sítio histórico. Com outros cientistas, tirou do principal museu da cidade algumas relíquias consideradas importantes, antes que o EI tomasse a região.


Os terroristas, que dizem se basear na sharia, a interpretação radical do Corão, acreditam que relíquias históricas promovem a idolatria. Dizem que a destruição de monumentos e peças arqueológicas tem o objetivo de "purgar" o paganismo. Foi o que motivou a destruição de mesquitas e igrejas no Iraque e na Síria e motiva as atrocidades contra monumentos e figuras importantes para a história de Palmira.


Entre as cinco acusações contra o arqueólogo, lidas antes da decapitação, estavam ser "diretor de ídolos", representante da Síria em "conferências infiéis" e ter visitado o Irã.


"Asaad era um grande reservatório de conhecimento sobre Palmira e isso está perdido. Ele conhecia cada canto e rachadura da cidade. Esse tipo de conhecimento é insubstituível, não é possível comprar em um livro. E está perdido para sempre", afirmou Amr al-Azm.


Asaad deixou seis filhos e cinco filhas. Os extremistas do EI tomaram o controle de Palmira em maio, mas não há informações sobre possíveis danos às ruínas do Império Romano, embora o grupo já tenha destruído antiguidades no Iraque por considerar blasfêmia qualquer manifestação de culturas pré-islâmicas.


Em junho, os radicais sunitas divulgaram imagens da demolição de dois santuários na região, mas que não integravam o principal conjunto de ruínas.




MORRER EM SÃO PAULO

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Praguejando e bufando, com gestos apressados de jovem, meu avô vestia o último terno de sua vida. Cabelos brancos, baixo e encurvado, já quase não tinha carne nos músculos. Era osso e pele apenas. Uma pele branca, seca e enrugada. Uma pele de papel. Mas naquela tarde ensolarada de inverno, tomado pela irritação, não parecia ter 92 anos e se movia como um garoto marrento.

Começara pela manhã o impasse. Ele se queixara à minha mãe, dizendo sentir dor nos ombros e estranhar que suas fezes estivessem escuras, pretas como piche. Ao telefone, o sobrinho médico foi categórico. A aparência de piche sinalizava um sangramento grave. Uma hemorragia no estômago provavelmente. Se não fosse internado imediatamente, meu avô morreria em algumas horas.

Mas apesar da gravidade, o prognóstico não pareceu assustá-lo. E a possibilidade de ir ao hospital nem sequer foi cogitada. Ficaria em casa até o corpo se curar sozinho. Para provar a boa saúde, almoçou bem e depois, como de costume, ligou o rádio num volume baixo e se deitou sob seu cobertor puído.

Havia tido uma longa vida, e talvez fosse mesmo melhor que morresse em casa, dormindo, lenta e serenamente se diluindo em si mesmo. Minha mãe e eu cogitamos a hipótese. Mas a família nunca apoiaria a decisão de deixar um dos nossos partir sem ser incomodado com as urgências do socorro. Tínhamos de levá-lo ao hospital, e fui eu o encarregado de convencê-lo.

Tarefa difícil. Primeiro argumentei que quanto mais cedo se internasse, maiores seriam as chances de cura. Ele não se abalou. Então eu disse que, se ficasse, dificilmente sobreviveria. Nada. Se fosse para morrer, meu avô preferia sua própria casa. Sem alternativa, fui além. Narrei, passo a passo, o que lhe aconteceria. Ficaria cada vez mais fraco, desmaiaria, chamaríamos uma ambulância e ele seria levado às pressas a um pronto-socorro. Iria daquele jeito, de pijamas e descabelado. Por outro lado, se fosse logo, poderia vestir seu melhor terno, pentear-se, entrar andando no hospital, conversar com o médico e quem sabe sair de lá com a mesma elegância.

Pela primeira vez ele não se opôs. Ficou em silêncio por alguns instantes, depois levantou com a agilidade de um gato, abriu o armário e começou a se vestir daquele jeito apressado, deixando claro seu descontentamento.

Horas mais tarde, após um longo tempo de espera nas cadeiras modernas da recepção do Hospital 9 de Julho, meu avô finalmente foi chamado. Não pôde conversar com o médico. Mandaram que tirasse o terno e vestisse uma camisola ridícula, de um tecido fino como papel, que ainda por cima lhe deixava as costas e as nádegas à mostra. Mal se deitou na maca da enfermaria e já lhe espetaram diversas vezes a pele enrugada do braço em busca de uma veia que, na falta de remédio melhor, recebesse soro.

Por minha mãe, ele soube que seria sedado para que uma micro-câmera fosse introduzida em sua boca, chegasse ao estômago e indicasse a causa do sangramento. Para isso, contudo, precisava estar em jejum por oito horas, e como almoçara o exame só seria feito à noite. Até lá, fariam outros. Minha mãe tentava animá-lo, conversava, contava piadas, e ele parecia compreensivo. Apesar de assustado, surpreendentemente não reclamava.

Tiraram sangue, ligaram fios para examinar o coração, mediram a pressão, apalparam o corpo todo, um médico inseriu um dedo enluvado em seu ânus para comprovar o sangramento. Seguia sem queixas, meu avô. Foi assim até pouco antes das 20h.

Mais uma vez, a enfermeira tomava-lhe a pressão. Então ele começou a reclamar. Empurrou a mulher, quis tirar a agulha plástica que repousava dentro de sua veia, disse sentir dor. A enfermeira tentou acalmá-lo, continuou a medir a pressão, mas era impossível. Não porque meu avô se debatesse, mas porque não havia mais pressão a ser medida.

Ela gritou por um médico. Vieram várias pessoas. Uma delas ordenou que trouxessem sangue. Cercaram a maca impedindo que minha mãe visse o que acontecia. Ela ainda segurou a mão dele que lhe apertava com força, mas logo teve de sair. Fecharam a cortina.

Mais tarde, o sobrinho médico voltou à sala de espera com notícias. Meu avô, sofrera uma parada cardíaca. Perdera tanto sangue, que o coração parara. Os médicos repuseram o sangue. Enquanto um deles massageava-lhe o tórax partindo algumas costelas, outro lhe enfiava um tubo pela boca, que logo levaria ar aos pulmões, também inativos. O responsável era amigo do sobrinho médico, por isso a equipe se desdobrou na reanimação. Massagearam o tórax magro de meu avô por cerca de 30 minutos, até que ele voltasse à vida. Num milagre sádico-medicinal, ele acordou naquele inferno de máquinas e homens pragmáticos. O tempo que permanecera morto surpreendentemente parecia não ter causado danos ao cérebro.

Após explicar isso tudo, o sobrinho médico perguntou se minha mãe queria ver o pai. Ela titubeou, aflita. Ele insistiu, disse que seria bom para a recuperação. Ela foi. Meu avô agarrou-lhe a mão desesperadamente, grunhindo, impedido de falar devido ao tubo que lhe invadia a garganta. Estava sem a camisola, de fraldas, o peito revestido de hematomas.

Minha mãe teve de voltar logo à sala de espera. Mas a imagem do pai magro e debilitado, amarrado à maca, de fraldas, tendo apenas os olhos para mostrar seu desespero, nunca sairá de sua mente.

Aquele momento de agonia e impotência foi o último contato que meu avô teve com o mundo. Dali foi para a UTI, onde, sedado, passou as 24 horas seguintes. Na noite posterior, pouco depois das 23h, teve outra parada cardíaca e faleceu.

Após a notícia, dormimos poucas horas. Acordamos de madrugada e nos dividimos para cumprir os herméticos trâmites do velório e enterro. Fui encarregado da missão aparentemente mais simples, mas que se mostraria a mais terrível: a liberação do corpo, no hospital.

Antes das 7h, atravessei a cidade, junto de minha namorada, Adriana, que não tinha realmente que passar por isso, mas acompanhou-me bravamente. No hospital, depois de muito perguntarmos, foi ela quem descobriu onde deveríamos esperar pela funerária.

Era uma sala subterrânea. Não havia entrada de pedestres, apenas uma rampa para veículos, que dava na calçada. No final da ladeira, havia um espaço indefinido, que em nada lembrava a vistosa sala de espera. As paredes e o chão eram revestidos de azulejos beges, e havia uma única fileira de cadeiras, forradas de vinil preto esburacado. A iluminação vinha de dois bastões de lâmpada fria, um deles já piscando, prestes a queimar. Não havia ninguém para dar informações. Em um dos cantos o piso estava forrado por folhas secas, que se soltavam de uma planta judiada, carente de sol.

Adriana foi adiante, abriu uma das abas da porta que ocupava o fundo da sala. Colocou a cabeça pela fresta entreaberta e recuou logo. Não disse nada a princípio, mas seu rosto era só desconforto. Encarou-me por um tempo, depois deu por terminadas as buscas: "seu avô está aí dentro", exclamou. Eu não quis vê-lo.

Sem nada a fazer, sentamos nas cadeiras estropiadas e tentamos ler jornal. Um ditador louco berrava do outro lado do planeta ameaçando pôr um ponto final na história da humanidade.

Esperamos cerca de uma hora até que lá em cima o portão se abriu e, de ré, veio descendo um veículo prateado, com o símbolo da prefeitura de São Paulo. O rabecão parou a poucos centímetros das cadeiras onde permanecíamos sentados. De dentro dele, saiu um homem barrigudo, pernas curtas, metido num uniforme azul. Cumprimentou-nos rapidamente, sem olhar nos olhos. Pediu que lhe mostrasse o papel da funerária, comprovando o pagamento. Depois abriu a traseira da caminhonete e as duas folhas da porta que dava para onde estava meu avô.

Andando rápido com suas pernas curtas, fez algumas viagens para descarregar grandes sacos plásticos pretos. Depois parou e pela primeira vez olhou nos meus olhos. Tinha o buço e a testa porejados de suor. "Você vai ter que me ajudar aqui", exclamou. Voltou para a caminhonete, entrou pela frente e, por entre os dois bancos dianteiros, foi empurrando o caixão simples, de madeira, que minha mãe escolhera naquela madrugada. Quando estava com a metade para fora, veio para o meu lado, e juntos erguemos a caixa. Era pesada. Segurando uma das extremidades do caixão, seguindo o funcionário da funerária, entrei pela primeira vez na sala onde o hospital acondicionava os cadáveres.

Era um espaço amplo, forrado por aqueles mesmos azulejos beges. Do teto, à direita, pendiam cortinas plásticas encardidas. No chão, repousavam restos de folhas secas e palha. Não havia refrigeração, nem outros móveis além de mesas destinadas a receber os corpos: pés pintados de bege descascado, tampo de granito sem brilho. Meu avô estava deitado numa delas, bem na entrada, à esquerda, com os pés voltados para a porta. Depositamos o caixão ao lado do corpo, em dois suportes baixos. Preferi não olhar o cadáver e saí logo, prendendo a respiração. Adriana me abraçou, sussurrando indignada.

Após alguns instantes, o homem de azul também saiu da sala. Estava ainda mais suado. Parou diante de mim e me encarou pela segunda vez: "acho que vou preparar ele aqui mesmo", disse sem explicar, e continuou a descarregar sacolas da caminhonete. Algum tempo depois voltou a dirigir-se a mim, dessa vez sem me olhar nos olhos. "Você vai ter que me ajudar mais um pouco".

Conduziu-me até a mesa onde jazia o cadáver. Olhei de longe primeiro, sem coragem de me aproximar. O rosto de meu avô estava completamente roxo e tive a impressão de que exibia um amplo sorriso, qual um palhaço macabro. Quando cheguei mais perto, percebi que tinha sido só impressão. Não havia sorriso. Apenas um rosto duro e inchado, um boneco vazio e inexplicavelmente diferente do que havia sido meu avô. O terno era o mesmo que dois dias antes eu o convencera a vestir.

O funcionário da prefeitura levantou um dos lados do caixão, mantendo-o inclinado na direção da mesa. "Agarra os pés dele e puxa", ordenou. Segurei a barra das calças de meu avô e puxei na direção do caixão. Esqueci como ele era leve e usei muita força. O corpo completamente rígido girou sobre si mesmo, mas o homenzinho de azul era experiente. Não deixou que o giro se completasse. Agarrou o cadáver pelo colarinho e deu um puxão forte. Num baque seco, o corpo endurecido de meu avô caiu dentro do caixão.

Sem dizer nada, saí logo da sala. Adriana me olhou num misto de revolta e curiosidade mas também permaneceu em silêncio. Apenas me abraçou. Evitei encostar as mãos nela. Depois subi até a calçada e acendi um cigarro. Por conta das férias escolares, o trânsito da manhã estava calmo. Coisa rara em São Paulo. Tive receio de que o sujeito da prefeitura precisasse novamente de ajuda e, na minha ausência, apelasse para Adriana. Joguei o resto do cigarro no meio fio sem me preocupar em ser politicamente correto e voltei para o subterrâneo.

Adriana continuava lendo. Também sentei e tentei ler, mas a imagem do corpo rígido de meu avô se impunha sobre qualquer pensamento. Lembrei do filme "A partida", que vira recentemente. Pena aquele japonês violoncelista não trabalhar na prefeitura paulistana. Esperamos. Mas não por muito tempo porque logo o homem postou-se novamente diante de nós. Pediu que eu voltasse lá pra dentro com ele. De tão incômoda e surreal a situação tornava-se ligeiramente cômica. Entrei.

O rosto de meu avô não estava mais roxo. Agora vinha coberto por uma espessa camada de maquiagem, de um tom muito mais escuro do que havia sido sua pele. Era como se tivesse passado muito tempo numa câmara de bronzeamento artificial. O fato de uma vez ter existido vida naquele corpo parecia cada vez mais estranho. O sujeito de azul agarrou o colarinho de meu avô e o puxou com força, colocando-o sentado. A cabeça endurecida veio junto, ereta, indiferente. O homenzinho mandou que, de dentro de um saco plástico, eu pegasse um bom tanto de palha e espalhasse no caixão, sob as costas do cadáver. Eu obedeci, o mais rápido que pude. A palha exalava essência de cânfora.

Quando terminei, o homem deitou novamente o corpo. "Pronto. Assim ele fica mais alto", exclamou. Eu quis sair logo, mas ele me impediu. Mandou que eu me aproximasse. Levantou a ponta do grande nariz espanhol de meu avô e fez com que eu olhasse o interior das narinas. "Eles já colocaram um pouco de algodão lá, tá vendo?", disse apontando. Assenti sem dizer nada. "Então... Porque tá um pouco perigoso, isso. Pode ser que ele comece a vazar", prosseguiu. "Posso dar um reforço, se você quiser". Novamente concordei, estupefato.

O sujeito continuou. Levantou uma das mangas do paletó de meu avô, e mostrou o antebraço. Estava envolto em filme plástico. "Aqui a pele já tinha rasgado. Ia começar a cheirar. Então coloquei um pouco de plástico." Os dedos, cruzados sobre o abdômen, haviam assumido uma tonalidade verde amarelada, com manchas roxas. Perguntei se não era possível maquiar um pouco as mãos, para esconder aquelas cores macabras. Ele concordou.

Saí novamente, mas dessa vez demorou bem pouco para que ele me chamasse de volta. Fez com que eu o ajudasse a colocar a tampa no caixão. Era pesada também. Porém quando a depositamos, não encaixou no local correto. Ele não percebeu, ou fingiu não perceber, mas eu logo notei o problema. O corpo havia ficado alto demais e o nariz de meu avô impedia que a tampa se acomodasse corretamente. O sujeito fez força e, sem se preocupar em amassar o rosto do cadáver, aparafusou os quatro prendedores de metal. Mais tarde junto com o segurança do hospital, ainda tive de carregar o caixão até a caminhonete.

Depois de tudo, o sujeito de azul, com o rosto todo suado, finalmente me perguntou o que eu era do falecido. "Sou neto", respondi antes de ir embora.

Em casa tomei um longo banho, mais quente do que o necessário. Ensaboei as mãos várias vezes, e esfreguei o corpo como se tentasse me livrar do vírus da peste. A espuma do sabonete tinha um cheiro igual ao da palha que forrava o caixão.

Quando cheguei ao velório já havia alguns parentes ao redor do caixão aberto. Meu avô estava irreconhecível. No alto do seu nariz havia um corte provocado pela pressão da tampa. A base que recobria as mãos não dava conta de esconder as manchas roxas, e de dentro do punho do paletó era possível vislumbrar uma parte do filme plástico que envolvia o antebraço. O restante de seu corpo estava todo recoberto por flores vagabundas amarelas e brancas. Quase não se notava o terno que ele vestia.


22 de agosto de 2015
Tomás Chiaverini

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

TRABALHAR EM EXCESSO AUMENTA O RISCO DE DERRAME - DIZ ESTUDO

Pesquisa publicada no periódico 'The Lancet' com mais de 600 000 pessoas revela que trabalhar mais de 55 horas por semana aumenta em 33% o risco de sofrer um AVC e em 13% a possibilidade de desenvolver um problema coronariano


A análise concluiu que o risco de AVC aumenta proporcionalmente à duração do trabalho: é 10% entre maior as pessoas que trabalham entre 41 e 48 horas semanais e chega a 33% a quem ultrapassa as 55 horas(VEJA.com/Thinkstock)


O trabalho em excesso está ligado a um maior risco de problemas coronarianos e de acidentes vasculares cerebrais (AVCs), revela um estudo publicado nesta quarta-feira (19) no periódico The Lancet.

A pesquisa, feita por uma equipe internacional de cientistas liderada pela University College London, na Inglaterra, analisou dados de 603 838 pessoas da Europa, Estados Unidos e Austrália e revelou que trabalhar mais de 55 horas por semana aumenta em 33% o risco de sofrer um AVC e em 13% a possibilidade de desenvolver um problema coronariano, em relação a quem trabalha entre 35 e 40 horas por semana. É a maior pesquisa a analisar a relação entre longas jornadas e saúde cardiovascular.

Os pesquisadores analisaram durante sete a oito anos homens e mulheres que não tinham histórico de problemas cardiovasculares, tendo em conta outros fatores de risco, como tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas e sedentarismo. A pesquisa concluiu que o risco de AVC aumenta proporcionalmente à duração do trabalho: 10% entre as pessoas que trabalham entre 41 e 48 horas, 27% entre as que trabalham entre 49 e 54 horas, e 33% além das 55 horas. Não houve diferenças significativas entre homens e mulheres ou entre pessoas mais jovens e mais velhas, ricas ou pobres.

"Os profissionais de saúde deveriam ter consciência de que longos períodos de trabalho estão associados a um risco significativo de sofrer AVC e de desenvolver problemas coronários", disse Mika Kivimäki, professor de epidemiologia da University College de Londres e coordenador do estudo.

Longas jornadas - O papel do stress em várias doenças vasculares, como infarto e AVC, já foi objeto de numerosos estudos, ao contrário da carga horária de trabalho, que até o momento não tinha sido analisada a fundo. Estudos anteriores já haviam ligado muitas horas de trabalho a um maior risco de infarto, mas não de derrames.

Apesar de estabelecer a relação entre as longas horas de trabalho e a saúde coronariana, a pesquisa não estudou o que causa o maior risco de AVC. Entre os possíveis fatores estão o stress e as várias horas sentado no escritório, o que é prejudicial à saúde, pois pode indicar falta de tempo exercícios regulares ou refeições saudáveis. Entre as indicações dos pesquisadores para quem trabalha mais de 35 horas, estão checar constantemente a pressão sanguínea e ficar atento a histórico de problemas cardiovasculares.

Horas de trabalho - Ao comentar a pesquisa, o doutor Urban Janlert, da universidade sueca de Umea, destacou que entre os membros da OCDE (Organização para Cooperação Econômica e de Desenvolvimento) a Turquia responde pelo maior percentual de trabalhadores atuando por mais de 50 horas semanais (43%), e a Holanda está na outra ponta (1%).

Atrás da Turquia, México (28,8%) e Coreia do Sul (27,1%) também têm altos índices de profissionais trabalhando em longas jornadas. A França ocupa a nona posição (8,7%). Nos Estados Unidos, a maior parte das pessoas que não tem serviços ligados à agricultura trabalha 42,5 horas por semana, de acordo com a agência de estatísticas trabalhistas americana. Uma pesquisa do Instituto Gallup feita entre 2013 e 2014 mostra que quase 4 entre 10 americanos dizem trabalhar ao menos 50 horas por semana.


(Da redação), Veja
21 de agosto de 2015

UMA SOLUÇÃO PARA O DESEMPREGO



Duas categorias profissionais têm solução para todos os problemas do País: motoristas de táxi e barbeiros. Não me refiro a motoristas de táxi que são “barbeiros” (coisa que suponho ser rara), nem de barbeiros que são também taxistas (isso também deve ser raro). 
Falo de cada um desses profissionais separadamente.

Outro grupo profissional que sabe resolver tudo são os políticos. Mas o leitor tem todo o direito de perguntar o que eu também já me perguntei: Por que não resolvem? Muito simples. Durante a campanha eleitoral, eles sabem resolver até problemas que não existem. 
Também sabem resolver tudo depois que termina o mandato, quando dedicam grande parte do tempo a criticar o sucessor, exatamente porque este não resolve. Mas durante o mandato, quando lhes é de fato solicitada a sua habilidade como resolvedor de problemas, a história é outra…

Mas vamos ficar na sapiência dos taxistas. Quando eles decidem falar – bem... eles sempre o decidem – e o passageiro dá corda, podem-se esperar as soluções mais inverossímeis. 
Na época da inflação braba e galopante – que, aliás, de novo vai crescendo de mansinho e encontra incentivo nas portas escancaradas pelo governo – um deles me afirmou que o IGP (acho que era esse o índice) estava destruindo o País, e o governo tinha de acabar com ele. 
Eu me perguntei se esse humilde brasileiro havia descoberto um miraculoso caminho para a estabilização dos preços. Mais adiante, ao responder-me quais vantagens adviriam disso, revelou que não suportava mais – todo mês a prestação da casa financiada pelo BNH subia, porque aumentava o IGP.

Mesmo com uma visão das coisas tão limitada, algumas vezes esses laboriosos transportadores de passageiros apresentam ideias de bom senso, bem articuladas. Não é fácil apurar se resultam das próprias elucubrações, ou se eles apenas agem como correias de transmissão do que dizem seus fregueses.

Tomei um táxi, indiquei a igreja aonde queria ir, e depois de iniciado o movimento o motorista perguntou:

— Missa de sétimo dia, Doutor?
— Não. Casamento.
— Algum parente?
— Uma colega de serviço.
Ele assumiu um ar pensativo, e depois comentou:

— Hoje em dia não se pode ter certeza de nada...
— Certeza de quê? – perguntei.

— É, Doutor... eu também vou a muitos casamentos, mas sempre tenho medo de dar tudo errado. E isso acontece cada vez mais, quase sempre.

— O senhor tem razão: o índice de divórcios é cada vez maior.

— Não é só isso, Doutor. Antigamente as pessoas se casavam para constituir uma família, e isso significava ter filhos, tantos filhos quantos Deus lhes desse. Hoje o pessoal já casa pensando em ter só um filho, no máximo “um casal”. E a mania agora é programar pra daí a tantos anos. Eu não acho isso certo.

— Concordo que isso não é certo, pois recorrem à limitação da natalidade por métodos antinaturais que a Igreja condena. Eles se defendem, alegando que a vida está cara e não têm condições de manter os filhos, educar, etc.

— Conversa fiada, Doutor. Os que limitam os filhos são exatamente os que têm dinheiro. O senhor sabe que Deus abençoa a família numerosa, e diz o ditado que Deus dá o frio conforme o cobertor.

O comentário dele tinha todo propósito, mas eu queria ver até onde havia coerência no que ele pensava, e objetei com uma desculpa muito comum:

— Mas a vida moderna está difícil, exige que a mulher trabalhe fora para ajudar nas despesas. Essa minha colega, por exemplo, precisa continuar a trabalhar, e nesse caso fica pesado educar os filhos.

— Eu não quero falar da sua colega, que nem conheço, mas geralmente isso faz parte da burrice desses casais de hoje em dia. Muitas mulheres trabalham fora para conseguir manter uma empregada cuidando da casa. Se têm filhos, precisam também de uma babá, que elas chamam de bêibi-síta, pra ficar mais moderno. 
Antigamente a própria mulher fazia isso, e nem pensava nessas despesas. Até sobrava tempo pra produzir coisas em casa e ajudar na renda do marido. A educação dos filhos, ela fazia muito melhor do que a tal babá de nome complicado. Homem não sabe fazer essas coisas, a mulher é que nasceu pra isso. O senhor sabe: o mundo da mulher é a casa, a casa do homem é o mundo.

— Isso mesmo! Os filhos precisam da mãe em casa. Se a mãe e o pai estão sempre ausentes, os filhos perdem as referências mais importantes para a estabilidade emocional, para a educação.

— Veja só, Doutor. Todo mundo reclama de desemprego. Mas se as mulheres ficassem numa boa, cuidando da casa e dos filhos, ia sobrar muito emprego por aí. Mulher que trabalha fora ocupa o lugar de um homem desempregado.

Acabáramos de chegar à igreja, e a noiva já havia entrado. Paguei rapidamente a corrida, agradeci e despedi-me do motorista. Era um homem de bom senso, desses que o vulgo ignaro, vítima da propaganda feminista, desqualifica como machista.

21 de agosto de 2015
Jacinto Flecha

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

AS ILUSÕES DE SEXO, PODER E GLÓRIA



Quando se é moço, a vida se apresenta como um vasto e infinito horizonte, não se enxerga nem se imagina o fim. O fim não existe, nunca chegará. Já quando marcado pelos sinais da velhice, com pouco ou quase nada pela frente, percebe-se que tudo transcorreu estupidamente depressa. Anos se reduziram a poucos momentos, as lembranças se mesclam e se confundem. Junto com algumas alegrias surgem vários arrependimentos.
No rolar da vida a sensação de tempo no jovem difere daquela do velho. Parece que as paixões juvenis conseguem reter o escorrer do tempo, ao contrário, as agruras senis o fazem voar como fumaça em dia de vento. Chega-se ao momento em que a água que parecia estagnada no reservatório do tempo passa a se escoar pelas corredeiras, “sem retorno possível ou espaço para manobras”.
A alteração acontece quando o instinto reprodutivo se acalma, quando o dever de perpetuar a espécie se apazigua. Curioso: passando-se pelo ponto de mutação do acasalamento, certas espécies falecem, suas existências deixam de ter sentido. Já para o homem, substância mais aperfeiçoada, o tempo se acelera, e os dias intermináveis da juventude não se repetem.
DESEJO E LOUCURAS
Na primeira parte da existência o homem é movido pelo desejo da mulher, por ela faz loucuras. Na maturidade persegue com obstinação o poder ou o dinheiro, que é instrumento do poder, e por ele vende a alma. Mais à frente, quando as perspectivas de permanência no planeta se aproximam do nada, aplica suas forças remanescentes para se esmerar da glória – última fantástica ilusão, embora nela se guarde a “sobrevivência virtual” na memória de um mundo que continuará a escaldar outros indivíduos.
A glória alcançada em vida perpetuou Moisés, Alexandre, Júlio César, Augusto, Napoleão, Einstein e raros indivíduos. A glória é de poucos, enquanto o sexo é de todos, e o dinheiro, de muitos.
A glória fala pelas obras do faraó, pelo esplendor dos templos de Michelangelo, nos sorrisos pintados por Leonardo, nos anjos abraçados às nuvens de Rafael, nos cânticos de Dante, nas mágicas harmonias de Beethoven.
Arthur Schopenhauer sintetizou a glória como “o sol que ilumina os mortos… o poente de vida que se converte na aurora da imortalidade”. Mais sutil ainda Shakespeare, olhando para o “abismo” a sua frente: “Senhores, bom dia, apagai as tochas (do mundo)…” A glória que deixava o iluminaria na eternidade.
TRÊS IDADES
Sexo na juventude, poder na maturidade e glória na velhice. Molas que mantêm as engrenagens rodando. Três são as idades. Três, as motivações. Três, os pecados: luxúria, avidez, orgulho; e três, as virtudes: moderação, desapego e humildade.
Raros, e que acabam ignorados, aqueles que desaparecem do cenário na autossuficiência de um enlevo. A evolução nesta terra costuma ser banhada de sangue, passar pela cruz e conduzir a Deus.
Os budistas ensinam que, “aniquilando a vontade e os desejos”, matando o Eu perturbado por sexo, poder e glória, entregando-se apenas ao que há de divino dentro do homem, se terá acesso ao nirvana, morada dos deuses.
Qôlet: “O dia da morte é melhor que o dia do nascimento”; o fim do corpo esgotaria um ciclo penoso, e sua perda daria um descanso sem sexo, que é transitório, sem poder, que é desgastante, e sem glória, que só a Deus pertence.

20 de agosto de 2015
Vittorio Medioli
O Tempo

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

JOÃO DE ORLEANS E BRAGANÇA, O PRÍNCIPE QUE FAZ UM RETRATO DO PAÍS, O FOTÓGRAFO E EMPRESÁRIO REGISTRA FLAGRANTES DA VIDA DOS ÍNDIGENAS


Reencontro. Em primeiro plano, Joãozinho com Marcello Kamayurá: eles se viram novamente há um mês, graças às redes sociais - Custódio Coimbra / Custódio Coimbr


RIO — Um príncipe, da linhagem dos imperadores do Brasil, desembarcou na aldeia. Dormiu na oca, pintou o corpo e se banhou no rio. Não, esta história não é uma ficção passada no século XIX: aconteceu mês passado, no Parque Indígena do Xingu. O nobre em questão era João de Orleans e Bragança, trineto de dom Pedro II e bisneto da princesa Isabel. Ele voltava à tribo dos camaiurás 37 anos depois de uma primeira estada entre os índios. Com uma câmera na mão, o herdeiro da família imperial — em tempos republicanos, fotógrafo e empresário — repetia o que fizera anos antes: flagrantes da vida dos indígenas no norte do Mato Grosso. E, aos 61 anos, escrevia mais algumas páginas em seu roteiro de viajante, honrando seus antepassados, que desbravaram florestas, navegaram rios e cruzaram mares.

VEJA AS IMAGENS DAS VIAGENS DE DOM JOÃOZINHO AO XINGU
Primeira viagem de dom Joãozinho ao Xingu aconteceu 37 anos atrás. Numa das fotos, ele aparecia ao...Foto: Arquivo pessoal / João de Orleans e Bragança
Ele retornou em julho deste ano, e encontrou o mesmo pai e filho. Foi Marcello quem o localizou...Foto: Arquivo pessoal / João de Orleans e Bragança
Em reencontro, o herdeiro da família real dormiu numa oca e acompanhou o ritual do Kuarup Foto: Arquivo pessoal / João de Orleans e Bragança
Chegado ao Xingu foi de avião. Na reserva, ele presenteou Marcello com uma câmera fotográficaFoto: Arquivo pessoal / João de Orleans e Bragança
Em selfie feita com celular, Joãozinho aparece ao lado de Marcello com o corpo pintado pelos índiosFoto: Arquivo pessoal / João de Orleans e Bragança
Entre as imagens registradas por Joãozinho, uma delas mostra os índios se banhando com o sol se...Foto: João de Orleans e Bragança / João de Orleans e Bragança

No apartamento em que mora no Leblon, Joãozinho mostra as imagens feitas no Xingu em 1978 e este ano Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

Sua descoberta do Xingu foi aos 24 anos. Época em que Dom Joãozinho, como ficou conhecido quando era um jovem surfista nas praias cariocas, acompanhou amigos que faziam uma pesquisa universitária sobre a arquitetura indígena. Cabia ao príncipe fotografar a incursão, que virou uma reportagem, com imagens e texto dele, na “Geográfica Universal". Desde então, quando os irmãos Orlando e Cláudio Villas-Bôas ainda eram vivos, o mundo se transformou. Tanto que, ano passado, quando João postou uma das fotos da expedição numa rede social, foi encontrado por um dos índios clicados por ele em 1978.

— Na fotografia, estávamos o Marcello Kamayurá, ainda criança, seu pai Airuana e eu. Ao publicá-la no Facebook, Marcello entrou no meu perfil e comentou o post. Demorei meses para ler a mensagem, porque estava aprendendo a usar a ferramenta. Mas, quando vi, começamos a conversar. E ele me convidou a voltar ao Xingu, para o Kuarup (cerimônia de homenagem aos mortos) — conta João, relatando as diferenças entre a experiência recente e a anterior. — Hoje, os índios têm iPhone e iPad. Quero levar para eles painéis de energia solar. A essência da tribo, que é a valorização das relações humanas e da amizade, no entanto, não mudou. Quanto a mim, também mantive meus valores e minha maneira de ser.

A mulher de Joãozinho, a artista plástica Claudia Melli, diz que esse seu jeito de ser o leva a papear com qualquer pessoa, em qualquer lugar, independentemente da língua. É essa curiosidade por conhecer gente, afirma o príncipe, que o torna um “fotógrafo antropológico”.

Sua primeira grande viagem em busca desses encontros aconteceu em 1976. Ele atravessou meio planeta, de carona e a bordo até de um navio cargueiro, para chegar a lugares como Austrália e Samoa. Não parou mais.

PATRIOTA COM VISÃO CRÍTICA

A estreia como fotógrafo profissional em exposições aconteceu em 1987. E, desde então, ele percorreu o país para registrar em imagens os descendentes de escravos em Trajano de Moraes, no interior do estado, o trabalho de voluntários na periferia de São Luís, no Maranhão, os índios ianomâmis do Alto Rio Negro, no Amazonas, ou os artistas do AfroReggae em Vigário Geral, no Rio. Diante de um Brasil multifacetado, ele só reforçou um dos traços de sua personalidade: o patriotismo. Mas ressalva que é patriota, sim, porém, não ufanista. Isso lhe permite ter um olhar crítico sobre a condução da política nacional.


— O Brasil deve estar acima de tudo, de qualquer partido ou governo. Escrevi um artigo uma vez, chamando os traidores do país de quadrilhas públicas. Entra quadrilha, sai quadrilha. Mas acredito ser possível melhorar nossa realidade. Tudo dentro da democracia — afirma dom Joãozinho, voltando a lembrar dos índios do Xingu. — Eles deveriam dar lições de ética em Brasília.

Essa, no entanto, não é a única bandeira que costuma levantar. Com uma filha que tem Síndrome de Down, a defesa dos direitos de pessoas especiais é outra de suas lutas. São posturas diante do mundo que ele atribui ao que viveu e aprendeu com a família. Ainda jovem, o príncipe teve que parar os estudos de zootecnia para ajudar o pai, em dificuldades financeiras, em Paraty. Até hoje, ele divide seu tempo entre o Rio e a cidade, onde se tornou empresário dos ramos imobiliário e hoteleiro. Ao falar dos antepassados, não esconde a admiração por dom Pedro II, também um amante da fotografia:

— Pedro II tinha uma postura democrática. Trago no DNA as ideias dele.



19 de agosto de 2015
O Globo, Rafael Galdo

CIENTISTAS DESCOBREM UM DOS MAIS VIOLENTOS MASSACRES PRÉ-HISTÓRICOS

Pesquisadores encontraram esqueletos mutilados em assentamento de agricultores europeus de 7 000 anos. As feridas são, provavelmente, resultado de um conflito motivado por extremas secas na região

Crânio fraturado de criança, que foi encontrado na vala em Schoeneck-Kilianstaedten.(Christian Meyer/AP)

Crianças com crânios partidos, homens e mulheres com pernas estraçalhadas e corpos atravessados por flechas. O massacre brutal, que aconteceu há 7 000 anos na Europa, foi revelado pelos cientistas nesta segunda-feira (17) e mostra como uma das primeiras guerras entre os homens pré-históricos eram mais violentas do que se acreditava. O estudo, publicado no jornal Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), descreve como corpos de adultos e bebês foram mutilados e, provavelmente, torturados ainda em vida de forma cruel.

O grupo de pesquisadores alemães responsável pela pesquisa descobriu as evidências do conflito em uma vala comum em Schoeneck-Kilianstaedten, na Alemanha, onde havia 26 esqueletos de homens, mulheres e crianças. Os restos mortais, que pertenciam a alguns agricultores da região, tinham cabeças esmagadas, canelas e pés quebrados (possivelmente para evitar a fuga) além de feridas profundas feitas com ferramentas de pedras e metal.

De acordo com os especialistas, não é possível dizer se as vítimas ainda estavam vivas quando sofreram os machucados, mas os tipos de feridas indicam tortura ou mutilação. Além disso, os resultados reforçam a teoria de que esses agricultores pertenciam a um grupo que marcou presença por 600 anos no período Neolítico: o Linearbandkeramik.

Tempos difíceis - Essa cultura, também conhecida pela sigla LBK, abrigava um povo agrícola que chegou à Europa Central em 5 500 a.C. e deixou ricos registros arqueológicos. O grupo, que deu origem à população da Hungria e ao povo espalhado ao longo do Rio Danúbio, vivia em assentamentos permanentes, praticando a agricultura. O nome LBK faz alusão à outra atividade realizada por eles: a produção de cerâmica artesanal. Em alemão, Linearbandkeramik significa algo como "banda de cerâmica linear", estilo usado por esses agricultores.

Normalmente, os membros da cultura LBK sepultavam os mortos em estilo cerimonial. Cuidadosamente, os corpos eram enterrados e ficavam rodeados por artefatos de valor. Mas o que chamou a atenção dos cientistas foi que os restos mortais haviam sidos despejados de forma aleatória na vala, além de estarem cercados por objetos sem serventia.

Para os pesquisadores, os assassinatos não ocorreram de forma isolada e reforçam a teoria da existência de um padrão de violência generalizada nos tempos do Neolítico - que servia para mostrar força e intimidar os oponentes. Não é possível saber o motivo exato dos conflitos, mas especula-se que a luta entre grupos de agricultores vizinhos da mesma cultura tenha sido motivada por períodos de seca extrema e mudanças climáticas significativas. No período, a população LBK tinha aumentado consideravelmente, o que normalmente eleva o potencial de conflito. Além disso, ao contrário dos caçadores-coletores, os LBK estavam estabelecidos no terreno e não podiam simplesmente escapar, o que pode ter feito o embate ser ainda mais brutal.

Essa não foi a primeira vez que cientistas encontraram esse tipo de evidência. Outros dois túmulos que guardavam resquícios de mortes em massa foram encontrados nos anos 1980 em Talheim (Alemanha) e em Asparn (Áustria). No entanto, elas não revelavam ataques tão brutais e evidências de tortura.


(Da redação)

19 de agosto de 2015

Veja

terça-feira, 18 de agosto de 2015

DA VINCI: O FUTURISTA DO SÉCULO XV

Mostra inaugurada em São Paulo dá vida aos desenhos de Leonardo da Vinci, que antecipam em muitos séculos diversas tecnologias essenciais ao mundo de hoje. 
Cientistas selecionam as principais obras da exposição e explicam seu significado para a ciência atual

Exposição 'Leonardo da Vinci: A Natureza da Invenção', no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo(Divulgação/VEJA)

Em seus cadernos de desenhos, Leonardo da Vinci (1452-1519) anotou: "Nunca o homem inventará nada mais simples nem mais belo do que uma manifestação da natureza". 

Ao observar morcegos, tartarugas ou sementes, o italiano buscava compreender o cosmos e transformar seus princípios em tecnologias que ajudariam o homem. 

Por meio dessa mecânica sofisticada, inventou os ancestrais do helicóptero, avião, metralhadora ou de teares automáticos, que só ganhariam vida séculos depois de sua morte. Usando os desenhos do engenheiro, arquiteto, matemático e artista, o Centro Cultural Fiesp, em São Paulo, inaugurou na última semana uma mostra que coloca em prática cerca de 40 dessas ideias que, na época, não passavam de ficção.

"Da Vinci pensava na realidade e agia com base nas leis da natureza. Era um futurista do século XV", diz físico Vanderlei Salvador Bagnato, professor do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP).


Desenhos - Durante o Renascimento italiano, que floresceu entre os séculos XV e XVI, ainda não existia a ciência atual, baseada em formulação e investigação de hipóteses. 
A metodologia científica só seria desenvolvida nos séculos posteriores, com nomes como o francês Renée Descartes (1596-1650) e o inglês Isaac Newton (1643-1727). 
Da Vinci, no entanto, investigava a natureza de modo sistemático, criando mecanismos para provar seus conceitos, o que o tornou um precursor do método de criação e teste de teorias.

Uma das ferramentas mais importantes para essa investigação eram seus desenhos - que estão espalhados por toda a exposição. Da Vinci usou a perspectiva, técnica de geometria aperfeiçoada no século XV, para criar projetos que eram feitos e refeitos até que alcançassem a perfeição.

"O desenho permite elaborar conceitos e ideias, testar proporções e fazer cálculos. Ele esboçava todas as peças antes de executá-las, colocava medidas e investigava as possibilidades. Observava a natureza com o ímpeto de investigar, algo que está na essência da ciência moderna", afirma Ricardo Pisanelli, especialista em história e arquitetura e gerente do Catavento Cultural, museu do Estado de São Paulo dedicado à divulgação científica.

Mais que criar mecanismos que funcionassem na vida real, Leonardo da Vinci estava interessado em compreender a mecânica da natureza. Respeitando suas leis, ele criava engenhos que multiplicariam as capacidades humanas - fazendo-o voar, ter mais força, agilidade, velocidade ou produtividade.

"Ele tinha insights que foram precursores de tudo o que seria feito nos séculos futuros. Foi um dos primeiros a olhar para a natureza de forma racional", diz Pisanelli. "Imaginou uma quantidade surpreendente de coisas, mesmo que não pudessem ser executadas, pois não tinha as ferramentas matemáticas e materiais que teriam que ser inventados para que funcionassem."

"Cientista-artista" - As peças expostas vieram do Museo Nazionale della Scienza e della Tecnologia Leonardo da Vinci, em Milão, na Itália, e foram construídas de acordo com os desenhos do artista. 

Em 1952, os profissionais do museu interpretaram os esboços de Leonardo da Vinci e conceberam roupas de mergulho, teares, uma grua de 4 metros, aparatos de guerra ou de voo de acordo com suas indicações. 
Há dois anos, as obras viajaram até Paris para celebrar o centenário de nascimento de Da Vinci. No Brasil, elas ficarão até maio, na mostra gratuita.

Divididas em seções que buscam abarcar as diversas áreas do conhecimento exploradas pelo italiano, as obras demonstram o talento de Da Vinci para unir os campos do saber em engenhos que se tornaram essenciais para o mundo de hoje.

"Ele não era o melhor em todas as áreas do conhecimento, mas tinha uma capacidade única para reuni-las e criar algo novo. Aperfeiçoava o trabalho de outros homens de sua época e pensava como resolver os problemas de seu mundo: guerras, manufatura, arquitetura, transportes", diz o historiador italiano Claudio Giorgione, do Museo Nazionale della Scienza e della Tecnologia Leonardo da Vinci e curador da mostra brasileira.

Para Da Vinci, antes de tudo, suas obras deveriam refletir a verdade. Manivelas, alavancas, roldanas e sistemas de força espelhavam a mecânica do cosmos, refletida em cada pequeno elemento da natureza e em tudo que fosse criado. 

A beleza dessa estrutura primordial estava embutida não só em seus engenhos, mas era também o princípio de sua arte, que retratava suas investigações científicas. 
Como um homem do Renascimento, em Da Vinci, os atos de pintar, fazer projetos ou construir catedrais eram, essencialmente, a mesma coisa: revelar as leis universais.

"A arte que pretender ser fiel à natureza e sua beleza tem que ser científica. Afinal, a grande diferença entre a arte da natureza e a ciência é a linguagem. 

Neste sentido, Da Vinci foi um grande cientista," diz físico Vanderlei Salvador Bagnato, professor do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP).

As criações de Leonardo da Vinci: antepassados da ciência moderna


(Foto: VEJA.com/Divulgação)

Parafuso aéreo

Por meio da observação de sementes que se espalhavam pelo ar em movimento espiral, Da Vinci cria um mecanismo que antecipa em pelo menos cinco séculos a invenção do helicóptero. 
Ele é o primeiro a propor uma estrutura em hélice para o voo. Nos seus desenhos, ela tem 5 metros de diâmetro e é feita de bambu, linho e arame. Seria impulsionada por quatro homens que, girando o eixo principal, fariam a hélice subir. 

Na época, nenhuma propulsão seria tão poderosa para levantar a máquina, mas seu funcionamento é estritamente igual ao do helicóptero: transmite um movimento giratório que impulsiona o ar. “Esse protótipo certamente foi uma inspiração para a ciência posterior. 

Por meio da observação da natureza e de seus cálculos, Da Vinci imaginou que, um dia, seria possível voar com o auxílio de hélices”, diz Ricardo Pisanelli, gerente de conteúdo do Catavento

18 de agosto de 2015
Rita Loiola

OS GRANDES IMPOSTORES DA HISTÓRIA

Com o apoio da ciência, o pesquisador Jan Bondeson elucida alguns dos maiores mistérios de identidade do século XIX. 

Em seu livro 'Os Grandes Impostores' ele reúne alguns dos enigmas que assombraram a Europa, mas não resistiram ao avanço da medicina e dos modernos testes de DNA



Princesa Anastácia, filha do último czar russo Nicolau II: uma impostora que afirmava ser Anastácia e ter sobrevivido à execução da família real foi desmascarada por um teste de DNA (Reprodução/VEJA)


Nunca existiu uma criança alemã criada em uma masmorra, sem contato com seres humanos e alimentada a pão e água. 
Kaspar Hauser, o jovem selvagem celebrado no filme de Werner Herzog de 1974, realmente existiu no início do século XIX, mas inventou a própria história para conseguir dinheiro, conquistar a generosidade alheia e, quem sabe, alguma fama. 

Jan Bondeson, professor da faculdade de medicina da Universidade de Gales, na Grã-Bretanha, vasculhou bibliotecas e documentos históricos sobre o caso e, juntado a esses indícios os avanços da ciência moderna, descobriu que, por critérios hoje óbvios para a medicina, o garoto bem desenvolvido física e mentalmente jamais poderia ter um passado tão desolador.

Em seu livro Os Grandes Impostores, recém-lançado no Brasil, Bondeson narra casos como esse, fazendo uma análise minuciosa de episódios conhecidos como os maiores mistérios de identidade do século XIX. Como um narrador de livros de detetive, ele recolhe pistas, examina as relações e tenta desvendar seus enigmas.

"A ciência do século XIX era inútil para investigar esses casos. As modernas técnicas de DNA deram neles um golpe fatal", diz Bondeson.

Biblioteca

Os Grandes Impostores
livro os grandes 
impostores(Reprodução/VEJA)Jan Bondeson, professor da faculdade de medicina da Universidade de Gales, apresenta um estudo sobre grandes mistérios históricos do século XIX. 

Usando seus conhecimentos médicos e históricos e juntando a eles os resultados de testes de DNA dos últimos anos, tenta desvendar os enigmas, que ainda fazem parte do imaginário mundial.

Autor: BONDESON, JAN

Editora: DIFEL

A maior parte dessas histórias não sobreviveu ao desenvolvimento científico e, principalmente, aos testes genéticos, acessíveis desde os anos 1990. Essa é a principal ferramenta para os casos de identidade duvidosa abordados no livro. 

Qualquer cabelo, pedaço de roupa ou carta secreta pode ser submetida à análise e ter sua veracidade comprovada. Príncipes sumidos ou filhos bastardos, hoje em dia, são facilmente desmascarados pela ciência.

"Para muita gente, um impostor é um vigarista do século XX. Não engolimos mais essas histórias com facilidade", explica Bodenson, autor de outros 13 livros, dois quais apenas um, Galeria de Curiosidades Médicas, havia sido traduzido para o português, em 2000.


História romântica - Nas páginas do livro, o reumatologista nascido na Suécia se concentra em uma época em que a medicina e a ciência como conhecemos ainda não estavam desenvolvidas. 
Exames de sangue, testes psicológicos ou material genético contido em cromossomos ou mitocôndrias não eram sequer ideias da ficção. Por isso, avaliar a autenticidade de documentos, confissões ou verificar se uma pessoa era mesmo quem dizia ser era uma árdua tarefa. 

O poder político europeu do período, que deixava de ser fundamentado em linhagens consanguíneas e era balançado por revoluções populares, tampouco ajudava a verificar a verdade dos episódios. 
Era comum surgirem herdeiros desaparecidos, monarcas imortais, casamentos secretos ou pessoas simples depois identificadas como nobres sumidos.

Além disso, o imaginário desse tempo ainda era impregnado por histórias míticas e o pensamento mágico fazia parte do cotidiano.

Não havia a separação clara entre a história convencional, baseada em evidências, e sua versão romântica, feita por teóricos de conspirações ou intelectuais amadores. Ficção e fatos históricos reais se misturavam e ficavam à mercê do narrador.

"Muitas dessas lendas e mistérios históricos se incluem em um conjunto de lendas típicas, algumas das quais têm origens muito antigas. A lenda do herdeiro desaparecido, como a do francês Luís XVII, reflete a longa ausência de Ulisses e seu retorno como um pleiteante. 

A história do simplório misterioso que acaba se revelando um príncipe, caso do czar russo Nicolau I, remonta a histórias populares medievais", explica Bodenson. 
"Eles têm muitos aspectos míticos e essa é uma das razões por que se tornaram tão famosas."

Experiência médica - O autor começou a se interessar no início dos anos 1990 pelas histórias de identidade duvidosas, comuns no século XIX. 
Paralelamente a seu trabalho como pesquisador na Universidade de Gales, começou a ler sobre pessoas que pleiteavam ser filhos de reis ou herdeiros de grandes fortunas. 
Percebeu que faltava reunir todos os fatos históricos relacionados a elas, as conclusões científicas e, principalmente, os resultados dos testes de DNA feitos com esses personagens.

Usando sua experiência médica - que vê os indícios das doenças, analisa suas causas e faz as relações para descobrir sua solução - resolveu ir atrás de documentos da Biblioteca Britânica, da Biblioteca Nacional da França e da Alemanha para pesquisar sobre esses personagens. Visitou as cidades e os museus locais para conhecer o ambiente e passado de cada uma das histórias. Levou dois anos para juntar todas as informações e reuni-las em livro. 
O resultado é uma apresentação de todos os indícios históricos e científicos e um exame preciso do que levou esses personagens a, até hoje, permanecerem no imaginário mundial.

Confira abaixo os principais mistérios históricos que não resistiram ao avanço da ciência:

Os grandes impostores desmascarados pela ciência


(Foto: Reprodução/VEJA)
O enigma de Kaspar Hauser


Famoso pelo filme de Werner Herzog, de 1974, Kaspar Hauser foi um garoto real, de 16 ou 17 anos, que apareceu em Nuremberg, na Alemanha, em 1828. 
Ele dizia que havia vivido até então em uma masmorra, não havia tido contato com humanos e era alimentado apenas de pão e água. 
O jovem tornou-se o centro as atenções da cidade e, em pouco tempo, surgiram rumores de que deveria ser o príncipe herdeiro da família real de Baden, no sudoeste da Alemanha, que havia sido roubado do berço em 1812. 
Kaspar Hauser viveu com alguns tutores, mas foi assassinado em 1833. 

A bibliografia destinada a desvendar a real identidade Kaspar Hauser dispõe de pelo menos 400 livros e 2 000 artigos. Alguns são a favor da teoria do príncipe e outras, de que Hauser era um garoto pobre que foi abandonado na cidade e inventou a história da masmorra para despertar a generosidade alheia. 

A análise dos documentos históricos mostra que a história da masmorra é disparatada — o jovem teve um bom desenvolvimento físico e mental e tinha aprendizado ágil, algo que não poderia acontecer em uma prisão pequena e escura. Já desmentir sua procedência real é mais difícil. 

Em 1996, a revista alemã 'Der Spiegel' patrocinou um exame de DNA para comprovar a história. Uma mancha de sangue na roupa de Kaspar Hauser, guardada em um museu alemão, foi comparada à ao DNA da realeza de Baden: elas não têm relação. 

O mais provável, de acordo com os historiadores mais recentes, é que Kaspar Hauser fosse o filho ilegítimo de uma família respeitável, criado em alguma fazenda isolada e abandonado na cidade quando os parentes não queriam mais o manter. Contar uma história fantástica e comovente sobre como foi maltratado seria uma ótima estratégia para conseguir dinheiro, conquistar amigos e fama.

“A história de Kaspar Hauser tem alguns temas característicos dos contos de fadas tradicionais: o príncipe aprisionado, o ingênuo com poderes extraordinários, o órfão à procura de suas verdadeiras origens. 
Na literatura e nas artes, Kaspar Hauser adquiriu vida própria”, escreve Bondeson em seu livro.


18 de agosto de 2015
Rita Loiola