sexta-feira, 12 de junho de 2015

SETE CELEBRIDADES QUE MUDARAM DE GÊNERO - OU DE SEXO


Para além de Caitlyn Jenner, outros famosos deram o que falar quando assumiram nova identidade



113Bruce Jenner como Caitlyn, em cena da série-documentário 'I Am Cait', do canal E! (Foto: VEJA.com/Reprodução)





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Bruce, ou melhor, Caitlyn Jenner, não foi a primeira celebridade a chocar o mundo ao sair do armário com roupas e identididade diferentes das que costumava usar. A ex-atleta olímpica, mais conhecida por ser o padrasto da socialite Kim Kardashian, se tornou o centro das atenções da imprensa de fofocas americana ao anunciar que, na verdade, era mulher. Pouco tempo depois, assumiu completamente o novo gênero e estampou a capa da revista americana Vanity Fair com sua nova identidade. "Me chamem de Caitlyn", pedia na capa.

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Para além de Bruce/Caitlyn, outras celebridades deram o que falar quando anunciaram suas novas identidades sexuais. No Brasil, foi o cartunista Laerte quem pôs a questão em pauta. Mas há outros casos, como o da modelo Lea T e o da atriz Thammy Miranda, filha de Gretchen, que recentemente anunciou que pretende ser "um homem diferente". Confira abaixo a lista de celebridades que desafiaram o padrão de gênero:

As celebridades que desafiaram o conceito de gênero


1 de 7(Foto: Reprodução/Reuters)

Caitlyn Jenner

O ex-atleta olímpico Bruce Jenner, mais conhecido como o padrasto da socialite Kim Kardashian, virou notícia depois de declarar que se via como mulher e que pretendia mudar de gênero e de sexo. A partir daí, passou a ser o centro das atenções no reality show Keeping up with the Kardashians, bateu recorde de audiência na TV com uma entrevista exclusiva ao canal ABC e posou de vestido para a capa da revista americana Vanity Fair, em que pede: “Me chamem de Caitlyn”. À revista, Jenner afirma diz ansiar para que o público conheça o seu lado mais feminino. Por enquanto, Caitlyn, que ganhou uma seguidíssima conta no Twitter, não fez a cirurgia de mudança de sexo, mas ela está em seus planos.

2 de 7(Foto: João Cotta/TV Globo/VEJA)

Thammy Miranda

Thammy Miranda, que chegou a iniciar uma carreira seguindo os passos da mãe, a reboladeira Gretchen, assumiu-se transexual em 2014. A filha da “Rainha do Bumbum” passou a infância no Nordeste e ficou conhecida quando se lançou como funkeira em 2000. Não demorou para que posasse para capas de revistas masculinas. Dez anos mais tarde, contudo, ela se assumiu homossexual e iniciou o processo de transição de gênero com cirurgias para a retirada do útero, ovários e seios, mas a genitália continua a original.

3 de 7(Foto: Marco Pinto/VEJA)

Laerte

Depois de se consagrar com seus desenhos, Laerte Coutinho se tornou uma figura de proa da população transgênera, pela qual vem militando em tirinhas e entrevistas. Laerte afirma ter se descoberto transgênero depois do telefonema de um fã, que apontou em uma tirinha, na qual o personagem Hugo se vestia de mulher, um desejo enrustido da cartunista. O anúncio público foi feito em 2010, quando Laerte se assimiu cross-dresser -- pessoa que gosta de vestir como alguém do sexo oposto. Daí em diante, o cartunista -- ou a cartunista, como prefere -- vem se tornando cada vez mais feminina, com enchimento nos seios e cabelos loiros. Uma cirurgia para mudança de sexo, no entanto, não estaria no horizonte.


4 de 7(Foto: Reprodução/VEJA)

Lana Wachowski

Desde o lançamento de Matrix, o diretor Larry Wachowski era pauta de comentários sobre a sua orientação sexual. Em 2012, o cineasta veio a público confirmar os boatos que diziam que mudaria de gênero. Em um evento da indústria cinematográfica, Wachowski se apresentou a todos como Lana.
5 de 7(Foto: AgNews/VEJA)

Lea T

Lea T é o nome artístico de Leandra Medeiros Cerezo, a modelo filha do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo. Leandra, na realidade, nasceu Leandro em 1981, na cidade de Belo Horizonte. A modelo transexual brasileira tornou-se famosa na Europa após participar de campanhas para grifes como a Givenchy, em 2010. O estilista e companheiro Riccardo Tisci foi o responsável por introduzir Lea no mundo das passarelas. Em março de 2012, Lea foi submetida à cirugia de mudança de sexo, mas, mesmo após o procedimento, ainda diz sofrer com o preconceito.
6 de 7(Foto: Divulgação/VEJA)

Laverne Cox

A atriz transgênero não revela seu nome de batismo, mas não esconde de ninguém que sofreu abusos e violência na infância por ser um garoto que não se enquadrava nos padrões masculinos, que tinha trejeitos femininos e que amava o balé. A sua franqueza fez dela, em 2015, uma das pessoas mais influentes segundo pesquisa da revista americana Times, que considera Laverne Cox um exemplo para quem luta por reconhecimento e igualdade. A atriz ganhou espaço na televisão americana em 2010, com a série TRANSform Me, que produziu e apresentou no canal VH1. Mas foi em 2013 que ela de fato caiu nas graças do público, graças à série original da Netflix Orange Is The New Black, em que interpreta a presidiária Sophia Burset. O trabalho lhe rendeu uma indicação ao Emmy.
7 de 7(Foto: Reprodução/VEJA)

Ariadna

A participação de Ariadna do Big Brother Brasil em 2011 foi controversa, pois ela não revelou que era transexual. Seu nome de batismo era Thiago Arantes, mas em 2008 Thiago fez a cirurgia de mudança de sexo na Tailândia, país conhecido por ter uma burocracia que facilita o procedimento. Após sua participação no BBB, Ariadna passou por outras mudanças que ajustaram a sua estética corporal à nova identidade sexual. Atualmente, está casada com um Italiano.

O clã Kardashian




1 de 9(Foto: VEJA.com/Reprodução)

Bruce Jenner - Caitlyn Jenner, padrasto

O ex-atleta olímpico de declato tornou-se popular por ser o padrasto das socialites Kardashians, relação contraída pelo casamento de 22 anos com a mãe de Kim e suas irmãs, Kris Jenner, de quem se separou em 2013. Eles tiveram duas filhas, Kendall e Kyllie. Este ano, Bruce voltou aos holofotes ao declarar-se mulher. Pouco tempo depois, passou a se vestir como uma e agora pede para ser chamado -- ou chamada -- de Caitlyn.

12 de junho de 2015
Veja





UMA FLOR NO LAMAÇAL


Estudantes na Coreia - Mesmo um sistema azeitado pode estar 
deixando alguma coisa de lado e negligenciando crianças que 
não aprendem(Adam Dean/VEJA)

A realidade é complexa. Pense no simples ato de ler esta página e na quantidade de áreas e saberes que foram necessários para possibilitar o nosso diálogo. Ele depende de muitos anos da minha formação; do computador em que escrevo e suas centenas de patentes; de toda a tecnologia de plantio e colheita de árvores, do processamento dessas árvores até que se tornem celulose e depois papel; do conhecimento de editores, diagramadores, revisores, fotógrafos mais a equipe que opera o maquinário da gráfica. 
Ainda há a equipe de logística, de transporte, financeira etc. Tudo isso está embutido no seu simples ato de folhear esta página (para quem a lê on-line, a quantidade de inovações e saberes envolvidos provavelmente é ainda maior).

A escola precisa preparar as pessoas para navegarem a complexidade desse mundo. Que está cada vez mais complicado, mas que já era complexo e multifacetado desde que o mundo é mundo. Seria muito difícil abarcar toda essa complexidade e interdependências em um currículo escolar. 
O professor teria de dominar todas essas áreas, o que é virtualmente impossível, e também controlar o ambiente para que as crianças só fossem expostas ao nível de complicação que pudessem deglutir. 
O que o sistema escolar fez, então, foi replicar o reducionismo da ciência: fracionar a complexidade em seus múltiplos elementos e ensiná-­los de forma separada. Ao fazê-lo, garantiu que os pupilos pudessem ter mestres que dominam profundamente o assunto ensinado e que o nível de dificuldade da matéria fosse controlado e ajustado à capacidade de compreensão dos alunos. É um modelo brilhante, que vem produzindo grandes resultados há milênios.

Como em toda atividade de especialização e divisão do trabalho, porém, há um downside: perde-se a visão global. Alguém já disse que um especialista é aquele que sabe cada vez mais sobre cada vez menos. O professor de história precisa mergulhar não apenas nessa disciplina, mas também, provavelmente, nos conteúdos de história das séries em que leciona. A mesma coisa acontece com seus colegas de todas as outras disciplinas. Esse foco no conhecimento gerou grandes avanços, mas acarretou um importante retrocesso: tudo o que está fora do currículo é ignorado, parece desimportante.

Desde a década de 90, pelo menos, com o trabalho do psicólogo Daniel Goleman, tornou-se amplamente difundido o achado de que os fatores não cognitivos são tão ou mais importantes para o sucesso na vida adulta - não apenas profissional, mas também pessoal - que o QI ou a cultura geral. A popularização dessa ideia, chamada de inteligência emocional, também penetrou a área da educação, especialmente em países desenvolvidos, onde muitas escolas criaram programas para ensinar os pequenos a ser pacientes, perseverantes, abertos, respeitosos etc. O movimento é compreensível. Se algo é muito importante na idade adulta, faz mais sentido ensiná-lo ainda na infância, pois depois pode ser difícil ou tarde demais. E também é lógico que a dianteira tenha sido tomada por países desenvolvidos. 

Primeiro, porque eles já resolveram o bê-á-bá, de forma que têm liberdade para se preocupar com problemas mais avançados. 
Segundo, porque nosso mundo é regido por uma competição de talentos - e, se houver uma dimensão do talento humano que está sendo cultivada em um lugar mas não em outro, quem ficar para trás terá uma desvantagem estratégica importante. 
E, terceiro, porque até nos países em que o sistema funciona muito bem há crianças que não aprendem, que abandonam a escola e se rendem ao crime ou às drogas. Um sinal de que mesmo um sistema azeitado pode estar deixando alguma coisa de lado.

Nos últimos anos, começou a emergir uma literatura coesa e robusta, da qual o livro Uma Questão de Caráter (péssima tradução de How Children Succeed), de Paul Tough, oferece um competente resumo, da importância de qualidades não cognitivas como garra e autocontrole para o sucesso de crianças (já mencionei aqui, em outro artigo, o experimento clássico de Walter Mischel com os marshmallows; para quem não conhece, vale a pena dar um Google ou ver twitter.com/gioschpe).

Recentemente, uma ONG deu um passo além: entendeu que a promessa desse novo olhar sobre o desenvolvimento humano não era apenas de incorporar os temas não acadêmicos à educação, mas, de forma mais ambiciosa, trazer todos os conhecimentos da ciência para a sala de aula. Sim, pois paradoxalmente a instituição que forma os futuros cientistas não tem se beneficiado de quase nada do que eles vêm descobrindo ao longo das últimas décadas. 
Desde a década de 60 do século passado, economistas já buscam quantificar o processo educacional. Mais recentemente tivemos neurocientistas descobrindo muito sobre como o cérebro aprende e psicólogos notando os impactos de questões de higidez mental sobre a capacidade de aprendizado de crianças e jovens. 
Mas nada disso entra no radar da esmagadora maioria dos professores do mundo todo, que não costumam aprender sobre esses conhecimentos em suas formações. Passam a vida tentando mudar a cabeça de seus alunos mas não têm a menor ideia de como o cérebro funciona. Baseiam sua prática em pensadores teóricos do século XIX. E eis o mais surpreendente: essa ONG não é da Finlândia, da Coreia nem de qualquer outra potência educacional, mas do... Brasil! Trata-se do Instituto Ayrton Senna.

O IAS acaba de lançar uma iniciativa chamada eduLab21, em parceria com o Insper e a Universidade de Ghent, na Bélgica. É um laboratório destinado a trazer o conhecimento em educação para o século XXI e o conhecimento do século XXI para a área de educação. O polo belga será o responsável pela geração de novos estudos, inicialmente usando inputs das áreas de psicologia, neurociência e economia. 
O polo brasileiro, comandado por Ricardo Paes de Barros, o melhor economista brasileiro de sua geração, terá como responsabilidades a organização do conhecimento gerado (em todo o mundo) e sua implantação e teste em sala de aula.
E aqui a coisa fica mais interessante: como o IAS atende milhões de alunos através de parcerias com secretarias municipais e estaduais de Educação em quase todo o país, o que há de mais avançado nessa pesquisa poderá ser quase que imediatamente testado em campo, em centenas de escolas. Poder realizar experimentos em tantos e tão grandes grupos de alunos é o sonho de todo pesquisador; beneficiar-se do conhecimento de ponta em primeira mão é o sonho de todo bom gestor público. 
O IAS já vinha tomando um papel de liderança internacional na pesquisa do impacto dos aspectos socioemocionais sobre a aprendizagem por meio de uma parceria com a OCDE. Com o eduLab21, não seria surpreendente se virasse a instituição de referência mundial no assunto. Tudo isso sem custar um centavo ao Erário. É quase inacreditável, mas do lamaçal que se tornou a educação brasileira brota uma flor que há de nos orgulhar.

A morte de Ayrton Senna foi um evento traumático para a maioria dos brasileiros acima de 30 anos, entre os quais me incluo. Foi-se num acidente estúpido nosso compatriota que triunfava no mundo das máquinas, da tecnologia de ponta. Seu falecimento institucionalizou o trabalho pelo bem das crianças brasileiras, que Senna fazia de maneira informal e quase escondido. 
O choque da sua morte e o amor de tantas pessoas mundo afora ajudaram seu instituto a obter as doações de pessoas e empresas que até hoje o mantêm operando. Que doce ironia que agora sua irmã, Viviane, comande uma instituição que também tem pinta de líder mundial em uma área que está na ponta do conhecimento.

P.S. Full disclosure: este articulista está em conselhos do Insper e do Instituto Ayrton Senna, de forma não remunerada.


12 de junho de 2015

Revista Veja

SEIS CENAS DE SEXO QUE FIZERAM ATORES SOFRER NO SET






A atriz e cantora Jennifer Lopez assiste ao Fashion Rocks edição 2014, no bairro do Brooklyn, em Nova York (Foto: Jim Spellman/Getty Images)





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Jennifer López não foi a primeira a penar para fazer uma cena de sexo no cinema -- a atriz e cantora bateu a cabeça durante um rala-e-rola de mentirinha no set de O Garoto da Casa ao Lado. Nem a última.


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Ao contrário do resultado que se vê na tela, as cenas não implicam nenhuma intimidade entre os atores, que, para piorar, estão cercados pela equipe de produção do filme. E esses são apenas os mais leves dos constrangimentos que podem afetar o elenco durante as filmagens. Confira abaixo alguns casos realmente desconfortáveis:

Atores que 'sofreram' em cenas de sexo


Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux

Dura sete minutos ininterruptos uma das cenas de sexo entre Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux no longa Azul É a Cor Mais Quente (La Vie d'Adèle), do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche. As discussões filosóficas e morais sobre o filme, que foi inspirado em uma história em quadrinhos de mesmo nome, ganharam ainda mais repercussão após as declarações das atrizes sobre o método de filmagem do diretor. Adèle chegou a afirmar que se sentiu explorada e Léa também disse que se sentiu como uma prostituta no set quando teve que fingir orgasmos durante seis horas seguidas com três câmeras voltadas para ela.

12 de junho de 2015
Veja, Entretenimentos

UMA OFICINA DE 3,3 MILHÕES DE ANOS



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O martelo pode ter surgido antes do gênero humano
Na manhã de 9 de julho de 2011, a arqueóloga francesa Sonia Harmand liderava uma expedição para explorar as imediações do lago Turkana, no Quênia. Estudiosa das ferramentas de pedra feitas pelos ancestrais dos humanos modernos, ela suspeitava que pudesse encontrar ali artefatos muito antigos: a datação dos sedimentos vulcânicos que ocorriam na região havia mostrado que eles tinham alguns milhões de anos de idade. Harmand é investigadora da Universidade Stony Brook, em Nova York, e do CNRS, o centro nacional de pesquisas da França. Naquele ano, ela passara a coordenar a missão arqueológica no Quênia iniciada em 1994 por Hélène Roche, sua orientadora de doutorado.
Em meio à paisagem homogênea daquele pedaço da África, frequentado esporadicamente por pastores com suas ovelhas e povos nômades, o comboio de veículos que levava a equipe acabou se perdendo. O grupo parou para se orientar e avistou uma área promissora para prospecção. Minutos depois, arqueólogos do time já haviam notado na superfície dezenas de pedras que pareciam ter sido talhadas de propósito. Só não tinham ideia de que estavam prestes a escavar o mais antigo sítio arqueológico do mundo.
Os resultados da investigação preliminar do sítio, batizado de Lomekwi 3, foram publicados no fim de maio na revista Nature. Os autores sustentam que as peças encontradas durante o trabalho de campo eram lâminas, martelos e outros instrumentos produzidos deliberadamente por uma espécie extinta de primata, possivelmente ancestral do Homo sapiens, há 3,3 milhões de anos, numa época em que o gênero humano nem sequer havia surgido. O material é 700 mil anos mais velho que as mais antigas ferramentas conhecidas até então.
Na escavação de 13 metros quadrados, Harmand e seus colegas encontraram 29 artefatos ensanduichados entre as camadas de cinzas vulcânicas. Recolheram também mais de uma centena de outras prováveis ferramentas encontradas na superfície. Ao menos parte dos objetos achados soltos parece ter pertencido ao conjunto que estava enterrado. Num dos casos, descobriram uma lasca na superfície que se encaixava perfeitamente numa pedra maior que estava embaixo da terra.
A maior parte das 149 peças descritas no artigo da Nature consiste em pedras grandes com as cicatrizes típicas deixadas pela retirada de lascas. Há outras ainda maiores, beirando os 30 centímetros, que faziam as vezes de bigorna, oferecendo uma superfície de apoio para o trabalho de outras ferramentas (elas guardam as marcas dos golpes recebidos).
Falando por telefone de Nairóbi, Sonia Harmand contou que desde o início teve a consciência de que estava diante de um achado importante. “Como estávamos em níveis sedimentares com mais de 2,6 milhões de anos, sabíamos que aquelas eram as ferramentas mais antigas do mundo”, disse a francesa. “Mas estávamos longe de achar que elas teriam 3,3 milhões de anos.”

Aconfecção de ferramentas já foi vista pelos especialistas como um traço que distingue o gênero humano dos demais primatas. A espécie paradigmática dessa transição foi encontrada na Tanzânia no início dos anos 1960 num sítio em que havia também milhares de ferramentas, e foi batizada por isso de Homo habilis. Mas a ocorrência mais antiga que se conhece do “humano hábil” data de 2,8 milhões de anos atrás – meio milhão de anos depois, portanto, das ferramentas de pedra do lago Turkana. Os fabricantes daqueles artefatos definitivamente não eram humanos. Pelo visto, havia martelo antes de haver gente.
O material encontrado pelos arqueólogos não trazia qualquer pista sobre a identidade de seus autores. Os principais suspeitos são os primatas da linhagem que deu origem aos humanos modernos e que estavam circulando à época por aquela região da África (a mesma em que provavelmente surgiu o Homo sapiens muito tempo depois, há coisa de 200 mil anos).
Um candidato natural é o Australopithecus afarensis: fósseis de mais de 300 indivíduos dessa espécie já foram encontradosna Etiópia, Tanzânia e Quênia. Com corpo peludo, braços compridos e rosto simiesco, o australopiteco era bípede e podiachegar a 1,50 metro de altura. O espécime mais emblemático é Lucy, nome dado ao esqueleto parcial de uma mulher que viveu há 3,2 milhões de anos.
Mas o criador das ferramentas pode pertencer também a uma espécie aparentada – oKenyanthropus platyops – conhecida por um único crânio de rosto achatado encontrado no fim do século passado num sítio arqueológico a apenas 1 quilômetro de Lomekwi 3.
Seja qual for sua identidade, quem golpeou aquelas pedras parecia ter a intenção de transformá-las para atender a necessidades específicas. “Acreditamos que a principal finalidade para a qual eles talhavam as pedras era criar bordas cortantes, uma função que não existe em estado natural”, disse numa entrevista telefônica Hélène Roche. As ferramentas, continuou a pesquisadora, serviam provavelmente para algum uso ligado à alimentação, como cortar matéria animal ou vegetal. Mas tudo isso está na esfera da especulação. O grupo conduz uma análise microscópica que pode vir a identificar resíduos de matéria orgânica e trazer pistas sobre como eram usadas.

Oartigo do grupo de Sonia Harmandfoi bem recebido por seus colegas, a julgar pela opinião de especialistas independentes consultados pela imprensa mundial. Ninguém estranhou o achado que recuou em 700 mil anos a história da tecnologia. Parece paradoxal para quem acompanha as discussões dos estudiosos da ocupação das Américas, que brigam pela autenticidade de sítios que antecipariam a presença humana no continente em meros 10 mil ou 20 mil anos. Harmand acha natural que não haja a mesma resistência. “Estávamos preparados para isso”, afirmou. “As ferramentas mais antigas conhecidas até então eram sofisticadas demais para serem as primeiras, e essa descoberta era aguardada.”
Nem todos endossaram completamente os resultados. O pré-historiador francês Eric Boëda, especialista em tecnologia lítica que é colega de Harmand no CNRS e não participou da pesquisa, manifestou ressalvas em relação ao trabalho. “O material é velho e é lascado, isso é inegável”, concedeu. “Mas não há um número suficiente de peças estudadas e as análises não são convincentes.” Boëda se disse insatisfeito com o estudo da sedimentação e das ferramentas, que privilegiou o modo de fabricação, sem investigar suas características funcionais. “Não creio que os argumentos sejam definitivos.”
Parte das lacunas deve ser preenchida com a publicação de novos resultados da pesquisa, que ainda está em curso. “O trabalho da Nature não menciona nada do que encontramos em 2014”, disse Harmand. “Voltamos a campo e achamos muito mais peças, e além disso detalhamos as condições de sedimentação e preservação do sítio”, completou, alegando não poder dar mais detalhes. Em julho, o grupo retoma as escavações em Lomekwi 3. 

12 de junho de 2015
BERNARDO ESTEVES

quarta-feira, 8 de abril de 2015

EM NOME DO PAI




O filho seria um fracasso. Era a aposta do pai. A profecia quase se concretizou. Por pouco ela teria sido compartilhada de forma mais ampla. Pelos ingleses e curiosos de pequenos detalhes e tramas no imenso tecido do Império Britânico. Por exemplo, a trajetória de um impulsivo político visionário cujos erros de julgamento eram hereditária reincidência. Mas houve herr Hitler. O patrono da mais insidiosa tirania da humanidade fez uma contribuição por via indireta. Talvez a melhor do psicopata austríaco: criou a oportunidade para o filho Winston demonstrar o engano do pai, o lorde Randolph Churchill (1849-95).

O destino, o que se crê trivial fatalidade, não é na prática, completamente imune ou blindado. Por mais das vezes, está sujeito a dribles improváveis. Thomas Edward Lawrence avança no livroSete Pilares da Sabedoria que nada é antecipadamente gravado na pedra. “Nada está escrito”, lança desafiador o jovem tenente do exercito inglês (Peter O’Toole) quando Ali (Omar Sharif), chefe tribal dos Harith, preveniu em cena de Lawrence da Arábia, filme épico de sir David Lean, que a travessia do inóspito Deserto de Nefud até a cidade costeira de Aqaba, sob domínio otomano, equivalia ao suicídio.

Se um homem decide, apesar de suas fraquezas e adversidades impostas pelas circunstâncias colocar a seu favor os recursos disponíveis e os acumulados durante a sua trajetória, pode sim, reverter o curso da história. Isso Winston Leonard Spencer Churchill fez com estilo sobranceiro e, registre-se, uma vez mais, de forma original que se emparelhada a outras, empalidece as demais. O ex-primeiro-ministro britânico mudou para melhor a história pessoal, a dos seus contemporâneos e deixou legado inspirador para os que vieram após sua morte, 50 anos atrás, dia por dia.

Winston conta ter crescido como uma moedinha de cobre, perdida no bolso do colete de Randolph. Candura de filho com pai, uma figura febril do Partido Conservador britânico cuja carreira foi mais de promessas do que, efetivamente, promissora. Menos atraente que a prosa de Churchill, Nobel de Literatura, justiça se faça, o menino era quase invisível no ponto de vista paterno. Detestado nos internatos dos descendentes da nobreza e herdeiros das fortunas inglesas, em Ascot, Brighton e Harrow, Winston suplicava ao pai para ir buscá-lo nas férias de Natal. Suas cartas ficavam sem resposta.

No entanto, até o fim e de modo recorrente, Winston Churchill — The Last Lion, na trilogia de William Manchester, o mais lúcido e escrupuloso da legião de biógrafos — foi visitado pela visão quimérica do pai. “Hoje é 24 de janeiro, dia da morte de meu pai, data que morrerei também.” Exatos 12 depois, a predição foi consumada — e sucedida por funeral cujas honrarias o Reino Unido só dedicou a Isaac Newton, William Gladstone e aos vencedores do “ogre” Napoleão, no mar (Trafalgar) e na terra (Waterloo), o Almirante Horatio Nelson e o Duque de Wellington.

Corroído pelo sífilis, depois de lenta agonia, permeada por crises de paranóia e alucinações, Randolf Churchill morreu com apenas 46 anos de idade no ostracismo. Winston tinha só 20. Talvez não tenha sido o maior drama. O pai não viu o filho contornar o Eduardo VI e a jovem Elizabeth II para achegar-se ao parapeito central do Palácio de Buckingham e acenar com os dedos em forma de “V” na direção da multidão que, numa troca simbiótica, o aplaudia de modo efusivo.

O pai tampouco acompanhou a reviravolta espetacular para culminar na apoteose. O coturno nazista ocupava praticamente toda a Europa. Onde não subjulgou com a esteira dos Panzer, contava com colaboradores entusiasmados e a resistência contida pelo terror da Gestapo. Hitler tinha como aliados Mussolini e Stalin. Roosevelt, de costas para a guerra na outra margem do Atlântico, parecia mais preocupado com a reeleição. Churchill era um solitário pilar de determinação. No inicio, seu melhor armamento era um arsenal de palavras que entrelaçadas formavam formidável eloquência para mobilizar os povos de língua inglesa contra a tirania. Só palavras? Bem, ele confidenciou a um amigo possuir último recurso na eventualidade do invasor desembarcar nas regiões costeiras das Ilhas Britânicas. “Lutaremos com garrafas quebradas”.

Stefan Zweig explorou com habilidade aspectos secretos dos seus biografados a ponto deles tornarem-se a força motivadora e explicativa de atos e fatos. Trata-se de um percurso perigoso para historiadores rigorosos. O risco de cair no psicologismo é permanente. Mas no caso de Churchill há um consenso até agora sem contraposição satisfatória. A relação com o pai Randolph foi determinante.

Fréderic Ferney acaba de lançar na França um ensaio histórico — e quase literário — inteiramente dedicado à questão, Tu serás un raté, mon fils! (Você será um malogro, meu filho!, em tradução livre). A leitura é desaconselhada para quem procura relato frio e seco de eventos na tábua cronológica. O livro tem mais sabor para quem já foi iniciado, ao menos, por uma biografia de Churchill — há dezenas. Ferney parte do princípio de que uma ferida profunda pode influenciar a formação da personalidade, mas é a sua superação, uma espécie de cura, que tem capacidade de forjar grandes homens. Churchill foi um deles, em nome do pai.

Assista em seguida um ótimo documentário sobre Winston Churchill:


https://www.youtube.com/embed/Nyku1lSRiFU"

https://youtu.be/9q9btbQvQrg

08 de abril de 2015
Antonio Ribeiro

NOVAS VACINAS TÊM RESULTADOS PROMISSORES NO COMBATE AO CÂNCER.


O estudo feito por pesquisadores americanos, foi publicado nesta quinta-feira em uma edição especial da revista 'Science' dedicada aos avanços da imunoterapia



O objetivo da imunoterapia é estimular as células do sistema imunológico 
do paciente para promover a cura
(Thinkstock/VEJA)

Uma nova técnica de imunoterapia, uma vacina personalizada que ataca os tumores, mostrou sinais promissores em três pacientes diagnosticados com melanoma, a forma mais agressiva de câncer de pele. Os resultados dessa abordagem, publicados nesta quinta-feira em uma edição especial da revistaScience que dedica cinco análises aos avanços da imunoterapia, revelam que os pacientes mostraram uma forte resposta imune, capaz de combater a doença.

Para isso, os pesquisadores da Universidade Washington de Saint Louis, nos Estados Unidos, compararam o genoma dos tumores de cada paciente com a carga genética do tecido saudável para identificar as proteínas mutantes do tumor, chamadas neoantígenos. Usando modelos de computador, os cientistas descobriram quais desses neoantígenos poderiam obter respostas mais fortes do sistema imunológico e, a partir disso, fabricaram vacinas para cada indivíduo. No mês seguinte, exames de sangue mostraram que o sistema imune dos pacientes estava respondendo ativamente às mutações.

O grande atrativo da pesquisa é que os cientistas conseguiram, por meio desta nova técnica, conceber vacinas personalizadas, uma abordagem que pode ser promissora no futuro. No entanto, os pesquisadores ressaltam que é cedo para afirmar se ela funciona para combater ao câncer. Neste ano, estão planejados estudos com um número maior de participantes.

"Esse é apenas o primeiro passo. Ainda é necessário acompanhar as respostas desses pacientes por longo prazo, além de ter outros estudos com mais pessoas e para outros tipos de câncer. O mérito desse estudo é que os cientistas conseguiram selecionar com precisão os neoantígenos e mostraram que os pacientes respondem a eles", afirma José Augusto Rinck Jr., médico oncologista do hospital A. C. Camargo. "É mais uma pesquisa a mostrar que a imunoterapia é uma estratégia promissora de combate ao câncer."


Avanço do Ano - O objetivo da edição especial da Science é ressaltar o desenvolvimento científico da imunoterapia e analisar o que precisa ser feito para que ela continue a evoluir e apresentar resultados. De acordo com a revista, há relatos de recuperações "espantosas" descritas nos artigos da edição, que analisam as diferentes técnicas de imunoterapia, como a descrita pelos pesquisadores americanos, e sugerem o que ainda precisa ser feito para que o tratamento se transforme em uma maneira eficaz de combate ao câncer.

O objetivo da imunoterapia, uma estratégia conhecida há mais de cinquenta anos, é estimular o sistema imunológico do paciente para promover a cura. Ela foi classificada como Avanço do Ano pela Science em 2013, quando seus resultados começaram a se tornar mais robustos. Os estudos feitos desde então mostram que o tratamento é capaz de fazer com que pacientes em estágio avançado da doença sobrevivam por mais tempo que o esperado. Há casos de pessoas que chegaram até mesmo a erradicar os tumores.

O melanoma é o tipo de tumor que responde melhor à terapia, mas resultados também têm sido promissores para câncer de próstata, pulmão, rim, bexiga, pescoço e ovários. Em conjunto, as análises da Science desenham um futuro promissor para o tratamento, apesar dos atuais obstáculos, como os efeitos colaterais e sua eficiência ainda para um pequeno número de pessoas.

"A estratégia tem chamado a atenção da comunidade científica em todo o mundo e será o foco de mais da metade dos estudos que serão apresentados este ano na Conferência da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, o maior evento da área. Estamos prestando cada vez mais atenção nessas pesquisas e nas novas drogas desenvolvidas, que podem ser uma forma realmente eficiente de combate da doença no futuro", afirma Rinck Jr.

Conheça 11 pesquisas que representam avanços na luta contra o câncer




(Foto: Thinkstock/VEJA)

Nova droga usa o sistema imunológico do paciente para combater o câncer

O que diz a pesquisa: Usando uma substância chamada BMS-936558, cientistas conseguiram usar o próprio sistema imunológico de alguns pacientes contra o tumor que estavam desenvolvendo. Normalmente, o câncer consegue se disfarçar e não ser atacado pelas nossas células de defesa. Um dos métodos utilizados pelas células cancerígenas para passar despercebidas é pela ação de uma proteína chamada PDL1, que se comunica com uma outra proteína presente em nossos glóbulos brancos, a PD1. A nova droga impede essa comunicação, e faz com que essas células de defesa ataquem o tumor.

Como foi feita: O remédio foi administrado a 76 pacientes com câncer de pulmão de células não-pequenas, o tipo mais comum da doença. Em 18% dos casos, o tumor diminuiu ou parou de crescer. De 33 pacientes com câncer nos rins, 27% também responderam ao tratamento, e de 94 que tinham melanoma, 28% apresentaram melhoras.

Porque é importante: A pesquisa ainda é inicial, mas já se mostra promissora – são os melhores resultados conseguidos com algum tratamento de imunoterapia até hoje. Particularmente importantes foram seus efeitos nos pacientes com câncer de pulmão, que sempre se mostraram resistentes a esse tipo de tratamento.

Opinião do especialista: Milton José de Barros e Silva, oncologista clínico do Hospital A. C. Camargo

"É uma pesquisa inicial, mas sem sombra de dúvida bastante estimulante, pelas perspectivas futuras que abre. Seu mecanismo de ação é inteligente e ela apresenta bons resultados preliminares."

"A célula que podia destruir o câncer é o linfócito T. O problema é que quando ela chega no tumor, existe uma substância que desliga o linfócito. O que essa droga faz é se ligar no linfócito e cobrir esse botão de desligar. No entanto, o tratamento não é isento de efeitos colaterais. O sistema imunológico também pode atacar os tecidos saudáveis."

"A área da imuno-oncologia está em franca expansão. Ela não está voltada ao desenvolvimento de drogas contra o câncer, mas em drogas que estimulem o sistema imunológico contra os tumores. Hoje, já temos uma droga deste tipo em uso: a Anti–CTLA-4. Ela já foi aprovada nos Estados Unidos, e está sendo analisada pela Anvisa."



08 de abril de 2015
Veja

terça-feira, 7 de abril de 2015

PALMAS QUE ELE MERECE...

Quem inventou o aplauso?

Ninguém sabe ao certo. De acordo com uma das teorias mais bizarras, ele teria surgido entre os homens das cavernas como forma de comemorar caçadas bem-sucedidas. A princípio, nossos antepassados celebrariam o banquete dando cabeçadas uns nos outros, até que, finalmente, algum sujeito cansado dos galos na cabeça sugeriu a troca da dolorosa celebração.
A versão mais plausível, contudo, aponta que o surgimento do aplauso, ocorrido há cerca de 3 mil anos, teria conotação religiosa: seria o instrumento usado por membros de tribos pagãs para chamar a atenção dos deuses nos rituais.
Mais tarde, na Grécia antiga, a platéia de espetáculos teatrais passou a usar as palmas para invocar os espíritos protetores das artes.
Já no Império Romano, o gesto começou a ser utilizado também como sinal de aprovação a autoridades que faziam aparições públicas.
Por volta do século 18, os franceses inventaram a claque teatral: grupo de pessoas previamente contratadas por um artista espertalhão para aplaudir seu espetáculo.
Se vivesse nessa época, o jovem americano Kent French teria emprego garantido: ele é dono do recorde mundial de bater palmas, com nada menos que 721 batidas por minuto - uma média de 12 por segundo. Mas nem sempre um aplauso é sinônimo de elogio.
Com o tempo, as palmas ganharam significados bem variados, como você pode conferir abaixo.

PALMAS, QUE ELE MERECE!

Os modos variados de elogiar - ou não - alguém com o aplauso
Bater palmas lenta e sincronizadamente: é um sinal irônico para mostrar a desaprovação ao espetáculo

Bater palmas num crescendo: é a maneira de "avisar" um artista enrolão que está mais do que na hora de começar o show

Bater os dedos de uma mão contra a palma da outra: é outra forma sarcástica de aplauso
Estalar o polegar e o dedo médio: em ambientes refinados - diga-se, pedantes -, é considerado um modo mais elegante de aplaudir

07 de abril de 2015
Yuri Vasconcelos

FÓSSIL DE NEANDERTAL INDICA MISCIGENAÇÃO ENTRE HUMANOS PRIMITIVOS

O sequenciamento mais completo do genoma de hominídeo de 50.000 anos permitiu a comparação

 
Exposição em museu croata mostra reprodução de uma família de Neandertais
Exposição em museu croata mostra reprodução de uma família de neandertais(Nikola Solic/Reuters/VEJA)

O minúsculo osso de um dedo do pé de uma mulher neandertal que viveu há cerca de 50.000 anos revela que houve miscigenação entre algumas linhagens humanas primitivas.
A partir deste fóssil, pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, obtiveram o mais completo genoma de um neandertal já sequenciado. Os resultados foram publicados nesta quarta-feira, na revista Nature.

Onde foi divulgada: periódico Nature
Quem fez: Kay Prüfer, Fernando Racimo, Nick Patterson, Flora Jay, Sriram Sankararaman, Ed S. Lein, David Reich, Janet Kelso, Svante Pääbo e outros
Instituição: Universidade da Califórnia, EUA

Resultado: Os pesquisadores compararam o genoma dos neandertais com outros grupos humanos e descobriram que existia miscigenação entre eles
Os autores compararam o genoma encontrado com o de dois outros grupos, os humanos modernos e os denisovanos - um subgrupo misterioso, que teve vestígios descobertos na Sibéria. Embora tenham desaparecido, neandertais e denisovanos deixaram sua herança genética porque ocasionalmente se miscigenaram com humanos modernos. Os pesquisadores descobriram que entre 1,5 e 2,1% do genoma do homem moderno não africano está ligado aos neandertais.
Já vestígios denisovanos foram encontrados em 0,2% de genomas da etnia Han, majoritária na China, e de americanos nativos. Segundo as comparações, os denisovanos se miscigenaram com humanos primitivos, que os pesquisadores suspeitam se tratar do Homo erectus.
 
Diferenças - Os cientistas identificaram 87 genes presentes nos humanos modernos que são muito diferentes daqueles encontrados nos neandertais ou denisovanos. Eles podem ser os responsáveis pelas diferenças comportamentais que diferenciaram o homem das demais espécies extintas.
"Não há um gene que possamos apontar e dizer: 'este responde pela linguagem ou alguma outra característica única dos humanos modernos'. Mas, a partir desta lista, aprenderemos algo sobre as mudanças que aconteceram na linhagem humana, embora elas provavelmente sejam sutis", afirma Montgomery Slatkin, professor de biologia integrativa da Universidade da Califórnia.

Homens das cavernas - Os ossos foram encontrados em uma caverna nas montanhas Altai, no sul da Sibéria. Em 2008, pesquisadores localizaram no mesmo lugar o osso de um dedo mindinho de uma mulher denisovana em solo de 40.000 anos. A caverna também contém artefatos feitos pelos humanos modernos, o que significa que pelo menos três grupos de humanos primitivos ocuparam o local em diferentes épocas.

(Com Agência France-Presse)

07 de abril de 2015
Veja

ÁRVORE GENEALÓGICA REVELA NOVAS IDADES PARA "ADÃO" E "EVA"

Pesquisadores descobrem que os mais recentes ancestrais comuns a todos os homens e mulheres do planeta podem ter vivido na mesma época: ele, entre 120.000 e 156.000 anos atrás, e ela, entre 99.000 e 148.000 anos

Adão e Eva
Todos os seres humanos carregam em seu genoma parte do DNA de um homem e uma uma mulher que viveram há dezenas de milhares de anos, na África. Ao contrário dos casal bíblico, no entanto, o Adão e a Eva genéticos provavelmente nunca se conheceram (Thinkstock/VEJA)
Em genética, chamam-se Adão e Eva os mais recentes ancestrais comuns a toda humanidade. Ele é o pai do pai do pai... de todos os homens e mulheres vivos. Do mesmo modo, ela é a mãe da mãe da mãe... Não foram os primeiros exemplares da espécie humana, ao contrário do casal bíblico, nem necessariamente se conheceram.
Foram, na verdade, os últimos ancestrais a partir dos quais se pode traçar uma linha direta de descendência paterna ou materna até os dias de hoje. Uma nova pesquisa publicada nesta quinta-feira na revista Science joga um pouco de luz sobre a época em que o Adão e a Eva da genética viveram.
Os pesquisadores descobriram que, ao contrário do que mostravam estimativas anteriores, o ancestral comum paterno e o materno podem ter vivido em momentos próximos ou até idênticos: o homem teria vivido entre 120.000 e 156.000 anos atrás, e a mulher, entre 99.000 e 148.000 anos.

Para estudar os ancestrais masculino e feminino, os cientistas examinam o material genético que homens e mulheres passam, exclusivamente, para seus filhos e filhas. Durante o momento da concepção, os genomas do pai e da mãe se misturam. Por isso, é muito difícil saber qual dos dois transmitiu qual gene. Mas uma parte do DNA é transmitida exclusivamente pelo pai: o cromossomo Y, que determina o sexo masculino.
É ele que contém as informações sobre o ancestral paterno comum, chamado Adão cromossomial-Y. Também existe um trecho do DNA que é transmitido exclusivamente pela mãe: o DNA mitocondrial, um pedaço do genoma que não está localizado no núcleo, mas na mitocôndria da célula. Por isso a ancestral comum a todas as mulheres é conhecida como Eva mitocondrial.

O Adão cromossomial-Y e a Eva mitocondrial, obviamente, não foram os únicos humanos de seu tempo. Outros homens e mulheres podem até ter deixado descendentes até os dias de hoje, mas não tiveram sucesso em deixar uma linhagem inteiramente patrilinear ou matrilinear intacta - em algum momento seus descendentes tiveram uma prole do sexo oposto, interrompendo a transmissão do cromossomo Y ou do DNA mitocondrial.

CONHEÇA A PESQUISA Título original: Sequencing Y Chromosomes Resolves Discrepancy in Time to Common Ancestor of Males Versus Females

Onde foi divulgada: periódico Science
Quem fez: David Poznik, entre outros
Instituição: Universidade de Stanford, EUA; entre outras
Dados de amostragem: Análises genéticas dos cromossomos Y de 69 homens vindos de 9 regiões diferentes do globo

Resultado: Os pesquisadores encontraram 11.640 variações genéticas entre os cromossomos. A partir disso, construíram uma árvore genealógica a partir do primeiro ancestral comum paterno, com origem entre 120.000 e 156.000 anos atrás

CROMOSSOMO

É uma sequencia de DNA que contém os genes que determinam as características dos organismos. Tem dois braços, chamados cromatídeos, que se unem formando um X com a parte de cima mais alongada. O ser humano tem 46 cromossomos em cada célula.

MITOCÔNDRIAS

As mitocôndrias são estruturas responsáveis por fornecer energia, a partir da quebra de nutrientes, para as células. Esse processo é conhecido como respiração celular. O número de mitocôndrias por célula varia muito, de milhares a poucas. A quantidade depende da função da célula. Células musculares, que necessitam de muita energia para funcionar, têm mais mitocôndrias que células nervosas, por exemplo.

DNA MITOCONDRIAL

O DNA mitocondrial não se encontra no núcleo da célula, mas dentro da mitocôndria. Como é transmitido exclusivamente da mãe para os filhos, ele é ideal para o estudo de arqueologia molecular. Além disso, ele é naturalmente amplificado, ou seja, apresenta centenas ou milhares de cópias em uma única célula.
 
Em estudos anteriores, os cientistas estimavam que a ancestral materna devia ser até três vezes mais antiga que o paterno. "As pesquisa anteriores indicavam que o ancestral comum masculino teria vivido muito mais recentemente que o feminino. Nossa pesquisa mostra, no entanto, que essa discrepância não existe", diz Carlos Bustamante, professor de genética na Universidade de Stanford, um dos autores do estudo publicado na Science.

No novo estudo, os pesquisadores sequenciaram completamente os cromossomos Y de 69 homens vindos de 9 regiões diferentes do globo: Namíbia, República Democrática do Congo, Gabão, Argélia, Paquistão, Camboja, Sibéria e México. As modernas tecnologias de análise genética permitiram que os pesquisadores encontrassem, pela primeira vez, 11.640 pequenas diferenças entre esses cromossomos.

Como os cromossomos Y foram todos herdados da mesma pessoa - o ancestral paterno comum -, essa variação genética só poderia ter surgido a partir de mutações aleatórias, que se acumularam com o passar das gerações. Ao estudar como as pequenas variações no cromossomo Y se espalharam pelo globo e são compartilhadas pelas diversas populações mundiais, os pesquisadores conseguiram traçar uma árvore genealógica da humanidade como um todo.

No topo da árvore, está o Adão cromossomial-Y. Abaixo dele, cada nova mutação no cromossomo representa um novo ramo da árvore genealógica e o surgimento de uma nova linhagem. Segundo os pesquisadores, a configuração dos ramos ao longo do tempo se mostrou semelhante à distribuição das populações humanas conforme saíam da África para habitar a Ásia e a Europa. "Essencialmente, nós construímos a árvore genealógica do cromossomo Y", diz David Poznik, pesquisador da Universidade de Stanford e autor principal do estudo.

O passo seguinte dos pesquisadores foi estimar a época em que o ancestral comum paterno viveu. Para isso, eles estudaram o cromossomo Y de indígenas americanos. Os cientistas sabiam que os habitantes originais da América só chegaram ao continente há 15.000 anos. Por isso, todas as mutações compartilhadas por todos os indígenas deveriam ter acontecido antes - ou pouco tempo depois - desse período. Já as mutações que variavam entre as populações devem ter surgido pouco tempo depois, quando eles começaram a se espalhar pelo continente.

Após analisar as variações genéticas, os pesquisadores conseguiram calcular a taxa com que o cromossomo Y sofre mutação ao longo do tempo. Ao aplicar essa taxa de mutação na árvore genealógica que haviam descrito, eles foram capazes de estimar a época em que o ancestral comum viveu: entre 120.000 e 156.000 anos atrás. Os cientistas fizeram o mesmo tipo de estudo com o DNA mitocondrial dos 69 homens e outras 25 mulheres. Assim, desenharam uma árvore genealógica semelhante para a ancestral comum materna e traçaram uma data para sua origem: entre 99.000 e 148.000 anos atrás.
 
Os pesquisadores não sabem dizer o que a sobreposição dos períodos estimados para a vida dos ancestrais comuns masculinos e femininos significa. Segundo o estudo, a coincidência de datas pode não ter nenhuma razão histórica - ser um simples fruto do acaso. Mas também é possível que ela represente um período quando a população humana sofreu um grande corte populacional, ao qual poucos indivíduos sobreviveram para transmitir seus genes. "Algumas linhagens morrem, e outras têm sucesso. Na maior parte, esse processo é aleatório. Mas também é possível que existam elementos da história humana que predispõe as linhagens a se sobreporem em determinados períodos", diz Poznik.

07 de abril de 2015

DENTRO DE CADA HUMANO MORA UM NEANDERTAL

Pesquisa revela que mais de 20% do DNA do hominídeo extinto sobrevive nos homens

neandertais
São remanescentes do DNA neandertal genes que causam diabetes tipo 2, doença de Crohn e lúpus, além de características na pele e no cabelo do homem(Frederico Gambarini/epa/Corbis/VEJA)

Os neandertais desapareceram da Terra há pelo menos 30.000 anos. Mas seus genes ainda vivem dentro de nós, revelaram dois estudos publicados nesta quarta-feira.
Pesquisas anteriores já provaram que houve acasalamento entre ancestrais diretos do homem e neandertais, há cerca de 65.000 anos, e que 1 a 3% do genoma humano vem desse hominídeo extinto. Os novos trabalhos foram os primeiros a demonstrar o efeito biológico dessa transferência genética no desenvolvimento humano. Eles revelaram que são remanescentes do DNA neandertal genes que causam diabetes tipo 2, doença de Crohn e lúpus, além de características na pele e no cabelo.
Em um estudo publicado na revista Science, os cientistas Benjamin Vernot e Joshua Akey, da Universidade de Washington, compararam mutações no genoma de mais de 600 europeus e asiáticos com o  genoma sequenciado a partir do osso de um homínideo    encontrado na Espanha. Eles concluíram que mais de 20% do DNA neandertal sobrevive nos humanos.

Outra pesquisa, liderada por cientistas da Universidade Harvard e publicada na revista Nature, comparou o mais completo genoma neandertal já sequenciado  com o de 1.004 humanos vivos. A principal revelação foi uma quase ausência de DNA neandertal no cromossomo X - em humanos, mulheres têm dois cromossomos X e homens um X e um Y. A ausência provavelmente significa que os descendentes machos do cruzamento eram estéreis.

As análises revelaram também que alguns genes neandertais são comuns na atualidade, como os envolvidos na produção de queratina, componente que dá resistência à pele, ao cabelo e à unha. Essa herança pode ter ajudado os primeiros Homo sapiens a se adaptar a uma Europa fria, depois que eles deixaram a África, dando-lhes uma pele mais espessa.

Os cientistas também descobriram que alterações genéticas herdadas de neandertais elevam o risco para problemas de saúde como o diabetes tipo 2, o lúpus e a doença de Crohn. "Queremos usar as informações do estudo como uma ferramenta para entender doenças comuns em humanos", diz David Reich, principal autor da pesquisa.

07 de abril de 2015
 

"O FUTURO É DE VELHOS, GORDOS E INFÉRTEIS"

Em um novo livro, o biólogo francês Jean-François Bouvet mostra que passamos por uma evolução inédita. Para ele, as transformações ambientais feitas pelo homem têm hoje mais influência em nossa biologia que a seleção natural. Nesta entrevista, ele rebate quem acredita que a ciência só nos trouxe progresso e explica como chegamos a esse ponto

Para o cientista francês Jean-François Bouvet a exposição a químicos,
pesticidas e poluentes modernos modificou nossa biologia
de forma permanente. E sem volta.
(Philippe Matsas/Flammarion/Divulgação/VEJA)

Velho, gordo e infértil. Para o biólogo francês Jean-François Bouvet, esse é o retrato do ser humano atual - e do seu futuro. Em seu livro Mutants - à quoi ressemblerons-nous demain? (Mutantes - como seremos amanhã?, lançado em março e sem tradução em português), ele reúne uma série de dados de pesquisas feitas ao redor do mundo para mostrar que o homem passa por uma evolução inédita - que pode estar prejudicando seu bem-estar.

Biblioteca

Mutants - à quoi

ressemblerons-nous demain?


Mutants(Divulgação/VEJA)

Mutants

O biólogo francês Jean-François Bouvet reúne uma série de estudos feitos ao redor do mundo para mostrar que estamos passando por uma evolução inédita, batizada por ele de retroevolução. O ser humano poluiu o ambiente com novos químicos que estão alterando nossa biologia de maneira permanente e perigosa.

Autor: JEAN-FRANÇOIS BOUVET

Editora: FLAMMARION


"Desde a Revolução Industrial, no início do século XIX, vivemos um processo em que o ambiente modificado pelo homem tem mais influência em sua evolução que a seleção natural. E essas mudanças são, geralmente, negativas", explica o cientista que, durante dez anos, desenvolveu pesquisas em neurobiologia na Universidade Claude Bernard, em Lyon, na França, e escreveu outros quatro livros, publicados na Europa e Estados Unidos.


Big bang químico - Para ele, a explosão de novas moléculas criadas pelo avanço da ciência e da indústria modificou permanentemente o sistema endócrino e hormonal dos seres humanos. Os efeitos de químicos como o do pesticida DDT, de antibióticos ou de substâncias presentes em nosso cotidiano, como o bisfenol A, os parabenos ou os ftalatos revolucionaram nossa biologia em uma escala jamais vista.

O número de casos de obesidade dobrou desde os anos 1980, meninos e meninas ao redor do mundo entram na puberdade por volta dos 7 anos e, o que é mais grave, a concentração de espermatozoides no sêmen foi reduzida em 40% nos últimos 50 anos, em todo o planeta. Se o objetivo da evolução é selecionar os mais aptos a gerar descendência, esses indícios reunidos indicariam que ela está enfrentando problemas.

Pouco otimista em relação ao futuro da humanidade, Bouvet explica nesta entrevista o que seria uma evolução inédita, como serão os homens nos próximos anos e se promessas da medicina, como as células-tronco ou pesquisas genéticas, podem reverter esse processo.


Por que você afirma que o ser humano vive uma evolução jamais vista?

Estamos cada vez mais gordos e menos férteis. É verdade que estamos também mais velhos - desde 1990, a expectativa de vida aumentou quatro anos na Europa, seis anos na África e oito anos na Ásia. No entanto, essa não é uma velhice saudável. O indicador que mede a expectativa de vida sem incapacidade [Disability Free Life Expectancy, em inglês, usado pela Comissão Europeia] permanece estável nos últimos dez anos. Ou seja, o aumento dos anos de vida significa uma sobrevida sem saúde. Na França, temos 25 novos casos de Alzheimer diagnosticados por hora: são 860 000 doentes e a previsão é de 2 milhões até 2020. Isso nunca nos aconteceu e não pode ser considerado um progresso.


Mas esses homens não são os mais aptos ao mundo moderno, selecionados pela evolução?

Pela primeira vez na história há outro fator mais importante que a seleção natural para a evolução: o ambiente modificado pelo homem. Até a Revolução Industrial não tínhamos a capacidade técnica de transformar quimicamente a natureza. Modificamos o ambiente que, por sua vez, devolve essas alterações, perturbando-nos com os químicos que inventamos e que agora agem de maneira deletéria sobre nós. Esse processo em que a natureza manda de volta o que fizemos a ela é o que chamo de retroevolução.


Muitos antropólogos e biólogos evolutivos defendem que mudanças ambientais têm forte impacto na seleção natural. No entanto, eles não costumam enxergar essa tendência como negativa. O que ela teria de tão ruim?

Sou um homem da ciência e não escrevi um livro otimista. Há um fenômeno global em que o homem inventa novas moléculas e faz isso tão rapidamente que não há tempo para estudos sérios sobre seu impacto. Elas são logo colocadas no mercado e, só depois, percebemos que são perigosas. Estou falando de coisas como os pesticidas, o bisfenol A, os parabenos ou os ftalatos, que jogamos no ambiente sem parar. Uma pesquisa de 2012 com cerca de 4 000 americanos mostra que a porcentagem de obesos em uma população aumenta quando a taxa de bisfenol A cresce nos organismos. No país, mais de 95% dos adultos apresentam o químico na sua urina e um terço das mulheres e 30% dos homens são obesos. Em todo o mundo, a obesidade, relacionada a doenças crônicas como diabetes e hipertensão, dobrou desde os anos 1980. Não dá para ser muito otimista em um cenário como esse.


O uso de alguns desses químicos está sendo restringido no mundo. Isso não ajuda?

Eles continuam onipresentes. O bisfenol A é uma substância utilizada em plásticos, para facilitar sua maleabilidade. E o DDT, proibido nos Estados Unidos em 1972, continua sendo usado em vários países para combater os mosquitos da malária - o que significa que ainda é muito empregado no planeta. Além disso, ele permanece no ambiente por até dez anos. Um estudo feito em 2005 pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, com mulheres da China - lugar onde o pesticida foi proibido em 1984 - mostrou que as que tiveram puberdade precoce eram as que tinham sido mais expostas ao químico. E a esfera sexual é uma das mais afetadas também pela poluição. Um estudo brasileiro, da Universidade de São Paulo, publicado no ano passado, mostrou que ratas submetidas a partículas finas de ar poluído tinham diversos problemas reprodutivos, com uma modificação substancial no ovário. Não somos ratos, mas não dá para imaginar que essas partículas sejam inofensivas.

Os desreguladores endócrinos mais perigosos à saúde
Lista elaborada pela organização americana Environmental Working Group (EWG)

 

1 de 12(Foto: ThinkStock/VEJA)

Bisfenol A (BPA)

Essa substância está presente principalmente em embalagens de plástico feito de policarbonato e no revestimento interno de latas de alumínio, como as de refrigerante, por exemplo. Uma vez no organismo, o BPA imita a ação do estrogênio, um hormônio sexual feminino, interferindo diretamente no funcionamento de algumas glândulas endócrinas, podendo também aumentar ou diminuir a ação de vários hormônios. O bisfenol A vem sendo associado a alguns tipos de câncer, como o de mama, além de problemas de reprodução, obesidade, puberdade precoce e doenças cardíacas. Como evitar: Preferir alimentos frescos a enlatados; evitar embalagens de plástico para alimentos e bebidas que tenham o símbolo ‘PC’, que significa policarbonato, ou cujo símbolo de reciclagem leve os números 3 ou 7, que indicam a presença do BPA.






Dioxina

A dioxina é formada a partir da combustão que acontece com uma série de processos industriais. No corpo humano, ela afeta a sinalização dos hormônios sexuais tanto nos homens quanto nas mulheres. Uma pesquisa recente mostrou que o contato dessa substância ainda no útero materno e durante os primeiros anos de vida de um homem pode afetar de forma permanente tanto a qualidade quanto a concentração de espermatozoides no sêmen. Como evitar: Reduzir o consumo de alimentos que são mais propícios a serem contaminados pela dioxina nas indústrias. São eles peixes, carnes, leite, ovos e manteiga. Ou seja, comer menos produtos de origem animal.





Atrazina

A atrazina é um herbicida frequentemente utilizado em culturas de milho nos países do continente americano capaz de contaminar água potável. Pesquisadores descobriram que seu efeito hormonal é tão perigoso que pode até fazer com que sapos machos passem a ovular. A substância vem sendo associada a um maior risco de tumores na mama, puberdade tardia e inflamação na próstata entre animais, mas também há evidências de que ela possa estar ligada a câncer de próstata em seres humanos. Como evitar: Consumir mais alimentos orgânicos; comprar um filtro de água certificando-se de que ele remove a atrazina.


Ftalatos

A substância costuma ser utilizada para deixar o plástico mais maleável e pode ser encontrada em materiais como revestimento de pisos e paredes, equipamentos médicos e produtos de cuidado pessoal. Estudos já demonstraram que os ftalatos podem causar a morte precoce das células germinativas dos homens, que dão origem aos espermatozoides. Outras pesquisas também associaram o composto químico a alterações hormonais, menores quantidades e pior qualidade dos espermatozoides, distúrbios no sistema reprodutivo masculino, obesidade, diabetes e problemas de tireoide. Como evitar: Diminuir o contato com recipientes plásticos, brinquedos e produtos de higiene pessoal que contenham ftalatos e com objetos de plástico feitos de PVC, cujos rótulos levam o número 3 no símbolo da reciclagem. Leia também: Composto presente em plásticos pode contribuir para a obesidade infantil.  


Perclorato

A substância é usada na fabricação de combustível para foguetes, mas também pode ser aplicada em fertilizantes e herbicidas, sendo capaz de contaminar a produção de alimentos e o leite. Ao entrar em contato com o corpo humano, o perclorato compete com o iodo, nutriente necessário para que a glândula da tireoide produza hormônios. Ou seja, a exposição a grandes quantidades do composto pode alterar o equilíbrio hormonal do organismo e, consequentemente, afetar a regulação do metabolismo entre adultos e também o desenvolvimento cerebral e dos órgãos de crianças. Como evitar: Prevenir o consumo de água que contenha perclorato é possível com o uso de filtros de osmose reversa; como é praticamente impossível evitar o contato com perclorato por meio da alimentação, o ideal é que sejam consumidas quantidades recomendadas de iodo.


Retardador de chama químico

Estudos feitos com mulheres e diversos animais encontraram, no leite materno, um composto chamado éter de difenila polibromado (PBDE, sigla em inglês), que é um desregulador endócrino presente em retardadores de fogo tóxicos. A substância, que pode ser encontrada em produtos que vão desde materiais de construção a móveis e eletrônicos, é capaz de imitar hormônios da tireoide e, entre outros problemas de saúde, afetar de forma negativa a cognição. Como evitar: É praticamente impossível evitar sozinho o contato com a substância – para isso, é preciso que leis ambientais sejam mais rígidas na hora de autorizar que certos produtos sejam vendidos. Algumas medidas, porém, podem ajudar. Usar filtros HEPA para aspiradores de pó, por exemplo, pode diminuir a poeira doméstica tóxica. Além disso, ao comprar um novo tapete, o ideal é optar por um cujo revestimento de baixo não contenha PBDE.


Chumbo

O chumbo é capaz de prejudicar praticamente todos os órgãos do corpo e já foi associado a muitos problemas de saúde, como danos cerebrais e cognitivos, aborto espontâneo e parto prematuro, além de hipertensão. A substância também pode provocar problemas hormonais. Uma pesquisa descobriu que o composto atrapalha a sinalização hormonal que regula o stress do corpo, diminuindo a capacidade de o organismo lidar com problemas como hipertensão, depressão e ansiedade. Como evitar: Manter a casa limpa e conservada; não deixar tinta descascada nas paredes por muito tempo; ter um bom filtro de água; e manter uma boa alimentação, já que estudos demonstraram que crianças que seguem uma dieta saudável absorvem menos chumbo.


Arsênio

A substância tem diversas aplicações, entre elas ser conservante de madeira e couro e compor a produção de herbicidas e venenos. Consequentemente, pode contaminar alimentos e água. O arsênio, além de causa cânceres de pele, bexiga e pulmão, pode afetar o funcionamento dos hormônios, levando à perda ou ao ganho de peso, resistência à insulina ou pressão arterial alta. Como evitar: Usar filtros de água que consigam diminuir a concentração de arsênio.


Mercúrio

O mercúrio é elemento natural, porém tóxico. Ele pode entrar em contato com o ar e com o oceano principalmente com a queima de carvão. Nos alimentos, ele pode ser encontrado em frutos do mar contaminados, por exemplo. Essa substância, em contato com mulheres grávidas, pode prejudicar o cérebro do feto. Além disso, é capaz de afetar a ação de um hormônio que regula o ciclo menstrual e a ovulação, além de danificar as células produzidas pelo pâncreas, o que pode levar ao diabetes. Como evitar: Diminuir o consumo de frutos do mar – se for para consumir o alimento, preferir salmão e truta cultivada, que são fontes de gordura saudável, mas que não têm mercúrio tóxico.


Compostos perfluorados (PFCs)

Essas substâncias são amplamente usadas na fabricação de panelas antiaderentes e embalagens de alimentos. Testes feitos nos Estados Unidos já mostraram que 99% dos americanos apresentam o composto no organismo. A exposição à substância é associada a uma pior qualidade do espermatozoide, baixo peso do bebê ao nascer, doenças renais e da tireoide, além de hipertensão. Como evitar? Não usar panelas antiaderentes; evitar tecidos impermeáveis ou resistentes a manchas.


Éster fosfato

A substância é frequentemente usada na produção de agrotóxicos. Ela já foi associada a danos no desenvolvimento cerebral, no comportamento e na fertilidade. Além disso, pode afetar negativamente a forma como a testosterona se comunica com as células do corpo. Como evitar: Comprar mais produtos orgânicos.


Éter de glicol

Esse produto químico é comumente usado como solvente de tintas, produtos de limpeza e cosméticos. A União Europeia já classificou a substância como um possível fator de prejuízo à fertilidade das pessoas ou ao feto, além de um fator risco para alergias e asmas em crianças. Como evitar: Evitar produtos que tenham na fórmula ingredientes como o 2-Butoxietanol.

 
É por isso que o senhor diz que vivemos em uma "Era-lixeira" e não no Antropoceno, como alguns cientistas pretendem chamar a época caracterizada pela ação determinante do homem no planeta?

Decididamente mudamos de era e vivemos em um período em que o ser humano é absolutamente essencial para a evolução, porque ele modifica seu ambiente em uma velocidade jamais vista. As mudanças não são sentidas lentamente, ao longo de gerações, mas em poucos anos. Faço uma brincadeira com a "Era-lixeira" porque jogamos no planeta qualquer coisa, como em uma grande lata de lixo. Essa é uma maneira abertamente negativa de olhar para o impacto do homem no ambiente.

E os habitantes dessa nova era seriam os mutantes do título do seu livro?

Talvez a melhor definição para o novo homem que habita nosso planeta não seja nem mutante nem Homo sapiens, o "homem sábio". Acredito que hoje ele seja um Homo perturbatus, o "homem perturbado". Nossa biologia está passando por distúrbios e a maior parte delas nos faz muito mal.

A queda de fertilidade, que pode chegar a 40% nos últimos cinquenta anos na Europa e Estados Unidos, como apontado por alguns estudos, é a pior delas? Outra pesquisa, publicada em maio do ano passado, também aponta uma queda de espermatozoides de 2% ao ano, na última década, em homens do sul da Espanha. As causas são várias.

Diversos estudos relacionam o bisfenol A a dificuldades reprodutivas e um estudo feito nos Estados Unidos com homens que procuravam programas de fertilidade mostrou que, quanto mais ftalatos, químicos presentes em plásticos, desodorantes ou tintas, existiam no organismo, menor era a concentração de espermatozoides.

Entretanto, essa transformação faz parte de uma mutação mais profunda, em que as moléculas agem alterando nosso sistema endócrino e a produção de hormônios0. Elas atuam impedindo o hormônio masculino testosterona de se manifestar. Isso altera não só a sexualidade, mas toda a biologia humana, com efeitos transmitidos por gerações.

Isso significa que os homens estão ficando menos masculinos?

Sim. A atividade dos hormônios sexuais masculinos é muito alterada por fatores externos. Um estudo feito por pesquisadores dinamarqueses e finlandeses mostrou que a taxa de testosterona em pouco mais de 3 000 homens caiu mais de um terço em trinta anos - ela vem diminuindo de geração a geração. Os parabenos, compostos usados em cosméticos e filtros solares, também mimetizam os hormônios e bagunçam sua ação. O estudo mais interessante sobre o efeito desses perturbadores é de 2008, feito em Washington, buscando analisar o efeito do fungicida vinclozolina. Ele mostrou que seu efeito prejudica o
comportamento de várias gerações.

Então estamos condenados a viver com esse tipo de evolução?

Acredito que, se nos conscientizarmos desses problemas e tivermos uma ação política séria para o controle desses químicos, podemos desacelerar a degradação do ambiente e reduzir os efeitos negativos. Mas retornar a uma época em que eles não existiam é difícil. Trata-se mais de impedir que os distúrbios cresçam.

As grandes promessas da ciência, como a pesquisa genética ou as células-tronco, não trarão soluções?

Para a fertilidade, talvez. Podemos produzir espermatozoides a partir de células-tronco. Isso já foi feito em ratos e, certamente, chegará aos humanos. Se chegarmos a um ponto de não produzirmos gametas suficientes, essa pode ser uma solução. Há também a promessa de que, no futuro, possamos gerar bebês fora do útero, em um processo que já existe, chamado ectogênese. Mas, se chegarmos a esse ponto, isso significa que modificamos a espécie de tal forma que ela sequer é capaz de se reproduzir naturalmente. E isso é muito preocupante.

Isso quer dizer que os avanços médicos e o progresso industrial dos últimos séculos não nos trouxeram um mundo melhor?

A ciência nos trouxe um progresso considerável em muitas áreas, como a descoberta dos antibióticos. Mas, sem controle, ela pode ter um impacto negativo. O que me preocupa é que voltamos ao cientificismo do século XIX, ou seja, uma época em que tínhamos uma fé inquebrável na ciência e acreditávamos que ela poderia resolver tudo. O progresso científico é indispensável, mas, junto a ele, é indispensável haver ética. Temos que refletir sobre o significado dos avanços científicos para nossa sociedade.

Com esse tipo de pensamento a ciência não seria uma aliada da evolução, mas um fator que nos levaria ao retrocesso?

Nos deixamos levar pelo progresso da ciência. Ela começou a caminhar por conta própria, sem controle. O melhor exemplo é a agricultura: o cultivo intensivo alimentou muita gente, mas não nos demos conta de que não poderíamos misturar tantas moléculas ao nosso prato sem saber as consequências. A fecundação in vitro é maravilhosa, podemos examinar o genoma do embrião e descobrir doenças graves. No entanto, sem uma reflexão ética, ela pode nos levar a um momento em que seja permitido escolher o sexo do bebê ou o melhor DNA. E isso se chama eugenia. O grande problema é que todas essas coisas não estão em um futuro distante. Elas estão acontecendo, agora, mas ainda não nos demos conta.

A evolução pode regredir?

A ideia de que estamos evoluindo em um caminho perverso está longe de ser um consenso na comunidade científica. Os que defendem essa proposta partem do princípio de que um dos componentes fundamentais da evolução, a seleção natural, que elege os mais aptos a produzir descendentes, foi superada. Afinal, a ciência e medicina modernas permitem não só que os menos capacitados sobrevivam como também tenham filhos para perpetuar seus genes.

Alguns antropólogos e biólogos, por outro lado, acreditam que a seleção natural é uma força que jamais deixará de agir, apesar de poder ser modificada. "É inquestionável que a cultura - que compreende a tecnologia, a medicina e a indústria - está mudando a intensidade da seleção natural e as características mais afetadas por ela.

Transformamos de tal modo o ambiente que a cultura se tornou um agente importante para a seleção", afirmou ao site de VEJA o biólogo Stephen Stearns, professor da Universidade Yale, nos Estados Unidos, e um dos principais nomes da biologia evolutiva.

Para Stearns e aqueles que pensam como ele, isso não quer dizer que a evolução tenha tomado um caminho negativo e possa voltar atrás ou parar. "Temos hoje uma nova compreensão dos processos evolutivos e sabemos que eles, assim como a seleção natural, estão acontecendo o tempo todo.

Não há uma boa ou má direção para a evolução, que é apenas um movimento contínuo de transformação dos seres", diz o biólogo evolucionista Ian Rickard, da Universidade Durham, na Inglaterra. "Acreditar que esse movimento é positivo ou negativo é atribuir valores que ele não possui. Evolução não tem a ver com progresso e esse é um equívoco comum, assim como é complicado admitir que haja uma dicotomia entre o que é natural e o que é feito pelo homem. Desde sempre os homens mudam o ambiente, assim como o ambiente muda o homem e isso faz parte da evolução."

07 de abril de 2015
 Rita Loiola1