domingo, 21 de agosto de 2011

O HERÓI E O ANTAGONISTA

A política, como a literatura, serve-se de fórmulas e esquemas para revestir de encanto e carisma seus personagens. Tão importante quanto o herói, ensina Joseph Campbell, é o antagonista, o anti-herói. Não há como conceber um sem o outro, e o herói será tão mais fascinante quanto mais cruel for o antagonista.

O antagonista fabricado pelo PT para gerar o herói Lula chama-se Fernando Henrique Cardoso. Lula é o operário que, galgando as adversidades impostas por uma sociedade injusta e preconceituosa, triunfou. Já FHC, nascido em berço esplêndido, não só desdenharia dessas dificuldades, mas se empenharia em agravá-las.

Nasce desse esquema reducionista a idéia do “eles” (as elites) e “nós” (o povão), emblema dos discursos de Lula. Aplicado à história do Brasil, dá curso à versão do “nunca antes neste país”, que precede o anúncio de todas as realizações do governo Lula.

O Brasil popular e justo, dentro desse esquematismo, foi fundado em 2002; antes, pertencia às elites, que só o exploraram. Como o vilão perde força ao ser projetado abstratamente numa classe social, é preciso dar-lhe rosto, voz, perfil. FHC encaixou-se no molde, independentemente de sua biografia o desmentir.

Em política, ensinava a velha raposa José Maria Alckimin (não confundi-lo com Geraldo Alckmin, que nem seu parente é), vale a versão, não o fato. A própria frase, cuja autoria é de Gustavo Capanema, acabou atribuída a Alckimin, que com ela entrou para a história, atestando a veracidade de seu enunciado.

Nada disso, porém, resiste a um exame, ainda que superficial. As biografias de FHC e de Lula como homens públicos os colocam lado a lado até o momento em que o primeiro chega ao poder. Fernando Henrique apoiou os movimentos operários do ABC nos anos 80, que deram visibilidade a Lula.

E Lula foi um dos cabos eleitorais de FHC nas eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985. Estiveram juntos nas campanhas pela anistia e pelas diretas já. As divergências começaram exatamente na redemocratização, quando o PT adotou a estratégia de isolamento partidário, para “não se contaminar” com os políticos tradicionais, sustentando que não havia diferença entre Tancredo Neves e Maluf, farinhas do mesmo saco, expressões das “elites”.

Era já a construção do mito, embora o maniqueísmo não fosse ainda tão nítido, o que ocorreria exatamente nos governos de FHC. Mas, em 1º de janeiro de 2003, ao receber a faixa presidencial de Fernando Henrique – e isso está devidamente registrado nos inúmeros vídeos feitos na época -, Lula disse emocionado, abraçando seu antecessor: “Fernando, aqui você terá sempre um amigo”.

Durou pouco a emoção. Já no dia seguinte, José Dirceu, todo-poderoso chefe da Casa Civil, fazia menção à “herança maldita” do antecessor. A expressão foi (e ainda é) repetida à exaustão, mesmo sem qualquer fundamentação, quando dificuldades precisam ser explicadas. Os fatos mostram, no entanto, que a herança é benigna, pois garantiu a estabilidade econômica e o êxito da plataforma desenvolvimentista que o governo Lula pôde pôr em cena.

O Fome Zero capitulou à fórmula anterior da Rede de Proteção Social, implementada por Ruth Cardoso – e criticada fortemente por Lula (há vídeos também, disponíveis no Youtube, que o atestam). O Bolsa Família descende dos programas sociais do governo FHC (Bolsa Educação, Vale Gás, Vale Transporte, Vale Alimentação).

Lula reuniu-os sob rótulo único e, graças a uma logística eficaz pré-estabelecida, pôde expandi-los, como certamente continuará a fazê-lo o seu sucessor, seja lá quem for. São conquistas cumulativas – e consolidadas.

Os números triunfais de hoje na economia e a resistência do sistema bancário brasileiro ao terremoto financeiro de 2008 decorrem de medidas adotadas para consolidar o Plano Real (ao qual o PT se opôs), como a Lei de Responsabilidade Fiscal (que em maio completa 10 anos) e o Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional), igualmente combatidos por Lula e PT.

Lula mostra imenso talento na sustentação do mito. Talento raro, que o projeta como um dos mais populares governantes da história. Critica as privatizações, mas capitaliza os seus resultados econômicos e sociais, como se não houvesse conexão entre ambos. Condena o “neoliberalismo”, mas o mantém a pleno vapor, sob o comando de um ex-tucano, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que Lula queria como vice de Dilma.

O desafio presente, mais complexo, é encaixar José Serra no figurino de anti-herói. Também ele é um emergente, de origem modesta. Também ele foi um perseguido político. Nada disso, porém, o impediu de tornar-se um economista renomado, experimentado no exercício de numerosos cargos técnicos e eletivos.

Daí a opção por uma campanha eleitoral plebiscitária, que mantenha em cena o vilão FHC em contraponto ao herói Lula. É uma fórmula que já deu frutos e Lula está certo de que continuará a dá-los. O problema é que o herói (Lula) não se parece nem um pouco com Dilma, nem o vilão (FHC) com Serra.

Ruy Fabiano é jornalista

COMENTÁRIO

Quando leio um artigo que pretende definir o perfil de Lula, do homem e do mito politicamente fabricado pelas oportunidades e circunstâncias muito bem aproveitadas por ele, recorro a alguns depoimentos, principalmente sobre artigos e outros escritos produzidos por Josê Nêumane Pinto. Todas as informações coletadas até agora, encontram uma unidade de sentido na entrevista que Nêumane concedeu, e cujo vídeo coloquei aqui neste blog.
Por ter convivido com o homem e acompanhado de perto muitas cenas do teatro encenado por Lula, José Nêumane sabe claramente onde começa o mito, as artimanhas usadas para produzi-lo, e as pequenas atitudes que já revelavam o caráter e a disposição do político para as grandes ilicitudes.
E a importância do seu depoimento, apesar de muitas peças do quebra-cabeça não terem sido encaixadas, como ele mesmo declara, o desenho nem por isso deixa de ser nítido, trazendo-nos a figura complexa e contraditória de uma personalidade forjada no sindicato, onde aprendeu a arte de enganar e de negociar. E negociar e enganar são as grandes virtudes políticas que habilmente levou para o poder.
Vejo apenas uma afirmação duvidosa de Nêumane, quando considera com muita ênfase, tratar-se de um "gênio da política". Não comungo com essa afirmação. Diante da extrema pobreza política que nesses últimos tempos vive o Brasil, não é difícil a um mistificador enganar toda a gente por algum tempo. Nesse cenário político anêmico, falta um Carlos Lacerda, um Leonel Brizola (que bem definiu o PT como sendo uma UDN de tamanco e macacão), um discurso de autêntica oposição, para colocar a verdade em seu lugar. Um tempo de trevas políticas em que qualquer falastrão habilidoso, consegue usar as suas deficiências, como se fossem virtudes, para enganar uma massa de eleitores de pouca ou nenhuma instrução.
Nada de socialista, de comunista... Apenas um habilidoso oportunista.
Como casar o "gênio político" com a devastação semeada pela corrupção e pelo cinismo, transformando, pela omissão, a desonestidade em costume político?
Um depoimento importante, que aproxima o homem e o político, com seus vícios e suas contradições.
Uma entrevista preciosa que joga muita luz para se compreender alguns ângulos pouco claros do seu comportamento como homem público, que é o que interessa.

ISSO NÃO VAI DAR CERTO

Os problemas brasileiros, como não podia deixar de ser, têm repercutido bastante em Itaparica. Bem verdade que nem sempre essa repercussão coincide com as vigentes em outras partes do País. Toninho Leso, por exemplo, ficou grandemente surpreendido, quando lhe informaram que chamar alguém de corrupto não é um elogio. Como, não é um elogio? Não se deve elogiar uma pessoa que nasceu pobre, teve pouco estudo e hoje é rica milionária, recebida em toda parte e chamada de doutora, ou senão Excelência? Quem não elogia é porque não chegou lá e tem inveja. Se o sujeito se elegeu é porque queria se fazer na vida, como todos os outros que também se elegeram. Agora que ele se fez, somente a inveja é que pode explicar essa raiva que têm deles.

Tentou-se esclarecer que o corrupto subiu na vida, sim, pelo menos em matéria de dinheiro, mas subiu roubando dinheiro público. Toninho, que tem esse apelido de Leso, mas de vez em quando surpreende pela agilidade de raciocínio, retrucou que, se o dinheiro era público, não tinha dono e, assim, nada mais justo que o primeiro que pudesse metesse a mão nesse dinheiro - e era assim desde que inventaram dinheiro, o resto é conversa. "Eu acho bonito quando vejo esses corruptos passeando aqui de lancha americana, cheios de mulheres, tomando o uísque deles e desfrutando da vida", disse ele. "Meus filhos, Deus ajudando, vão ser todos corruptos, vou querer pelo menos um, minha família vai melhorar. Quero ver meu filhão lá nos salões, um corrupto respeitado por todos, bem-sucedido, bonitão, cheio das mulheres, esse vidão de corrupto mesmo... O sujeito que não tem esse grande ideal não é bom pai de família."

Jorginho Leso, irmão de Toninho, também leso e raramente visto sem pelo menos umas duas ucas no juízo, aproveitou para dar sua opinião sobre uma conversa que ouvira, a respeito de algemarem corruptos presos. Contaram a ele que muita gente, até a presidenta, ficou chateada com as algemas. Ele concordou e observou que jogar ovos nas pessoas suja tudo e não adianta nada. Além disso, é um desperdício de ovo que podia muito bem estar alimentando o povo. Quando lhe disseram que algema não tinha nada a ver com gema de ovo e era um instrumento para acorrentar as mãos dos presos, ele não se deu por vencido. Pra quê, pra daí a pouco soltarem de novo? Só se for para treinar a polícia no uso da chave - fecha-abre, fecha-abre, fecha-abre, pra que tanto treinamento de chave? O verdadeiro corrupto nunca é preso e, se é, soltam logo, é uma pessoa de bem, normal, que não vai ser confundida com qualquer ladrão pé de chinelo.

Jacob Branco, que ainda não entrara em seu horário de discurso e ouvira tudo calado, sentiu-se na obrigação de manifestar-se. Os nobres amigos estavam muito enganados, a corrupção está deixando de ser uma atividade lucrativa no Brasil, os tempos estão mudando. Longe dele ser um governista, pois toda a ilha conhecia sua reputação de independência, mas a verdade era que a presidenta estava se revelando muito disposta na briga contra a corrupção. Era do conhecimento geral como ela vinha fazendo uma faxina no governo, faxina séria, de gente graúda. E a faxina ia continuar.

- A faxina vai o quê? - a voz roufenha e exaltada de Zecamunista se ouviu à entrada do bar.

- Vai continuar.

- Vai continuar coisa nenhuma, Toninho Leso é que tem razão, o certo é seguir a carreira de corrupto e é muito democrático, qualquer um pode procurar um jeito, que sempre vai achar, nem que seja desviando cestas básicas e outras mixarias. Ela acabou de passar a escova nuns dois ministérios. Depois tem que vir o pente normal. Depois o pente-fino e um dilúvio de piolhos. E depois a desinfecção, porque senão reinfecta tudo rapidamente. Isso em cada um dos não sei quantos ministérios que ela mesma não lembra de cor. Para não falar nas estatais e em outras áreas do governo. Nem que ela tivesse dezoito mandatos seguidos, ia dar. Mas esse não é o maior problema. O maior problema é a famosa base do governo. Já estão cansando de avisar a ela que vão jogar duro, se ela não parar com esse negócio de faxina e ameaçar os empregos e esquemas deles e dos apadrinhados. Você já ouviu vários dizendo "não faxina nada aí", não já?

- Mas também não é assim, eu também soube que houve senadores que formaram uma frente para apoiar as faxinas que ela fizer.

- Eu também já soube, os nove mosqueteiros não é? Nove contra mais de cinquenta. Isso é para compor o quadro, é como a folha de parreira de Eva.

- Mas pode ser que haja adesões.

- É, pode ser. Mais umas três. Meta na sua cabeça, nenhum desses partidos está no governo para cumprir programa nenhum ou seguir ideologia nenhuma, eles estão lá para defender o deles e o do pessoal deles. E aí o negócio é blindar a base aliada, como eles dizem, não pode pegar ninguém ligado à base. Ou blinda ou não consegue aprovação nem para requerimento, ela pode até ser valente, mas não é mágica. Mas tem uma novidade que eu acho mais importante do que todas essas. Você não leu nos jornais, não? Foi criado o Instituto Lula.

- Eu soube. E daí?

- É o que eu também pergunto. Pergunto muito.

- Ele disse que é a nova plataforma política dele.

- É aí que mora o perigo. Pode continuar com sua fé na faxina, mas vamos deixar o tempo correr e ver se quem vai mandar na faxina é a faxineira.

João Ubaldo Ribeiro, em O Estado de São Paulo

sábado, 20 de agosto de 2011

AMOR - O INTERMINÁVEL APRENDIZADO


Criança, ele pensava: amor, coisa que os adultos sabem. Via-os aos pares namorando nos portões enluarados se entrebuscando numa aflição feliz de mãos na folhagem das anáguas. Via-os noivos se comprometendo à luz da sala ante a família, ante as mobílias; via-os casados, um ancorado no corpo do outro, e pensava: amor, coisa-para-depois, um depois-adulto-aprendizado.

Se enganava.

Se enganava porque o aprendizado de amor não tem começo nem é privilégio aos adultos reservado. Sim, o amor é um interminável aprendizado.

Por isto se enganava enquanto olhava com os colegas, de dentro dos arbustos do jardim, os casais que nos portões se amavam. Sim, se pesquisavam numa prospecção de veios e grutas, num desdobramento de noturnos mapas seguindo o astrolábio dos luares, mas nem por isto se encontravam. E quando algum amante desaparecia ou se afastava, não era porque estava saciado. Isto aprenderia depois. É que fora buscar outro amor, a busca recomeçara, pois a fome de amor não sabia nunca, como ali já não se saciara.

De fato, reparando nos vizinhos, podia observar. Mesmo os casados, atrás da aparente tranqüilidade, continuavam inquietos. Alguns eram mais indiscretos. A vizinha casada deu para namorar. Aquele que era um crente fiel, sempre na igreja, um dia jogou tudo para cima e amigou-se com uma jovem. E a mulher que morava em frente da farmácia, tão doméstica e feliz, de repente fugiu com um boêmio, largando marido e filhos.

Então, constatou, de novo se enganara. Os adultos, mesmo os casados, embora pareçam um porto onde as naus já atracaram, os adultos, mesmo os casados, que parecem arbustos cujas raízes já se entrançaram, eles também não sabem, estão no meio da viagem, e só eles sabem quantas tempestades enfrentaram e quantas vezes naufragaram.

Depois de folhear um, dez, centenas de corpos avulsos tentando o amor verbalizar, entrou numa biblioteca. Ali estavam as grandes paixões. Os poetas e novelistas deveriam saber das coisas. Julietas se debruçavam apunhaladas sobre o corpo morto dos Romeus, Tristãos e Isoldas tomavam o filtro do amor e ficavam condenados à traição daqueles que mais amavam e sem poderem realizar o amor.

O amor se procurava. E se encontrando, desesperava, se afastava, desencontrava.

Então, pensou: há o amor, há o desejo e há a paixão.


O desejo é assim: quer imediata e pronta realização. É indistinto. Por alguém que, de repente, se ilumina nas taças de uma festa, por alguém que de repente dobra a perna de uma maneira irresistivelmente feminina.

Já a paixão é outra coisa. O desejo não é nada pessoal. A paixão é um vendaval. Funde um no outro, é egoísta e, em muitos casos, fatal.

O amor soma desejo e paixão, é a arte das artes, é arte final.

Mas reparou: amor às vezes coincide com a paixão, às vezes não.

Amor às vezes coincide com o desejo, às vezes não.

Amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não.

E mais complicado ainda: amor às vezes coincide com o amor, às vezes não.

Absurdo.

Como pode o amor não coincidir consigo mesmo?

Adolescente amava de um jeito. Adulto amava melhormente de outro. Quando viesse a velhice, como amaria finalmente? Há um amor dos vinte, um amor dos cinqüenta e outro dos oitenta? Coisa de demente.

Não era só a estória e as estórias do seu amor. Na história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente.

Estava sempre perplexo. Olhava para os outros, olhava para si mesmo ensimesmado.

Não havia jeito. O amor era o mesmo e sempre diferenciado.

O amor se aprendia sempre, mas do amor não terminava nunca o aprendizado.

Optou por aceitar a sua ignorância.

Em matéria de amor, escolar, era um repetente conformado.

E na escola do amor declarou-se eternamente matriculado.

Affonso Romano de Sant'Anna
Texto extraído do livro "21 Histórias de amor", Francisco Alves Editora – Rio de Janeiro, 2002, pág.11.

AZALÉIAS DE AGOSTO



Era agosto. Elas se abriam em meu jardim com essa obscenidade com que sempre se abrem as flores, cumprindo sua missão natural de flores. Quanto mais floresciam, mais fenecias. Todos as manhãs eu atravessava aquele festival orgíaco de vermelho, rosa, branco e roxo, rumo ao amarelo ictérico que começava a envelopar tua pele, essa pele que por tantas décadas acarinhei. "Onde estiver, vou sentir tua falta" - me disseste, com voz que jamais senti tão grave. Querendo afagar-me, suspeitando que pela última vez, te enganavas. Não estarás em parte alguma. Partiste para o grande nada, onde nada existe e ninguém sente falta de ninguém.

Quem vai sentir tua falta, todos os dias até o último deles, é este que fica e que em algum lugar sempre estará. Pelo menos até o dia em que não mais estiver. Quem parte descansa. Sofre quem fica. O que até me consola um pouco. Quem está sofrendo, pelo menos não és tu.

De novo é agosto e elas retomaram seu ritual exibicionista. Paranóicas, escondem-se nas primaveras e agora torturam meus invernos. Não apenas os meus, mas os de tantos outros cujos seres amados escolheram agosto para partir. Certa noite de setembro, eu conversava com jovens já contaminados pela resfeber, enfermidade nórdica que significa febre de viagens. Sedentos de vida, perguntaram a este ser tantas vezes acometido pela doença: qual é a mulher mais linda do mundo? Em que geografias pode ser encontrada?

Caí em prantos. A mulher mais linda do mundo, eu a conheci. E a tive. E agora não mais a tinha. Não a encontrara em distantes longitudes nem em países exóticos. Encontrei-a a meu lado, neste prosaico país, e nunca mais a abandonei. Quis a vida - ou talvez tenha quisto eu - que tivesse centenas de mulheres, algumas muitas queridas, outras nem tanto mas também desejadas, mais uma multidão de rostos mais ou menos anônimos, corpos sempre lembrados. Mentira da vida, mentira minha. Em verdade, tive só uma. Tu, que partiste no auge das azaléias.

"Eu não tenho medo da morte" - me disseste ainda, um pouco antes da passagem rumo ao nada. Mesmo desbotada pelo palor da vida que foge, estavas linda como nunca estiveste. Em tuas quase seis décadas, conservavas ainda aquele eterno rostinho de criança, que a passagem dos anos jamais conseguiu te roubar.

Sedada, já no torpor da morte, chamaste tuas últimas energias, te ergueste no leito. Levantando o dedinho, didática qual professora falando a seus pupilos, sussurraste com o que te restava de voz: "E se fizéssemos assim: eu assino um documento: eu, TKM, em pleno uso de minhas faculdades mentais, declaro que quero ter meus restos cremados no cemitério da Vila Alpina". Reuni minhas forças e consegui balbuciar: não te preocupa, Baixinha adorada, isto há muito está combinado, verme algum sentirá o gosto de tuas carnes. Tuas cinzas, vou jogá-las de alguma ponte em Paris, uma daquelas pontes que tanto amaste, para que saias navegando mares afora.

Passada a mensagem, te reclinaste em paz. Mas descumpri o trato. Não as joguei em Paris. Ficarias muito longe de mim, navegarias talvez por mares gelados e hostis, encalharias em geleiras e te perderias em fiordes, longe de meu calor. Com carinho, te plantei entre os rododendros e todas as manhãs passo entre ti e murmuro: adorada. É bom te cumprimentar. Mas como dói.

A vida nos foi pródiga, e isso é talvez o que mais machuque. Nestes últimos meses, tenho sentido uma secreta inveja de homens que casam com megeras horrendas. Quando elas partem, começa a felicidade. Se morrer feliz é o almejo de todo homem, esta graça não mais está reservada a quem um dia foi feliz. É duro conjugar certos verbos no passado. Dizia Pessoa:

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...

Bobagens de poeta, que tanto influenciaram meus dias de jovem. Verdade que sem ti correrá tudo sem ti. Mas isto vale para as azaléias - seres insensíveis que sequer perceberam a ausência de quem as adorava tanto - e para o resto da humanidade. Para quem perdeu o ser mais lindo da vida, é mero jogo de palavras.

As azaléias em breve irão perdendo seu sorriso orgíaco, suas cores fenecerão e agosto que vem estarão de novo florescendo, despudoradas. Tuas cores feneceram agosto passado e pelo resto de meus agostos não mais te verei florir.

* in memoriam 20 de agosto de 2003
janer cristaldo

TELENOVELA: UMA REFLEXÃO SOBRE LITERATURA

“Literatura é profunda, tem seu tempo de preparo. Não creio que novela seja uma forma de literatura. Mas esta comunicação é permanente. E por dialogar com a literatura, a novela contribui muitíssimo para a educação da sociedade também” (Walcir Carrasco).

“Escrever literatura, para mim, entretanto, é um gesto simbólico que traz uma exigência: a de ser de qualidade” (Alcir Pécora).

“Já a literatura mediana não serve para nada. É a negação mesma da literatura, cuja primeira exigência é a de se justificar (justificar a própria presença) face aos outros objetos de cultura” (Alcir Pécora).

A literatura do autor de novelas Walcir Carrasco traz de volta o tema da pobreza, como qualidade. Digo literatura, apesar do próprio autor não considerar escrever novela como sendo literatura. Porém, se não for literatura, será o quê? Seria a negação da literatura, como salienta Alcir Pécora? Seria a novela literatura, pois se justifica pela contribuição para a educação da sociedade? Prefiro entender novela como literatura, simplesmente porque é expressão artística, por meio da palavra escrita. Tecnicamente, pode até não ser tão perfeita, mas a qualidade não está na sua justificação, mas na sua expressão de arte. E arte emociona ou não emociona, independente da melhor técnica.

A “literatura disfarçada”

Há uma frase interessante do escritor Gore Vidal que, além de romancista famoso, escreveu vários roteiros. Vidal afirma: “Cinema é roteiro. Uma coisa é certa: o roteiro é fundamental para o filme. Assim como para o corpo humano, uma boa e simétrica estrutura óssea é que vai permitir ao corpo ser bonito e atraente, no cinema isso é feito pelo roteiro” (Rubem Fonseca).

Cinema é roteiro. Cinema é literatura, assim como a novela.

“Erudito é também quem cultiva a terra. Ou o tocador de pífaros, que conheci em Cocorobo. Ou o romeiro do Padre Cícero. Buscar o diálogo é uma tarefa crucial no Brasil de nosso tempo, não há dúvida alguma. Ouvi uns poetas do Tadjiquistão, falando numa língua própria seus poemas. Não compreendi nada. Mas foi uma das grandes experiências de minha vida. Não entender é uma forma de entender. Era cultura popular. Eram poetas populares. Porque a cultura é eminentemente popular” (Marco Lucchesi).

“Há muita gente interessante pensando o contemporâneo e pensando literatura. Fico imaginando se essa não será uma forma de literatura disfarçada. Uma nova máscara da literatura” (Alcir Pécora).

Os teóricos não fazem arte, precisam da arte mesmo que mediana para construir a sua “literatura disfarçada”. Essa mesma “literatura” deixa de usar máscara quando emociona – agora, então, será expressão artística.

O caminho do trabalho honesto

“São duas linhas de texto que abalam minha autoestima: serei eu competente o suficiente para escrever um artigo? Acredito que sou, se comparado a estudantes do ensino médio, porém não devo ser tão bom ou experiente quanto alguém com doutorado. E agora? Meu texto é um artigo para uns e para outros não? Seria então um comentário?” (João Vicente Kurtz)

“Limitar o texto jornalístico às formas da teoria dos gêneros é cortar as asas do jornalista ou, na melhor das hipóteses, dizer para onde ele deve voar” (João Vicente Kurtz).

“Nas vanguardas não há uma separação de trabalho tipo `o poeta é poeta´, o `teórico é o crítico´. Assim, o poeta experimental é quem faz a melhor teoria da experimentação, enquanto faz a teoria, faz a sua verificação prática, e enquanto cria, faz suas elaborações teóricas” (Renato Barilli).

“Nesse sentido, pode-se lançar mão do conceito do new criticism norte-americano que dizia que a poesia válida é a `inclusiva´, que inclui o mais que pode, e não a `exclusiva´, que elimina as outras formas e linguagens” (Renato Barilli)

Retornando à reflexão, senão terei que mudar o tema. Os personagens pobres das novelas de Walcir Carrasco são leais, dignos e, na maioria, com sabedoria superior, ensinando aos ricos como viver melhor. Tanto em O Cravo e a Rosa, Alma Gêmea, Chocolate com Pimenta, Morde e Assopra como em Caras e Bocas. As protagonistas são pobres ou perderam tudo, porém o importante é a firmeza em reconquistar seus bens pelo caminho do trabalho honesto. É retratada, com muito orgulho, a origem humilde de seus personagens. Inclusive, com exaltação da linguagem peculiar dos personagens, devido ao universo em que vivem.

“O heroísmo de verdade”

Os ricos, na novela do autor Walcir Carrasco, são ridicularizados pelos seus defeitos mesquinhos, mostrados como fracos e dominados pelos vícios, principalmente, ao dinheiro. São os bárbaros. Existe um conflito claro entre as classes pobres e os poderosos. Quando muito, pobres que gostariam de viver como ricos são humilhados por estes. Esta divisão é marcante em suas obras, muito mais do que em qualquer outro autor de telenovelas. Não querendo dizer com isso que não haja personagens ricos e generosos. A maioria não o é. É como se estivéssemos assistindo a sermões de padres tempos atrás. Quando a igreja católica considerava os ricos indignos do paraíso.

Esse resgate da autoestima dos pobres, fazendo com que a pobreza não seja vista como defeito, com culpa ou vergonha por não estar na moda e nem poder participar dos bens de consumo, é socialmente relevante nos nossos dias e em nosso país, tão afeito às aparências e ao tudo posso quando tenho como comprar. Contribui para a educação, como dito no início da reflexão, pela própria declaração do autor Walcir Carrasco.

“A pobreza consiste também num compromisso, numa sociedade secreta, num juramento eterno e mudo. Os pobres não desejam apenas uma vida melhor, não, os pobres desejam autoestima, a consciência de que, por viverem uma grande injustiça, o mundo os respeita como se fossem heróis. E são heróis de fato; agora que envelheço, sei que eles são os únicos heróis, os heróis de verdade. Todo heroísmo diferente é ocasional, imposto ou vaidoso. Porém o fato de uma pessoa ser pobre durante sessenta anos e cumprir sem palavras todas as obrigações que a família, a sociedade, impõem a ela, e, ao mesmo tempo, continuar humana, reverente, quem sabe bem-humorada e piedosa, constitui o heroísmo de verdade” (do livro De Verdade, do húngaro Sándor Márai).

Precisamos reconquistar o sublime

Os valores da classe pobre precisam ser reafirmados como válidos, mesmo em um mundo capitalista. Não significando maldizer a riqueza, mas reconquistando a grandeza também da pobreza, pelos valores morais que ela tem para sobreviver em sociedade. Não estou tratando neste ponto de política, de luta entre classes. Mas, de moral, ética. Reassumir o papel dos pobres como diferencial, referência de viver com alegria, com menos pelo mais em sua fé.

Como glamourizar o ser e não o ter? A meu ver, como faz Walcir Carrasco.

“Quando um povo já não tem nenhum preconceito no sangue, só lhe resta como último recurso, a vontade de desagregar-se. Imitando a música, essa disciplina da dissolução, despede-se das paixões, da dissipação lírica, do sentimentalismo, da cegueira. A partir de então, já não poderá adorar sem ironia: o sentimento das distâncias será para sempre seu atributo” (Emil M.Cioran)

Precisamos resgatar o sentimentalismo? A consciência individual cega, necessário ter certa repulsa ao dinheiro, melhor ao seu excesso, ao vale tudo para obtê-lo. Olhar com menos respeito pelos ricos, sem pregar o preconceito, olhar mais com piedade do que com admiração. Caminhar de volta ao meio, deixar os extremos do antigo preconceito aos ricos ou do atual preconceito aos pobres. Conquistar o equilíbrio entre ter e ser.

“Toda refeição que ultrapassa em duração os escassos minutos e, em iguarias, o necessário, desagrega nossas certezas. O cristianismo apareceu: um só deus – e o jejum. E a era do trivial e do sublime começou…” (Emil M. Cioran)

Perdemos o trivial? Precisamos reconquistar o sublime.

***

[Kátia Ribeiro de Oliveira é advogada, Belém, PA]

ACONTECEU...

PALOCCI EXPULSO DE RESTAURANTE

Se esta moda pega......

Acreditem. Como as intituições não mereçem confiança, o povo toma as medidas necessárias.

Antonio Palocci, ilustre sanitarista e economista, confundindo esse curso superior com tráfego de influência junto ao PT, juntamente com familiares e amigos foram jantar no último final de semana em conhecido restaurante no bairro de V. Olimpia (R. Fidencio Ramos, 15), aqui na capital paulista, chamado Empório Ravioli.

Os demais comensais presentes começaram a reagir timidamente com a presença do espertalhão petista e, de mesa em mesa vieram nada elogiáveis apupos terminando em "Fora Ladrão!!", o que ele fez. Levantou-se e partiu com seu séquito de amigos e familiares.

E que toda a nação repita o feito, quando políticos corruptos frequentarem locais públicos. Se a população brasileira, ver-se cercada de grades em viritude da crescente violência, que forcemos aos políticos não sairem de casa.

Se, aparentemente triste pelos familiares, um simples raciocínio permite inferir do uso desses milhões por toda a família. Portanto: Bem Feito.
E que assim continue com todos os políticos picaretas.
Os paulistanos fizeram com Palocci o que toda a nação brasileira deveria fazer sempre que se apercebe lograda, roubada, ludibriada por políticos inescrupulosos, que se aproveitam do cargo público para tirar proveito para si mesmos.

CPI BRASIL

COMENTÁRIO

Realmente essa foi uma reação inédita de pessoas que preferiram fazer a sua refeição, num ambiente limpo e decente.
Não faz parte do comportamento do brasileiro atitudes desse tipo. Com toda a certeza, um indicador seguro de que alcançamos um nível de saturação, diante do cinismo e da desfaçatez dos que promovem a degradação da vida pública brasileira. Começamos a demonstrar uma intolerância com a escória da politicalha que se pratica nesse país.
Que essa intolerância possa crescer e se transformar em manifestação e passeatas cobrando medidas enérgicas do governo, para que dê um basta nessa doença que grassa no Brasil: corrupção.

QUANDO A FÊMEA SE PÕE MÍSTICA

No varejão das pequenas crendices e mandigas, homem e mulher revelam uma diferença lindamente patética: a fêmea se põe mística quando inicia o processo de abandono do seu marido ou namorado; o macho se torna o mais crente e supersticioso das criaturas de Deus apenas depois que a casa cai, depois de um belo chute no traseiro.

Quando a sua mulher ou namorada, amigo, começa a falar em retorno de Saturno, na simbologia do tarô, nos recados do feng shui etc, te liga, campeão: é pé na bunda à vista e na certa. Por trás de todo mapa astral ou de uma nova visita à cartomante há sempre um bom par de chifre à nossa espera.

Ai só nos resta chupar o frio chicabom da solidão, como me ensinou o tio Nelson. Só nos resta mascar o jiló do desprezo. Só nos cabe sentar à margem do rio Piedra e chorar, segundo a recomendação suspeita do mago Paulo Coelho, este sim um incansável místico globalizado.

Sim, amigo, a mulher é esotérica desde a véspera da tragédia. Nós batemos na porta da cigana mais vagabunda apenas depois que Inês é morta. Aqui me pego, agora mesmo, reparem no ridículo, lendo o destino e a sorte na borra de café, o velho método das Arábias.

Mais perdido do que um escoteiro nerd e lesado no Pico da Neblina, um homem é capaz de tudo. No mato sem cachorro ou GPS, o macho moderno, este cara carente de banco de praça, faz sinal de SOS até para náufragos piores do que ele. Ô vidinha-Titanic e miserável.

Opa, calma, calma, que vejo algo nos desenhos involuntários do fundo da xícara. Tento enxergar na borra do café o meu destino, a minha sorte e as escaramuças da pessoa amada, aquela maldita que nos parafusa na testa uma fantasia de viking.

Sério, amigo, como somos esotéricos depois que a casa cai.

Perai, epa, calma de novo que vejo algo bem definido no diabo da xícara. Parece uma fruta. Pera, uva, maçã? Limpo as lentes de quase dez graus de miopia e astigmatismo e finalmente decifro: uma cebola!

Retrato do meu choro e do abandono? Seria o mais óbvio e imediatista. Na dúvida, recorro ao “Guia da leitura no sedimento do café –arte milenar árabe de interpretar sua vida”, um livro da Batia Shorek e Sara Zehavi, que acabo de adquirir em um sebo carioca.

Opa, reparem só no significado da tal cebola: “Indica que a pessoa amada esconde algo do seu cônjuge e o assunto escondido é importante e pode machucá-lo”.

Neste caso nem escondia mais, já havia ido embora, estava da caixa-prego para a frente, mas reparem como funciona a leitura da borra! Como homem, apenas li atrasado o fundo da xícara. Uma fêmea mística teria sabido tudo de véspera.
xico sá


O TEMPO DA DOR


Quando senti a boca latejando, imaginei que o pior estava por vir. Havia mais de um mês o dente se quebrara quando, em vez de pipoca, mastiguei um milho. E eu protelava ao máximo a ida ao dentista.

Passava a língua e sentia a cratera formada. E tinha sempre a preocupação de dar uma boa escovada, como se isso bastasse para manter a casa limpa... Mas quando senti a gengiva pulsando, percebi que minhas festas de fim de ano poderiam ser tenebrosas. Nada como o incômodo e pontiagudo dedo do destino para me fazer caminhar.

A dor, quando não dói tanto, passa a ser muleta. Mas quando é dor doída, vira esteira, pois faz a gente sair do lugar. Assim é nas dores do corpo e da alma; tanto quanto maior o impacto e o sofrimento, maior a possibilidade de evoluir e se transformar.

Tinha também uma outra dorzinha que estava me incomodando já havia mais de ano; esta, no ombro. Mas era dor morosa, intermitente, que não me atinava a fazer coisa alguma. Só me servia de desculpa, e nunca de estímulo. Foram necessários doze meses até que eu fosse ao ortopedista me consultar. E mais um mês até que eu fizesse os exames necessários, e ainda outros dois até que eu os levasse ao doutor para escutar o diagnóstico: Tendinopatia Subescapular no ombro esquerdo. Receituário: antiinflamatório e fisioterapia. – “Não se preocupe, pois é um tratamento revolucionário, extracorpóreo”, disse o homem de branco.

O tempo passou sem que a dor o seguisse, preferindo o aconchego do meu ombro. Junto a mim, além de não ser incomodada, ganhara ainda a companhia da dor do dente quebrado.

Resolvi agir. Marquei a primeira das três sessões e descobri que o tratamento revolucionário era patenteado por um israelense sádico. Afinal, o que dizer de uma máquina que emite choques contundentes durante intermináveis 15 minutos? Não era nada comparado à via-crúcis de Cristo, mas não perdia em nada para um Rambo em mãos vietcongues.

Após a primeira sessão - não vou mentir - deu um alento danado! Fiquei feliz por perceber que as coisas mudam quando nos esforçamos para tal; até meti um sorriso na cara! E resolvi encarar o buraco no dente.

O sorriso logo se transformou em testa franzida ao escutar a avaliação da dentista: “- Ih... Quebrou até a gengiva e esse molar é muito grande; não tem como fazer nova obturação. Vou fazer um canal.”

Enquanto ela falava sobre canais e tais, não percebi o menor remorso em suas palavras. Ao contrário, senti que ela até se excitou com essa possibilidade. Com certeza era daquelas cedeéfes que gostavam de resolver cálculos complicados e que achavam História e Geografia “coisa de aluno vagal”. Era uma mineirinha feiosinha de uns 45 anos – daquelas com cara de quem sente muito prazer; de dia trabalhando; de noite gozando.

Coincidência ou não, foram necessárias três sessões para extirpar até o último nervo de meu ex-sólido molar. Ora estava na cadeira da dentista, entre anestesias e angústias, ora estava na cadeira do fisioterapeuta, entre eletro-choques e enfermeiras sorridentes. O doutor Roberpaulo parecia muito interessado na máquina de tortura israelense, pois olhava para ela com uma doçura que não dispensava às moças. Já na segunda sessão, me elogiou e disse, calmamente, que aumentaria a voltagem: - “Já podemos começar com o 'nível II', pois você resistiu bem!...”, exclamou! “Acho que dá para chegar ao quinto nível ainda hoje!”

- O senhor é de Minas?, perguntei.
- Não, mas fiz minha especialização em Belo horizonte. Nasci em Piracanjuba, no Goiaz...
- Conheço! Próximo a Caldas Novas. Tem uma pracinha bonitinha, com coreto e charrete para os turistas, não é? Ambiente tranqüilo...
- Já foi assim. Hoje tá cheia de maconheiro... Depois que a droga chegou lá, a meninada só que fazê fumaça.
- Normal...

De vez quando, a máquina se irritava e soltava uma carga elétrica duas, ou até três vezes mais potente! Aquilo doía. Dava vontade de bater em alguém, de tanta raiva. Mas o Doutor Roberpaulo olhava para sua máquina com tanto apreço que eu me compadecia e logo esquecia, voltando ao conversê sobre o fumacê.

Pensava em chegar ao fim do ano “novinho”, sem problemas de saúde, reciclado. Mas fatos novos apareceram para enaltecer minha provação.

Era dia de festa, churrasco e bebedeira. Música de qualidade. Pôr do Sol. Fotos lindíssimas de reflexos solares e sombras inebriadas. De repente, o som, o batuque na madeira, a excitação e um maldoso prego de ponta-cabeça na palma da mão. Sangue, decepção.

Hospital, espera, injeção.

Não há de ser nada. Ademais, eu havia de estar preparado e bem disposto para fazer a mudança. Dois amigos, no entanto, não foram suficientes para amainar o peso do fogão – um legítimo Brastemp, 6 bocas, de 35 primaveras. O mal jeito me pegou bem, e minha coluna amanheceu enferma. Logo a dor de alojou entre as costelas e bastava respirar para que eu visse estrelas. Sorte que o antiinflamatório do Doutor Roberval ainda fazia efeito: servia para o ombro bichado, para o dente estragado, para a mão perfurada e, agora, para a coluna entrevada.

Uma dor me fazia esquecer a outra. Mas esta nova, a da costela, me deixava triste, de querer chorar e chamar pela mãe. Logo eu, que sempre adorei dar um espirro gutural, não podia sequer pensar em bocejar! Parecia a seta do demônio rasgando minhas vísceras!

Logo, surgiu a idéia de que poderia ser gazes. O remédio que comprei era gostosinho – de framboesa – e me fez soltar um monte de puns. Mas a dor permaneceu ainda por uma semana. Perdi boas horas de sono por conta dela.

Então, de repente, não mais que de repente. Todas elas sumiram! O dente está restaurado, a mão curada, o ombro recuperado e a costela enjeitada.

Um novo ano se avizinha, e ainda que eu não tenha a mesma empolgação de menino, estou com o espírito renovado. Não somente em 2010, mas em 2000 e sempre, estarei presente; mais contente e resistente. Não por conta do corpo, que padecerá inexoravelmente, mas pela experiência vivida, pelas coisas passadas e aprendidas.

Viver dói, mas é gostoso demais.

Vislumbrado por O Maltrapa

DEYSI ESTELA CORI TELLO



Obviamente que o polonês Dariusz Swiercz não estava sozinho na premiação em Chennai, na Índia. No dia 16 de agosto também tivemos uma nova campeã do mundo de xadrez júnior (sub 20). Ela é... sul-americana.


Deysi Estela Cori Tello (Lima, Peru, 2/7/1993), detém o título de WMF (Grande Mestra Internacional), a mais jovem da América.


O maior orgulho do povo pensante andino, deve sua consagração unicamente ao próprio esforço, uma vez que no Peru, como no Brasil, o Estado (os patrunfos) é indiferente ao jogo ciência-arte, deixando ao abandono as suas crianças, tratando de empurrar somente futebol para distrair e empulhar a massa.


Não por acaso tem um irmão, Jorge Cori (30/7/95), o mais jovem Grande Mestre da história, aos 14 anos, superando a Bobby Fischer.


E têm boca. Após inúmeros sucessos no exterior, de deixar o mundo de queixo caído, mas sempre passando em branco em seu país (a imprensa é igualzinha a nossa, propriedade de patrunfos maus), ao se tornarem campeões mundiais, ela sub 16 e ele sub 14, recebidos no aeroporto por uma multidão (no xadrez 200 pessoas é multidão de arrepiar) deram bombástica entrevista.


Ela disse: “Espero que este éxito que acabo de lograr concientice a las autoridades del Perú porque tenemos buenos talentos que muchas veces se pierden por falta de apoyo. No todo es fútbol".
Jorge arrematou: "Quiero hacerle un llamado al presidente. Quisiera que nos reciba en Palacio de Gobierno. No lo hizo cuando gané la vez anterior. Seguro un Mundial escolar no era suficiente. Yo creo que ahora me lo merezco”!
Xeque-mate. O patrunfo Alan Garcia não teve alternativa.


Deysi é uma menina cuja maior emoção e recompensa é ouvir o hino nacional nas cerimônias de premiação. Nesses momentos, jamais esquece de agradecer aos pais o apoio e incentivo.


São os "Niños de Oro" do Peru. O nome Cori, em quéchua, casualmente é... ouro.


Salud, Niña de Oro. Bravo!

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

ANGAWA!



Alexandre leva a vida muito às claras.

Vive com sua namorada, mas também vive dizendo a ela que é “muito safado”. Alexandre gosta de todas as mulheres do mundo. Ele é muito sincero; canalha, mas sincero.

Sua namorada está sempre fora, trabalhando. Já ele, está quase sempre em casa, pelo jardim, olhando a paisagem pelo espelho do seu próprio olhar. Quando ela volta para casa, ele lhe dá pouca atenção, quase nenhuma; prefere ficar fumando maconha com seus amigos vizinhos.

Ela fica dentro de casa, resignada, preparando algo de gostoso para quando Alexandre ficar com fome. E quando fica realmente muito tarde e as luzes de sua casa já estão apagadas, Alexandre fala, com sinceridade: “Melhor eu entrar...”. Ele é muito sincero.

Alexandre gosta muito de mulheres. Está sempre a elogiá-las. Ele elogia todas as mulheres que passam pelo seu jardim; elogia as amigas dos vizinhos. E as namoradas deles. E também suas esposas. Enquanto fala marotamente delas, Alexandre deixa escapar uma malícia infantil por meio de um semi-sorriso. Mas Alexandre não é muito expressivo; ele é apenas sincero.

O cachorro do vizinho gosta muito de Alexandre. Este, sempre que o vê, olha fixamente em seus olhos e diz, repetidamente: “Angawa! Angawa! O cão entende a sinceridade de Alexandre, mas não tem a mínima idéia do que “Angawa” quer dizer...

Alexandre não é de muitas palavras. Ele é apenas sincero.

Diz que já viveu com duas mulheres, ao mesmo tempo – ele adora mulheres:

- “No começo era o Paraíso... Mas depois virou o Inferno!”-, conclui, com cara de quem não sabe o porquê... Fingindo... Alexandre parece um menino. Finge que não sabe, mas sabe. Alexandre é um menino safado, mas sincero.

Além de copular e pitar, Alexandre gosta de cheirar. Rapé.
Gosta de mulher, mas quando se trata da sua, primeiro vem a erva, depois o rapé, e só depois sua mulher.

Além de ser maconheiro, mulherengo e rapezeiro, Alexandre é também muito trabalhador e prestativo. Está sempre a ajudar os vizinhos, solicitamente. Quando não está pitando, cheirando, copulando ou comendo, Alexandre está trabalhando na limpeza da fossa ou esburacando a terra. Alexandre é muito sincero e trabalhador.

Por essas qualidades, sua namorada quer se casar com ele, mas ele recusa. Como já disse, Alexandre é muito sincero. Angawa!
Vislumbrado por O Maltrapa

PARA TIRAR A CULPA DA COMILANÇA

Da série modos de macho

O medo da fêmea diante da balança. Sim, você, amigo, sai com a pequena e ela só belisca, qual um passarinho, uns saudáveis farelos ou engole umas folhinhas sem graça. Que desgosto. Você caprichou na escolha do restaurante, acordou com água na boca por um prato que só você sabe onde encontrá-lo, quer fazer uma presença, fazer bonito com a cria da sua costela.

Que desgosto, a gazela mira o ambiente com “nojinho”, de tão fresca. Uma estraga-prazeres, eclipse de um belo sabadão ensolarado.

Ah, nada mais bonito do que uma mulher que come bem, com gosto, paladar nas alturas, lindamente derramada sobre um prato de comida, comida com sustança. Os olhinhos brilham, a prosa desliza entre a língua, os dentes, sonhos, o céu da boca. Ela toma uma caipirinha, a gente desce mais uma, sábado à tarde, nossa doce vida, nossos planos, mesmo na velha medida do possível.

Pior é que não é mais tão fácil assim encontrar esse tipo de criatura. Como ficou chato esse mundo em que a maioria das mulheres não come mais com gosto, talher firme entre os dedos finos, mãos feitas sob medida para um banquete nada platônico.

Época chata essa. As mulheres não comem mais, ou, no mínimo, dão um trabalho desgraçado para engolir, na nossa companhia, alguma folhinha pálida de alface. E haja saladinha sem gosto, e dá-lhe rúcula!

A gente não sabe mais o que vem a ser o prazer de observar a amada degustando, quase de forma desesperada, um cozido, uma moqueca, uma feijoada completa, uma galinha à cabidela, massa, um chambaril, um sarapatel, um cuscuz marroquino/nordestino, um cabrito, um ossobuco, um bife à milanesa, um tutu na decência, mocotó, um baião de dois, uma costela no bafo, abafa o caso!

Foi embora aquela felicidade demonstrada por Clark Gable no filme ''Os Desajustados'', quando ele observa, morto de feliz, Marilyn Monroe devorando um prato de operário. E elogia a atitude da moça, loa bem merecida.

Além do prazer de vê-las comendo, pesquisas recentes mostram que as mulheres com taxas baixíssimas de colesterol costumam ser mais nervosas, dão mais trabalho em casa ou na rua, barraco à vista, intermináveis discussões de relação... Nada mais oportuno para convencê-las a voltar a comer, reiniciá-las nesse crime perfeito.

Moças de todas as geografias afetivas e gastronômicas, aos acarajés, às fogazzas, aos pastéis, aos cabritos assados e cozidos, ao sanduíche de mortadela, à dobradinha à moda do Porto, ao lombo -de lamber os lábios!-, ao churrasco de domingo para orgulho do cunhado que capricha na carne e sabe a arte de gelar uma cerva. E aquela fava, meu Deus, com charque, enquanto derrete a manteiga de garrafa, último tango do agreste.

O importante é reabrir o apetite das moças, pois, repito, senhoras e senhores, o velhíssimo mantra: homem que é homem não sabe sequer -nem procura saber- a diferença entre estria e celulite.

Até a próxima e desejo a todas as mulheres um final de semana com muita gula e todos os pecados capitais possíveis. Sem culpa, meninas!

& MODINHAS DE FEMEA

Um dos momentos mais simples, delicados e bonitos de uma mulher é aquele instante em que a sandália fica suspensa entre o pé e o ar, quase caindo mesmo, em um equilíbrio milagroso da distração feminina. A visão perfeita dos dedos e da curvatura da sola do pezinho. Meu Deus do céu. Nada mais sexy e sedutor para quem sabe apreciar.

Escrito por xico sá

AH! MULHERES...