quarta-feira, 30 de junho de 2010

UMA QUESTÃO ECOLÓGICA E HUMANA...

Em qualquer cantinho de jornais, revistas, panfletos, pacotes de salsichas, pacotinhos de preservativos e outras refinadas embalagens, encontramos um alerta: "este produto preserva o meio-ambiente. Ajude-nos a conservá-lo!" Mas parece que virou coisa de cinema, quero dizer, a gente vê, talvez alguns se divirtam e outros fiquem sérios, e outros ainda, nem se dão ao trabalho de ler, ou melhor de ver...
E o planetinha vai girando, girando, girando... Até quando? Não sei... resta saber quantos de nós, humanos, sobraremos para contar o que aconteceu. Mas todos nós somos a favor de uma economia "limpa". Discursamos, gritamos, tomamos partido, mas continuamos a nossa vidinha de barata, confiantes de que também seremos os remanescentes de um mundo em chamas, sim, porque pouco ou nada fazemos: continuamos a consumir plásticos, combustíveis poluentes, destruindo o meio-ambiente, mas vejam bem: tudo com muito elegância, com muita discrição.

Dizem, ainda não me interei dos fatos, que as baratas, elegantemente chamadas de 'periplanetas', são os mais antigos habitantes do nosso planetinha. Ela e os abestos.
Não vou garantir que seja verdade, embora as baratinhas tenham a maior intimidade com a gente, e vivam buscando sempre o nosso lar, como velhas amigas. Quando encontramos uma, podemos perceber que elas ficam nos olhando, balaçando aquelas anteninhas de rádio, como se estivessem nos cumprimentando: bom dia! Volta e meia, apesar do tóxico que inalamos junto com elas, quando dedetizamos nosso sacrossanto lar, nos deparamos ainda com elas, e cada dia surgem mais resistentes, e até vejo alguma felicidade nos seus olhinhos...
Como os escorpiões, somos os seus maiores inimigos, embora elas continuem pensando o contrário. Enfim, como as periplanetas, também cometemos os nossos equívocos... Ah! Sim! Quantos de nós sobraremos? Nós e as baratinhas? Creio, pela lei das conseqüências, que os que por aqui restarem, sequer terão a memória do acontecido. É bom, porque não escreverão uma história, contando que os responsáveis foram os extraterrestres...

M. AMERICO

COPA 2010 AFRICA DO SUL

Perdoem o mau gosto, mas não posso deixar calar o grito que urra no meu peito. Tempos de Copa! Tempos de África e de seus estádios magníficos! Quantos milhões de dólares? Não faço a menor idéia! A bola rola nos gramados verdes; as vuvuzelas gritam, as torcidas berram, as imagens coloridas e carnavalescas enfeitam as arquibancadas. O mundo ficou menor, encolheu, ficou do tamanho de um estádio de futebol.
No momento em que assisto aos jogos, penso na miséria dos desvalidos, morrendo de fome: homens, mulheres, jovens, crianças... Esqueléticos em que a pele mal cobre os ossos. Olhos enormes na face que desenha o contorno do crânio, a cavidade ocular, o malar... Olhoa enormes e assustados.
A jabulani bate dum lado e do outro. Mas um lado sombrio está imóvel, magro, sem cores, quase morto, não fosse um leve sopro de vida.

A bola rola, mas há um lado, que fica fora dos verdes gramados, que está imóvel.

A jabulani, que em IsiZulu significa celebrar, celebração, voa sobre os verdes gramados, mas não há celebração na aridez de uma terra ressequida. Há fome, há miséria, há sofrimento. Na verdade, há tortura.

Mas o que se pode fazer com esses Países, que promovem um verdadeiro e gigantesco espetáculo, onde a fartura e a abundância de recursos não faltam para que o show continue, anunciando - será ironia? "África hope".

Eles não querem comprar uma "consciência", eles não aceitam servir-se de um pouco de "humanidade", no grandioso banquete em que celebram a riqueza!

O mundo real não cabe no espetáculo circense!
O mundo circense é um mundo de festas, um mundo multicolorido, um mundo de trombetas! A zoeira e a fantasia compõe a multidão. Lá fora, o silêncio da fome, da peste, da morte, do agouro. Na arquibancada as bandeiras nacionais se agitam, irmanadas na conquista de um troféu.

Da minha janela, assisto o desfile de automóveis, movendo-se no trânsito, carregando, todos eles a bandeira do Brasil. A "pátria de chuteiras" esqueceu as enchentes do Nordeste, esparramando a miséria. As vuvuzelas falaram mais alto, e sufocaram a dor e o desamparo de milhares de pessoas desabrigadas e mais pobres. Nesse momento, a pátria está unida em torno da Copa. Viva a Copa 2010!!!

Viva a "pátria de chuteiras"!!! Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu!!!
Depois da Copa... Bem, depois a mesmice e novas ilusões... Vamos discutir o desempenho da seleção, os jogos, os gols, o mal-humor do Dunga... Vamos traçar teorias, afinal o Brasil tem milhões de técnicos, vamos nos preparar para os próximos 4 anos. Mas tudo numa boa, com uma cerveja gelada, tira-gostos... E começamos uma nova vida, e como não temos a Copa, voltados para o Brasileirão, para as eleições, para as enchentes, para o novo modelo de automóvel etc... Envolvidos que estamos com as nossas próprias misérias.

M. AMERICO

domingo, 27 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO

NA ILHA POR VEZES HABITADA

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,

 manhãs e madrugadas em que não precisamos de


morrer.


Então sabemos tudo do que foi e será.


O mundo aparece explicado definitivamente e entra


em nós uma grande serenidade, e dizem-se as


palavras que a significam.


Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas


mãos.


Com doçura.


Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a


vontade e os limites.


Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o


sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do


mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos


ossos dela.


Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres


como a água, a pedra e a raiz.


Cada um de nós é por enquanto a vida.


Isso nos baste.


Não me Peçam Razões...
Não me peçam razões, que não as tenho,

Ou darei quantas queiram: bem sabemos

Que razões são palavras, todas nascem

Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda

A força de maré que me enche o peito,

Este estar mal no mundo e nesta lei:

Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,

Deste modo de amar e destruir:

Quando a noite é de mais é que amanhece

A cor de primavera que há-de vir.

postado por m. americo

A MAIORIDADE PENAL E A VIOLÊNCIA DO MENOR


É voz corrente a discussão sobre o problema da redução da maioridade penal. Projetos no Congresso, polêmica nos transportes coletivos, nos bares e botecos da vida. Alarmados com a violência e a criminalidade de menores, a sociedade recorre ao que lhe parece mais coerente: a punição do menor.

Mas quem é o menor no mundo do crime?

Ando por uma Avenida do Rio de Janeiro. Sábado, quase 5 horas da tarde. Ainda faz um calor já quase suportável. Sob uma marquise, em frente a calçada de uma loja comercial, uma criança, idade por volta de 13 ou 14 anos, deitada em cima de uma folha de papelão. Sujo, maltrapilho, solitário no seu sono público, nada o incomoda. Mas o que mais poderia incomodá-lo? As pessoas passam, ignorando aquela criança jogada na calçada. Alguns reclamam de atrapalhar o trânsito dos pedestres; outros olham com certo receio. Ouço alguém comentar: deve estar drogado... A maioria ignora. Paro e observo a reação dos passantes. Uma senhora de idade avançada, tem o olhar de compaixão. Para diante dele por momentos. Deixa passar um sentimento de tristeza, nos seus olhos cansados. Retoma o seu caminho. Sigo-a com o olhar, enquanto se move lentamente, até perder-se na multidão.

Mas quem é o menor no mundo do crime?

Restaurante universitário. Colegas de turma conversando. Um deles diz, referindo-se a algum crime recente: “não importa quantos anos tenha! É criminoso e como tal, deve ser punido!”. "Puni-lo? Isso significa jogá-lo numa cela, onde irá aperfeiçoar-se e associar-se a quadrilhas? Esse negócio  é que significa “punição legal”? Alguém do grupo replica: “Se o sistema penitenciário não oferece as condições ideais para o menor criminoso, já estamos em outra esfera...” Da ponta da mesa, uma acadêmica fala: “E a escola não seria uma forma melhor de recuperá-lo, se o Estado e a Sociedade tivessem verdadeira intenção de discutir melhor o assunto? Investir em educação, não seria um caminho melhor e mais condizente com os direitos humanos da criança, do que discutir projetos de redução da maioridade penal?” Sigo em frente, imaginando como é grande a sensibilidade de um coração feminino.

Da janela do carro, somente consigo enxergar as pequeninas mãos, segurando uma caixa de balas, no meio do trânsito. Miúda, seu rosto não alcança o vidro do carro. Não vejo suas feições, não posso adivinhar sua idade, mas imagino que sua pequena e incipiente vida tem a dramática e gigantesca dimensão da miséria. Abre o sinal. Sigo em frente e olho pelo retrovisor. Lá está ela driblando os carros que ignoram aquela pequena vendedora ambulante, quase perdida no asfalto.

Mas quem é o menor no mundo do crime?

Há milhões de jovens sem trabalho, sem vida social decente, sem escola. Nessa multidão, milhares de crianças de rua abandonadas, e outras tantas viciadas, prostituídas, envolvidas com o tráfico, com a contravenção, com o crime. Como responder a uma urgência dessa ordem? Como recolocar a criança como uma esperança de futuro e não um problema criminal? Por que não discutir projetos educacionais includentes da infância marginalizada, maiores investimentos em escolas, em oficinas pedagógicas? Por que não discutir projetos para a maioridade educacional, com formação geral e profissional, projetos de vida e ambientação cultural, música, esportes e tantas outras possibilidades educacionais, através de aldeias pedagógicas? É preciso olhar cada criança como a responsabilidade de cada cidadão que vira o rosto, e apenas procura proteger-se atrás de projetos estúpidos, quando deveriam propor modelos de proteção às crianças abandonadas.

Mas quem é o menor no mundo do crime?

Hoje a maioridade penal se dá quando a pessoa completa 18 anos, já que o critério adotado foi o critério etário, que estabelece uma idade definida como a fronteira que divide a compreensão dos atos e fatos sociais, podendo ser responsabilizado por eles. Antes desse marco, não é capaz de entender a sua conduta, para assumir a responsabilidade dos seus atos.

Na verdade, trata-se de uma ficção. Convencionou-se que exatamente à zero hora do dia anterior ao seu aniversário, quando a pessoa completa 18 anos, magicamente aquele indivíduo passa a compreender tudo o que faz, ao contrário do minuto anterior, quando ainda não havia completado a maioridade, não compreendendo os fatos de uma realidade social. Uma ficção jurídica, que já não atende a modernidade.

Suponhamos que a maioridade penal fosse rebaixada para 16 anos, asseverando-se que um jovem de 16 anos e um dia, que mata, deveria ser tratado como se adulto fosse, isto é, tratando-o como maior para efeitos penais, e tal se daria com o rebaixamento da maioridade penal brasileira.

Esse raciocínio releva o mesmo equívoco anterior, pois magicamente o jovem com 15 anos e a um dia de completar 16, não entenderia sua conduta; mas um dia depois, ao completar 16 anos, passaria a compreender o caráter criminoso de sua ação.

Alguns países encontraram um critério talvez mais justo e adequado, ao propor a verificação, caso a caso. Ao apurar se a criatura, ao cometer um delito, poderia entender o caráter criminoso do ato praticado, através da aplicação de critérios metodológicos interdisciplinares, envolvendo exames psicológicos, psiquiátricos, sociológicos e jurídicos. Tais países determinaram uma idade mínima, bastante baixa, por exemplo, 12 anos e a partir desse patamar, atribuir-se-ia responsabilidade penal, desde que o indivíduo entendesse o feito, submetido que seria a verificação realizada naquele exame. Trata-se do critério bio-etário ou bio-psicológico.

Um país continental como o nosso, não poderá fixar uma idade cronológica para todas as suas Regiões, considerando-se as diferenças sócio-econômicas reinantes. Um jovem de 15 anos de idade, de um grande centro urbano, sujeito a todos os apelos de escolarização, informação e tecnologia, não pode ser comparado a outro de 15 anos, nascido e criado em ambientes desprovidos de qualquer recurso cultural, que não tem acesso a qualquer meio de escolarização e informação; digamos para exemplificar, plantando milho e capinando do nascer ao por do sol. Qualquer legislação que os iguale pelo critério de maioridade cronológica, seria absurda e injusta, além de ignorar as discrepâncias culturais.

Assim, retomo o critério de que se discutam projetos de natureza cultural e educacional; que se discutam projetos econômicos voltados para a educação e a todos os aspectos que gravitam em torno da pobreza. Que se tenha mais respeito pela cidadania da criança e do jovem.

M. AMERICO

quinta-feira, 24 de junho de 2010

COPA 2010 BRASIUUUUUUUUUUUUULLLL...

O mundo parou. Uma bola imobilizou pessoas, paralisou todas as ações que não sejam aquelas que fazem rolar uma bola. A Jabulani ganhou a coroa de Miss Universo. E gerou polêmica: por que a Adidas e não a Nike? Sob forte crítica dos jogadores da seleção brasileira, que qualificaram a Jabulani como muito ruim, como “bola de mercado”, ainda mal rolada nos gramados dos estádios. E veio a desconfiança de que as críticas, originavam-se dos patrocinados pela Nike. Mas tudo bem... Os jogos sucedem-se com vitórias e derrotas. Os hinos nacionais enchem os estádios da África do Sul e a ovação das torcidas do mundo inteiro, casadas com a novidade das vuvuzelas lotando as arquibancadas dos estádios, lembra a arena romana, onde vida e morte ficam suspensas nos fios do destino. É o futebol arrebatando as almas e transformando-se na própria pátria, como se fosse uma guerra, onde o gol elege o herói do momento, o conquistador, o grande centurião. Lembro-me da famosa frase de Nelson Rodrigues, quando disse que “o futebol é a pátria de chuteiras”. Mas os tempos são outros. O futebol, quando ainda era apenas um esporte a mais entre os esportes,e engatinhava nos corações dos torcedores, guardava uma aura de paixão. Mas uma paixão romântica, não a paixão das violentas torcidas organizadas, em que pesa menos o orgulho da conquista de um título, do que a intolerância com a vitória do clube adversário.

Nos tempos ditos modernos, o futebol ganhou o ‘status’ de empresa. Hoje é o futebol-empresa. Há toda uma mídia a serviço da criação de mitos. Dela depende a ascensão ou a queda de um jogador, de um técnico, de um preparador físico; fabricam-se ídolos e preços; valoriza-se a venda de alguns jogadores, valores astronômicos que os Clubes embolsam, repassando parte da fortuna aos heróis do momento. Mitos forjados, muitas vezes de modo artificial, uma espécie de bolsa de valores, que beneficia os chamados Cartolas. Alguns escândalos já ganharam as páginas esportivas de jornais.

Hoje há uma verdadeira diáspora de jogadores. Quando vemos a formação de uma Seleção, poucos são os jogadores que atuam no Brasil: fulano, no Barcelona, beltrano no Manchester, sicrano sei lá onde... Muitos senão quase todos, talvez discordem do que escrevo. Mas o endeusamento excessivo que assisto no meu país, o estrelismo dos ‘craques’, faz com que enxergue o futebol como um grande negócio, não mais como uma apaixonante disputa, em que o esforço sobre-humano, a habilidade, a destreza e o controle de uma bola, servem a glória de um Clube ou de um país. Essa dança ‘garrinchiana’ que projeta o corpo do atleta num verdadeiro balé mágico, um fantástico movimento operístico de onze atores brincando no gramado verde de um estádio, pelo simples prazer de fazer rolar a ‘criança’, já desapareceu. Coisas de antanho.

O que lamento, é que o encantamento e a magia, tenham se transformado numa grande feira em que se negocia e se descaracteriza o amor a uma camisa, seja de um time, seja de uma seleção. O desempenho fica a reboque de que os olheiros internacionais possam fazer ofertas mirabolantes ao Clube, pelo passe de um jogador. O que se fala ao pé do ouvido, no processo seletivo daqueles que vão compor a gloriosa seleção, é que há toda uma negociação atrás dos palcos, para que tal jogador participe e possa, a partir do momento em que integrou a seleção, ganhar imediatamente um valor muito acima do que realmente receberia, integrando um Clube. Evidente que não se aplica a todos os jogadores, o que seria absurdo. Mas se inclui um ou outro, parte de uma negociação em que todos ganham... Perde apenas o futebol. Ganham os Cartolas.

M. AMERICO

sábado, 5 de junho de 2010

A IGREJA MARADONIANA

Não se tem o direito de ignorar o quanto vale a cidadania em países latino-americanos. Também não podemos ignorar a necessidade catártica de um povo oprimido. E a opressão pode vir de diferentes modos, como a fome, por exemplo, ou a doença, o desemprego, a miserabilidade de comunidades abandonadas à própria sorte... A opressão pode chegar da brutalidade de regimes autoritários, de que a nossa história tem um farto repertório. Não saberia escolher que modelo opressivo seria pior. Ditaduras? Fome? Miséria absoluta? Confesso que é muito difícil, para mim, apontar qual dos males seria o pior. Cada um traz a morte anunciada, a violação dos direitos humanos, a castração da palavra política, o assassinato da cidadania.
Nesses momentos de dor e violação, o povo sempre encontra a porta de emergência, por onde escapar, tanto quanto possível, ileso, buscando subtrair-se da dor.
O que teria começado como uma brincadeira despretensiosa, acabou por tornar-se uma coisa séria.
Em 1998, fundou-se a IGREJA dedicada aos deus, com o número 10 no meio, MARADONA. A paixão pelo jogador argentino transformou-se em RELIGIÃO com mais de 100 mil adeptos em todo o mundo.
Poderá parecer estranho a muitos, ou exótico, uma iniciativa tão estrambótica. Mas há uma explicação, diria mesmo histórica, para esse acontecimento.
Maradona está no centro de um momento emocional do argentino, a um período de felicidade, depois de um sofrimento brutal causado pela crueldade de uma Ditadura, que assassinou a cidadania, que violou de todas as formas os direitos humanos, que esmagou a voz de um povo com a tortura e o sequestro.
Maradona transformou o futebol, que é um esporte coletivo, além de uma paixão nacional, em um ato individual, um ato 'salvacionista'. Como fênix, ele fez renascer no povo um estado de graça, "fez ressurgir a esperança nos corações argentinos, com o seu brilhante gol de mão (La mano de Dios ou D 10 S) diante da Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986" - disse Herman Amez, um dos fundadores da Igreja Maradoniana.
Os seguidores dessa igreja, dessa nova religião, encontram-se duas vezes por ano em Buenos Aires.
A primeira reunião é na Páscoa, festejada em 22 de junho, dia da vitória de 2 a 1  contra os ingleses, na Copa de 86. O segundo encontro é no dia do aniversário de Dios, quero dizer de Diego Maradona. em 30 de outubro, quando celebram o NATAL.
Seria um fato bizarro, e verdadeiramente não deixa de sê-lo, uma igreja fundada para a deificação de um jogador de futebol. Mas colocadas as coisas numa perspectiva meramente humana, percebemos que há algo mais sério, além de uma simples bizarrice: a catarse de um povo, para calar o sofrimento padecido na cruz de uma ditadura.
Como dizia o poeta, e sempre que me defronto com acontecimentos que escapam ao senso comum, "há mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha a nossa vã filosofia."

M. AMERICO

quarta-feira, 12 de maio de 2010

NO TEMPO DOS ALMANAQUES...

Barão de Itararé, de batismo Fernando Apparicio Brinkerhoff Torelly, nascido em 1895 numa carroça com a roda quebrada, numa viagem entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai. Com apenas dois anos, perdeu a mãe. O pai, sem condições para cuidar do filho, mandou-o para a fazenda do avô, de onde saiu já com sete anos, para morar com o pai, "mais louco do que eu", costumava afirmar. Um tio o internou num colégio de jesuítas alemães, em São Leopoldo, isso nos idos de 1905. Saiu em 1911.
Lá fez o seu primeiro jornal escrito a mão, que denominou O Capim Seco. Escrito à mão. Tiragem: um exemplar. Rapidamente saiu de circulação, por 'gozar' o padre reitor numa charge.
Sua verve era o humor, e dali para a frente, cresceu o seu espírito crítico e gozador.
Estudou Medicina, desistindo do Direito, aconselhado pelo pai: "Meu filho, para que um advogado tenha clientela, é preciso muito talento. A um médico, basta assinar receitas e atestados de óbitos."
Estudar Medicina, acho que era forte demais, pois raramente assistia a uma aula, preferindo freqüentar cabarés. Contavam-se muitas histórias de suas trapalhadas, que ele transformava em gozação.
Colaborou no jornal Última Hora, de Porto Alegre, e em várias revistas inexpressivas.
Pelos idos de 1961 publicou um livro de poemas chamado Pontas de Cigarro em que gozava os imortais da Academia Brasileira de Letras. Aliás, fez da ABL um dos seus alvos preferidos. Debochava do fato da ABL ter apenas quarenta cadeiras. Dizia que podia imitar os ônibus, por exemplo: quarenta sentados e sessenta em pé. Quando um imortal sentado esticasse a canela o outro sentava.
Fundou vários jornais no interior gaúcho, até decidir vir para o Rio de Janeiro, então Capital Federal.
Ainda no Sul, Aporelly sofreu várias crises de hemiplegia. Foi aconselhado a procurar um clima mais quente. Separado da mulher, mudou-se. Bateu na porta do jornal O Globo. "O que você sabe fazer numa redação?"
perguntou o diretor Irineu Marinho. Ele respondeu: "Tudo. Desde de varredor até Diretor. Aliás, acho que não há muita diferença." Ganhou o emprego, e com ele a profissão de jornalista. Escreveu uma peça teatral de humor, chamada A facada.
Nesse ano de 1925, foi trabalhar no jornal A Manhã, fundado por Mário Rodrigues, irmão de Nelson Rodrigues, onde escrevia a coluna Amanhã tem mais. No ano seguinte fundou o seu próprio jornal, A manha, que trazia abaixo do titulo, o dístico "quem não chora não mama".
No seu próprio jornal, ele radicalizou o humor ferino, atingindo as principais autoridades do país. Criticava sempre as ditaduras de Salazar em Portugal, e de Franco, na Espanha. Suas críticas e artigos valeram algumas prisões e agressões, não contando as ameaças.
Escrevia matérias com sotaque alemão, italiano e português. No sotaque italiano, criticava a dureza das leis que atrapalhavam a vida dos imigrantes. Escrevia: "Essa hisdória de lêge, isso é bobágio". As com sotaque português, frases como: "quaim naum taim cumputência naum se stabulece" e pensamentos como "U açucare é uma matéria que dá muito mau gosto ao café, nãon se lho butando."
Chateaubriand convidou Aporelly para transformar A Manha, num encarte do Diário da Noite, resistiu mas acabou aceitando. Encartada no jornal, A Manha dobrou de tiragem, vendendo cerca de 15000 jornais, o que era muito para a época. Chegou a 21000 e aumentando sempre. Em 1930, Aporelly saiu do Jornal de Chateaubriand, voltou a publicar A Manha, independentemente.
Viveu o período conturbado do Estado Novo. Fraudes nas eleições, Revolução de 1930, deposição de Washington Luís, surgimento do integralismo, com Plínio Salgado. A partir de 1933, Aporelly tornou-se um ferrenho opositor ao integralismo. Era o humor satírico a favor da inteligência. Getúlio reprimia os comunistas, mas dava alguma liberdade aos integralistas. Nesse clima surgiu com toda a corda o Jornal do Povo, dirigido pelo Barão de Itararé. O jornal havia anunciado a história em dez capítulos da Revolta da Chibata, liderada pelo marinheiro João Cândido. A Marinha considerou uma ofensa e fechou o jornal, e influenciada pelos integralistas, seqüestrou o Barão, levaram-no para a estrada da Gávea, onde o espancaram, rasparam seu cabelo e o deixaram nu.
Retornando a Redação, colocou a plaquinha: "Entre sem bater". Mas o jornal não sobreviveu. Do rigoroso inquérito para apurar o espancamento, ficou como sempre ficam os 'rigorosos inquéritos': nada se apurou.
Fechado o Jornal do Povo, o Barão de Itararé retorna com A Manha. Quanto a plaquinha, para bom entendedor meia palavra basta...Depois de longa temporada no presídio da Frei Caneca, no Rio de Janeiro, onde dividiu uma cela com o escritor Graciliano Ramos, ganhou a liberdade e relançou A Manha.
Dedicava-se agora, menos aos facistas nacionais, e voltava-se para as ameaças do facismo internacional: Mussolini, Franco, Salazar, Hitler...
Era curto ou quase não havia dinheiro no bolso do Barão. Para relançar A Manha, associou-se a Arnon de Mello, o pai de Fernando Collor de Mello. Agora surgiam n'A Manha, nomes como José Lins do Rego, Carlos Lacerda, Rubem Braga, Aurélio Buarque de Hollanda. A nova fase durou até 1948. Usou nesse período, vários pseudônimos, como Paty Farias, Pntey Osette e Zhero Aiskerda.
Prosseguia o deboche de políticos e intelectuais conservadores. Quando o Barão sentiu que a Ditadura balançava, cunhou uma frase que se tornaria célebre e repetida por muito tempo, por comentaristas políticos: "Há algo no ar, além dos aviões de carreira."
Com 76 anos, deu uma grande e última entrevista em 1971, ao chargista Fortuna, da revista Realidade. Demonstra o vigor de uma inteligência crítica, bem humorada, expansivo e risonho. Era um grande contador de 'causos'.
Vivia sozinho. Passou mal na noite de 26 para 27 de novembro. Não aceitou ir para a casa de um dos seus filhos. Morreu sozinho, no sábado.
O Barão de Itararé foi o Dom Quixote brasileiro. Vivo e atuante, investiu contra as mazelas políticas do seu tempo, com a lança do humor e da sátira. Libertário, como todo bom humorista, foi o predecessor de uma geração de humoristas sarcásticos, como Jaguar, Millôr Fernandes, Ziraldo e outros que combateram a ditadura de 64, como Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) o criador do FEBEAPÁ - Festival de Besteira que Assola o País.

M. AMERICO

quarta-feira, 5 de maio de 2010

ARCEBISPO AFIRMA: 'A SOCIEDADE ATUAL É PEDÓFILA.'

Dom Grings afirma: 'A sociedade atual é pedófila'.

Publicada em 04/05/2010 às 22h25m
Demétrio Weber (Fonte: O Globo)

BRASÍLIA - No primeiro dia da 48ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o arcebispo de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, instaurou uma grande polêmica ao falar sobre as denúncias de pedofilia contra padres. Presidente da comissão responsável pelo tema principal da reunião -- a missão da Igreja no mundo -, Dom Dadeus disse que "a sociedade é pedófila". Para ele, o abuso sexual de crianças e adolescentes é mais frequente entre médicos, professores e empresários do que entre sacerdotes.

- A sociedade atual é pedófila, esse é o problema. Então, facilmente as pessoas caem nisso. E o fato de denunciar isso é um bom sinal - disse.

Dom Dadeus, de 73 anos, criticou a liberalização da sexualidade por "gerar desvios de comportamento", entre os quais a pedofilia. Para ele, assim como homossexuais conquistaram mais espaço e direitos, o mesmo poderá ocorrer com pedófilos.

- Quando a sexualidade é banalizada, é claro que isso vai atingir todos os casos. O homossexualismo é um caso. Antigamente não se falava em homossexual. E era discriminado. Quando começa a (dizer) que eles têm direitos, direitos de se manifestar publicamente, daqui a pouco vão achar os direitos dos pedófilos - disse.

O arcebispo foi escalado pela CNBB para conceder a primeira entrevista coletiva da conferência, com outros três bispos. Dom Dadeus deixou claro que o abuso sexual de crianças e adolescentes é crime e deve ser punido. Mas admitiu que a Igreja tem dificuldade de cortar a própria carne, ao lidar com denúncias contra religiosos. Segundo ele, punições internas são adotadas, mas denunciar os casos à polícia é mais complicado:

- A Igreja ir lá acusar seus próprios filhos seria um pouco estranho.

Dom Dadeus disse que, na Alemanha, apenas 0,2% dos abusos sexuais contra crianças foram praticados por sacerdotes. Ele crê que os casos de pedofilia viraram um calcanhar de Aquiles e estão servindo para quem quer atacar a Igreja e valores como a castidade:

- Há uma anomalia na sociedade humana e que deve ser corrigida. Agora, não é justo dizer que só a Igreja que tem. Não é exclusividade da Igreja. A Igreja é 0,2%.

Conhecido por suas posições conservadoras, o arcebispo afirmou que a homossexualidade é inata apenas em pequena parte dos gays. Na outra parte, segundo ele, a opção sexual é resultado da educação recebida:

- Nós sabemos que o adolescente é espontaneamente homossexual. Menino brinca com menino, menina brinca com menina. Só depois, se não houve uma boa orientação, isso se fixa. Então, a questão é: como vamos educar nossas crianças para o uso da sexualidade que seja humano e condizente?

Indagado sobre a afirmação de dom Dadeus de que a sociedade é pedófila, o arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, porta-voz da 48ª Assembleia, reagiu:

- É uma afirmação complicada, tem que ter dados para verificar isso.

Para dom Orani e o bispo de Araçuaí (MG), dom Severino Clasen, os abusos envolvendo padres são parte de problema que atinge diversos segmentos.

- Isso nos frustra e machuca muito - afirmou dom Severino. - O que nos envergonha é também o que nos leva a ter esperança de novos tempos.

  (in Brasil Um país de tolos)
 

COMENTÁRIO

Se vários sacerdotes introduziram o vírus do 'abuso' dentro da Igreja, Vossa Excelência Reverendíssima não pode transferir para a sociedade civil o ônus das denúncias de pedofilia que pesa sobre o corpo sacerdotal da instituição. Isentar tal crime da justiça do Estado, transferindo-o para a esfera de uma corregedoria interna do Vaticano, movida mais pelo espírito corporativista e pela preservação da imagem institucional, resulta e resultou na omissão que desencadeou o histórico e as denúncias que conspurcam a Igreja.
(m.americo)

domingo, 2 de maio de 2010

MEDALHAS E CONDECORAÇÕES...

Minha indignação é tanta, que não consegui escrever uma linha... Fiquei realmente fora de órbita.
Não é possível que se fira a Constituição de maneira tão afrontosa. Não é possível que a nação assista ao espetáculo circense montado no Planalto Central, e fique muda ou, quando muito, tartamuda...
Não bastasse os escândalos dos cartões corporativos, do enriquecimento do Lulinha, temos que engolir medalhas e condecorações.
Por que a sociedade assiste tão passivamente a essa esbórnia de poder?
Agora pesa a ameaça da censura dos BLOGS, com a OAB e o ex-Ministro Tarso Genro, na liderança. Como se já não bastasse o esforço para alterar a liberdade de imprensa, criando os censores de plantão.
Censurar os únicos meios de denúncia e de informação? Onde mais se pode buscar um jornalismo investigativo e atuante, sem compromissos, senão com a notícia e com a verdade?
Fico estarrecido. Não apenas pelas notícias veiculadas pelo Blog O TOMBO DO SACY. E não apenas essas... Fico estarrecido com a nulidade de um Congresso, que permite que se chegue a esse ponto! Fico estarrecido com a sociedade civil e suas instituições, que permitem tal abuso! Fico estarrecido, enfim, pela inequívoca ausência de seriedade e de respeito ao povo brasileiro.
Dói assistir a manipulação das consciências ingênuas do nosso povo, com o cartão corporativo-eleitoreiro do BOLSA FAMÍLIA. Incomoda como uma unha encravada em sapato apertado, ver o nosso povo mergulhado na pobreza, sem investimentos em saneamento básico, saúde, educação, moradias populares... Dói assistir às doações milionárias, para vender imagem na mídia internacional, retirando recursos tão imprescindíveis no atendimento das necessidades básicas dos nossos miseráveis bolsões de pobreza...
Dói demais ver o retrato do Brasil nos sorrisos largos da família Lula, que deveria poupar, pelo menos por constrangimento, o espetáculo da bonança desmedida e escancarada...
Então, não querendo estragar o seu domingo, mas já estragando, dou a notícia desse BLOG admirável, merecedor da medalha BRASILCOMVERGONHA...

MARISA É COMENDADORA
Marisa recebe comenda Ordem do Rio Branco!

Art. 1° A Ordem de Rio Branco, instituída pelo Decreto n° 51.697, de 05 de fevereiro de 1963, com o fim de galardoar as pessoas físicas, jurídicas, corporações militares ou instituições civis, nacionais ou estrangeiras que, pelos seus serviços ou méritos excepcionais, se tenham tornado merecedoras dessa distinção, é composta dos seguintes graus:

a) Grã-Cruz

b) Grande Oficial

c) Comendador

d) Oficial

e) Cavaleiro

§ 1° A Insígnia da Ordem conferida às corporações militares ou às instituições civis será aposta em suas bandeiras ou estandartes, sem atribuição de graus.

§ 2° Observado o disposto no parágrafo único do art. 18, uma medalha de prata, com a inscrição “Medalha do Mérito de Rio Branco”, poderá ser outorgada para premiar outros serviços relevantes prestados à Nação.

Condecoração por quê?
Quem é Marisa Letícia Lula da Silva?

Resposta: Até o DIA DO DIPLOMATA (20 de abril), nada além de mulher de presidente. Depois, a detentora da condecoração Ordem de Rio Branco, no grau de Grã-Cruz, o mais elevado distribuído pelo Ministério das Relações Exteriores. Recebem também tal honraria, juntamente com Marisa do Bolsa Netinho, Marisa Gomes da Silva, esposa do Vice-Presidente (de quem ninguém sabe, ouviu ou viu) e a esposa do chanceler, Ana Maria Amorim.

Condecoradas Marisa e "cumpanheras" de comenda.. U Pudê é baõ!

Para não dar na vista e causar protestos, a distinção, que normalmente é feita por Lula ou Celso Amorim- será entregue por substitutos, pois não pegaria bem receberem a homenagem dos “maridões” Lula e Celso viajaram para os EUA.

Celso Amorim- entusiasticamente - Justifica:

“VOCÊ NÃO PODE IMAGINAR UMA ATUAÇÃO COMO A DO PRESIDENTE LULA SEM O APOIO DE SUA MULHER”

“Também para Dona Marisa é reta final: ela vive os últimos meses dos oito anos como a primeira dama mais discreta do Brasil”. (Cristiana Lemos)

Realmente as esposas do Presidente e do seu Vice, quando o assunto é obra social, são muito, mais muito discretas, mesmo!
Traduzindo: Inexpressivas, adoradoras do próprio umbigo!

(Excertos do site O TOMBO DO SACY http://aguapotavel.wordpress.com/ )

M. AMERICO

sábado, 1 de maio de 2010

O QUE ACONTECEU COM A IGREJA?

Como dizia W.Churchill, "Pode-se enganar todo mundo um certo tempo, mas não se pode enganar todo mundo, todo o tempo..." Há um momento, tanto na vida de um homem, quanto na vida de uma instituição, que a invisibilidade da túnica termina, e o menino, daquele conto de Hans Christian Andersen grita: "o rei está nu!"
Os escândalos sexuais que desabam agora sobre as catedrais, é o resultado de uma política de tolerância com padres que destroçaram a credibilidade e mancharam a dignidade de uma instituição. Sabemos que a nódoa de uma túnica, e no caso de muitas túnicas, contaminam as demais, por imaculadas que sejam. E os escândalos denunciados em todo o mundo, agora mancham também a credibilidade do Vaticano, de sua imagem maior, o Papa, e pode marcar uma revolução na Igreja.
Quando em 1996 o padre americano Lawrence Murphy, acusado por colegas de hábito, de práticas sexuais com crianças, a Congregação para a Doutrina da Fé, uma espécie de corregedoria interna do Vaticano, que decide que punição adotar para o crime ou ato denunciado, o comando da Congregação optou pelo silêncio e pela omissão. Segundo o New York Times, o homem do comando era nada menos que Joseph Ratzinger, que nove anos depois, tornar-se-ia o Papa Bento XVI.
O desastre da pedofilia ganha uma proporção desmedida, porque atinge a maior religião do mundo, com cerca de um bilhão de fiéis e quatrocentos mil sacerdotes. E a imprensa internacional não cala. Vem de longa data as denúncias de pedofilia contra padres católicos. Em 2009 veio à tona na Irlanda um dossiê relatando o abuso de 15.000 crianças, em mais de 250 instituições da Igreja no país, entre 1930 e 1990. A maioria meninos...
Aí o circo pegou fogo: 350 denúncias na Holanda; 300 na Áustria e na Alemanha...
Um relatório encomendado pela Conferência de Bispos Católicos dos EUA, apurou que 4% dos padres foram denunciados por abuso sexual de menores no país, entre 1950 e 2002. No resto do mundo, ainda segundo o relatório, a média estaria entre 1,5% a 5%. Enfim, pelos índices apontados, parece que o Vaticano admite que a proporção de pedófilos entre padres é maior do que na sociedade leiga.

O ano de 1976 assinala, diante dos fatos, o início de uma mudança dentro da Igreja: ocorria a transferência da questão, da ordem espiritual para a científica, admitindo-se que tais comportamentos eram frutos de distúrbios psicossexuais, o que apontou para a necessidade de avaliações psicológicas dos candidatos ao celibato religioso.
Mas a principal mudança veio agora, em 12 de abril, quando o Vaticano instruiu os seus Bispos, a tratar a pedofilia como um caso de justiça comum.
Se realmente isso acontecer, será uma revolução, considerando que a Igreja sempre se manteve afastada do poder do Estado.
O silêncio sobre os crimes internos foi ratificado até o século XX, No documento Crimen Sollicitationes, 1962, o Papa João XXIII, determinou que os abusos de crianças deveriam ser tratados pela Igreja em segredo total, sob pena de excomunhão.
Preservava-se o espírito corporativo da Igreja, com a destruição de todos os documentos que apresentavam provas, caso a denúncia fosse considerada infundada.
Em 2001, o cardeal Joseph Ratzinger ratificava o poder da Congregação para a Doutrina da Fé que continuaria a ter competência exclusiva em relação aos crimes de pedofilia.
Não se ventilava em hipótese alguma, a intervenção do Estado laico nos assuntos internos da Igreja.

Agora, ao admitir a intervenção da Justiça do Estado no crime de pedofilia, Bento XVI deu um pequeno grande passo, ao tirá-lo do jugo da divina justiça e passá-lo a justiça dos homens.
Será que a Igreja saberá lidar com a justiça dos homens, depois de milênios, apenas respondendo diante das leis divinas?
Acredito que será feito um grande projeto de remodelação do cânone católico, para salvaguardar a própria sobrevivência da Igreja... Resta saber se o projeto dará certo...
Lembro-me de Voltaire: "écraser l'infâme!"
Alguma coisa muito próxima daquele senador romano, Catão, que em toda sessão do Senado bradava: "delenda Cartago! "
"Há mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha a nossa vã filosofia..."

M. AMERICO

sexta-feira, 30 de abril de 2010

MURAL DE LYA LUFT

"Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem."

A escritora é conhecida por sua luta contra os estereótipos sociais.

"Essas coisas que obrigam as pessoas a ser atletas. Hoje é quase uma imposição: a ordem é fazer sexo sem parar, o tempo todo. A ordem é não fumar, não beber. É essa loucura o dia inteiro na cabeça. Quem não for resistente acaba enlouquecendo. E a vida fica para trás. Hoje as pessoas estão sofrendo muito. Um sofrimento absolutamente desnecessário. Especialmente as mulheres que fazem plástica logo que vêem uma ruga no rosto. Plásticas de inteira inutilidade".
"Na ambição de serem sempre jovens, as mulheres acabam perdendo o próprio rosto. São os falsos mitos da juventude para sempre. E isso também inclui a febre atual da mídia, particularmente nas revistas femininas. Só se fala como se podem ter vários orgasmos numa única noite. Só se fala em como a mulher deve agir para segurar seu homem pelo sexo, especialmente o oral. São fórmulas de um mundo conturbado, que foge ao afeto, distante de qualquer felicidade. Essa é outra coisa para o enlouquecimento. Em todo lugar, o que existe é a supervalorização do sexo. Quem não estiver fazendo sexo sem parar o tempo todo passa a ser anormal. Muita gente fica complexada porque não consegue vários orgasmos numa noite. É tudo uma imposição".
"Tento entender a vida, o mundo e o mistério e para isso escrevo. Não conseguirei jamais entender, mas tentar me dá uma enorme alegria. Além disso, sou uma mulher simples, em busca cada vez mais de mais simplicidade. Amo a vida, os amigos, os filhos, a arte, minha casa, o amanhecer. Sou uma amadora da vida.

O que você nunca vai esquecer?
"Escutar o vento e a chuva nas árvores do imenso jardim que cercava a casa de meu pai, na minha infância. Puro maravilhamento."
O que lhe causa repugnância?
"Preconceito, hipocrisia."
Vale a pena escrever?
 "Não escrevo porque “valha a pena”, mas porque me faz feliz, simplesmente".
O que falta à literatura brasileira?
"Nada, não falta nada. Ela é o que é, simplesmente, cheia de graça, desgraça, florescente, múltipla, lutando com a crise econômica que atinge também as editoras, mas, como não se escreve para ficar rico, tudo bem". E Deus?
"Deus eu imagino como força de vida: luminosa, positiva, imperscrutável".
E o Brasil? Brasil cujo jeito é parecer não ter jeito.
"Não quero jamais ter de morar longe dele. Aqui tudo é possível. E tanto está ainda por fazer".
O que fazer para reverter esse quadro de miséria?
"Que os responsáveis por isso criem vergonha na cara".
Quem não merece respeito algum de ninguém?
"Todos merecem algum respeito, no mínimo compaixão".
Você costuma rezar?
"Não tenho nenhuma religião instituída, mas tenho uma profunda visão “religiosa”, sagrada, da natureza, das pessoas, do outro".
Qual é seu momento ideal para escrever?
"O momento em que meu livro quer ser escrito. Mas normalmente produzo mais de manhã bem cedo. Gosto de ver o dia nascer, aqui na minha mesa de trabalho e do meu computador".

Se confessa uma mulher tímida, embora não pareça.

"Sou dos escritores que não sabem dizer coisas inteligentes sobre seus personagens, suas técnicas ou seus recursos. Naturalmente, tudo que faço hoje é fruto de minha experiência de ontem: na vida, na maneira de me vestir e me portar, no meu trabalho e na minha arte.
Não escrevo muito sobre a morte: na verdade ela é que escreve sobre nós - desde que nascemos vai elaborando o roteiro de nossa vida.
O medo de perder o que se ama faz com que avaliemos melhor muitas coisas. Assim como a doença nos leva a apreciar o que antes achávamos banal e desimportante, diante de uma dor pessoal compreendemos o valor de afetos e interesses que até então pareciam apenas naturais: nós os merecíamos, só isso. Eram parte de nós.
O amor nos tira o sono, nos tira do sério, tira o tapete debaixo dos nossos pés, faz com que nos defrontemos com medos e fraquezas aparentemente superados, mas também com insuspeitada audácia e generosidade. E como habitualmente tem um fim - que é dor - complica a vida. Por outro lado, é um maravilhoso ladrão da nossa arrogância.
Quem nos quiser amar agora terá de vir com calma, terá de vir com jeito. Somos um território mais difícil de invadir, porque levantamos muros, inseguros de nossas forças disfarçamos a fragilidade com altas torres e ares imponentes.
A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranqüilidade, querer com mais doçura.
Às vezes é preciso recolher-se".

M. AMERICO

quinta-feira, 29 de abril de 2010

PARADIGMA

Um paradigma seria, digamos, uma espécie de teoria, guardadas, porém, as diferenças.
Darwin por exemplo: a teoria da “evolução” procura explicar como as espécies se modificam para se adaptarem as novas condições do ambiente. Como teoria, ela fica sujeita a ter que ser provada, testada, contestada ou aceita. Fica exposta a experimentação e a reflexão.

E o paradigma? Bem, o paradigma seria um conjunto de premissas implícitas, essencialmente inconscientes, e que por isso, dispensam qualquer interesse em demonstrar a sua veracidade. É o modus operandi que carregamos para decidir as diversas maneiras de agir no mundo e de pensá-lo.

Não questionamos um paradigma, simplesmente porque não o colocamos na ordem das nossas reflexões.
É uma realidade, a lente pela qual decodificamos o mundo, a vida. Não costumamos contestar a realidade se ela não nos incomoda. A lente nos protege e nos proporciona um acordo pleno com as nossas percepções. Percebemos dentro de certas molduras, certas referências.

Podemos definir o paradigma de uma outra maneira: como um sistema de crenças. Você já experimentou alguma vez definir o seu sistema de crenças? Por que você acredita nisso ou naquilo? Por que você valoriza isso ou aquilo? Se alguma vez você pensou em fazer isso, com certeza desistiu, ante a dificuldade de pensar uma crença.

Você pode acreditar na importância da amizade, da religião, da família, de praticar um esporte, uma dieta... Pode acreditar que a sua visão política seja sensata... Centenas, com certeza, de convicções que operam no nosso inconsciente, e que jamais questionamos, dirigem a nossa vida. Convicções sedimentadas desde a infância, e que organizam e determinam a nossa relação com a vida.

Retornando a definição possível de um paradigma, poderíamos então enunciar que seria um sistema inconsciente de crenças, próprias de uma cultura.

Ao buscar entender as ações que produzem o meu modo de ser e de me relacionar com o mundo, talvez fosse possível perceber como criei determinadas situações na minha vida.

Não damos muita importância a certos clarões que nos ofuscam, chamados insights, e que muitas vezes revelam os subterrâneos do inconsciente. Não damos atenção, porque podem provocar um terremoto e desacomodar camadas confortáveis da nossa personalidade.

Se estamos acomodados no berço do nosso paradigma, por que reclamar da grade que nos protege do tombo no abismo?

M. AMERICO