terça-feira, 26 de janeiro de 2016

DÚVIDAS SOBRE O FEMINISMO

Sasha Grey: sujeito ou objeto?
SUJEITO OU OBJETO??

Sei que “não posso” tratar do tema, pois sou homem, mas ainda assim me atrevo a adotar uma licença poética e de gênero (explico no último tópico). Também sei que não há “o feminismo”, mas sim vários “feminismos”, com todo tipo de corrente, tendência e coisa do gênero (ops) – algo natural em todo grupo ideológico, político ou até religioso mais amplo, tais como direita, esquerda, ateus, veganos ou torcedores do palmeiras.
Mas sigamos.
Decisão expressa vs Cantada/assédio
Começo pela questão levantada neste texto (é da Aline, uma feminista de esquerda – e brilhante -, então não digam que se trata de golpe ou pegadinha reaça, por favor): se é NECESSÁRIO o ACEITE EXPRESSO da mulher, o que se dá evidentemente por meio de manifestação inequívoca e verbal, como diabos o homem pode sugerir sexo ou algo do tipo se, ao mesmo tempo, fazer isso é considerado ASSÉDIO ou até AGRESSÃO?
Ou bem não se pode propor coisa alguma, ficando desse modo impossível haver o pedido a ensejar concordância ou discordância expressas, ou então seria permitida ao menos uma primeira tentativa (para que a mulher, afinal, possa recusar-se também expressamente e deixar claro que o NÃO é NÃO).
Porém, exigir contrato OBJETIVO E INEQUÍVOCO, com manifestação clara das partes, e ao mesmo tempo condenar aproximações desse tipo, aí a conta não fecha. Como seria o pedido claro e expresso? Fica a dúvida, aguardando-se a gentileza de alguma explicação.
Critérios para escolha de parceiros
Uma mulher decide com quem sai, transa ou namora, sempre de acordo com seus próprios critérios. Cabe a ela, portanto, estabelecer os porquês de um “sim” ou “não”, seja para curtir uma noitada ou passar parte da vida ao lado de outra pessoa. Ok.
E é também perfeitamente legítimo e correto que uma mulher não queira namorar um sujeito de vida pregressa que lhe desagrade (seja por que motivo for), incluída aí a hipótese de não querer namoro com homens “galinhas”, desses que saem com todas ou “atiram para todo lado”. Concorde-se ou não com os motivos, não há como discordar de que SOMENTE A PRÓPRIA MULHER decide suas razões de voto ou veto de parceiros.
Corretíssimo tudo isso, sem dúvida, mas…
Por que é reprovável e em alguns casos inaceitável – por parte especialmente das feministas – quando é um homem que utiliza seus próprios critérios para desejar ou não uma relação, sejam eles quais forem (incluída aí a hipótese de não querer quem “atire para todo lado” ou seja “galinha”)? Mais uma continha que não fecha, né?
Ou os critérios de escolha são personalíssimos, sem que qualquer outro possa meter o bedelho, ou então ficariam estabelecidos critérios fixos (para homens e mulheres). Como essa segunda opção é um tanto ridícula, parece razoável que cada um cuide mesmo de si e escolha quem quiser da forma que quiser (valendo para homens e mulheres).
Portanto: se uma mulher não quer um cara notoriamente safado, ela não está “errada”, sobretudo e especialmente porque ELA DECIDE COM QUEM SAIR OU NAMORAR. Ponto. E o mesmo vale para o cara. Liberdade plena de decisão funciona assim, ora. Não faz sentido um caso ser tratado como “escolha livre” e o outro como “machismo atávico”.
Prostituição
De um lado, há o grupo que condena a prostituição por configurar uma espécie de escravidão, segundo a qual a mulher é obrigada a seguir esse caminho para conseguir manter-se viva. Com maiores ou menores variações, há uma corrente assim. Não seria, portanto, uma “escolha”, mas sim necessidade.
E há outro grupo que considera a prostituição uma escolha autônoma da mulher que, afinal, dispõe sobre seu corpo e pode usá-lo como bem entender, até mesmo para finalidades não moralistas, considerando-se além de tudo correto que ganhe dinheiro com aquilo que lhe pertence (o corpo).
Não sei quem levará o caneco nessa discussão, tendo a me inclinar mais à ideia da segunda turma, mas parece o tipo do impasse que necessariamente o acerto de um lado transforma a outra tese em equivocada (seja qual for a correta).
Ah, sim: vale também para os casos em que mulheres posam em revistas de nudez, participam de filmes pornográficos ou algo do tipo. Afinal, prevalece a liberdade sobre o corpo ou há uma opressão permanente nisso tudo?
Aguardemos um acordo.
Corpo vs Outra Vida
Sou a favor da legalização do aborto até a formação do córtex cerebral. Esse é o critério, obviamente personalíssimo, a assegurar minha opinião sobre o tema. Cada qual estabelece o seu, seja por convicções racionais, religiosas ou ambas.
Mas, para o feminismo (sim, sei das correntes etc.), a parte inequívoca é que a mulher é dona de seu corpo. Creio que disso ninguém discorda. Mas parece FRÁGIL o argumento de que o feto, especialmente após algumas semanas, seja meramente uma “parte do corpo” da mulher, não?
Minha dúvida, portanto, é a seguinte: com oito meses de gravidez, alguém ainda acha que seja “parte” do corpo da mulher e não uma vida autônoma (cujos direitos existenciais, portanto, seriam garantidos pela lei)? Desse modo, a partir de que momento o feto transcenderia ao estágio de “vida” (segundo as correntes feministas)? Só quando nasce? Faltando um dia? Um mês?
E mais: por que o aborto é considerado uma escolha livre da mulher, que dispõe de seu próprio corpo, mas optar por cesárea em vez de parto normal (ou o tal humanizado) é algo a merecer reprimendas de muitas que defendem a referida liberdade? Por que um caso é tratado como “decisão autônoma” e outro é “imposição de uma indústria”? A conta não fecha de novo…
Por fim, homens e feminismo
Recentemente, descobri a palavra “feministo”. Trata-se de como algumas feministas denominam os homens que se dizem defensores da causa. Não caberia a eles, portanto, tratar do tema – tanto menos tentar algum tipo de protagonismo, mesmo por meio de textos ou pareceres FAVORÁVEIS à bandeira.
É um ponto, ok.
Mas por que, ao mesmo tempo, muitas feministas brancas (e até de olhos claros) escrevem, militam e protestam contra o racismo sofrido pelos negros? Pela lógica do “feministo”, não deveriam apenas os próprios negros tratar dessa causa e protagonizar tal luta? Vale também para índios e demais grupos.
Pois é… Ou então, por outra, de repente as pessoas podem sim falar do que quiserem, especialmente quando há empatia acerca da demanda do outro, percebida e “sentida” por quem está do outro lado. Ou não?
Se uma mulher – feminista ou não – branca milita contra o racismo sofrido pelos negros, por que um homem seria tecnicamente “proibido” de militar contra o machismo? Se for ver, não faz muito sentido. Ou todos podem, ou ninguém pode (só a vítima ou quem a este grupo pertença). Melhor que muitos lutem, não?
Enfim, são minhas dúvidas, reiterando as desculpas por tratar desse tema sendo homem cis, hétero e branco e, pecado maior!, não esquerdista.
Agradeço pela atenção e, sem ironia, adoraria obter algumas respostas esclarecedoras.
26 de janeiro de 2016
implicante

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

SOBRAL, RUY BARBOSA E A MORTE DE EUCLIDES DA CUNHA


Sobral Pinto foi corajoso e humanista o bastante para defender um adepto de um regime que executava inocentes às centenas de milhares – quiça milhões! – por entender que ele tinha direito à defesa de um advogado num regime democrático. Foi assim que Heráclito Sobral Pinto, um católico fervoroso, defendeu o comunista Luiz Carlos Prestes, prisioneiro e réu daquilo que foi a ditadura Vargas, naquele bendito tempo não tão politicamente correto, quando ainda se dava o nome correto aos bois, e ditadores não eram aplaudidos como “heróis da democracia”.
No texto de Sobral Pinto postado no blog por Virgílio Tamberlini, as palavras (“Não basta a amizade ou honorários de vulto para que um advogado se sinta justificado diante de sua consciência pelo patrocínio de uma causa”) fizeram-me lembrar de relato do meu pai, sobre uma das maiores tragédias amorosas da história do Brasil, a qual, por sua vez, foi tema de uma das mais famosas cartas já escritas versando sobre “o dever do advogado”.
A história mistura um triângulo amoroso e dois crimes de morte. Os personagens foram Euclides da Cunha, escritor famoso, autor de Os Sertões, sua esposa Anna Emília Ribeiro de Assis, mulher de rara beleza, desposada por ele aos 14 anos (tanto que, segundo relatos, teria levado a boneca predileta para a noite de núpcias, uma experiência , aliás, que a garota abominou) e o cadete Dilermando de Assis, 13 anos mais novo do que Anna, seu amante e assassino de Euclides.
TRAGÉDIA DA PIEDADE
O crime, que a imprensa indignada chamou de “A Tragédia da Piedade”, teve lugar num domingo de inverno, em agosto de 1909, na Zona Norte, no Rio de Janeiro. Euclides da Cunha foi à casa onde sua mulher e o amante viveram durante 4 anos, em segredo, o seu tórrido caso de amor – dizem que Euclides tinha ciência do relacionamento, mas que se recusava a aceitar a separação e ameaçava tomar da mulher os filhos. O escritor sacou de um revólver, afirmando que ali estava para matar ou morrer. Dilermando foi ferido, assim como um seu irmão de nome Dinorah, que ao tentar arrebatar a arma do escritor foi atingido no pescoço, teve comprometida a coluna vertebral e ficou paraplégico. Dilermando, mesmo ferido, acertou Euclides no peito com um disparo mortal.
A notícia da morte de tão enorme monstro sagrado da literatura convulsionou a sociedade carioca e abalou a República. Dilermano e Anna foram massacrados pela mídia e pela opinião pública. A população revoltada ameaçava com linchamento os adúlteros.
Foi então que entrou na história um jovem rábula, um autodidata com notório saber jurídico – na realidade ele só se formaria em Direito muito tempo depois, já aos 45 anos – de nome Evaristo de Moraes, convidado que fora pela família do assassino a assumir a causa e defender Dilermando perante o júri popular.
CONSELHO DE RUY BARBOSA
No entanto, o inexperiente causídico amarelou, não apenas pelo receio de que a ululante aversão da mídia e o cada vez mais enfurecido clamor popular pudessem contaminar a sua imagem, mas por uma questão ética: ele e Dilermando eram adversários políticos. Evaristo era um civilista e defensor das aspirações à Presidência da República do grande Ruy Barbosa, enquanto Dilermando era um militarista, partidário do marechal Hermes da Fonseca.
Indeciso, o jovem jurista resolveu se aconselhar com Rui Barbosa sobre o dilema. A resposta de Ruy Barbosa a Evaristo de Moraes é uma aula de Direito,em uma carta onde o patrono da advocacia brasileira sintetizou aquele que é , na minha modesta opinião, o mais profundo alicerce da advocacia . Segundo o Águia de Haia, nenhum motivo alheio à causa – como a filiação partidária, ou a indignação popular, por exemplo – deveria afastar um advogado do seu ofício. Ruy Barbosa, que costumava recusar sumariamente causas cíveis quando “injustas, imorais e ilícitas”, escreveu a Evaristo de Morais que a defesa penal, ou seja, dos acusados de crimes, deve ser feita, não lhe interessando “quem fossem, do que se ocupassem e os crimes que tivessem cometido”.
DUAS ABSOLVIÇÕES
Não apenas uma, mas por duas vezes Evaristo de Moraes absolveu Dilermando de Assis, que, além de Euclides da Cunha, matou também anos depois, em legítima defesa, o filho do grande escritor, Euclides da Cunha Filho, quando tentou vingar a morte do pai.
Terá sido feita justiça? Era Dilermando de Assis inocente dessas duas mortes ou teriam sido Euclides da Cunha e seu filho covardemente assassinados?
Nunca saberemos. Mas não podemos confundir o advogado com o criminoso que defende e, afinal, Dilermando de Assis foi acusado e defendido, civilizadamente, diante de um júri popular e mais não poderia ter sido feito.
Termino este arrazoado com um parágrafo da lavra de Anna de Assis , em seu diário: “De nós três: Euclides, Dilermando e eu, três criminosos, o mais responsável sou eu”.

25 de janeiro de 2016

Moacir Pimentel

AS TATUAGENS E O MUNDO DO CRIME

O significado das tatuagens nas prisões - Fatos ... - YouTube

https://www.youtube.com/watch?v=xIHsX4gaa4w
17 de abr de 2015 - Vídeo enviado por Fatos Desconhecidos
Muitas pessoas fazem uma tatuagem sem saber os significados delas ou ... O significado das ...

25 de janeiro de 2016
postado por m.americo

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A SOCIEDADE DO CANSAÇO E DO ABATIMENTO SOCIAL



01
Ilustração de Duke (O Tempo)
Há uma discussão pelo mundo sobre a “sociedade do cansaço”. Seu formulador principal é um coreano que ensina filosofia em Berlim, Byung-Chul Han. O pensamento nem sempre é claro e é, por vezes, discutível, como quando afirma que o “cansaço fundamental” é dotado de uma capacidade especial de “inspirar e fazer surgir o espírito”.
Independentemente das teorizações, vivemos numa sociedade do cansaço. No Brasil, além de cansaço, sofremos um desânimo e um abatimento atroz.
A aceleração do processo histórico e a multiplicação de sons e mensagens, o exagero de estímulos e comunicações, especialmente pelo marketing comercial, pelos celulares com todos os seus aplicativos, e a superinformação que nos chega pelas mídias sociais nos causam depressão, dificuldade de atenção e uma síndrome de hiperatividade. Chegamos ao fim do dia estressados e desvitalizados.
Acresce-se ainda o ritmo do produtivismo neoliberal imposto aos trabalhadores no mundo inteiro. Cobra-se de todos o melhor desempenho possível, o que desequilibra emocionalmente as pessoas, gerando irritabilidade e ansiedade. O número de suicídios é assustador. Ressuscitou-se o dito da revolução de 68 do século passado. Então se dizia: “metrô, trabalho, cama”. Agora se diz: “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer: doenças letais, perda do sentido da vida e verdadeiros infartos psíquicos.
DESALENTO GENERALIZADO
Entre nós, nos últimos meses, grassa um desalento generalizado. A campanha eleitoral turbinada com grande virulência verbal, acusações, deformações e reais mentiras, além do fato de a vitória do PT não ter sido aceita, suscitou ânimos de vindita. Bandeiras sagradas do PT foram traídas pela corrupção em altíssimo grau, gerando decepção profunda, o que fez perder costumes civilizados. A linguagem se canibalizou. Saíram do armário o preconceito contra os nordestinos e a desqualificação da população negra. Como disse Sergio Buarque de Holanda: podemos agir a partir do coração cheio de raiva, de ódio e de preconceitos.
Os interesses das classes abastadas são antagônicos aos das classes empobrecidas. Aquelas, historicamente hegemônicas, temem a inclusão dos pobres e a ascensão de outros setores da sociedade, a lugares antes reservados apenas para elas. Somos um dos países mais desiguais do mundo, onde mais campeiam injustiças sociais, violência banalizada e assassinatos que equivalem em número à guerra do Iraque. Temos trabalhadores vivendo sob condição equivalente à da escravidão.
Como sair desse inferno humano? A nossa democracia é apenas de voto; não representa o povo, mas os interesses dos que financiaram as campanhas, por isso é de fachada.
ALTERNATIVA DE SOCIEDADE
Vejo uma saída possível por parte da sociedade organizada e dos movimentos sociais, que possuem outro ethos e outro sonho de Brasil e de mundo. Mas eles precisam estudar, se organizar, pressionar as classes dominantes e o Estado patrimonialista, se preparar para propor uma alternativa de sociedade que possua raízes naqueles que, no passado, lutaram por outro Brasil com projeto próprio. Um povo doente e ignorante nunca fundará uma nova e possível biocivilização nos trópicos.
Tal sonho pode nos tirar do cansaço e do desamparo social e nos devolver o ânimo necessário para enfrentar os entraves dos conservadores e suscitar a esperança bem fundada de que nada está totalmente perdido, mas que temos uma tarefa histórica a cumprir. Utopia? Como dizia Oscar Wilde, “se no nosso mapa não constar a utopia, nem olhemos para ele, porque nos está escondendo o principal”. Do caos presente deverá sair algo bom. Em vez da cultura do cansaço e do abatimento, teremos uma cultura da esperança e da alegria.

21 de janeiro de 2016
Leonardo Boff
O Tempo

SEXO NA ROMA ANTIGA


Roman Sex,de John R. Clarke É um livro sobre sexo na Roma antiga, do final da República até ao fim do principado (séc. I AC – II DC). 
É um livro de arte, sobretudo com fotografias tiradas dos frescos de Pompeia e objetos do quotidiano (lamparinas, taças, etc.). 
 autor é um historiador de Arte numa Universidade Norte-Americana. Na introdução, ele começa por indicar que a sexualidade doa antigos romanos não é a dos nossos contemporâneos (fortemente influenciada pelo cristianismo, mesmo por parte de quem rejeita esta religião e o seu legado). 
Também explica que a esmagadora maioria das peças referentes a sexo, só muito recentemente foram disponibilizados ao público, estando anteriormente fechadas em caixas ou aparecendo em fotografias censuradas; com os anos 90 a situação inverteu-se. 

No capítulo seguinte, ele mostra vasos gregos clássicos: aí vê-se homens e mulheres que são penetrados analmente e oralmente por múltiplos parceiros revelando (segundo o autor) uma total submissão e rebaixamento dos “passivos” que são vistos como mero recetáculo de prazer enquanto os homens que estão a penetrá-los estão a usufruir de prazer (identificados com cidadãos). 

O sexo é assim uma relação de força entre desiguais. São depois mostradas imagens helenísticas em que existe uma total modificação: ambos os parceiros usufruem de prazer e estão em situação igual (independentemente do sexo). 
Dá-se de seguida um salto à Roma do final da república. Aqui podemos observar todo o tipo de relações possíveis e imaginárias. 

Desde masturbação solitária, casais homo e hétero, trios, grupos maiores, zoofilia, pedofilia. Mas segundo o autor, todos tem algo em comum: as pessoas estão a aproveitar o sexo, não são forçadas (mesmo que sejam escravos, tentam aproveitar o momento). 
Existe assim uma atitude mais positiva (mesmo que embelezando demasiado a realidade). As diversas imagens são contextualizadas em relação à atitude de Roma sobre o sexo. 

Teoricamente o sexo era para procriação: um cidadão devia ter o máximo de filhos possíveis com a sua esposa. Na realidade, as atitudes variavam de acordo com a classe social. Assim, nas classes superiores, os proprietários usavam os escravos e escravas para sua satisfação dado que lhes pertenciam; em compensação, pouco utilizariam prostituto(a)s. 

Mas com algumas limitações: se ninguém via problema em um nobre ter sexo com um homem, este tinha de ser de estatuto servil (escravo ou liberto) e nunca cidadão. Nem poderia (o proprietário) sofrer sexo anal e muito menos fazer sexo oral a outra pessoa (homem ou mulher não interessa). 

Uma sexualidade diferente da nossa sem dúvida, mas também com restrições (qualquer uma destas acusações era suficiente para levar à expulsão do senado de um dos seus membros em tempo normal). 
Para um plebeu cidadão, estes tabus também valiam, podendo levar à expulsão do exército ou de qualquer magistratura exercida. Só podia praticar estes atos livremente quem nada tivesse a perder, ou não tivesse ambições (isto não quer dizer que os cidadãos não o fizessem, apenas que tinham de ter muito cuidado em não ser apanhados). 

Quanto às obras em si. As pinturas que representam a quebra de tabus existem segundo diversos contextos, tendo diversas interpretações. Por exemplo, as imagens existentes nos banhos públicos, seriam imagens que pretendiam afastar o mau-olhado (provocavam o riso que quebra o mau olhado). 

As nas tavernas serviam para divertir os clientes. As dos bordeis, bem, que imagens mais apropriadas? É como se os romanos tivessem uma série de comportamentos proibidos que eram projetados na arte. 

Os objetos tinham também diferentes objetivos: alguns para dar sorte, virilidade, fertilidade. 
Ou simplesmente celebrar o sexo. Algumas das conclusões parece-me algo forçadas: a taça que mostra dois homens adultos a fazer sexo e que segundo o autor representa um quebrar dos tabus romanos. 

Ora a dita taça é segundo o próprio autor, oriental, com uma inscrição grega com uma dedicatória de um nome grego para outro grego, logo foi feita num contexto extraromano. 

A minha opinião sobre o livro? De forma geral gostei. Não é um livro que aprofunde muito a sexualidade dos romanos, aceita muitas vezes de forma literal aquilo que lhe é apresentado nas fontes (como na questão do preço das prostitutas, custarem no mínimo 2 asses- 1 copo de vinho). Mas tem um bom conhecimento dos povos mediterrâneos, viajou bastante para fazer comparações, percebe de arte e faz bons saltos dedutivos.

21 de janeiro de 2016
in roma-antiga.blogspot.com

SEXUALIDADE NA ROMA ANTIGA



A sociedade Romana tinha, regra geral, uma mente muito aberta em relação a assuntos relacionados com a sexualidade em geral. Para o povo Romano as práticas sexuais tinham como objectivo exaltar a fertilidade, a procriação e também a procura de prazer.

Eram comuns as festas de exaltação à fertilidade: banquetes sumptuosos tal como deveriam ser as noites de amor que se lhes seguiam. Era comum o culto a Baco onde todos os excessos eram permitidos e a principal preocupação de cada pessoa seria de beber e divertir-se. Durante essas festas um enorme órgão sexual masculino era transportado pela cidade numa carroça adorada com flores oferecidas pelas mulheres mais importantes da cidade. No final das festas o sexo era um direito ou mesmo quase um dever de todos os intervenientes nas festas.

Era também bastante comum o uso de um talismã em forma de pénis e o culto de Príapo, deus da fertilidade representado, regra geral, com um pénis erecto, nos jardins das casas, pois acreditava-se trazer sorte e fortuna. A adoração de Príapo era feita tanto por mulheres, procurando tornar-se férteis, como por homens, pois acreditavam que era possível ser-lhes devolvida a potência sexual caso esta se debilitasse.

Outra das características da sociedade Romana era a normalidade com que se encarava a nudez, não sendo motivo de qualquer tipo de sentimento de vergonha e também a aceitação, dentro de certos parâmetros, de relações homossexuais:

“Não se estabelece distinção entre amor homossexual e amor heterossexual; o prazer físico é visto como uma continuidade subjacente entre os dois. O prazer enquanto tal não coloca nenhum problema para o moralista de classe superior. Em compensação, julga-se – e muito severamente – o efeito que tal prazer pode exercer sobre o comportamento público e as relações sociais do homem: a vergonha que pode levar um homem das classes superiores a submeter-se ou fisicamente, adoptando uma posição passiva no ato sexual, ou moralmente, entregando-se a um inferior de qualquer sexo” (ARIÈS, DUBY. 1995: 232).

Como se pode verificar pela citação anterior, não existia a distinção que actualmente se faz entre a homosexualidade e a heterosexualidade, sendo normal para os homens ter sexo com outros homens (a homosexualidade feminina era mal vista).

No entanto, e apesar de ser aceite o sexo entre dois homens, existiam algumas regras a definir como tal poderia acontecer. Em primeiro lugar, os homens livres não podiam ser penetrados, apenas penetrar (existia uma lei a regulamentar esta situação), devendo sempre, portanto, tomar o papel activo nas relações. Outra das regras ou “limitações” relativas às relações entre dois homens era que o membro mais novo, ou eromenos, tomasse o papel passivo enquanto que o membro mais velho, ou erastes, tomasse o papel activo. Estas regras deviam-se principalmente à crença de que apenas o interveniente activo na relação conseguiria tirar prazer desta, estando quem tomava o papel passivo a submeter-se ao outro, algo impensável para um “romano decente” fazer.

Apesar de mal vistos pela sociedade existem casos documentados de erastes e mesmo de Césares (Imperadores) que preferiam o papel passivo nas suas relações com outros homens, escravos ou não.

Da mesma forma que a submissão em relação a outro homem era mal vista pela sociedade também o era a submissão em relação a uma mulher. As mulheres na sociedade romana eram vistas como inferiores aos homens livres, possuindo muito poucos direitos e os deveres de esposa (dona de casa) e de mãe (procriação). Como tal seria impensável a um “romano decente” preocupar-se em proporcionar prazer à sua mulher ou parceira, uma vez que esta preocupação demonstraria um sinal de submissão, de fraqueza, de imaturidade (as paixões arrebatantes eram características dos jovens, inexperientes e ingénuos, sendo alvo de critica e embaraço quando em adultos, tendendo a ser mais controladas corteis).

Uma das práticas mais amplamente aceites na sociedade Romana (e que na actualidade é considerada tabu) era a masturbação. Para os romanos a masturbação era algo de perfeitamente natural, não sendo alvo de nenhum tipo de critica.

Outros dos tópicos que convém abordar é a prostituição. Na Roma antiga as prostitutas eram registadas, pagando mesmo impostos. Regra geral, usavam cabelo loiro ou vermelho, vestiam-se com tecidos floridos ou transparentes, não podendo, por lei, usar nem estola nem a cor violeta, características das mulheres livres. O local mais comum de trabalho era sob os arcos arquitectónicos (a palavra fornicação vem do latim fornice, que significa arco).

Apesar de toda a liberdade relativamente à sexualidade e ao sexo em particular, este era praticado com moderação e regras, sendo um meio para um fim e não um fim em si mesmo: o sexo servia para alcançar o prazer mas devia ser praticado de forma regrada para a paz interior do sujeito não fosse perturbada.

Com o passar do tempo a religião católica foi sendo implementada na sociedade e, gradualmente, ganhando importância pelo que as praticas liberais características da sociedade Romana tenderam a desaparecer em prol da moralidade cristã, muita mais fechada a rígida com as questões relacionadas com a sexualidade.


Curiosidades:

Estas são apenas algumas curiosidades relativamente a sociedade Romana e algumas das suas praticas mais fora do comum:

-Sexo anal em noite de núpcias como forma de respeito:
Nos primórdios da sociedade Romana era comum o marido evitar o sexo vaginal e em vez dele optar pelo sexo anal como forma de respeitar a natural timidez da sua esposa, uma moça virgem.

-Sexo só no escuro:
Era relativamente aceite a ideia de que sexo apenas se deveria fazer após o por do sol, durante a noite, e mesmo então de preferência na penumbra. O sexo durante o dia era um privilégio dos recém-casados, logo após as núpcias. Um “homem honesto” apenas poderia visualizar a nudez da amada caso a lua a iluminasse através da janela.

-Sexo é sempre com roupa:
Para as mulheres honestas de Roma sexo teria sempre de ser com algum tipo de roupa, normalmente sutiã. Apenas as prostitutas tinham sexo todas nuas.

-Com essas, nunca:
Era proibido para os Romanos ter sexo com mulheres casadas, virgens de famílias importantes, adolescentes filhas de casais livres, vestais (virgens devotas à deusa Vesta) ou a própria irmã.

-De dia só com a esquerda
Durante o dia, até ao cair da noite, eram permitidas as carícias mas apenas se feitas com a mão esquerda.

-A tranquilidade juvenil
Era comum pensar-se que sexo com “meninos” proporcionava um prazer tranquilo, que não “agitava a alma” enquanto que a paixão por mulheres era considerada um mergulho na “escravidão”.

-A “doença” da paixão
Na Roma antiga a paixão era encarada como algo vergonhoso, algo temível. Quando um Romano se apaixonava perdidamente, tanto os seus amigos como mesmo ele consideravam que moralmente tinha caído na escravidão ou que perdera a cabeça por excesso de sensualidade.


21 de janeiro de 2016
in sexualidade na sociedade

HISTÓRIA DO SEXO NA ANTIGUIDADE

Historia do sexo na antiguidade - YouTube

https://www.youtube.com/watch?v=kmjy62IVC7k
6 de out de 2013 - Documentário sobre a História do sexo e da sexualidade no mundo antigo ... e sexo na Mesopotâmia, no Egito Antigo, a Grécia e em Roma.

21 de janeiro de 2016
m.americo

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

DESMONTANDO O CONLUIO DAS DROGAS

Se alguém me oferece ou pede um cigarro, respondo como sempre respondi:


         — Eu não fumo.

         Antigamente eu o fazia um tanto constrangido, quando o bonito era desafiar a proibição paterna ou dos educadores, e se exibir soltando artisticamente a fumacinha, com a elegância enfatuada dos ídolos do cinema. O exibicionismo ensaiado deles, regiamente remunerado por fabricantes de cigarros, provocava exclamações admirativas de senhoritas e senhoritos. Por imitação, estes e estas bancavam atores, com a ilusão de colecionar admiradores. Só mais tarde se divulgou que o câncer de pulmão, provocado pelo cigarro, estava ceifando a vida de muitas “celebridades” de Hollywood, sem perdoar também muitos dos seus admiradores.

         Enquanto isso eu mantinha a irredutível decisão de não fumar. Ela remonta aos meus oito anos, quando uma noite meu primo prafrentex, com quase o dobro da minha idade, ofereceu-me um cigarro já aceso, instruindo-me a dar uma tragada. Dessa tentativa frustrada só me resta a lembrança de uma horrível tosse, seguindo-se a dificuldade em conciliar o sono. Daí em diante, sempre vi o ato de fumar como uma insensatez. Aquela tosse bastou para manter longe de mim o cigarro.

         Muitas coisas mudaram desde então. A ciência associou o fumo ao câncer das vias respiratórias, e uma campanha midiática tornou respeitável, até obrigatória, a atitude do não fumante. Passou a render votos qualquer medida destinada a reduzir o consumo de cigarros. Ficou bonito não fumar, e até proibir o fumo dos outros.

         Se as minhas flechas visassem sempre proibir alguma coisa, eu poderia captar elogios usando-as para proibir a proibição. Por exemplo, apontaria algumas para quem obrigou os fabricantes a imprimir nos maços de cigarro aquelas figuras de mau gosto; levantaria o problema de desemprego dos cultivadores de tabaco; lamentaria a redução do lucro dos revendedores; criaria um saudosismo para exigir a volta de atores e atrizes tabagistas; exaltaria a importância dos altíssimos impostos sobre cigarros e bebidas alcoólicas para custear atividades indispensáveis; ressaltaria que essa caça às bruxas é uma imperdoável restrição à sacrossanta liberdade.

         Não vou fazer nada disso. Mas naturalmente a sua expectativa é que eu faça algo, então vamos ao que interessa.

         Você certamente sabe que quase todos os ídolos de rock e congêneres (este quase é apenas prudencial) são vorazes consumidores de drogas. Não o escondem, e o fato de se drogarem é um incentivo para seus admiradores embarcarem nessa canoa mortal. Da mesma forma que atores fumantes morreram de câncer pulmonar, as celebridades de hoje morrem ou se inutilizam prematuramente consumindo drogas.

Imagino que as autoridades sabem disso, embora seja comum elas cumprirem a ordem de não ver o que todos veem. Você pode lançar-me em face que as autoridades desenvolvem uma ação impiedosa e contínua contra a produção e tráfico de drogas. Vamos examinar juntos este assunto e pensar sobre ele?

Comecemos com um exemplo de área semelhante. É sabido que nos Estados Unidos o consumo de bebidas alcoólicas durante a lei secafoi maior que na ausência dela. Deve ter entrado aí a atração pelo que é proibido, mas o fato certo e constante é que, quanto mais rigorosa a proibição, mais compensadores se tornam a produção clandestina e o tráfico. Resultado inevitável da lei da oferta e procura.

Substitua bebidas alcoólicas por drogas, e entenderá que produção e comércio de drogas se beneficiam da clandestinidade. Dificultando a oferta de um produto, seu preço aumenta e ele se torna mais lucrativo. Igualzinho às bebidas alcoólicas.
Li recentemente que o tráfico de drogas “fatura” anualmente mais do que o conjunto dos laboratórios farmacêuticos de todo o mundo. Não lhe parece que uns quatrocentos bilhões de dólares são um poderoso atrativo? E não lhe parece que sobra dinheiro para comprar quem se vende?

         O consumo de drogas pelas “celebridades” atuais é um forte incentivo para seus admiradores se viciarem, daí eu levantar uma pergunta incômoda: adianta reprimir a produção e tráfico, se permanece livre a propaganda feita pelos viciados famosos? Coloque de um lado o incentivo ao consumo, por meio de fatores tão possantes como esse; de outro lado, coloque a redução da oferta, pela perseguição aos produtores e traficantes. Reduzir a oferta, e ao mesmo tempo aumentar o consumo, eis um esquema sincronizado, um binário de forças girando de modo altamente favorável aos que lucram com as drogas. Não lhe parece provável que agentes remunerados atuem em ambos os lados, obedecendo aos mesmos comandos? Se era remunerada a propaganda do cigarro feita pelos atores, por que seria diferente com as drogas?

         (Tudo bem. Então você propõe liberar o comércio de drogas?)

         Não, caro leitor, minha ingenuidade não chega a tanto. Nem proponho revogar a lei da oferta e procura. Muito melhor é reservar um espaço privativo para essas “celebridades” (não só as do rock) consumirem drogas à vontade. Cadeias não faltam, para promover essa atividade saneadora. Serão convidados permanentes todos os que divulguem, financiem ou insinuem qualquer tipo de propaganda ou referência elogiosa ao uso de drogas. Farão um bem enorme uns aninhos de cadeia para transgressores de qualquer tipo ou tamanho. Só sairão de lá quando renunciarem definitivamente ao uso de drogas – vivos ou mortos, portanto – e esta última hipótese talvez se concretize antes. Em caso de reincidência, prisão perpétua. O conceito de cadeiapode até ser amenizado com um nome politicamente correto, comodesintoxicação compulsória.

E ficaremos livres também dessa outra “droga”, que é o próprio rock...

20 de janeiro de 2016
Jacinto Flecha