PERGUNTAS DE UM TRABALHADOR QUE LÊ
Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedras?
E a Babilônia várias vezes destruída.
Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
Da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que
A Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para seus habitantes? Mesmo
na lendária Atlântida
Os que se afogavam gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou quando sua Armada
Naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.
postado por m. americo
Podem ser anotações casuais de um passante, porque quando começamos nossa jornada, não distinguimos bem a paisagem. Ela sempre nos surpreende. Desconhecemos aonde nos pode levar o caminho. Não o escolhemos... Perambular é o próprio caminho. Uma narrativa do destino que desenhamos inconscientemente. O que pretendo? Tecer algumas considerações fora da mesmice, e pinçar alguns textos curiosos que despertem a paixão...
quarta-feira, 14 de abril de 2010
SOMOS TODOS LEÕES
Como nunca é demais repetir, volto a dizer, que as palavras são a fonte de todos os equívocos. Pegue-se um dicionário e podemos apurar que, realmente, cada palavra, em muitos e muitos casos, apresentam mais de um significado. Conseqüentemente, fica fácil imaginar o que acontece quando estão reunidas num discurso. Passamos das palavras e seu sentido denotativo, para o campo do conotativo, para o sentido do que se pretendeu enunciar. Podemos entender a pretensão do 'discursante', de acordo com a democracia do discurso, isto é, da maneira como melhor nos convier e melhor ainda atenda as nossas convicções. Esse fato ocorre amiúde, por estranho que pareça.
Se observarmos os desentendimentos frequentes entre pessoas e instituições, facilmente comprovaremos a tese do "equívoco presuntivo das palavras."
Temos o livre arbítrio de concluir, muitas vezes até antecipadamente, as razões ainda nem concluídas do 'falante', que imaginava dizer coisa completamente diferente da interpretação sofrida.
Outra afirmação que gosto sempre de lembrar, é a de que não há melhor maneira de se tratar a 'realidade', ou as 'verdades' que organizam o nosso ritual cotidiano, senão observando-as através da lente do humor inteligente, que está sempre a um passo da ironia socrática e do sarcasmo. De um modo quase geral, tratar a realidade com seriedade é tarefa para poucos, que normalmente beiram o cinismo ou a absoluta abnegação.
A mais ingênua das parábolas pode engendrar uma discussão homérica, assim como a fábula nem sempre consegue alcançar a transparência do seu objeto, tantas são as interpretações.
Por essas e por outras, sou um admirador inconteste do Millôr Fernandes, que considero o maior filósofo da terceira margem, um grande fabulista, e de quem trago uma pequena fábula para o nosso deleite filosófico:
O REI DOS ANIMAIS
Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar.
Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses.
Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou: "Hei! você aí, macaco - quem é o rei dos animais?" O macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: "Claro que é você, Leão, claro que é você!"
Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: "currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?" E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: "Currupaco... não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?"
Cheio de si, o Leão prosseguiu em busca de novas afirmações de sua personalidade. Emncontrou a coruja e perguntou: "Coruja, não sou eu o maioral da mata?" "Sim, és tu" - disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. "Tigre, - disse em voz estentor - "eu sou o rei da floresta. Certo?" O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: "Sim". E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o leão se afastou.
Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: "Elefante, quem manda na floresta, que é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?"
O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensangüentado, levantou-se lambendo uma das patas e murmurou: "Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado!".
MORAL: CADA UM TIRA DOS ACONTECIMENTOS A CONCLUSÃO QUE BEM ENTENDE...
M. AMERICO
Se observarmos os desentendimentos frequentes entre pessoas e instituições, facilmente comprovaremos a tese do "equívoco presuntivo das palavras."
Temos o livre arbítrio de concluir, muitas vezes até antecipadamente, as razões ainda nem concluídas do 'falante', que imaginava dizer coisa completamente diferente da interpretação sofrida.
Outra afirmação que gosto sempre de lembrar, é a de que não há melhor maneira de se tratar a 'realidade', ou as 'verdades' que organizam o nosso ritual cotidiano, senão observando-as através da lente do humor inteligente, que está sempre a um passo da ironia socrática e do sarcasmo. De um modo quase geral, tratar a realidade com seriedade é tarefa para poucos, que normalmente beiram o cinismo ou a absoluta abnegação.
A mais ingênua das parábolas pode engendrar uma discussão homérica, assim como a fábula nem sempre consegue alcançar a transparência do seu objeto, tantas são as interpretações.
Por essas e por outras, sou um admirador inconteste do Millôr Fernandes, que considero o maior filósofo da terceira margem, um grande fabulista, e de quem trago uma pequena fábula para o nosso deleite filosófico:
O REI DOS ANIMAIS
Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar.
Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses.
Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou: "Hei! você aí, macaco - quem é o rei dos animais?" O macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: "Claro que é você, Leão, claro que é você!"
Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: "currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?" E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: "Currupaco... não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?"
Cheio de si, o Leão prosseguiu em busca de novas afirmações de sua personalidade. Emncontrou a coruja e perguntou: "Coruja, não sou eu o maioral da mata?" "Sim, és tu" - disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. "Tigre, - disse em voz estentor - "eu sou o rei da floresta. Certo?" O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: "Sim". E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o leão se afastou.
Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: "Elefante, quem manda na floresta, que é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?"
O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensangüentado, levantou-se lambendo uma das patas e murmurou: "Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado!".
MORAL: CADA UM TIRA DOS ACONTECIMENTOS A CONCLUSÃO QUE BEM ENTENDE...
M. AMERICO
terça-feira, 13 de abril de 2010
AS TRAGÉDIAS ANUNCIADAS
"Em visita ao morro do Bumba, o Desgovernador Sego Cabral disse não ter visto nada demais naquela situação.
- É uma inovação da nossa administração. Como prometemos, o pessoal da comunidade não vai mais precisar subir o morro. O morro é que vai descer até o pessoal – declarou o Governadador de enchentes."
(in http://www.eramos6.com.br/)
E não é que o morro desceu mesmo?
Ouço as notícias da Globonews, sessão da meia-noite. Um resumo dos principais acontecimentos da semana, enfatizando os eventos do dia. Claro que a tragédia das chuvas no Rio de Janeiro ocupa a maior parte do noticiário. Imagens dolorosas da destruição, mais dolorosas ainda, as imagens de pessoas que perderam parentes, amigos, que perderam os seus. Imagens de lágrimas, de dor, de desespero. Algumas entrevistas com os sobreviventes da tragédia, mostram o desalento da perda: "perdi tudo! Não tenho mais nada! Casa, filhos, mulher... Tudo"! Bombeiros e voluntários carregando corpos de feridos e mortos. Uma batalha contra um inimigo, um grande inimigo: a incúria administrativa, a desídia do Estado, a injustiça do abandono das comunidades que crescem como cogumelos nas encostas, beira de rios, nas chamadas "áreas de risco", por falta de opção, de recursos, pela garra da sobrevivência.
Somente a designação de "áreas de risco" para apontar o 'locum' de comunidades abandonadas a própria sorte, já encobre o cinismo dos órgãos responsáveis pelo planejamento urbano de uma cidade. Sim! Porque admitem a existência desses 'bolsões de miséria e de pobreza', e continuam complacentes, cuidando das suas alianças para se manterem no poder, na sinecura, no bem-bom...
Principalmente uma cidade como o Rio de Janeiro, com crescimento desordenado, não sei se trezentas ou mais comunidades "de encostas e morros", fruto da iniquidade social, da falta de orçamento público destinado a prevenção, ao planejamento e a construção de habitação popular, o que mais se pode esperar, senão as tragédias anunciadas de todos os anos?
Interessante nessa edição do jornal, foi a mostra do arquivo sobre as tragédias anunciadas, há anos...
Em 1938, o Secretário de Obras, na época Edson Passos, publicava um artigo: "Os rios do maciço da Tijuca precisam ser canalizados. Quem joga lixo nos rios e canais deve ser multado. É necessário fazer um reflorestamento imediato de todas as encostas, e as favelas tem que ser removidas dos morros."
Era prefeito do Rio, se não me engana a memória, Henrique Dodswoth, interventor federal indicado por Getúlio Vargas, período de nov/1937 a nov/1945. Seu Secretário de Obras já encomendava estudos sobre o reflorestamento nas encostas, a remoção das comunidades, a construção de conjuntos residenciais, a prevenção do assoreamento dos rios, a contenção... e por aí afora. Em 1938!!! Oitenta anos depois, BUMBA! A cidade maravilhosa volta a viver o drama de mais uma enchente devastadora.
Seguiram-se imagens das inúmeras enchentes. Todas envolvendo dramáticas situações de pessoas, que como sempre, pagam o preço do desleixo administrativo. Passando por inúmeros desastres diluvianos, até, senão me engano, o ano de 1997 ou 98.
Grandes tragédias, muitas perdas materiais e de vidas, mas também grandes discursos de autoridades, enormes promessas, gigantescas bravatas. Nada! Nadíssimo! Nadérrimo! Passada a euforia midiática, a necessária denúncia, a memória meio que adormece. Não a dos atingidos! Com seus mortos, com o seu 'nada' do que sobrou, com a sua raiva, o seu desespero! Eles estão aí, mostrando na cara, a contrafação de uma justiça social, que se amontoa com tantas outras...
Vejo o prefeito, que, claro, comparece como autoridade constituída pelo voto desse povo, para ver de perto o desastre. "Não somos responsáveis pelas chuvas, ou pelos fenômenos naturais!" Alguma coisa assim, que se difere nas palavras, não difere na essência. Penso com os meus botões. "Que maravilha! E o que se fez como prevenção, como planejamento urbano, como investimento em moradias populares? E o que se faz, nessa mesma direção nos dias de hoje?" Claro que não somos responsáveis pelas chuvas, se apenas olharmos de um ponto micro. Mas se ampliarmos os horizontes, podemos ver a culpa de todos na destruição do meio-ambiente, na destruição do ecossistema... Mas isso serviria apenas para uma monumental e científica desculpa política, como não faltará o discurso de algum cínico que denunciará o lixo jogado nas ruas pelo povo: "isso é que dá! jogam lixo na rua!!! E ainda constroem num lixão!!!" É. Realmente. Só que o problema não passa bem por aí... Não se isenta a responsabilidade dos governantes, procurando jogar a culpa das tragédias nas costas do povo. Considerando a eficiência, a eficácia e a efetividade dos serviços públicos, principalmente do planejamento e administração do lixo urbano.. E a grande disponibilidade de áreas urbanas para a construção das suas humildades moradias... Ou ainda, o eficiente planejamento urbano de prevenção de desastres... Óbvio que não isento de responsabilidade, o cidadão que sai por aí, arremesando seu lixo ladeira abaixo, nas vias urbanas, ou leito de rios, riachos, canais, numa demonstração clara de pouca urbanidade, educação e cidadania. Mas não conheço uma campanha planejada pela Prefeitura, no sentido de desenvolver o respeito público, pela preservação do ambiente. Já vi campanhas de bebida, camisinha, cigarro, violência no trânsito, mas nada que conscientize o 'homo urbanus' no caminho da boa educação e higiene.
Estou pasmo e não sei até quando continuarei pasmo, diante da calamidade, e da declaração do governador. Também me encho de raiva, blasfemo, calão jogado pra todo lado. Meu pinscher não entende nada, não entende tamanha manifestação. Com certeza teme que eu tenha descoberto o seu mais recente xixi e se manda pra debaixo da mesa.
Esclareço que determinados acontecimentos do nosso cotidiano, costumo debatê-los com os meus botões. São os meus melhores amigos, confidentes discretos, não se envolvem com mensalões e outras falcatruas, desconhecem a 'delação premiada' (jargão legal, né?), preocupam-se apenas com a linha, e pedem para que eu a verifique; se ainda está boa e firme e se não há risco de se perderem numa queda. Afinal não basta apenas a casa em que se acolhem, a linha de segurança é indispensável...
M. AMERICO
- É uma inovação da nossa administração. Como prometemos, o pessoal da comunidade não vai mais precisar subir o morro. O morro é que vai descer até o pessoal – declarou o Governadador de enchentes."
(in http://www.eramos6.com.br/)
E não é que o morro desceu mesmo?
Ouço as notícias da Globonews, sessão da meia-noite. Um resumo dos principais acontecimentos da semana, enfatizando os eventos do dia. Claro que a tragédia das chuvas no Rio de Janeiro ocupa a maior parte do noticiário. Imagens dolorosas da destruição, mais dolorosas ainda, as imagens de pessoas que perderam parentes, amigos, que perderam os seus. Imagens de lágrimas, de dor, de desespero. Algumas entrevistas com os sobreviventes da tragédia, mostram o desalento da perda: "perdi tudo! Não tenho mais nada! Casa, filhos, mulher... Tudo"! Bombeiros e voluntários carregando corpos de feridos e mortos. Uma batalha contra um inimigo, um grande inimigo: a incúria administrativa, a desídia do Estado, a injustiça do abandono das comunidades que crescem como cogumelos nas encostas, beira de rios, nas chamadas "áreas de risco", por falta de opção, de recursos, pela garra da sobrevivência.
Somente a designação de "áreas de risco" para apontar o 'locum' de comunidades abandonadas a própria sorte, já encobre o cinismo dos órgãos responsáveis pelo planejamento urbano de uma cidade. Sim! Porque admitem a existência desses 'bolsões de miséria e de pobreza', e continuam complacentes, cuidando das suas alianças para se manterem no poder, na sinecura, no bem-bom...
Principalmente uma cidade como o Rio de Janeiro, com crescimento desordenado, não sei se trezentas ou mais comunidades "de encostas e morros", fruto da iniquidade social, da falta de orçamento público destinado a prevenção, ao planejamento e a construção de habitação popular, o que mais se pode esperar, senão as tragédias anunciadas de todos os anos?
Interessante nessa edição do jornal, foi a mostra do arquivo sobre as tragédias anunciadas, há anos...
Em 1938, o Secretário de Obras, na época Edson Passos, publicava um artigo: "Os rios do maciço da Tijuca precisam ser canalizados. Quem joga lixo nos rios e canais deve ser multado. É necessário fazer um reflorestamento imediato de todas as encostas, e as favelas tem que ser removidas dos morros."
Era prefeito do Rio, se não me engana a memória, Henrique Dodswoth, interventor federal indicado por Getúlio Vargas, período de nov/1937 a nov/1945. Seu Secretário de Obras já encomendava estudos sobre o reflorestamento nas encostas, a remoção das comunidades, a construção de conjuntos residenciais, a prevenção do assoreamento dos rios, a contenção... e por aí afora. Em 1938!!! Oitenta anos depois, BUMBA! A cidade maravilhosa volta a viver o drama de mais uma enchente devastadora.
Seguiram-se imagens das inúmeras enchentes. Todas envolvendo dramáticas situações de pessoas, que como sempre, pagam o preço do desleixo administrativo. Passando por inúmeros desastres diluvianos, até, senão me engano, o ano de 1997 ou 98.
Grandes tragédias, muitas perdas materiais e de vidas, mas também grandes discursos de autoridades, enormes promessas, gigantescas bravatas. Nada! Nadíssimo! Nadérrimo! Passada a euforia midiática, a necessária denúncia, a memória meio que adormece. Não a dos atingidos! Com seus mortos, com o seu 'nada' do que sobrou, com a sua raiva, o seu desespero! Eles estão aí, mostrando na cara, a contrafação de uma justiça social, que se amontoa com tantas outras...
Vejo o prefeito, que, claro, comparece como autoridade constituída pelo voto desse povo, para ver de perto o desastre. "Não somos responsáveis pelas chuvas, ou pelos fenômenos naturais!" Alguma coisa assim, que se difere nas palavras, não difere na essência. Penso com os meus botões. "Que maravilha! E o que se fez como prevenção, como planejamento urbano, como investimento em moradias populares? E o que se faz, nessa mesma direção nos dias de hoje?" Claro que não somos responsáveis pelas chuvas, se apenas olharmos de um ponto micro. Mas se ampliarmos os horizontes, podemos ver a culpa de todos na destruição do meio-ambiente, na destruição do ecossistema... Mas isso serviria apenas para uma monumental e científica desculpa política, como não faltará o discurso de algum cínico que denunciará o lixo jogado nas ruas pelo povo: "isso é que dá! jogam lixo na rua!!! E ainda constroem num lixão!!!" É. Realmente. Só que o problema não passa bem por aí... Não se isenta a responsabilidade dos governantes, procurando jogar a culpa das tragédias nas costas do povo. Considerando a eficiência, a eficácia e a efetividade dos serviços públicos, principalmente do planejamento e administração do lixo urbano.. E a grande disponibilidade de áreas urbanas para a construção das suas humildades moradias... Ou ainda, o eficiente planejamento urbano de prevenção de desastres... Óbvio que não isento de responsabilidade, o cidadão que sai por aí, arremesando seu lixo ladeira abaixo, nas vias urbanas, ou leito de rios, riachos, canais, numa demonstração clara de pouca urbanidade, educação e cidadania. Mas não conheço uma campanha planejada pela Prefeitura, no sentido de desenvolver o respeito público, pela preservação do ambiente. Já vi campanhas de bebida, camisinha, cigarro, violência no trânsito, mas nada que conscientize o 'homo urbanus' no caminho da boa educação e higiene.
Estou pasmo e não sei até quando continuarei pasmo, diante da calamidade, e da declaração do governador. Também me encho de raiva, blasfemo, calão jogado pra todo lado. Meu pinscher não entende nada, não entende tamanha manifestação. Com certeza teme que eu tenha descoberto o seu mais recente xixi e se manda pra debaixo da mesa.
Esclareço que determinados acontecimentos do nosso cotidiano, costumo debatê-los com os meus botões. São os meus melhores amigos, confidentes discretos, não se envolvem com mensalões e outras falcatruas, desconhecem a 'delação premiada' (jargão legal, né?), preocupam-se apenas com a linha, e pedem para que eu a verifique; se ainda está boa e firme e se não há risco de se perderem numa queda. Afinal não basta apenas a casa em que se acolhem, a linha de segurança é indispensável...
M. AMERICO
segunda-feira, 12 de abril de 2010
PRESCRIÇÕES PARA QUEM TOMBOU NA BATALHA
A ironia terá sempre o seu lugar no planeta do riso. Sim! É um lugar privilegiado, de onde podemos sorrir de nós mesmos, sem constrangimentos, já que todos à nossa volta estão fazendo o mesmo, silenciosamente ou espalhafatosamente. Seria assim, uma espécie de iniciação a seriedade do riso! Algo profundamente místico e esotérico, a que só alguns poucos beatificados teriam acesso (inclusive de raiva!), depois de longas peregrinações por dentro de si mesmos.
Aff! Que o caminho é difícil todos concordamos, afinal já faz parte da sabedoria popular que moleza só em colchão d'água ou pudim de coco. Versões mais modernas apontam para a gelatina diet. Quero dizer apenas, que a ironia é uma grande porta de incêndio, por onde sempre conseguimos escapar. Sócrates que o diga!
A minha amiga Miloca (apelido carinhoso e pouco esnobe do nome Mildred), ponderava comigo sobre a dificuldade de dietas saudáveis, mergulhados que estamos no paraíso do paladar exacerbado. Macarrão ouvia, olhar de soslaio, mas sem interromper a fala da Miloca, que dividida entre a consternação e a fúria, esbravejava por ter de abandonar seus chocolates e chantilys, além da 'saborosa gordura' dos torresmos e feijoadas à mineira. Sem falar da caipirinha...
Lembrando-me do nosso papo, resolvi prescrever recomendações aos exacerbados que tombaram (tombam e tombarão) heroicamente no campo de batalha
Depois da esbórnia, do espalhafato, do estandarte verde-amarelo com plumas azuis, não adianta arrependimento nem consternação. Resta-nos, deploravelmente, abdicar do reino da comilança e da "beberança", e adentrarmos, quixotescamente, contra todos os moinhos de vento, no mundo da escassez de prazeres, a essa altura considerados mórbidos.
Olhar de frente, redimir-se ou esforçar-se por redimir-se dos pecados da gula escancarada; encarar a dieta e bater no peito como um Tarzan urbano, pendurado num 'cipó-frasco', cheio de pílulas para a inapetência, é pura covardia!
O negócio é encarar sozinho, mãos espalmadas, vazias, olhar duro, do tipo vilão do faroeste, pronto para sacar; encarar destemidamente, aquele ronco assustador que sobe das entranhas, que vem lá do fundo das tripas, quando a memória nos trai mafiosamente e joga à tona dos nossos olhos, imaginárias e deliciosas visões da abundância cheirosa dos filés, com amplas lapas branco-amareladas de gordura, dos frangos xadrezes boiando em puro 'pequim' de estranhos odores de condimentos e sabores agridoces; da 'gordurama' que se derrama daquele pedaço esplendoroso de picanha gaúcha ou argentina - a essa altura da fantasia não perdemos tempo com reles detalhes do tipo Maradona ou das cacetadas que os argentinos dão na gente, quando a pelota passa entre as canetas.
Mergulhamos de cabeça! Doces lembranças do passado recente, tormentosas lembranças... Estapafúrdias!
Aí acordamos, como aquele sujeito de uma antiga propaganda da pizza Perdigão, dando uma bocada no espaço vazio, lambendo o nada, olhos esbugalhados, como quem busca a salvação! Deus é fiel! Aleluia, irmãos!!!
Mas não adianta. Nada dessas fantasias adianta. O negócio é sério. Temos de aprender a sonhar com a alface, o jiló, o chuchu, o repolho, a couve (santa couve!), Deixar de lado esse maldito malte escocês e a p... da cerva gelada e partir para um delisioso suco de melancia com gotinhas de limão. Nada daqueles estranhos e misteriosos salgadinhos, que como menininhas de programa, teimam em acompanhar o maldito escocês e o alemão da Bavária.
O negócio agora é aprender a sonhar o insosso, como um monge tibetano. Disciplina, exercícios e água fria. Por exemplo: falar "inconstitucionalissimamente" com a boca cheia de lêvedo de cerveja em pó (não precisa ser gelado, para não despertar a concupicência!). Eis aí, um tremendo exercício para a purificação!
(Falando nisso, por onde andarão os monges tibetanos? Será que descobriram o Ocidente e se ocultaram em alguma churrascaria ou pizzaria e estão fazendo a festa?)
O negócio agora é aprender os deliciosos devaneios vegetais. Mergulhar no reino verde da esperança e almejar um dia voltar a ter a oportunidade de lambiscar um petisco envenenado de malagueta no Boteco do Libório, aqui e acolá; um "golinho" aqui e outro aqui também e depois ali, e por aí afora.
Nada daqueles haréns prazerosos, de carnes gordas e fartas... Pernil pra todo lado... Nada de lambuzados e "escorrelentos" néctares paradisíacos do reino dos chocolates e achantilysados. Fora! "Vade retro satanás!"
Inevitavelmente, um dia chega o tempo da parcimônia, o tempo do silêncio. Temos de aprender novos sonhos e o convecimento de que até mesmo é preciso inovar oniricamente, sob a pena de resvalarmos para as profundezas pagãs dos banquetes de todos os tipos.
Não adianta blasfemar contra os almeirões e os alhos. Na santa e recatada humildade, eles vão fazendo a faxina, assim como quem não quer nada.
Não adianta espernear! Olhemos com seriedade o licopeno e o magnésio do tomate, o manganês do espinafre, o zinco da couve, o cálcio do repolho... Permitamos que eles "faxinem" os arredores do nosso corpo, meta a escovinha naquele canto meio "obscurecento" e malcheiroso.
Deixem que o silício da vagem faça uma varredura, pô! Eles estão preparando o salão para as novas "furdunças"!
Na vetusta Inglaterra, o chá ocupa a mesa dos monarcas e dos súditos. Há toda uma reverência, um ritual, um salamaleque, uma mística envolvendo o prazer da "bebericagem".
É preciso aprender com os ingleses! Não só a sua pontualidade (que eu já ouvi dizer que é um mito!) - no que já demonstramos uma incapacidade inata - mas aprender também o prazer dessa "bebericagem". E cairmos em cima do quebra-pedra, da camomila, da erva-tostão, da abútua... Pararmos com essa frescura de ficar assim, meio arredios, meio envergonhados, do cara que chega e pergunta com deboche: "Que m... é essa, bicho? Pô cara, que cheiro esquisito! Não tem uma cerva, não?"
Aprendermos a ter respostas céleres, rápidas como quem rouba, para essas emergências, do tipo, por exemplo: "deve ser o seu nariz, cara, "olfatando" alguns dos seus poucos neurônios! Isso aqui, bicho, é pura arginina, saca?" (Ainda se diz "saca", ou já estamos em outra?)
Coisa rápida, até mesmo mais criativa, se for possível, é claro, porque no início ficamos assim, meio inibidos, já que a gente também não põe muita fé...
Aliás você já reparou que ficamos sempre "meios", né? É de ficar pela metade, que advém uma certa dificuldade para as coisas imediatas, que nos requerem sempre por inteiros.
Mas enfim, já que é para encarar, encaremos! Sem dó nem piedade, principalmente se for o próximo.
Vale tudo para curar a esbórnia de tantos anos, e voltarmos renovados para o Reino da Abundância e da anarquia, o que nesse Brasil é uma toca rara. Refiro-me somente a abundância...
Machado de Assis apregoou as batatas ao vencedor; apregoemos nós o chazinho de "todo-o-dia", aos que precisam se tornar vencedores. E não esqueçamos as vagens!!! E mais uma coisinha: nada de depressões e pessimismos! Nada de sonhar com colchões d'água, porque isso quebra a temperança. Agora, depois da esbórnia (foi bom enquanto durou!) é sonhar com o joelho no caroço de milho! Aff!!! E como dói!
M. AMERICO
Aff! Que o caminho é difícil todos concordamos, afinal já faz parte da sabedoria popular que moleza só em colchão d'água ou pudim de coco. Versões mais modernas apontam para a gelatina diet. Quero dizer apenas, que a ironia é uma grande porta de incêndio, por onde sempre conseguimos escapar. Sócrates que o diga!
A minha amiga Miloca (apelido carinhoso e pouco esnobe do nome Mildred), ponderava comigo sobre a dificuldade de dietas saudáveis, mergulhados que estamos no paraíso do paladar exacerbado. Macarrão ouvia, olhar de soslaio, mas sem interromper a fala da Miloca, que dividida entre a consternação e a fúria, esbravejava por ter de abandonar seus chocolates e chantilys, além da 'saborosa gordura' dos torresmos e feijoadas à mineira. Sem falar da caipirinha...
Lembrando-me do nosso papo, resolvi prescrever recomendações aos exacerbados que tombaram (tombam e tombarão) heroicamente no campo de batalha
Depois da esbórnia, do espalhafato, do estandarte verde-amarelo com plumas azuis, não adianta arrependimento nem consternação. Resta-nos, deploravelmente, abdicar do reino da comilança e da "beberança", e adentrarmos, quixotescamente, contra todos os moinhos de vento, no mundo da escassez de prazeres, a essa altura considerados mórbidos.
Olhar de frente, redimir-se ou esforçar-se por redimir-se dos pecados da gula escancarada; encarar a dieta e bater no peito como um Tarzan urbano, pendurado num 'cipó-frasco', cheio de pílulas para a inapetência, é pura covardia!
O negócio é encarar sozinho, mãos espalmadas, vazias, olhar duro, do tipo vilão do faroeste, pronto para sacar; encarar destemidamente, aquele ronco assustador que sobe das entranhas, que vem lá do fundo das tripas, quando a memória nos trai mafiosamente e joga à tona dos nossos olhos, imaginárias e deliciosas visões da abundância cheirosa dos filés, com amplas lapas branco-amareladas de gordura, dos frangos xadrezes boiando em puro 'pequim' de estranhos odores de condimentos e sabores agridoces; da 'gordurama' que se derrama daquele pedaço esplendoroso de picanha gaúcha ou argentina - a essa altura da fantasia não perdemos tempo com reles detalhes do tipo Maradona ou das cacetadas que os argentinos dão na gente, quando a pelota passa entre as canetas.
Mergulhamos de cabeça! Doces lembranças do passado recente, tormentosas lembranças... Estapafúrdias!
Aí acordamos, como aquele sujeito de uma antiga propaganda da pizza Perdigão, dando uma bocada no espaço vazio, lambendo o nada, olhos esbugalhados, como quem busca a salvação! Deus é fiel! Aleluia, irmãos!!!
Mas não adianta. Nada dessas fantasias adianta. O negócio é sério. Temos de aprender a sonhar com a alface, o jiló, o chuchu, o repolho, a couve (santa couve!), Deixar de lado esse maldito malte escocês e a p... da cerva gelada e partir para um delisioso suco de melancia com gotinhas de limão. Nada daqueles estranhos e misteriosos salgadinhos, que como menininhas de programa, teimam em acompanhar o maldito escocês e o alemão da Bavária.
O negócio agora é aprender a sonhar o insosso, como um monge tibetano. Disciplina, exercícios e água fria. Por exemplo: falar "inconstitucionalissimamente" com a boca cheia de lêvedo de cerveja em pó (não precisa ser gelado, para não despertar a concupicência!). Eis aí, um tremendo exercício para a purificação!
(Falando nisso, por onde andarão os monges tibetanos? Será que descobriram o Ocidente e se ocultaram em alguma churrascaria ou pizzaria e estão fazendo a festa?)
O negócio agora é aprender os deliciosos devaneios vegetais. Mergulhar no reino verde da esperança e almejar um dia voltar a ter a oportunidade de lambiscar um petisco envenenado de malagueta no Boteco do Libório, aqui e acolá; um "golinho" aqui e outro aqui também e depois ali, e por aí afora.
Nada daqueles haréns prazerosos, de carnes gordas e fartas... Pernil pra todo lado... Nada de lambuzados e "escorrelentos" néctares paradisíacos do reino dos chocolates e achantilysados. Fora! "Vade retro satanás!"
Inevitavelmente, um dia chega o tempo da parcimônia, o tempo do silêncio. Temos de aprender novos sonhos e o convecimento de que até mesmo é preciso inovar oniricamente, sob a pena de resvalarmos para as profundezas pagãs dos banquetes de todos os tipos.
Não adianta blasfemar contra os almeirões e os alhos. Na santa e recatada humildade, eles vão fazendo a faxina, assim como quem não quer nada.
Não adianta espernear! Olhemos com seriedade o licopeno e o magnésio do tomate, o manganês do espinafre, o zinco da couve, o cálcio do repolho... Permitamos que eles "faxinem" os arredores do nosso corpo, meta a escovinha naquele canto meio "obscurecento" e malcheiroso.
Deixem que o silício da vagem faça uma varredura, pô! Eles estão preparando o salão para as novas "furdunças"!
Na vetusta Inglaterra, o chá ocupa a mesa dos monarcas e dos súditos. Há toda uma reverência, um ritual, um salamaleque, uma mística envolvendo o prazer da "bebericagem".
É preciso aprender com os ingleses! Não só a sua pontualidade (que eu já ouvi dizer que é um mito!) - no que já demonstramos uma incapacidade inata - mas aprender também o prazer dessa "bebericagem". E cairmos em cima do quebra-pedra, da camomila, da erva-tostão, da abútua... Pararmos com essa frescura de ficar assim, meio arredios, meio envergonhados, do cara que chega e pergunta com deboche: "Que m... é essa, bicho? Pô cara, que cheiro esquisito! Não tem uma cerva, não?"
Aprendermos a ter respostas céleres, rápidas como quem rouba, para essas emergências, do tipo, por exemplo: "deve ser o seu nariz, cara, "olfatando" alguns dos seus poucos neurônios! Isso aqui, bicho, é pura arginina, saca?" (Ainda se diz "saca", ou já estamos em outra?)
Coisa rápida, até mesmo mais criativa, se for possível, é claro, porque no início ficamos assim, meio inibidos, já que a gente também não põe muita fé...
Aliás você já reparou que ficamos sempre "meios", né? É de ficar pela metade, que advém uma certa dificuldade para as coisas imediatas, que nos requerem sempre por inteiros.
Mas enfim, já que é para encarar, encaremos! Sem dó nem piedade, principalmente se for o próximo.
Vale tudo para curar a esbórnia de tantos anos, e voltarmos renovados para o Reino da Abundância e da anarquia, o que nesse Brasil é uma toca rara. Refiro-me somente a abundância...
Machado de Assis apregoou as batatas ao vencedor; apregoemos nós o chazinho de "todo-o-dia", aos que precisam se tornar vencedores. E não esqueçamos as vagens!!! E mais uma coisinha: nada de depressões e pessimismos! Nada de sonhar com colchões d'água, porque isso quebra a temperança. Agora, depois da esbórnia (foi bom enquanto durou!) é sonhar com o joelho no caroço de milho! Aff!!! E como dói!
M. AMERICO
domingo, 11 de abril de 2010
REFLEXÕES EM TORNO DE UM TEMA ETERNO
O que somos decorre em grande parte do que pensamos, e se o que pensamos não nos conduz a compreensão de determinados problemas, com certeza há uma boa razão para julgar que nossos pensamentos não são apropriados, que a nossa realidade mental e espiritual são inadequadas para a compreensão de questões, que pairam acima do plano lógico, formal, racional. Por exemplo: Jesus.
Os Evangelhos não contam muito, ou melhor pouco falam ou quase nada, acerca do "Eu" de Jesus. Razão porque era chamado de Cristo e o identificavam com o Logos Eterno.
O que se diz que Jesus teria pronunciado em suas parábolas, foi a ele atribuído pelos autores dos Evangelhos, sinóticos, e que "Jesus não identificou suas experiências e pensamento teológico com as opiniões populares locais".
Nesse assunto, como em muitos outros, não há provas consistentes que permitam uma resposta sem ambigüidade. O número e a qualidade dos documentos biográficos subsistentes são de tal ordem que não podemos conhecer qual era, verdadeiramente, a personalidade residual de Jesus.
Os cristão acreditam que houve apenas um Avatar, somente um Avatar. A doutrina cristã diferencia-se da indiana, e também das doutrinas do Extremo Oriente, na medida em que afirma esse dogma: houve somente um Avatar: Jesus Cristo, a encarnação da Divindade como homem.
Krishna é a encarnação de Brahman, Gautama, Buda, que os mahayanistas chamam de Dharmakaya, a Mente, a Base Espiritual. Note-se: não o homem, a encarnação do homem como Divindade, mas a Mente.
A história cristã está maculada pelo dogma de um único Avatar. A mobilização do mundo cristão para o enfrentamento em sangrentas cruzadas, guerras entre seitas religiosas, inquisição e perseguições a qualquer pessoa ou instituição que se opusesse aos preceitos, ainda que retrógrados e cientificamente improváveis do cristianismo institucionalizado, alimentou o massacre obstinado e cego do imperialismo sectário, mais do que a história do Budismo e do Hiduísmo.
Doutrinas absurdas e idólatras garantindo a divina natureza dos Estados soberanos e seus dirigentes, levam orientais e ocidentais às guerras políticas. Mas por não acreditarem numa Revelação exclusiva, ou na divindade de uma organização eclesiástica, não conta a história com massacres em nome da religião, o que encontramos com muita freqüência no Cristianismo. Não entro no mérito da moralidade pública no Ocidente, bem mais baixa do que no Oriente.
Não teria sentido, por uma questão de espaço e paciência, analisar aspectos mais profundos da questão. Pretendo registrar apenas, aspectos que possam encaminhar o leitor a uma reflexão. Muitas vezes é preciso ser sucinto, para que o pensamento crítico possa desenvolver-se mais livremente.
É uma história complexa. O autor do quarto Evangelho afirma que o verbo se fêz carne. O Divino se fêz homem, e o homem manifestou-se historicamente. Sob esse aspecto, é interessante considerar o desenvolvimento do Budismo. O "Mahayana expressa o universal, enquanto o Hinayana não pode libertar-se do fato histórico".
No Budismo, as questões do fato histórico não têm significação religiosa.
No Ocidente, as diversas seitas místicas trabalharam para libertar o Cristianismo da sua servidão ao fato histórico, ou em sentido mais estrito, libertar-se o Cristianismo daquela multiplicidade de notícias e conclusões fantasiosas, que em diferentes épocas foram aceitas como uma verdade histórica. Infelizmente, porém, a influência dos místicos não venceu o poder da Instituição Cristã, cujos relatos insistem em basear-se nos fatos históricos, presumíveis.
Nesse contexto, é suficiente chamar a atenção para uma das mais amargas ironias da História.
"A teologia cristã, especialmemte a das igrejas ocidentais, foi o produto de mentes imbuídas do legalismo judaico e romano. Em todos os múltiplos exemplos, as introspecções imediatas do Avatar e do santo teocentrado eram racionalizadas num sistema, não pelos filósofos, mas pelos causídicos especuladores e juristas metafísicos." (Aldous Huxley)
A classe dos jurisconsultos, era abominada por Jesus. Estavam mais distanciados do Reino dos Céus e mais impermeáveis às verdades do Cristo, do que qualquer outra classe, exceto a dos ricos.
Essa, a amarga ironia... Eles, os jurisconsultos e os teólogos, nada mais fizeram do que retirar o espírito do Cristo, e trasnformá-lo em fato histórico, o que, acredito, era o 'melhor' para a institucionalização do poder religioso e a laicificação do cristianismo.
M. AMERICO
Os Evangelhos não contam muito, ou melhor pouco falam ou quase nada, acerca do "Eu" de Jesus. Razão porque era chamado de Cristo e o identificavam com o Logos Eterno.
O que se diz que Jesus teria pronunciado em suas parábolas, foi a ele atribuído pelos autores dos Evangelhos, sinóticos, e que "Jesus não identificou suas experiências e pensamento teológico com as opiniões populares locais".
Nesse assunto, como em muitos outros, não há provas consistentes que permitam uma resposta sem ambigüidade. O número e a qualidade dos documentos biográficos subsistentes são de tal ordem que não podemos conhecer qual era, verdadeiramente, a personalidade residual de Jesus.
Os cristão acreditam que houve apenas um Avatar, somente um Avatar. A doutrina cristã diferencia-se da indiana, e também das doutrinas do Extremo Oriente, na medida em que afirma esse dogma: houve somente um Avatar: Jesus Cristo, a encarnação da Divindade como homem.
Krishna é a encarnação de Brahman, Gautama, Buda, que os mahayanistas chamam de Dharmakaya, a Mente, a Base Espiritual. Note-se: não o homem, a encarnação do homem como Divindade, mas a Mente.
A história cristã está maculada pelo dogma de um único Avatar. A mobilização do mundo cristão para o enfrentamento em sangrentas cruzadas, guerras entre seitas religiosas, inquisição e perseguições a qualquer pessoa ou instituição que se opusesse aos preceitos, ainda que retrógrados e cientificamente improváveis do cristianismo institucionalizado, alimentou o massacre obstinado e cego do imperialismo sectário, mais do que a história do Budismo e do Hiduísmo.
Doutrinas absurdas e idólatras garantindo a divina natureza dos Estados soberanos e seus dirigentes, levam orientais e ocidentais às guerras políticas. Mas por não acreditarem numa Revelação exclusiva, ou na divindade de uma organização eclesiástica, não conta a história com massacres em nome da religião, o que encontramos com muita freqüência no Cristianismo. Não entro no mérito da moralidade pública no Ocidente, bem mais baixa do que no Oriente.
Não teria sentido, por uma questão de espaço e paciência, analisar aspectos mais profundos da questão. Pretendo registrar apenas, aspectos que possam encaminhar o leitor a uma reflexão. Muitas vezes é preciso ser sucinto, para que o pensamento crítico possa desenvolver-se mais livremente.
É uma história complexa. O autor do quarto Evangelho afirma que o verbo se fêz carne. O Divino se fêz homem, e o homem manifestou-se historicamente. Sob esse aspecto, é interessante considerar o desenvolvimento do Budismo. O "Mahayana expressa o universal, enquanto o Hinayana não pode libertar-se do fato histórico".
No Budismo, as questões do fato histórico não têm significação religiosa.
No Ocidente, as diversas seitas místicas trabalharam para libertar o Cristianismo da sua servidão ao fato histórico, ou em sentido mais estrito, libertar-se o Cristianismo daquela multiplicidade de notícias e conclusões fantasiosas, que em diferentes épocas foram aceitas como uma verdade histórica. Infelizmente, porém, a influência dos místicos não venceu o poder da Instituição Cristã, cujos relatos insistem em basear-se nos fatos históricos, presumíveis.
Nesse contexto, é suficiente chamar a atenção para uma das mais amargas ironias da História.
"A teologia cristã, especialmemte a das igrejas ocidentais, foi o produto de mentes imbuídas do legalismo judaico e romano. Em todos os múltiplos exemplos, as introspecções imediatas do Avatar e do santo teocentrado eram racionalizadas num sistema, não pelos filósofos, mas pelos causídicos especuladores e juristas metafísicos." (Aldous Huxley)
A classe dos jurisconsultos, era abominada por Jesus. Estavam mais distanciados do Reino dos Céus e mais impermeáveis às verdades do Cristo, do que qualquer outra classe, exceto a dos ricos.
Essa, a amarga ironia... Eles, os jurisconsultos e os teólogos, nada mais fizeram do que retirar o espírito do Cristo, e trasnformá-lo em fato histórico, o que, acredito, era o 'melhor' para a institucionalização do poder religioso e a laicificação do cristianismo.
M. AMERICO
sábado, 10 de abril de 2010
FECHARAM A PORTA E APAGARAM A LUZ!
Quando nos damos conta de que "há algo de podre no Reino da Dinamarca", paulatinamente iniciamos um processo de mudança e adaptação de hábitos, descobrindo novas habilidades, novos prazeres e mais simples formas de bem-estar. Isso nos dá uma nova visão do sentido essencial da vida.
Nossos sonhos não serão mais dirigidos por uma mídia que vende ilusões e fantasias, quando precisamos apenas da nossa capacidade de admirar a vida e o que nela podemos encontrar de grandioso e atender às necessidades básicas do corpo e do espírito, cujos prazeres nunca podem ser comprados e também não precisam ser tão complicados.
Nesse momento, já não estamos mais nas grandes avenidas do dinheiro, da ambição desmedida que soterra em nós a criatividade, a elegância, a estética, a competência para o amor.
Nesse momento, enveredamos por estreitas vias, por onde caminhamos apenas com o nosso esforço. Cada passo é uma descoberta, uma mudança interior, e cada mudança, um sentimento de renovação e liberdade. Liberdade em relação a nossa capacidade de decisão.
Fala-se demasiado em liberdade, mas pouco se diz da necessidade de disciplina para possuí-la.
Liberdade e disciplina?! Engraçado, não? Que conúbio mais estranho se poderia arranjar! Mas é isso mesmo: liberdade é disciplina, como canta Rentato Russo.
Mas antes de adentrarmos em discussões desse porte, quero que o leitor desmistifique comigo, os tortuosos caminhos da "felicidade banalizada" oferecida por preços "razoáveis" nas feéricas feiras do consumo e das vaidades, com pagamento facilitado em prestações a perder de "vida".
Ainda não vi nos veículos mediáticos um casal de 'gordinhos' repousando em campo aberto e florido. O horizonte jogado na última linha do olhar, aquelas margaridas derramadas na geometria caótica e casual, a garrafa aberta de vinho, em toalha alva de linho, as taças tombadas romanticamente... As fisionomias alegres, daquela alegria que se esparrama, nascida na simplicidade do prazer gratuito; alegria belíssima de dentes 'branco global'. A paixão desenhada em céu azul, recortada pela frondosa árvore, como aquela do filme "O vento levou".
Por quê? Por que ainda não assisti a essa cena na TV? As pessoas gordas não podem ser eroticamente felizes? Os seus corpos não permitem a felicidade? Ou a grande indústria da estética anórexica e longilínea não autoriza, não permite? Sim, porque se ganha muito dinheiro com o mito da 'felicidade elegante', do 'sexo elegante', da 'saúde elegante'...
As clínicas de estética, spas e outras arapucas de emagrecimento, a indústria de alimentos "diet" e "light", as drogas milagrosas, as academias de "malhação" e tantas outras formas de vender, não a apregoada saúde do corpo, mas a "felicidade do corpo", o "prazer do corpo", somente possível segundo um certo peso corporal, uma certa medida et coetera.
Já estamos diante de um sofisticado sistema de consumo: o consumo do próprio corpo, segundo certos padrões considerados o ideal, a medida certa da felicidade, da liberdade de expressão erótica, da expansão do ego para os horizontes do subjetivo.
Já não cobiçamos o objeto. Como magos, almejamos realizar no corpo a fantasia de sonhos que possam encobrir a realidade, transmutá-la nos nossos desejos. As tatuagens invadiram os corpos e imprimem neles as figuras dos nossos obscuros desejos. Quase mandalas do nosso inconsciente...
Não por outras razões as revistas, os jornais, a televisão, apregoam as vitaminas da moda, a ginástica da moda, os músculos ressaltados a base de drogas... Tudo isso produz muito dinheiro!
É facil descobrir por que não vemos na TV demonstrações de amor e respeito entre pessoas que não integram os padrões de beleza; pessoas comuns que fazem piquenique nas praias, no campo. Isso não produz a riqueza desejada pela máquina do consumo; não se ganha dinheiro com formas de prazer que estão ao alcance de qualquer pessoa, gratuitamente.
A 'felicidade', por representar um estado de completo prazer nas três dimensões humanas (corpo, mente, espírito), deve ser um produto 'caro', acessível somente a poucos eleitos (assim como possuir uma Mercedes Benz conversível - sonho maior de consumo dos divagantes estranbóticos e delirantes...). Por isso, necessário se faz apregoar na televisão os ingredientes da receita e, obviamente, o seu preço.
Poderíamos, a grosso modo, classificar o prazer em três grupos: o deleite do corpo, o prazer do intelecto e o êxtase do espírito (dimensão estética e religiosa).
Preocupemo-nos apenas e incialmente, com o deleite do corpo, já que as outras dimensões do prazer, melhor serem discutidas em grossos tratados.
O deleite do corpo, independente do corpo que tenhamos, é simples como um copo de água: namorar, tomar um sorvete, olhar o mar, um 'papo' com os amigos, uma feijoada no sábado, um franguinho na brasa com farofa e um bom vinho, uma caipirinha bem tomada, um pagode no fundo do quintal, um por-de-sol, lua cheia... Deus meu! Quantas coisas poderiam ser lembradas... Quantas coisas disponíveis e ao alcance de qualquer mortal! O calor do sol na pele, quando caminhamos à beira-mar, pisando suas espumas brancas; ou numa trilha, mergulhados no silêncio da mata, nos ruídos da vida; admirar uma criança brincando, absorta em seus movimentos graciosos, pairando numa realidade invisível para nós. Você já abraçou uma árvore? Já sentiu a potência vital, transbordante, que dela emana? Não?! É de graça! Tente... Não se paga por isso!
Mas quando estamos naufragados na "felicidade" dependente de pacotes vendidos à retalhos e a crédito, não acreditamos que possa ser diferente, ou que possa haver alguma outra maneira de "estarmos felizes". Nunca de "sermos felizes". Poque estar é diferente de ser.
O sistema empurra-nos para a "angústia da felicidade", se é que me explico bem. Nos torna neuróticos, angustiados, ansiosos para sermos felizes... E nesse jogo de comprar a alegria, de comprar o prazer, de comprar a 'felicidade', acabamos sempre por cair na cilada do "amanhã tudo será diferente".
Lembra-me aqueles versos do nosso poeta, a propósito da felicidade sempre adiada, por ser "uma árvore arreada de dourados pomos" e que "está sempre apenas onde nós a pomos / mas nunca a pomos onde nós estamos."
A vida, como o malabarista, equilibra-se em fino fio suspenso no abismo. Brilho fugaz entre duas escuridões, entre dois infinitos, entre dois imponderáveis, entre dois sonhos. Como disse o poeta inglês, séculos atrás, "morrer, dormir, sonhar talvez, quem sabe..."
E trata-se exatamente disso. Trata-se de evitar, na sociedade do prazer ilimitado, do gozo eterno, o contato doloroso com a Verdade da Vida, que nos prepara para a sua essencialidade, toldando-nos o trágico sentimento de nossa efemeridade.
A antiga serenidade dos homens que atravessavam o grande abismo da vida, e que mistificavam a morte com os seus mitos, foi substituída na 'modernosa' e hipnótica sociedade pós-industrial, por novos mitos que mistificam a dor e vende a crença do prazer sem fronteiras do corpo, que se compra a preços módicos.
A proposta do grande sistema, aquela que se vende por todos os cantos da mídia e que se insinua sempre como a proposta de uma enorme, desmedida, gigantesca felicidade que se deve adquirir a preços de liquidação e em suaves prestações, mistifica o sentido essencial da Vida e gera a ilusão de que seremos felizes para sempre, com o último modelo de televisão ou com aquele carro zero km, que desliza sobre a inveja e os olhares concupiscentes da multidão despossuída.
M. AMERICO
Nossos sonhos não serão mais dirigidos por uma mídia que vende ilusões e fantasias, quando precisamos apenas da nossa capacidade de admirar a vida e o que nela podemos encontrar de grandioso e atender às necessidades básicas do corpo e do espírito, cujos prazeres nunca podem ser comprados e também não precisam ser tão complicados.
Nesse momento, já não estamos mais nas grandes avenidas do dinheiro, da ambição desmedida que soterra em nós a criatividade, a elegância, a estética, a competência para o amor.
Nesse momento, enveredamos por estreitas vias, por onde caminhamos apenas com o nosso esforço. Cada passo é uma descoberta, uma mudança interior, e cada mudança, um sentimento de renovação e liberdade. Liberdade em relação a nossa capacidade de decisão.
Fala-se demasiado em liberdade, mas pouco se diz da necessidade de disciplina para possuí-la.
Liberdade e disciplina?! Engraçado, não? Que conúbio mais estranho se poderia arranjar! Mas é isso mesmo: liberdade é disciplina, como canta Rentato Russo.
Mas antes de adentrarmos em discussões desse porte, quero que o leitor desmistifique comigo, os tortuosos caminhos da "felicidade banalizada" oferecida por preços "razoáveis" nas feéricas feiras do consumo e das vaidades, com pagamento facilitado em prestações a perder de "vida".
Ainda não vi nos veículos mediáticos um casal de 'gordinhos' repousando em campo aberto e florido. O horizonte jogado na última linha do olhar, aquelas margaridas derramadas na geometria caótica e casual, a garrafa aberta de vinho, em toalha alva de linho, as taças tombadas romanticamente... As fisionomias alegres, daquela alegria que se esparrama, nascida na simplicidade do prazer gratuito; alegria belíssima de dentes 'branco global'. A paixão desenhada em céu azul, recortada pela frondosa árvore, como aquela do filme "O vento levou".
Por quê? Por que ainda não assisti a essa cena na TV? As pessoas gordas não podem ser eroticamente felizes? Os seus corpos não permitem a felicidade? Ou a grande indústria da estética anórexica e longilínea não autoriza, não permite? Sim, porque se ganha muito dinheiro com o mito da 'felicidade elegante', do 'sexo elegante', da 'saúde elegante'...
As clínicas de estética, spas e outras arapucas de emagrecimento, a indústria de alimentos "diet" e "light", as drogas milagrosas, as academias de "malhação" e tantas outras formas de vender, não a apregoada saúde do corpo, mas a "felicidade do corpo", o "prazer do corpo", somente possível segundo um certo peso corporal, uma certa medida et coetera.
Já estamos diante de um sofisticado sistema de consumo: o consumo do próprio corpo, segundo certos padrões considerados o ideal, a medida certa da felicidade, da liberdade de expressão erótica, da expansão do ego para os horizontes do subjetivo.
Já não cobiçamos o objeto. Como magos, almejamos realizar no corpo a fantasia de sonhos que possam encobrir a realidade, transmutá-la nos nossos desejos. As tatuagens invadiram os corpos e imprimem neles as figuras dos nossos obscuros desejos. Quase mandalas do nosso inconsciente...
Não por outras razões as revistas, os jornais, a televisão, apregoam as vitaminas da moda, a ginástica da moda, os músculos ressaltados a base de drogas... Tudo isso produz muito dinheiro!
É facil descobrir por que não vemos na TV demonstrações de amor e respeito entre pessoas que não integram os padrões de beleza; pessoas comuns que fazem piquenique nas praias, no campo. Isso não produz a riqueza desejada pela máquina do consumo; não se ganha dinheiro com formas de prazer que estão ao alcance de qualquer pessoa, gratuitamente.
A 'felicidade', por representar um estado de completo prazer nas três dimensões humanas (corpo, mente, espírito), deve ser um produto 'caro', acessível somente a poucos eleitos (assim como possuir uma Mercedes Benz conversível - sonho maior de consumo dos divagantes estranbóticos e delirantes...). Por isso, necessário se faz apregoar na televisão os ingredientes da receita e, obviamente, o seu preço.
Poderíamos, a grosso modo, classificar o prazer em três grupos: o deleite do corpo, o prazer do intelecto e o êxtase do espírito (dimensão estética e religiosa).
Preocupemo-nos apenas e incialmente, com o deleite do corpo, já que as outras dimensões do prazer, melhor serem discutidas em grossos tratados.
O deleite do corpo, independente do corpo que tenhamos, é simples como um copo de água: namorar, tomar um sorvete, olhar o mar, um 'papo' com os amigos, uma feijoada no sábado, um franguinho na brasa com farofa e um bom vinho, uma caipirinha bem tomada, um pagode no fundo do quintal, um por-de-sol, lua cheia... Deus meu! Quantas coisas poderiam ser lembradas... Quantas coisas disponíveis e ao alcance de qualquer mortal! O calor do sol na pele, quando caminhamos à beira-mar, pisando suas espumas brancas; ou numa trilha, mergulhados no silêncio da mata, nos ruídos da vida; admirar uma criança brincando, absorta em seus movimentos graciosos, pairando numa realidade invisível para nós. Você já abraçou uma árvore? Já sentiu a potência vital, transbordante, que dela emana? Não?! É de graça! Tente... Não se paga por isso!
Mas quando estamos naufragados na "felicidade" dependente de pacotes vendidos à retalhos e a crédito, não acreditamos que possa ser diferente, ou que possa haver alguma outra maneira de "estarmos felizes". Nunca de "sermos felizes". Poque estar é diferente de ser.
O sistema empurra-nos para a "angústia da felicidade", se é que me explico bem. Nos torna neuróticos, angustiados, ansiosos para sermos felizes... E nesse jogo de comprar a alegria, de comprar o prazer, de comprar a 'felicidade', acabamos sempre por cair na cilada do "amanhã tudo será diferente".
Lembra-me aqueles versos do nosso poeta, a propósito da felicidade sempre adiada, por ser "uma árvore arreada de dourados pomos" e que "está sempre apenas onde nós a pomos / mas nunca a pomos onde nós estamos."
A vida, como o malabarista, equilibra-se em fino fio suspenso no abismo. Brilho fugaz entre duas escuridões, entre dois infinitos, entre dois imponderáveis, entre dois sonhos. Como disse o poeta inglês, séculos atrás, "morrer, dormir, sonhar talvez, quem sabe..."
E trata-se exatamente disso. Trata-se de evitar, na sociedade do prazer ilimitado, do gozo eterno, o contato doloroso com a Verdade da Vida, que nos prepara para a sua essencialidade, toldando-nos o trágico sentimento de nossa efemeridade.
A antiga serenidade dos homens que atravessavam o grande abismo da vida, e que mistificavam a morte com os seus mitos, foi substituída na 'modernosa' e hipnótica sociedade pós-industrial, por novos mitos que mistificam a dor e vende a crença do prazer sem fronteiras do corpo, que se compra a preços módicos.
A proposta do grande sistema, aquela que se vende por todos os cantos da mídia e que se insinua sempre como a proposta de uma enorme, desmedida, gigantesca felicidade que se deve adquirir a preços de liquidação e em suaves prestações, mistifica o sentido essencial da Vida e gera a ilusão de que seremos felizes para sempre, com o último modelo de televisão ou com aquele carro zero km, que desliza sobre a inveja e os olhares concupiscentes da multidão despossuída.
M. AMERICO
sexta-feira, 9 de abril de 2010
MITOLOGIA E INCONSCIENTE
Inconsciente coletivo. Assim Jung chamou o que seria um arquivo oculto de imagens, uma espécie de memória ancestral da humanidade. Essa memória manifesta-se com muita clareza nos esquizofrênicos. Essas imagens, que Jung chamou de 'símbolos arquetípicos', também foram identificados pela psiquiatra Nise da Silveira, quando de seu trabalho em um hospital psiquiátrico, e dirigia a seção de terapêutica ocupacional no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, entre os anos de 1946 e 1974. Seu livro "Imagens do Inconsciente", entre análises e reflexões, apresenta inúmeros trabalhos (desenhos, pinturas, modelagens) dos pacientes internos.
Encontramos tais símbolos na mitologia, nas pinturas, nos rituais religiosos, nos signos gráficos de civilizações em qualquer tempo histórico.
O símbolo surge mais claramente, como linguagem fundamental e manifestação dominante, porque a consciência não atua repressivamente e o psiquismo, no esquizofrênico, encontra a sua conexão com o que está subjacente nas camadas mais profundas, sem a censura da mente lógico-formal.
Carregamos uma 'memória da humanidade', onde estão latentemente armazenadas no inconsciente, experiências ancestrais da espécie.
As lendas, os contos de fadas, as mitologias, a comunicação de massas, usam os signos, porque são capazes de expressar conteúdos através de histórias e narrativas, melhor do que a formulação de conceitos.
Na esquizofrenia, perde-se o contato com o consciente vivenciando-se apenas a relação mais ou menos profunda com o inconsciente.
Tais símbolos revelam a relação imemorial do homem com os mesmos elementos básicos da natureza e as forças profundas do cosmos.
Os arquétipos, do que ele denominou insconsciente coletivo, sempre estavam presentes, embora sob diferentes formas, em civilizações separadas por séculos ou milênios, e também em outras mais próximas.
O mito é a forma de conservar e de significar valores através de um símbolo ou metassímbolo. É portanto, a representação de uma verdade profunda da mente.
As lendas, os contos de fadas, não são historinhas fantasiosas. Há o relato de uma íntima conexão com o psiquismo. Expressam realidades profundas da psique, suas fantasias e difusas emoções.
O mito é a tradução explícita dos conflitos do ser humano para compreender o processo de relacionar-se com a realidade e nela inserir-se. Expresso através do símbolo, da fábula, da lenda, o mito faz emergir a verdade profunda da mente mergulhada no enigma, no inconsciente ou no 'elo perdido'.
O mito é o incurso comum, paralelo ao incurso ideológico.
Retoma-se da mitologia grega, os seis elementos: o Logos, o Ethos, Eros, Psiche, Theós, Pathos, que estão, direta ou indiretamente, simbolicamente expressos sob a forma de lendas e fábulas, presentes em toda comunicação, como incursos.
São enigmas originários das zonas não iluminadas da mente e presentes, fundamentalmente, em qualquer discurso.
As pessoas de um modo geral, preferem ignorar as complexidades. Passam pela vida, para libar o prazer ou usufruir o poder.
O mito cristão toca o cerne, a raiz da questão vital: "Só a verdade vos libertará."
Não foi dado ao ser humano contemplar a verdade. Somente as verdades circunstanciais estão ao seu alcance. Somente 'verdades de razão' (as geométricas, por exemplo, ou as matemáticas) são possíveis ao ser humano.
M. AMERICO
Encontramos tais símbolos na mitologia, nas pinturas, nos rituais religiosos, nos signos gráficos de civilizações em qualquer tempo histórico.
O símbolo surge mais claramente, como linguagem fundamental e manifestação dominante, porque a consciência não atua repressivamente e o psiquismo, no esquizofrênico, encontra a sua conexão com o que está subjacente nas camadas mais profundas, sem a censura da mente lógico-formal.
Carregamos uma 'memória da humanidade', onde estão latentemente armazenadas no inconsciente, experiências ancestrais da espécie.
As lendas, os contos de fadas, as mitologias, a comunicação de massas, usam os signos, porque são capazes de expressar conteúdos através de histórias e narrativas, melhor do que a formulação de conceitos.
Na esquizofrenia, perde-se o contato com o consciente vivenciando-se apenas a relação mais ou menos profunda com o inconsciente.
Tais símbolos revelam a relação imemorial do homem com os mesmos elementos básicos da natureza e as forças profundas do cosmos.
Os arquétipos, do que ele denominou insconsciente coletivo, sempre estavam presentes, embora sob diferentes formas, em civilizações separadas por séculos ou milênios, e também em outras mais próximas.
O mito é a forma de conservar e de significar valores através de um símbolo ou metassímbolo. É portanto, a representação de uma verdade profunda da mente.
As lendas, os contos de fadas, não são historinhas fantasiosas. Há o relato de uma íntima conexão com o psiquismo. Expressam realidades profundas da psique, suas fantasias e difusas emoções.
O mito é a tradução explícita dos conflitos do ser humano para compreender o processo de relacionar-se com a realidade e nela inserir-se. Expresso através do símbolo, da fábula, da lenda, o mito faz emergir a verdade profunda da mente mergulhada no enigma, no inconsciente ou no 'elo perdido'.
O mito é o incurso comum, paralelo ao incurso ideológico.
Retoma-se da mitologia grega, os seis elementos: o Logos, o Ethos, Eros, Psiche, Theós, Pathos, que estão, direta ou indiretamente, simbolicamente expressos sob a forma de lendas e fábulas, presentes em toda comunicação, como incursos.
São enigmas originários das zonas não iluminadas da mente e presentes, fundamentalmente, em qualquer discurso.
As pessoas de um modo geral, preferem ignorar as complexidades. Passam pela vida, para libar o prazer ou usufruir o poder.
O mito cristão toca o cerne, a raiz da questão vital: "Só a verdade vos libertará."
Não foi dado ao ser humano contemplar a verdade. Somente as verdades circunstanciais estão ao seu alcance. Somente 'verdades de razão' (as geométricas, por exemplo, ou as matemáticas) são possíveis ao ser humano.
M. AMERICO
quinta-feira, 8 de abril de 2010
OBSERVAÇÕES SOBRE UM CASO DE COMOÇÃO NACIONAL
Com uma certa freqüência ouço ao meu redor comentários sobre o recente caso de comoção nacional Nardoni&Jatoba. Comentários sobre os procedimentos legais do Judiciário: "Nardoni pega 31 anos, 1 mês, 10 dias de prisão; Jatobá pega 26 anos e 8 meses. Por ser pai da vítima, o calhorda foi condenado a uma pena maior. Que maravilha! Ambos cumprirão suas penas em regime fechado. Na prática, segundo o jurista Luiz Flávio Gomes, ficarão, respectivamente, 13 e 11 anos na cadeia." Diante dessa realidade, os comentários beiram a indignação! A manifestação em frente ao Fórum onde ocorreu o Julgamento Nardoni&Jatoba, mostrava a 'fúria popular'.
Fórum, nas antigas cidades romanas era o nome das praças públicas que serviam de ponto de equilíbrio da vida social. Era o 'locum' onde os cidadãos se reuniam para discutir e decidir os destinos da comunidade. Também era ali, que acusados de crimes tinham o direito de tentar provar a sua inocência diante de um júri popular.
Essa 'fúria' mostrada pelos canais de TV que cobriam o 'espetáculo', para os especialistas decorre do 'desejo de vingança' da própria noção de justiça, quando determinadas Normas são violadas e provocam a reação coletiva.
O que é interessante observar na indignação da sociedade, quanto ao abrandamento da pena, na sucessão do tempo da condenação, é a consideração de uma certa lassidão na aplicação das penas. Uma certa condescendência legal com o criminoso. Cobram, na sua ira, na sua indignação, a dureza de Talião: olho por olho, dente por dente! Inconformadas, berram por maior rigidez.
Observadas as reações da sociedade, é interessante notar que a Legislação brasileira é das mais severas, consideradas as demais legislações do mundo ocidental e quiça, da outra banda também, com exceções, é claro.
Vejamos: a Lei brasileira garante que, com o cumprimento de 2/5 da pena, pouco mais de 12 anos no caso Nardoni e 10 para Jatoba, eles saem do regime fechado para o semiaberto; passam a cumprir pena numa colônia penal agrícola ou industrial. Depois disso, cumprem mais 1/6.
O cumprimento de mais 1/6 da pena garante o direito de passar o dia trabalhando e voltar para a penitenciária só para dormir (regime aberto). Esse fato legal tem um nome técnico: progressão da pena.
Pergunta-se, obviamente: "Qual é a lógica desse aparente absurdo? Porque tantos benefícios a assassinos condenados por crimes bárbaros? Não seria um caso de privilégios para criminosos?
Vamos para algumas considerações históricas. Essa redução da pena surgiu na Inglaterra do século XVIII, com o objetivo de estimular o bom comportamento na prisão. É uma realidade, até hoje, na maioria dos países democráticos.
Do Código Penal comentado (Delmano Junior, criminalista): "O preso precisa de um estímulo para se comportar bem. Sem a recompensa, fica insustentável administrar uma penitenciária." Outro argumento dos defensores da redução na pena é "a necessidade - num país sem prisão perpétua, como o Brasil - de reinserir os criminosos recém-libertados na sociedade."
Mesmo os reincidentes por crimes hediondos têm o direito de cumprir uma pena reduzida.
O direito a redução da pena está na Constituição, no Código Penal e na Lei de Execuções Penais.
Na Europa, o prazo vai de 30% a 40% da pena. "O Brasil, que exige 40%, está entre os mais rigorosos", diz o jurista Luiz Flávio Gomes.
Em outros países, a lei não é tão branda para os crimes graves. Na Espanha, os presos por terrorismo são obrigados a cumprir a pena até o final. Nos Estados Unidos, há penas dura como prisão perpétua e até pena de morte. E no caso de liberdade condicional, o agente da lei estabelece claros limites para que o detento usufrua do benefício.
Há um risco na redução da pena; há riscos em devolver criminosos ao convívio social, apenas porque agem e se comportam bem na cadeia, mas reincidem quando ganham a liberdade. E esses riscos não podem ser facilmente avaliados, de modo que garantam um comportamento adequado quando em liberdade.
“É preciso avaliar cada caso”, diz o coronel José Vicente da Silva Filho, ex-Secretário Nacional de Segurança Pública. “Não se pode usar como critério apenas o tempo de pena já cumprido.” (Humberto Maia Jr. Revista Época)
COMO É A PROGRESSÃO DE PENA
Do regime fechado para o semiaberto
Réu primário > crime comum >> 1/6 da pena
Réu primário > crime hediondo >> 2/5 da pena
Reincidente > crime hediondo >> 3/5 da pena
DO SEMIABERTO PARA O ABERTO
Todos os casos >1/6 do restante da pena
LIBERDADE CONDICIONAL
Réu primário > crime comum >> 1/3 da pena
Réu primário > crime hediondo >> 2/3 da pena
Reincidente > crime doloso >> 1/2
Reincidente > crime hediondo >> NÃO TEM DIREITO
(Revista Época)
M. AMERICO
Fórum, nas antigas cidades romanas era o nome das praças públicas que serviam de ponto de equilíbrio da vida social. Era o 'locum' onde os cidadãos se reuniam para discutir e decidir os destinos da comunidade. Também era ali, que acusados de crimes tinham o direito de tentar provar a sua inocência diante de um júri popular.
Essa 'fúria' mostrada pelos canais de TV que cobriam o 'espetáculo', para os especialistas decorre do 'desejo de vingança' da própria noção de justiça, quando determinadas Normas são violadas e provocam a reação coletiva.
O que é interessante observar na indignação da sociedade, quanto ao abrandamento da pena, na sucessão do tempo da condenação, é a consideração de uma certa lassidão na aplicação das penas. Uma certa condescendência legal com o criminoso. Cobram, na sua ira, na sua indignação, a dureza de Talião: olho por olho, dente por dente! Inconformadas, berram por maior rigidez.
Observadas as reações da sociedade, é interessante notar que a Legislação brasileira é das mais severas, consideradas as demais legislações do mundo ocidental e quiça, da outra banda também, com exceções, é claro.
Vejamos: a Lei brasileira garante que, com o cumprimento de 2/5 da pena, pouco mais de 12 anos no caso Nardoni e 10 para Jatoba, eles saem do regime fechado para o semiaberto; passam a cumprir pena numa colônia penal agrícola ou industrial. Depois disso, cumprem mais 1/6.
O cumprimento de mais 1/6 da pena garante o direito de passar o dia trabalhando e voltar para a penitenciária só para dormir (regime aberto). Esse fato legal tem um nome técnico: progressão da pena.
Pergunta-se, obviamente: "Qual é a lógica desse aparente absurdo? Porque tantos benefícios a assassinos condenados por crimes bárbaros? Não seria um caso de privilégios para criminosos?
Vamos para algumas considerações históricas. Essa redução da pena surgiu na Inglaterra do século XVIII, com o objetivo de estimular o bom comportamento na prisão. É uma realidade, até hoje, na maioria dos países democráticos.
Do Código Penal comentado (Delmano Junior, criminalista): "O preso precisa de um estímulo para se comportar bem. Sem a recompensa, fica insustentável administrar uma penitenciária." Outro argumento dos defensores da redução na pena é "a necessidade - num país sem prisão perpétua, como o Brasil - de reinserir os criminosos recém-libertados na sociedade."
Mesmo os reincidentes por crimes hediondos têm o direito de cumprir uma pena reduzida.
O direito a redução da pena está na Constituição, no Código Penal e na Lei de Execuções Penais.
Na Europa, o prazo vai de 30% a 40% da pena. "O Brasil, que exige 40%, está entre os mais rigorosos", diz o jurista Luiz Flávio Gomes.
Em outros países, a lei não é tão branda para os crimes graves. Na Espanha, os presos por terrorismo são obrigados a cumprir a pena até o final. Nos Estados Unidos, há penas dura como prisão perpétua e até pena de morte. E no caso de liberdade condicional, o agente da lei estabelece claros limites para que o detento usufrua do benefício.
Há um risco na redução da pena; há riscos em devolver criminosos ao convívio social, apenas porque agem e se comportam bem na cadeia, mas reincidem quando ganham a liberdade. E esses riscos não podem ser facilmente avaliados, de modo que garantam um comportamento adequado quando em liberdade.
“É preciso avaliar cada caso”, diz o coronel José Vicente da Silva Filho, ex-Secretário Nacional de Segurança Pública. “Não se pode usar como critério apenas o tempo de pena já cumprido.” (Humberto Maia Jr. Revista Época)
COMO É A PROGRESSÃO DE PENA
Do regime fechado para o semiaberto
Réu primário > crime comum >> 1/6 da pena
Réu primário > crime hediondo >> 2/5 da pena
Reincidente > crime hediondo >> 3/5 da pena
DO SEMIABERTO PARA O ABERTO
Todos os casos >1/6 do restante da pena
LIBERDADE CONDICIONAL
Réu primário > crime comum >> 1/3 da pena
Réu primário > crime hediondo >> 2/3 da pena
Reincidente > crime doloso >> 1/2
Reincidente > crime hediondo >> NÃO TEM DIREITO
(Revista Época)
M. AMERICO
quarta-feira, 7 de abril de 2010
CONVERSA INÚTIL
Outro dia eu proseava com os meus amigos Macarrão e Bochecha (que chegou ao desplante de querer que sua alcunha fosse escrita com X. Dava mais importância, status). Como já tínhamos rido de quase todo mundo, sobrava apenas a situação política do Brasil, nesse momento lulítico, raquítico e asmático.
Vai daí, que esse negócio de política é um verdadeiro estropício, rende que não acaba mais, e porque não se pode falar nada de bom desse momento em que estamos atolados nessa lama, que só caranguejo se dá bem, tentei deixar claro aos meus amigos que o 'assunto' me era penoso por demais, e que já me afastara dele fazia muito tempo.
Macarrão argumentou que a política tem dois lados: o lado sujo, da corrupção, da traição, da falta de ética no exercício da 'res publica' - onde estão aqueles que estão no Poder, e o nosso lado, que não somos o poder, simplesmente porque estamos destituídos dele, e que por isso mesmo, representamos o lado ético, responsável, incorruptível.
Antes que vocês se ofendam, vou explicar para que não haja um linchamento intelectual do Macarrão.
Macarrão é um cínico, no sentido etimológico e filosófico da palavra, isto é: 'kinismós', doutrina e modo de vida dos cínicos, partidários do filósofo Antístenes de Atenas (444-365 a.C.), e de Diógenes de Sinope (413-323 a.C.), fundadores da Escola Cínica que se caracteriza, principalmente, pela oposição radical e ativa aos valores culturais vigentes; oposição nascida do discernimento de que é impossível conciliar as Leis e convenções morais e culturais com as exigências de uma vida segundo a natureza. Macarrão considera uma certeza o ponto de vista de J. J. Rousseau, de que o homem nasce puro e a sociedade o corrompe. Vai daí não ter certeza do que o poder poderia fazer com ele, mas garante que seria quase certo deixar o segundo lado, passando rapidamente para o primeiro.
Expliquei ao Macarrão que, quando era jovem, universitário, acreditava com uma ferocidade invejável que era possível mudar o mundo, ou pelo menos o Brasil. Era um engajado, um leitor obsessivo de jornais políticos, de revistas, de livros. Quando cheguei, em números mais ou menos exatos, aos meus 45 anos, descobri que tudo continuava 'como dantes no quartel de abrantes'. Foi uma tijolada. Sabe aquele 'insight' que derruba fé de beata? Pois foi... uma cacetada tamanha, que nunca mais eu me recuperei. Vez que outra ensaio uma invasão no território dos homens. O pior não é ler o que acontece, ou ouvir o que eles dizem. O problema maior é o cheiro. Não há pituitária que agüente! É um sufoco!
É por isso que não costumo passar perto de aterro sanitário. Pesado demais. Me dá um comichão, uma urticária que é o cão! Agora, depois que eu comi uma feijoada no Boteco do Libório, parece que a digestão retirou muito sangue do cérebro pra metabolizar caroços e toicinhos e rabo e joelho e..., e de lá pra cá, dei para sondar, primeiro as lixeiras menores, coisas municipais, estaduais, lixo menor: latinha de cerveja, garrafa plástica, pvc, lixo químico, hospitalar, sacola de plástico adoidado... Mas sinto que já estou chegando nas federais.
A essa altura, Bochecha meio que dormitava. Com Bochecha é assim, se não for futebol, mulher e a arte de ganhar dinheiro fácil, não necessáriamente nessa ordem, seu interesse cai e uma névoa tolda a sua cara e ele meio que desencarna. Lógico, depois de descer alguns lúpulos e diversas pingas.
Macarrão aproveitou minha confissão e partiu pra cima.
Mas então o momento é esse, homem, conte as novidades! Mas não quero saber de coisas de municípios... quero coisa grande! Mas antes me diga uma coisa: que tal essa tal de Democracia?
"Muito bem, Macarrão. Vou mandar a última. Mas aproveita, porque não é sempre que adentro por essas bandas podres."
E mandei.
Vou parodiar o velho e sempre atual Bernard Shaw que, quando perguntado "o que achava da civilização americana", ele respondeu: "Seria interessante." É mais ou menos isso, Macarrão: O que acho da Democracia? Sabe que seria interessante? Olha só o que li outro dia:
"Quase metade das eleições é roubada." E isso é um estudo sério, pois analisa cerca de 786 pleitos em 155 países, nos últimos trinta anos. Vamos aos números: 41% das eleições, em média, apresentam algum tipo de fraude ou irregularidade. Quando há possibilidade de reeleição, as fraudes sobem para 45%. Agora veja esses outros números, indicativos da bandalheira democrática:
América do Norte: 0,004% ( e ainda dá aquela gritaria toda!)
Amperica Latina: 36% (Ave Maria!!! Meu Jesus Cristinho!!!)
Rússia: 11%
Índia e vizinhos: 46,8%
Norte da África: 60,4%
Sul da África: 69,6
Centro-sul da África: 80,3%
No caso da Índia e da África, fico me perguntando: pra que eleição?
E ainda podemos acrescentar, segundo a pesquisa: políticos honestos ficam em média 6,4 anos no poder. Os desonestos, em média 15,8 anos.
Macarrão limpava as unhas com um 'trim'. Olhou nos meus olhos e disse, enfático: você é um caso perdido!
M. AMERICO
Vai daí, que esse negócio de política é um verdadeiro estropício, rende que não acaba mais, e porque não se pode falar nada de bom desse momento em que estamos atolados nessa lama, que só caranguejo se dá bem, tentei deixar claro aos meus amigos que o 'assunto' me era penoso por demais, e que já me afastara dele fazia muito tempo.
Macarrão argumentou que a política tem dois lados: o lado sujo, da corrupção, da traição, da falta de ética no exercício da 'res publica' - onde estão aqueles que estão no Poder, e o nosso lado, que não somos o poder, simplesmente porque estamos destituídos dele, e que por isso mesmo, representamos o lado ético, responsável, incorruptível.
Antes que vocês se ofendam, vou explicar para que não haja um linchamento intelectual do Macarrão.
Macarrão é um cínico, no sentido etimológico e filosófico da palavra, isto é: 'kinismós', doutrina e modo de vida dos cínicos, partidários do filósofo Antístenes de Atenas (444-365 a.C.), e de Diógenes de Sinope (413-323 a.C.), fundadores da Escola Cínica que se caracteriza, principalmente, pela oposição radical e ativa aos valores culturais vigentes; oposição nascida do discernimento de que é impossível conciliar as Leis e convenções morais e culturais com as exigências de uma vida segundo a natureza. Macarrão considera uma certeza o ponto de vista de J. J. Rousseau, de que o homem nasce puro e a sociedade o corrompe. Vai daí não ter certeza do que o poder poderia fazer com ele, mas garante que seria quase certo deixar o segundo lado, passando rapidamente para o primeiro.
Expliquei ao Macarrão que, quando era jovem, universitário, acreditava com uma ferocidade invejável que era possível mudar o mundo, ou pelo menos o Brasil. Era um engajado, um leitor obsessivo de jornais políticos, de revistas, de livros. Quando cheguei, em números mais ou menos exatos, aos meus 45 anos, descobri que tudo continuava 'como dantes no quartel de abrantes'. Foi uma tijolada. Sabe aquele 'insight' que derruba fé de beata? Pois foi... uma cacetada tamanha, que nunca mais eu me recuperei. Vez que outra ensaio uma invasão no território dos homens. O pior não é ler o que acontece, ou ouvir o que eles dizem. O problema maior é o cheiro. Não há pituitária que agüente! É um sufoco!
É por isso que não costumo passar perto de aterro sanitário. Pesado demais. Me dá um comichão, uma urticária que é o cão! Agora, depois que eu comi uma feijoada no Boteco do Libório, parece que a digestão retirou muito sangue do cérebro pra metabolizar caroços e toicinhos e rabo e joelho e..., e de lá pra cá, dei para sondar, primeiro as lixeiras menores, coisas municipais, estaduais, lixo menor: latinha de cerveja, garrafa plástica, pvc, lixo químico, hospitalar, sacola de plástico adoidado... Mas sinto que já estou chegando nas federais.
A essa altura, Bochecha meio que dormitava. Com Bochecha é assim, se não for futebol, mulher e a arte de ganhar dinheiro fácil, não necessáriamente nessa ordem, seu interesse cai e uma névoa tolda a sua cara e ele meio que desencarna. Lógico, depois de descer alguns lúpulos e diversas pingas.
Macarrão aproveitou minha confissão e partiu pra cima.
Mas então o momento é esse, homem, conte as novidades! Mas não quero saber de coisas de municípios... quero coisa grande! Mas antes me diga uma coisa: que tal essa tal de Democracia?
"Muito bem, Macarrão. Vou mandar a última. Mas aproveita, porque não é sempre que adentro por essas bandas podres."
E mandei.
Vou parodiar o velho e sempre atual Bernard Shaw que, quando perguntado "o que achava da civilização americana", ele respondeu: "Seria interessante." É mais ou menos isso, Macarrão: O que acho da Democracia? Sabe que seria interessante? Olha só o que li outro dia:
"Quase metade das eleições é roubada." E isso é um estudo sério, pois analisa cerca de 786 pleitos em 155 países, nos últimos trinta anos. Vamos aos números: 41% das eleições, em média, apresentam algum tipo de fraude ou irregularidade. Quando há possibilidade de reeleição, as fraudes sobem para 45%. Agora veja esses outros números, indicativos da bandalheira democrática:
América do Norte: 0,004% ( e ainda dá aquela gritaria toda!)
Amperica Latina: 36% (Ave Maria!!! Meu Jesus Cristinho!!!)
Rússia: 11%
Índia e vizinhos: 46,8%
Norte da África: 60,4%
Sul da África: 69,6
Centro-sul da África: 80,3%
No caso da Índia e da África, fico me perguntando: pra que eleição?
E ainda podemos acrescentar, segundo a pesquisa: políticos honestos ficam em média 6,4 anos no poder. Os desonestos, em média 15,8 anos.
Macarrão limpava as unhas com um 'trim'. Olhou nos meus olhos e disse, enfático: você é um caso perdido!
M. AMERICO
terça-feira, 6 de abril de 2010
PERCEPÇÃO DO MUNDO
A percepção é um proceso complexo com múltiplas facetas, iniciada quando nossos neurônios sensoriais captam informação do meio ambiente e a enviam ao cérebro na forma de impulsos elétricos. Como todas as criaturas viva, temos uma percepção sensorial limitada. Não vemos a radiação infravermelha ou percebemos os campos eletromagnéticos como os pássaros (que usam essa informação para se orientar). Contudo, a quantidade de informação que entra por meio dos cinco sentidos é impressionante - cerca de 400 bilhões de bits por segundo!
Obviamente não recebemos nem processamos conscientemente essa quantidade - pesquisadores afirmam que passam por nossa consciência apenas 2 mil bits por segundo! Portanto, nas palavras do doutor Andrew Newberg, quando o cérebro trabalha para "tentar criar para nós uma história do mundo, ele precisa de muitos dados supérfluos."
Por exemplo, enquanto lê essas palavras, embora seus sentidos captem a temperatura do ambiente, a sensação do corpo na cadeira, a textura da roupa sobre a pele, o zumbido do refrigerados e o cheiro do xampu, você está quase toralmente desligado de tudo. O doutor Newberg prossegue:
"O cérebro precisa filtrar uma tremenda quantidade de informação irrelevante para nós. Ele faz isso inibindo coisas, evitando que algumas respostas e informações neurais acabem por chegar ao nível consciente, e assim ignoramos a cadeira em que estamos sentados. Ou seja, filtrando o que é conhecido. E então, existe a filtragem do que é desconhecido...
Ao vermos alguma coisa que o cérebro não consegue identificar buscamos algo similar ("Não é um esquilo... mas é muito parecido.") Se não houver nada semelhante, ou se for algo que saibamos não ser real, descartamos a informação com: "Eu devo estar imaginando coisas."
Assim, nós não percebemos a realidade de fato; vemos a imagem dela que nosso cérebro construiu, usando o impulso sensorial e associações obtidas em suas vastas redes neurais. "Dependendo de suas experiências", diz o doutor Newberg, "e de como você as processa, isso realmente cria seu mundo visual [...] O cérebro é, afinal, quem percebe a realidade e cria nossa versão do mundo."
Como sugere a pesquisa da doutora Pert, dos Institutos Nacionais de Saúde, o que determina como e se vamos perceber algo é tanto o que acreditamos ser real quanto o que sentimos em relação ao que os nossos sentidos capturam. Ela diz: "Nossas emoções decidem o que é digno de atenção (...) Os receptores são os mediadores na decisão sobre o que vai se tornar um pensamento ao chegar à consciência e o que vai permanecer como um padrão de pensamento não digerido, enterrado num nível mais profundo do corpo."
Como diz Joe Dispenza; "As emoções foram projetadas para fixar quimicamente algo em nossa memória de longo prazo." (Quem somos nós?)
UMA EXPERIÊNCIA INTERESSANTE SOBRE A REALIDADE
Pesquisadores colocaram gatinhos recém-nascidos em um ambiente experimental onde não havia linhas verticais; semanas depois, quando colocados no ambiente "normal", os gatinhos não eram capazes de ver nenhum objeto com uma dimensão vertical (como as pernas de uma cadeira), e esbarravam nesses objetos.
M. AMERICO
Obviamente não recebemos nem processamos conscientemente essa quantidade - pesquisadores afirmam que passam por nossa consciência apenas 2 mil bits por segundo! Portanto, nas palavras do doutor Andrew Newberg, quando o cérebro trabalha para "tentar criar para nós uma história do mundo, ele precisa de muitos dados supérfluos."
Por exemplo, enquanto lê essas palavras, embora seus sentidos captem a temperatura do ambiente, a sensação do corpo na cadeira, a textura da roupa sobre a pele, o zumbido do refrigerados e o cheiro do xampu, você está quase toralmente desligado de tudo. O doutor Newberg prossegue:
"O cérebro precisa filtrar uma tremenda quantidade de informação irrelevante para nós. Ele faz isso inibindo coisas, evitando que algumas respostas e informações neurais acabem por chegar ao nível consciente, e assim ignoramos a cadeira em que estamos sentados. Ou seja, filtrando o que é conhecido. E então, existe a filtragem do que é desconhecido...
Ao vermos alguma coisa que o cérebro não consegue identificar buscamos algo similar ("Não é um esquilo... mas é muito parecido.") Se não houver nada semelhante, ou se for algo que saibamos não ser real, descartamos a informação com: "Eu devo estar imaginando coisas."
Assim, nós não percebemos a realidade de fato; vemos a imagem dela que nosso cérebro construiu, usando o impulso sensorial e associações obtidas em suas vastas redes neurais. "Dependendo de suas experiências", diz o doutor Newberg, "e de como você as processa, isso realmente cria seu mundo visual [...] O cérebro é, afinal, quem percebe a realidade e cria nossa versão do mundo."
Como sugere a pesquisa da doutora Pert, dos Institutos Nacionais de Saúde, o que determina como e se vamos perceber algo é tanto o que acreditamos ser real quanto o que sentimos em relação ao que os nossos sentidos capturam. Ela diz: "Nossas emoções decidem o que é digno de atenção (...) Os receptores são os mediadores na decisão sobre o que vai se tornar um pensamento ao chegar à consciência e o que vai permanecer como um padrão de pensamento não digerido, enterrado num nível mais profundo do corpo."
Como diz Joe Dispenza; "As emoções foram projetadas para fixar quimicamente algo em nossa memória de longo prazo." (Quem somos nós?)
UMA EXPERIÊNCIA INTERESSANTE SOBRE A REALIDADE
Pesquisadores colocaram gatinhos recém-nascidos em um ambiente experimental onde não havia linhas verticais; semanas depois, quando colocados no ambiente "normal", os gatinhos não eram capazes de ver nenhum objeto com uma dimensão vertical (como as pernas de uma cadeira), e esbarravam nesses objetos.
M. AMERICO
segunda-feira, 5 de abril de 2010
AH! AS NOSSAS EMOÇÕES...
Ah! As emoções! Hoje elas são o 'prato do dia' dos psicólogos de RH. Pragmáticos, para atender as exigências das relações funcionais, das relações empresariais, direcionam suas análises para a 'utilidade' das emoções. "De que modo podemos melhor usar as nossas emoções?" - perguntam-se os psicólogos de plantão. E eles mesmos respondem: "dominem suas emoções! Façam-nas trabalhar a seu favor!"
"Façam-nas gerar estados produtivos e úteis de relações funcionais!" - digo eu.
Gosto de ver como as coisas ficam simples nas mãos dos 'especialistas'. É tão fácil dominar as emoções!!! Parece que estão nos pedindo para bebermos um copo da outra: viu? Como desce redondo?
Ah! as emoções... Hoje elas ganharam importância, na medida em que a relacionam com a inteligência. A tal inteligência emocional.
Como disse, gosto de ver como as coisas ficam simples, quando olhadas de um ponto de vista reducionista. Afinal, a complexidade das emoções não pode ser tratada assim, já que nos acompanham desde o nascimento. Nascemos com elas e iniciamos nossa aprendizagem com elas, muito antes de sabermos usar a terceira inteligência. Começamos com ela e será ela o signo mais importante das inteligências motora e cognitiva. Nunca mais nos abandonará e será a nossa "marca registrada". A nossa imagem diante dos outros. A nossa cara, a que estará sempre exposta para quem souber ler.
Nascemos com as emoções e delas dependerá o nosso futuro. Começamos débeis, frágeis, porque nascemos inocentes. A vida diante dos nossos olhos, que mal vislumbram contornos, ainda é uma paisagem de sombras. Sentimos apenas. Emoções apenas nos empurram, nos ensinam a respirar, a buscar o calor do corpo materno, na abundância do seio que nutre os primeiros sinais da vida. E ainda será ela, a fonte primodial que nos permitirá viver, porque será pelo amor que atravessaremos a ponte entre as duas escuridões silenciosas, os dois infinitos: antes da vida e depois da vida.
Será pelo alento recebido que construiremos a nossa vida afetiva, que definiremos um modo de ser, que faremos as nossas escolhas. E será a emoção, essa energia, essa força que transcende a razão, a fonte básica dos nossos maiores prazeres.
A razão acontece em nossa vida, quando as emoções já nos ensinaram a andar, a olhar, a denominar as coisas do nosso mundo circundante, a descobrir a realidade do nosso corpo. A razão acontece tardiamente, quando já conhecemos o caminho do coração. E repetindo Pascal, o velho Pascal: "o coração tem razões que a própria razão desconhece."
Depois, quando a vida ja se organizou, quando já conseguimos automatizar padrões e organizá-los em modelos repetentes, salvam-se apenas aqueles que são capazes de despertar a fonte das emoções, de alimentar as paixões que possam conduzir aos caminhos insólitos do descobrimento de veredas não trilhadas.
A Arte, o caminho das nossas percepções mais sutis, manifestação profética do espírito, nossa maneira de admirar o mundo, é parte fundamental e a mais rica da nossa humanidade. Através dela descobrimos a realidade adjacente, invisível a razão. A razão organiza a realidade em modelos projetados a partir das nossas percepções.
As emoções podem levar-nos a descobrir um sentido maior para a vida. Mas também será pelas emoções que descobriremos a angústia, o 'nonsense', a perda da grandeza humana, a perda da nossa humanidade.
A razão escamoteia a paixão, mas não consegue escapar ao seu sortilégio fascinante. Engendra mil artifícios, mas não nos convence e não nos demove da paixão.
Navegantes dos mares insólitos da vida, marinheiros despreparados para atravessar a procela das emoções!
Modificamo-nos pela paixão, porque é dela que recebemos o fogo da criação. Porque a paixão é o amor incontido, o amor sem limites, o amor que devasta o bom-senso, que anula o cartesianismo.
Falo do amor que recria a realidade, que modifica o homem, que o incendeia. O amor em seu sentido maior, aquele que confere grandeza e dignidade ao ser humano.
Pela paixão pode o homem avançar por caminhos desconhecidos, sem se preocupar com a volta, porque na paixão não há retorno possível.
A nossa história será sempre a história comovente dos grandes apaixonados e dos seus seguidores, porque nada se renova senão pela paixão.
A paixão requer o amor em grau amplíssimo. Trata-se de uma dimensão ainda desconhecida por muitos. Trata-se da perpetuação do sonho de liberdade, do sonho de ampliar os limites da realidade, cujos ciclos tendem sempre a fechar o homem em espaços reduzidos, não permitindo que se renove o sentido maior da vida. Modernamente, o amor se fez em Tereza de Calcutá...
A doença é a resistência à mudança, é a 'mineralização' dos sentimentos proféticos, impedindo que possam expandir-se e romper os limites impostos pelo bom-senso.
Podemos adoecer de muitos modos. Na dimensão macro, impedindo que a transformação aconteça, bloqueando o devir histórico. Na micro, reprimindo nossos impulsos de afetividade, nossas emoções; retraindo nossos desejos de mudança, nossos sonhos, nossa grandeza, amordaçando o corpo. Somos grandiosos quando nos permitimos ser. Somos pequenos, quando aceitamos nossas limitações.
Lidar com as emoções não é tarefa fácil. Sempre usamos a razão para procurar as respostas.
Ocorre-me aquela cena teatral de B. Brecht: a personagem procurava alguma coisa que havia perdido, sob um poste, no clarão de sua luz. Passa alguém e fica a ajudá-lo. Depois de algum tempo, resolve perguntar o que perdera e se fora naquele lugar. A personagem responde que perdera uma chave, mas não ali. A luz do poste, no entanto, facilitava procurá-la. E assim estava tentando encontrá-la onde lhe parecera mais fácil. Um artifício da mente!
Não permitimos que nossos sentidos extraordinários encontrem respostas. Caminhamos sempre em direção à mente. Nela procuramos nossos placebos, embora já saibamos que ela continuará a nos enganar. A mente é traiçoeira, dominadora, velha como o planeta, antiga como o nosso corpo; sobretudo impostora. Sufoca mais do que nos permite respirar.
Pretender encontrar com a mente as respostas de que precisamos para a vida, é uma ilusão! A mente pertence ao mundo, a geometria, ao tempo. Nada tem a ver com a vida!
Deixar fluir a vida, permitir que o corpo repouse, sem tensões, relaxado, é a primeira chave. Aquietar a mente, permitir que as energias vitais fluam livremente, essa a maneira de nos aproximarmos dos estados diferenciados de percepção. E a meditação também é um caminho para a libertação. Um caminho para equilibrar o fluxo energético do corpo, deixá-lo livre dos nós cegos.
São os truncamentos, os embaraços, que quebram a unidade psicossomática. São as emoções desequilibradas, e por isso perigosas, que nos adoecem.
Quando falamos em emoção estamos entrando num universo complexo, no reino das pulsões, das tensões.
Emoção é tensão, é conflito, é energia transbordante. A vida é tensão, é conflito, é superação de estados contraditórios. Essa a razão porque lidar com emoções é sempre perigoso. Pretender usá-las como 'utensílios', é desconhecer a sua natureza.
Como dizia Guimarães Rosa, "viver é perigoso." Não se pode sofisticar a vida.
M. AMERICO
"Façam-nas gerar estados produtivos e úteis de relações funcionais!" - digo eu.
Gosto de ver como as coisas ficam simples nas mãos dos 'especialistas'. É tão fácil dominar as emoções!!! Parece que estão nos pedindo para bebermos um copo da outra: viu? Como desce redondo?
Ah! as emoções... Hoje elas ganharam importância, na medida em que a relacionam com a inteligência. A tal inteligência emocional.
Como disse, gosto de ver como as coisas ficam simples, quando olhadas de um ponto de vista reducionista. Afinal, a complexidade das emoções não pode ser tratada assim, já que nos acompanham desde o nascimento. Nascemos com elas e iniciamos nossa aprendizagem com elas, muito antes de sabermos usar a terceira inteligência. Começamos com ela e será ela o signo mais importante das inteligências motora e cognitiva. Nunca mais nos abandonará e será a nossa "marca registrada". A nossa imagem diante dos outros. A nossa cara, a que estará sempre exposta para quem souber ler.
Nascemos com as emoções e delas dependerá o nosso futuro. Começamos débeis, frágeis, porque nascemos inocentes. A vida diante dos nossos olhos, que mal vislumbram contornos, ainda é uma paisagem de sombras. Sentimos apenas. Emoções apenas nos empurram, nos ensinam a respirar, a buscar o calor do corpo materno, na abundância do seio que nutre os primeiros sinais da vida. E ainda será ela, a fonte primodial que nos permitirá viver, porque será pelo amor que atravessaremos a ponte entre as duas escuridões silenciosas, os dois infinitos: antes da vida e depois da vida.
Será pelo alento recebido que construiremos a nossa vida afetiva, que definiremos um modo de ser, que faremos as nossas escolhas. E será a emoção, essa energia, essa força que transcende a razão, a fonte básica dos nossos maiores prazeres.
A razão acontece em nossa vida, quando as emoções já nos ensinaram a andar, a olhar, a denominar as coisas do nosso mundo circundante, a descobrir a realidade do nosso corpo. A razão acontece tardiamente, quando já conhecemos o caminho do coração. E repetindo Pascal, o velho Pascal: "o coração tem razões que a própria razão desconhece."
Depois, quando a vida ja se organizou, quando já conseguimos automatizar padrões e organizá-los em modelos repetentes, salvam-se apenas aqueles que são capazes de despertar a fonte das emoções, de alimentar as paixões que possam conduzir aos caminhos insólitos do descobrimento de veredas não trilhadas.
A Arte, o caminho das nossas percepções mais sutis, manifestação profética do espírito, nossa maneira de admirar o mundo, é parte fundamental e a mais rica da nossa humanidade. Através dela descobrimos a realidade adjacente, invisível a razão. A razão organiza a realidade em modelos projetados a partir das nossas percepções.
As emoções podem levar-nos a descobrir um sentido maior para a vida. Mas também será pelas emoções que descobriremos a angústia, o 'nonsense', a perda da grandeza humana, a perda da nossa humanidade.
A razão escamoteia a paixão, mas não consegue escapar ao seu sortilégio fascinante. Engendra mil artifícios, mas não nos convence e não nos demove da paixão.
Navegantes dos mares insólitos da vida, marinheiros despreparados para atravessar a procela das emoções!
Modificamo-nos pela paixão, porque é dela que recebemos o fogo da criação. Porque a paixão é o amor incontido, o amor sem limites, o amor que devasta o bom-senso, que anula o cartesianismo.
Falo do amor que recria a realidade, que modifica o homem, que o incendeia. O amor em seu sentido maior, aquele que confere grandeza e dignidade ao ser humano.
Pela paixão pode o homem avançar por caminhos desconhecidos, sem se preocupar com a volta, porque na paixão não há retorno possível.
A nossa história será sempre a história comovente dos grandes apaixonados e dos seus seguidores, porque nada se renova senão pela paixão.
A paixão requer o amor em grau amplíssimo. Trata-se de uma dimensão ainda desconhecida por muitos. Trata-se da perpetuação do sonho de liberdade, do sonho de ampliar os limites da realidade, cujos ciclos tendem sempre a fechar o homem em espaços reduzidos, não permitindo que se renove o sentido maior da vida. Modernamente, o amor se fez em Tereza de Calcutá...
A doença é a resistência à mudança, é a 'mineralização' dos sentimentos proféticos, impedindo que possam expandir-se e romper os limites impostos pelo bom-senso.
Podemos adoecer de muitos modos. Na dimensão macro, impedindo que a transformação aconteça, bloqueando o devir histórico. Na micro, reprimindo nossos impulsos de afetividade, nossas emoções; retraindo nossos desejos de mudança, nossos sonhos, nossa grandeza, amordaçando o corpo. Somos grandiosos quando nos permitimos ser. Somos pequenos, quando aceitamos nossas limitações.
Lidar com as emoções não é tarefa fácil. Sempre usamos a razão para procurar as respostas.
Ocorre-me aquela cena teatral de B. Brecht: a personagem procurava alguma coisa que havia perdido, sob um poste, no clarão de sua luz. Passa alguém e fica a ajudá-lo. Depois de algum tempo, resolve perguntar o que perdera e se fora naquele lugar. A personagem responde que perdera uma chave, mas não ali. A luz do poste, no entanto, facilitava procurá-la. E assim estava tentando encontrá-la onde lhe parecera mais fácil. Um artifício da mente!
Não permitimos que nossos sentidos extraordinários encontrem respostas. Caminhamos sempre em direção à mente. Nela procuramos nossos placebos, embora já saibamos que ela continuará a nos enganar. A mente é traiçoeira, dominadora, velha como o planeta, antiga como o nosso corpo; sobretudo impostora. Sufoca mais do que nos permite respirar.
Pretender encontrar com a mente as respostas de que precisamos para a vida, é uma ilusão! A mente pertence ao mundo, a geometria, ao tempo. Nada tem a ver com a vida!
Deixar fluir a vida, permitir que o corpo repouse, sem tensões, relaxado, é a primeira chave. Aquietar a mente, permitir que as energias vitais fluam livremente, essa a maneira de nos aproximarmos dos estados diferenciados de percepção. E a meditação também é um caminho para a libertação. Um caminho para equilibrar o fluxo energético do corpo, deixá-lo livre dos nós cegos.
São os truncamentos, os embaraços, que quebram a unidade psicossomática. São as emoções desequilibradas, e por isso perigosas, que nos adoecem.
Quando falamos em emoção estamos entrando num universo complexo, no reino das pulsões, das tensões.
Emoção é tensão, é conflito, é energia transbordante. A vida é tensão, é conflito, é superação de estados contraditórios. Essa a razão porque lidar com emoções é sempre perigoso. Pretender usá-las como 'utensílios', é desconhecer a sua natureza.
Como dizia Guimarães Rosa, "viver é perigoso." Não se pode sofisticar a vida.
M. AMERICO
domingo, 4 de abril de 2010
RÓTULOS
Li Gertrude Stein faz muito tempo. Quando ela escreveu o seu poema: "Uma rosa é uma rosa é uma rosa", causou um 'frisson' no mundo literário. Mais ou menos o que aconteceu com a 'pedra' do Drummond ("No meio do caminho havia uma pedra, havia uma pedra no meio etc...etc...etc...).
Gertrude não define, não diz nada, nada é acrescentado... Nada na verdade foi dito! Gertrude apenas desvela...
Mas, sai das sombras alguém e pergunta: "Por que você escreveu isto? Sabemos todos que uma rosa é uma rosa é uma rosa! Não há sentido no que você escreveu! Não acrescenta coisa alguma ao nosso conhecimento, e menos ainda a rosa!"
Stein respondeu: "Os poetas falaram de rosas por milênios. Todos leram e cantaram as rosas em muitos cantochões, e a palavra rosa deixou de ser uma rosa, perdeu a sua 'rosicidade', o que tira da palavra "rosa" o seu sentido conspícuo, o que faz da palavra "rosa" coisa nenhuma! Por isso eu tenho que repetir que "uma rosa é uma rosa é uma rosa", para que você acorde do seu profundo sono, e reconheça uma rosa.
(Esclareço que esse diálogo é imaginário. G. Stein foi apenas esculachada pelos críticos de plantão, mas jamais lhe perguntaram alguma coisa, porque crítico é para criticar e G.Stein é para escrever sobre a originalidade e o mistério das palavras.).
Há uma obsessão por rotular a realidade. Não coloque rótulos! Porque se assim o fizer, a beleza escorrerá pelos seus dedos e o rótulo não permitirá que você veja a realidade das coisas. O rótulo envelhece as coisas, roubam o seu sentido original. Não rotule, pois a realidade não aceita rótulos. A realidade é um fluxo, um rio. Como disse Heráclito, você não se banha duas vezes nas mesmas águas de um rio.
As palavras denotam a realidade, como um dedo acusador! Mas a realidade é sagaz e muda a cada instante.
As palavras desgastam as coisas, mas as coisas continuam intocadas, guardando a sua essência e o seu mistério, superando a banalização.
M. AMERICO
Gertrude não define, não diz nada, nada é acrescentado... Nada na verdade foi dito! Gertrude apenas desvela...
Mas, sai das sombras alguém e pergunta: "Por que você escreveu isto? Sabemos todos que uma rosa é uma rosa é uma rosa! Não há sentido no que você escreveu! Não acrescenta coisa alguma ao nosso conhecimento, e menos ainda a rosa!"
Stein respondeu: "Os poetas falaram de rosas por milênios. Todos leram e cantaram as rosas em muitos cantochões, e a palavra rosa deixou de ser uma rosa, perdeu a sua 'rosicidade', o que tira da palavra "rosa" o seu sentido conspícuo, o que faz da palavra "rosa" coisa nenhuma! Por isso eu tenho que repetir que "uma rosa é uma rosa é uma rosa", para que você acorde do seu profundo sono, e reconheça uma rosa.
(Esclareço que esse diálogo é imaginário. G. Stein foi apenas esculachada pelos críticos de plantão, mas jamais lhe perguntaram alguma coisa, porque crítico é para criticar e G.Stein é para escrever sobre a originalidade e o mistério das palavras.).
Há uma obsessão por rotular a realidade. Não coloque rótulos! Porque se assim o fizer, a beleza escorrerá pelos seus dedos e o rótulo não permitirá que você veja a realidade das coisas. O rótulo envelhece as coisas, roubam o seu sentido original. Não rotule, pois a realidade não aceita rótulos. A realidade é um fluxo, um rio. Como disse Heráclito, você não se banha duas vezes nas mesmas águas de um rio.
As palavras denotam a realidade, como um dedo acusador! Mas a realidade é sagaz e muda a cada instante.
As palavras desgastam as coisas, mas as coisas continuam intocadas, guardando a sua essência e o seu mistério, superando a banalização.
M. AMERICO
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