É preciso entender um pouco da história do homo sapiens, para compreender que conversa de botequim não tem leme. É uma espécie de barco à vela. Ela vai pra onde sopra o vento. E não adianta querer seguir numa direção, se o vento sopra em outra.
Essa "tese" foi o resultado de uma longa conversa com o Macarrão.
Eu já falei do Macarrão? Pois é. No dia desse papo, Macarrão estava um tanto quanto irritado. Fora jogar sinuca no Boteco do Libório, e lá resolvera citar Pascal. E conversa daqui, rola prali, Pascal pra frequentador de boteco e a capital do Curdistão, é aquela história: ninguèm sabe o que é e menos ainda onde fica.
O Macarrão, leitor assíduo de Blaise Pascal, irritou-se, e danou a falar da miserabilidade do ser humano, da sua efemeridade, do brevíssimo tempo de sua vida; e ainda por cima resolveu citar uma passagem do poeta Brecht, aquela do círculo de giz.
Disse Macarrão pra uma platéia absolutamente desinteressada, que eles eram como aquele peru do Brecht. A parte os malentendidos, que quase gerou porrada, sobrou um tempo pro Macarrão explicar.
O peru a que ele se referia, era aquele de uma peça de teatro do B. Brecht: o peru, no meio de um círculo de giz, não conseguia pular e evadir-se.
O velho Libório, já escaldado com porradaria, polícia e prejuízo, observava de longe.
Mas aquela de círculo de giz, peru, prisão, e a burrice do peru, prendeu a atenção dos bebuns. E Macarrão explicou a simbologia do círculo. Não representava ele nenhum impedimento para que o peru se evadisse na direção que quisesse. O problema era o peru entender que bastava passar por cima do risco de giz.
Assim era o problema da mediocridade. Como um círculo de giz, aprisiona muita gente incapaz de entender que basta um passo para passar para o outro lado. Silêncio total. Macarrão observando a cara do pessoal, sem reação e sem entendimento do que fora dito. Continuavam presos no círculo de giz.
"Mas é essa a tua irritação, Macarrão?" - perguntei. E ele sério, entornando guela abaixo o último gole, disse: veja se você pula o círculo de giz!
Lili se acomodou melhor na cadeira. Suspiro fundo. Olhou pro pessoal com carinho.
- Fiquei triste vendo esse papo. Tenho estado dentro de um círculo de giz ha muito tempo.
Acho que vou tomar uma cachaça para pensar a respeito.
Macarrão, um sentimental que oculta o coração, porque pensa que homem não pode ter essas fraquezas, brincou:
- Toma duas logo duma vez, sô! Uma por mim... Pensando melhor, toma três: duas por mim!
Lili sorriu. Vou tentar uma variante desse peru idiota.
Uma variante do circulo de giz: água quente.
Vários estudos sobre comportamento animal demonstram que um sapo colocado num recipiente com a mesma água de sua lagoa, fica estático durante todo o tempo em que aquecemos a água, mesmo que ela ferva. O sapo não reage ao gradual aumento de temperatura (mudanças de ambiente) e morre quando a água ferve. Inchado e feliz.
Por outro lado, outro sapo que seja jogado nesse recipiente com a água já fervendo salta imediatamente para fora. Meio chamuscado, porém vivo.
As vezes, somos sapos fervidos. Não percebemos as mudanças. Achamos que está tudo muito bom, ou que o que está mal vai passar - é só questão de tempo. Estamos prestes a morrer, mas ficamos boiando, estáveis e apáticos, na água que se aquece a cada minuto. Acabamos morrendo inchadinhos e felizes, sem termos percebido as mudanças a nossa volta.
Bochecha deu um gole na cerva, e disse:
- Sapos fervidos não percebem que além de ser eficientes, têm que fazer as coisas. E, para que isso aconteça, há necessidade de um continuo crescimento, com espaço para o diálogo, para a comunicação clara, para dividir e planejar, para uma relação adulta.O desafio ainda maior está na humildade em atuar respeitando o pensamento do próximo.
Lili cortou o incompreensível discurso do Bochecha:
Há sapos fervidos que acreditam que o fundamental é a obediência, e não a competência: manda quem pode, e obedece quem tem juízo.
E, nisso tudo, onde está a vida de verdade? É melhor sair meio chamuscado de uma situação, mas vivos e prontos para agir.
Olhei pra Lili, servi seu copo com mais cerveja, acrescentando:
- Sabe Lili, acho que ocê num seguiu o meu conselho e tomou pra lá de uma... Inclusive tomou as minhas. Santa Brígida! Que sermão! Mas ocê me perdoa as ponderações abaixo? Eu perdoei ocê, por causa daquela poesia chinfrim (parece até auto-ajuda!). Aliás quem devia me perdoar era ocê. Mas eu vou saber quem é o anònimo daquela merda...
Isso de morrer inchado e feliz só porque foi fervido no seu habitat, ficou estranho pra caraca! Veja ocê: o 'sapo barbudo' ficou inchado e feliz, na fervura do Planalto, mas não morreu... Continua aí, pulando, vivim... vivim, por cima de tudo!
Tá certo que mudou o seu habitat, passou a tomar champanhe sem abandonar a pinga, jogar futebol na Granja do Torto (Quem seria o Torto?), mudou o seu habitat da fábrica para o palácio... mas até aí morreu o Neves afogado em cuspe!
Agora, se ferver antes o habitat do sapo e jogar o safado lá, quando estiver borbulhando, tu vai ver só o salto que o danado vai dar!!! Pode inté sair com o rabo chamuscado, mas eu garanto que morrer inchado e feliz... nunquinhas! Mas cientista é assim mesmo... Depois que o sapo pular, eles vêm com outra teoria...
Macarrão atalhou, enfático:
- E sapo inchadinho e feliz morrendo numa boa, só se for sapo rico, com a barriga cheia de insetos saborosos. Sapo pobre (e quase que eu digo sapupara!), tá sempre pulando pra num morrer de fome ou deixar a cobra morrer. E não precisa nem ferver a água. Só de riscar o fósforo ele já espanta carreira!
Tomei a palavra do Macarrão, e continuei:
- Minha amiga Lili, não se pode levar a vida muito a sério. Meu amigo Voltaire, ensinou-me muito cedo a rir das tolices humanas. Flaubert também não deixou barato, para não falar de Anatole France.
Fiquei tão ressabiado, que adotei alguns lemas, sem esnobismo. Nada de lema em francês, alemão, inglês que ninguém entende, mas acha inteligente pacas!
1. Tudo na vida é passageiro, menos motorista e trocador. (Anônimo)
2. Tudo passa, até uva passa. (Anônimo)
3. Formei-me em Letras, e na bebida busco esquecer (L.F.Veríssimo)
Juro que nunca mais eu falo em círculo de giz com ocê. Quem vai tomar umas agora sou eu. Santa Brígida
M. AMERICO
Podem ser anotações casuais de um passante, porque quando começamos nossa jornada, não distinguimos bem a paisagem. Ela sempre nos surpreende. Desconhecemos aonde nos pode levar o caminho. Não o escolhemos... Perambular é o próprio caminho. Uma narrativa do destino que desenhamos inconscientemente. O que pretendo? Tecer algumas considerações fora da mesmice, e pinçar alguns textos curiosos que despertem a paixão...
terça-feira, 6 de setembro de 2011
TENHO SAUDADES DE MIM
Estava a ler o texto de Adauto Novaes (nosso filósofo sem torre de marfim) sobre a preguiça - tema de seu seminário/livro atual. Na realidade, são estudos sobre a lentidão, neste mundo cada vez mais veloz. E,
aí, tive saudades da calma, do princípio, meio e fim, tive saudade das "geladeiras brancas e dos telefones pretos", das manhãs, tardes e noites, separadas pela luz que se coloria do rosa ao negro e se apagava aos poucos, tive saudade das mortiças casas de família, até da infelicidade de antigamente - de novela de rádio -, de lágrimas furtivas, dos casais com olhos sem luz, depois de casamentos esperançosos com buquês arrojados para um futuro que ia morrendo aos poucos.
Estou com saudades de tudo. De mim, inclusive. "Saudades" ou "saudade"? Tenho saudade (s) de meu velho professor de português, magrinho, irritadiço e doce, Luis Vianna Filho, que me bradava:
"O senhor não tem acento circunflexo!", apontando meu nome que meu avô árabe registrara "Jabôr". E continuava:
"Jabor é o certo. A única palavra dissílaba da língua terminada em "or" que tem circunflexo é "redôr", para diferenciar de "redor, em volta de", pois redôr é o pobre-diabo que fica puxando o sal nas salinas, com um rodo".
Lembrei-me dos miseráveis "redôres" de Cabo Frio, lembrei de minha juventude quando achei, por acaso, uma velha fotografia de jornal, em preto e branco, da passeata dos Cem Mil em 1968 na Cinelândia.
No meio da multidão da foto, vi emocionado um pequeno rosto granulado - eu mesmo, ali, sentado no chão, ouvindo os discursos de Vladimir Palmeira e (talvez) de Dirceu -, bonito, cabelo longo, hippie guerreiro.
Tive uma nostalgia do passado até com a recente "reprise" de José Dirceu na mídia como poderoso chefão dos soviéticos que, aliás, aproveitaram os últimos escândalos para reciclar o lixo bolchevista de "controlar a Imprensa". (Eles não desistem).
Fiquei nostálgico porque Dirceu era também uma sobrevivência do passado em minha vida. E tive uma bruta saudade da utopia. Sempre critiquei o Dirceu porque ele, do passado em preto e branco, tinha querido invadir o presente com uma subversão regressista, que poderia nos jogar de volta a um tempo morto.
Muito mais do que os milhões desviados do "mensalão", critiquei-o ideologicamente, porque ele liderava uma tendência, viva ainda hoje, de se "tomar o Estado", "desapropriando" o dinheiro público pelo "bem do povo". Dirceu caiu por uma tentativa que mais uma vez falhou, em nossa esquerda de trapalhões, como foi em 63 ou em 68, no Congresso de Ibiúna.
Mas, mesmo assim, fiquei com saudade de mim mesmo. Tenho saudade de mim ali, com o rosto cheio de esperança na passeata, achando que mudava a história e que o mundo era fácil de mexer.
Como eu gostaria de explicar aos jovens de hoje o que era a infalível "certeza" daquela época remota, o que era a delícia de viver sentindo-se no "bom caminho", na "linha justa", salvando o futuro. Hoje, ninguém sabe o que era o sentimento de harmonia, de totalidade, em um mundo fragmentado e frio.
Hoje, os meninos vivem em galáxias de informações, quando não há mais lugar para "A Verdade". Os jovens que nascem no grande deserto virtual não sabem que vivíamos num rio que corria para o futuro, em direção a uma felicidade completa, com lógica, com Sentido. Tenho saudade do futuro que hoje se espraia como uma grande enchente suja, sem foz, um deserto sem ponto final. Hoje sabemos que não há mais futuro nem chegada - só caminho.
Tenho saudade do amor da juventude, da minha namorada comunista - nós dois no sofá-cama do "aparelho" clandestino do PCB em Copacabana, o sofá-cama rasgado, com a mola aparecendo, onde nos amávamos antes da reunião da "base" com medo que chegasse o supervisor, um "camarada" com um doce nariz de couve-flor rosado e tristes sapatos pretos com meias brancas, que nos falava, melancólico, do imperialismo norte-americano. Tenho saudades dela, linda, corajosa, no apartamentinho com o cartaz dos girassóis do Van Gogh e uns livros da Academia Soviética, numa prateleira sobre dois tijolos.
Para nós, comunas, até a morte era pequena, como nos ensinava o camarada de nariz rosado:
"O marxismo supera a morte, pois uma vez dissolvido no social, o indivíduo perde a ilusão de existir como pessoa. Ele só existe como espécie. E não morre!" E eu, marxista feliz, sonhava com a vida eterna...
Tenho saudade das madrugadas cheias de esperança, as madrugadas políticas, a boemia de esquerda, soldados de uma guerra imaginária. Meu Deus, como eu era importante, como me senti útil quando ajudei um pouco a luta armada, quando levei no meu fusca um casal de feridos sangrando no banco de trás, até um "aparelho", quando o líder da célula pegou o volante e eu fui ao lado, de olhos fechados para não saber onde estávamos - se bem que espreitei pela fresta das pálpebras e vi o casal mancando em direção a um prédio.
Tenho saudades dessa trágica solidariedade, mas tremi nesse dia, pois comecei a entender que não havia apenas um deserto à nossa frente, mas uma avalanche de obstáculos imensos e que íamos acordar de um sonho para um pesadelo.
Entendi que éramos fracos demais para moldar a realidade e que a vontade não bastava, pois as coisas comandavam os homens e a vida tem um curso próprio e misterioso.
Entendi que ser político e lutar pelo futuro exige vagar e respeito pela insânia do mundo e que a tragédia é parte essencial da vida e que tentar saneá-la pode levar-nos a massacres piores.
Entendi que luta política se faz com humildade e que só a democracia é revolucionária no Brasil. Fora isso, é o desastre.
Mas, tenho saudade da mistura de poesia com revolução que era nossa vida, tenho saudade desse narcisismo onipotente e inocente, tenho saudade da esperança e da ilusão.
Arnaldo Jabor, O Estado de S. Paulo
aí, tive saudades da calma, do princípio, meio e fim, tive saudade das "geladeiras brancas e dos telefones pretos", das manhãs, tardes e noites, separadas pela luz que se coloria do rosa ao negro e se apagava aos poucos, tive saudade das mortiças casas de família, até da infelicidade de antigamente - de novela de rádio -, de lágrimas furtivas, dos casais com olhos sem luz, depois de casamentos esperançosos com buquês arrojados para um futuro que ia morrendo aos poucos.
Estou com saudades de tudo. De mim, inclusive. "Saudades" ou "saudade"? Tenho saudade (s) de meu velho professor de português, magrinho, irritadiço e doce, Luis Vianna Filho, que me bradava:
"O senhor não tem acento circunflexo!", apontando meu nome que meu avô árabe registrara "Jabôr". E continuava:
"Jabor é o certo. A única palavra dissílaba da língua terminada em "or" que tem circunflexo é "redôr", para diferenciar de "redor, em volta de", pois redôr é o pobre-diabo que fica puxando o sal nas salinas, com um rodo".
Lembrei-me dos miseráveis "redôres" de Cabo Frio, lembrei de minha juventude quando achei, por acaso, uma velha fotografia de jornal, em preto e branco, da passeata dos Cem Mil em 1968 na Cinelândia.
No meio da multidão da foto, vi emocionado um pequeno rosto granulado - eu mesmo, ali, sentado no chão, ouvindo os discursos de Vladimir Palmeira e (talvez) de Dirceu -, bonito, cabelo longo, hippie guerreiro.
Tive uma nostalgia do passado até com a recente "reprise" de José Dirceu na mídia como poderoso chefão dos soviéticos que, aliás, aproveitaram os últimos escândalos para reciclar o lixo bolchevista de "controlar a Imprensa". (Eles não desistem).
Fiquei nostálgico porque Dirceu era também uma sobrevivência do passado em minha vida. E tive uma bruta saudade da utopia. Sempre critiquei o Dirceu porque ele, do passado em preto e branco, tinha querido invadir o presente com uma subversão regressista, que poderia nos jogar de volta a um tempo morto.
Muito mais do que os milhões desviados do "mensalão", critiquei-o ideologicamente, porque ele liderava uma tendência, viva ainda hoje, de se "tomar o Estado", "desapropriando" o dinheiro público pelo "bem do povo". Dirceu caiu por uma tentativa que mais uma vez falhou, em nossa esquerda de trapalhões, como foi em 63 ou em 68, no Congresso de Ibiúna.
Mas, mesmo assim, fiquei com saudade de mim mesmo. Tenho saudade de mim ali, com o rosto cheio de esperança na passeata, achando que mudava a história e que o mundo era fácil de mexer.
Como eu gostaria de explicar aos jovens de hoje o que era a infalível "certeza" daquela época remota, o que era a delícia de viver sentindo-se no "bom caminho", na "linha justa", salvando o futuro. Hoje, ninguém sabe o que era o sentimento de harmonia, de totalidade, em um mundo fragmentado e frio.
Hoje, os meninos vivem em galáxias de informações, quando não há mais lugar para "A Verdade". Os jovens que nascem no grande deserto virtual não sabem que vivíamos num rio que corria para o futuro, em direção a uma felicidade completa, com lógica, com Sentido. Tenho saudade do futuro que hoje se espraia como uma grande enchente suja, sem foz, um deserto sem ponto final. Hoje sabemos que não há mais futuro nem chegada - só caminho.
Tenho saudade do amor da juventude, da minha namorada comunista - nós dois no sofá-cama do "aparelho" clandestino do PCB em Copacabana, o sofá-cama rasgado, com a mola aparecendo, onde nos amávamos antes da reunião da "base" com medo que chegasse o supervisor, um "camarada" com um doce nariz de couve-flor rosado e tristes sapatos pretos com meias brancas, que nos falava, melancólico, do imperialismo norte-americano. Tenho saudades dela, linda, corajosa, no apartamentinho com o cartaz dos girassóis do Van Gogh e uns livros da Academia Soviética, numa prateleira sobre dois tijolos.
Para nós, comunas, até a morte era pequena, como nos ensinava o camarada de nariz rosado:
"O marxismo supera a morte, pois uma vez dissolvido no social, o indivíduo perde a ilusão de existir como pessoa. Ele só existe como espécie. E não morre!" E eu, marxista feliz, sonhava com a vida eterna...
Tenho saudade das madrugadas cheias de esperança, as madrugadas políticas, a boemia de esquerda, soldados de uma guerra imaginária. Meu Deus, como eu era importante, como me senti útil quando ajudei um pouco a luta armada, quando levei no meu fusca um casal de feridos sangrando no banco de trás, até um "aparelho", quando o líder da célula pegou o volante e eu fui ao lado, de olhos fechados para não saber onde estávamos - se bem que espreitei pela fresta das pálpebras e vi o casal mancando em direção a um prédio.
Tenho saudades dessa trágica solidariedade, mas tremi nesse dia, pois comecei a entender que não havia apenas um deserto à nossa frente, mas uma avalanche de obstáculos imensos e que íamos acordar de um sonho para um pesadelo.
Entendi que éramos fracos demais para moldar a realidade e que a vontade não bastava, pois as coisas comandavam os homens e a vida tem um curso próprio e misterioso.
Entendi que ser político e lutar pelo futuro exige vagar e respeito pela insânia do mundo e que a tragédia é parte essencial da vida e que tentar saneá-la pode levar-nos a massacres piores.
Entendi que luta política se faz com humildade e que só a democracia é revolucionária no Brasil. Fora isso, é o desastre.
Mas, tenho saudade da mistura de poesia com revolução que era nossa vida, tenho saudade desse narcisismo onipotente e inocente, tenho saudade da esperança e da ilusão.
Arnaldo Jabor, O Estado de S. Paulo
REFLEXÕES DE UM DIVAGANTE
Pedi silêncio na mesa. A discussão girava em torno do Zédirceu e sua quadrilha. O papo era gigante e ruidoso. Macarrão, Bochecha, Suspiro... A turma bradava aos infernos...
Xibungo, o vira-lata de estimação da mesa, rondava a espera de uma sobra dos petiscos. Um linguicinha caia bem naquele momento. Com seus olhos pidões, amolengava os nossos corações.
Aproveitei a 'deixa' e mandei os versos:
A compreensão que você reivindica a cada passo...
Depende de você!
A bondade que você admira nas pessoas e sonha possuir...
Depende de você!
A abertura que é o caminho para a renovação...
Depende de você!
A realização que você julga essencial...
Depende de você!
O amor que você quer encontrar nos outros...
Depende de você!
A organização que você apregoa...
Depende de você!
Macarrão olha para mim, surpreso com a bonomia pouco habitual do discurso e pergunta:
- Você sonhou com os anjos? Me permita discordar dessas palavras cheias de encantamento, ainda que doa fazer isso com a poesia...
Bochecha atravessa a fala de Macarrão:
- Isso deve ser alguma paixão!
Macarrão continua, apesar do riso matreiro de Bochecha.
- Mas eu acho que tem coisa que depende dos outros. A gente não consegue ser bonito se ninguém acha que a gente é. Não dá para ser admirador de determinado autor se não há outra referência, algum tipo de concordância.
E vou mais longe! Acho que a gente pode até morrer se for rejeitado demais. Eu sei porque sou criador de mula-sem-cabeça, e o bicho está em extinção por causa de um tipo de rejeição moderna.
Os padres não gostam mais de mulheres. Agora só gostam de crianças, quer dizer, não nasce mais mula-sem-cabeça nessa terra. Mas isso é apenas um exemplo.
Tomou um golaço de cerva, pra aliviar a goela.
- Ser o patinho feio o tempo todo não é saudável. Não depende só da gente mudar isso.
O homem é um animal social, precisa da aprovação do outro para se sentir bem (pelo menos de alguns). Se um dia o bicho não vira cisne, e arranca olhares estupefatos de pelo menos parte da platéia, morre de desgosto. Já vi acontecer.
Olhei para o Macarrão e sem refletir sobre as suas palavras, defendi-me:
- Um homem não pode devanear? Um homem não tem o direito de vagar por outros páramos, sem que lhe caiam em cima de paulada? Sei do que você está falando, Macarrão. E você Bochecha fique sabendo que nem tudo nessa vida é paixão por mulher! De vez em quando, um homem fica com o saco cheio dessa realidade pequena, mesquinha, que nos achata, nos apequena. Um gole de poesia é tão confortador como um gole de cerveja... E o que devemos aos poetas, não tem paga nesse mundinho de Deus. São a luz do mundo. Como as crianças, cujos sorrisos são intraduzíveis e enchem o mundo de alegria.
Lancei um naco de linguiça pro xibungo, que pegou no ar.
Macarrão atalhou:
- Até pode ser. É apenas uma questão de espírito, de momento. Agora, por exemplo, eu prefiro uma cerva gelada à poesia domesticada que você decantou. E quer saber? Zédirceu no momento é muito mais importante! Poesia não vai devolver a vida pública o que os ladrões estão tirando...
Cortei:
- Não. Não quero saber. Viva a cerveja que nos afaga o sentido. E a poesia! E o Zédirceu... Cadeia nele!
M. AMERICO
QUAL A IMPORTÂNCIA DO ACASO EM NOSSAS VIDAS?
Já estávamos, eu, Macarrão e Bochecha na bodega do Libório, e lá pelas tantas, não me recordo bem qual foi o incidente que nos conduziu a discutir sobre o 'aleatório' em nossas vidas.
Ah! sim, eu havia narrado uma pequena historinha sobre um cidadão que ganhou um grande prêmio, numa dessas loterias da vida. Perguntado numa entrevista - sim! porque ganhar uma grana preta da noite pro dia, pode fazer e com certeza fará, que você seja uma celebridade! - se ele tinha algum método ou usado algum recurso matemático para ganhar a 'bolada'.
E ele respoondeu: "Ah! eu usei um método matemático, com certeza! Vejam vocês... Sonhei com o número 7 durante 7 noites seguidas. Aí eu pensei: bem... 7 vezes 7 é 48. Não tive dúvidas... Mandei ver no número 48!"
Realmente ele usou um método matemático... Se ele tivesse estudado um pouquinho mais, com certeza não se tornaria uma celebridade! Ele teria jogado no 49!
Isso é ou não é um fator absolutamnte aleatório? - perguntei pros meus amigos.
Concordamos. Pedimos outra gelada e continuamos nosso papo, garganta lubrificada e feliz.
A aleatoriedade marca a vida de uma maneira mais assustadora do que pode sonhar a nossa rica imaginação.
Leio em L.Mlodinow que o fato de lançarmos uma moeda diversas vezes para o alto e o resultado der cara seguidamente, não significa que a moeda tenha duas caras...
No ano de 1950 um certo livro foi rejeitado por vários editores, que o classificaram como maçante e desinteressante para o momento. A história da 2ªguerra já era passado... e o livro não teria a menor chance.
O livro era nada mais nada menos que "O diário de Anne Frank", que vendeu 30 milhões de cópias, uma das obras mais vendidas da história.
Estávamos os três convictos de que as nossas vidas são determinadas por fatores absolutamente estranhos a nossa vontade, por mais que julguemos que a decisão esteja em nossas mãos.
Macarrão ponderou: será que estamos condenados a um lance de moeda? Se der 'cara' ganhei... 'coroa' perdi?
Bochecha deu um gole e arremessou a moeda para o alto. Na palma da mão: Coroa! Perdemos...
Dizem que o aleatóro traz o cais e o caos. E mais,dizem que o que ele dá, nada tira.
Pondero:
Segundo a análise combinatória, se for uma moeda perfeitamente fabricada e os dois lados tiverem peso e tamanho iguais, cada qual tem uma porcentagem igual de chance de cair.
Então acho que a vida não é uma moeda com proporções perfeitas.
Cara ou Coroa?
Nem uma flor com pétalas contáveis, pra adivinhar o que dirá a ultima pétala a cair no chão.
Bem-me-quer? Mal-me-quer?
Talvez, eu só tenha bebido demais.
Acho que minhas palavras estão saindo gaguejadas e as que ouvi vão flutando surreais.
Lili, recém-chegada, entra no papo:
Esse negócio de acaso é um pouco doloroso. Sempre penso, e se naquele dia, em que eu estava no aeroporto, pronto para voltar para casa, tivesse acontecido um tufão, o espaço aéreo fechado, e eu não pudesse nunca mais voltar para cá?
... E se não estivesse naquela hora, naquele lugar, em que aconteceu aquela incidente que mudou totalmente a minha vida?
Ah, é muito assustador pensar nisso. E tem a inutilidade da coisa também, porque a gente não pode voltar e fazer diferente. Tem que conviver com a dor das escolhas, a dor do acaso. Talvez o antídoto seja mesmo a determinação:
Nada menos que cinco editoras recusaram os manuscritos do Harry Potter antes que fosse publicado; os Beatles foram recusados em várias gravadoras, e até mesmo Beethoven foi considerado um fracassado sem talento por algum tempo.
Bochecha pondera:
Esses não aceitaram a, digamos, inexorabilidade da coisa. Eu também não aceito.
Macarrão da um gole, olha à roda da mesa, e diz:
A infindável lista dos que foram vencidos, pelo aleatório.
John Kennedy Toole, perdeu a esperança de algum dia ter seu romance publicado e suicidou-se. Sua mãe perseverou. Onze anos depois, UMA CONFRARIA DE TOLOS foi publicado. Ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção e vendeu dois milhões de cópias.
Um livro, uma pauta, um biscoito, um sanduíche, navegam no mar da aleatoriedade. O hamburguer do McDonalds vira franquia mundial: pão, carne moida... A coca-cola de xarope... bem você já sabe!
Olhei para o Macarrão, e alimentei suas palavras:
Quando entro num sebo, a procura de algum livro, já desaparecido das livrarias faz tempo, deparo-me com os 'fracassados'. Nomes absolutamente anônimos, que crítico algum, sequer ocupou uma linha no seu editorial para dizer: "o fulano publicou o livro tal... Interessante!" Nada, nem uma linha.
Entristece-me ver o fracasso, não por qualidade, mas por casualidade. Folheio vários, compro alguns... E os que nem o sebo alcançaram?
Dou um gole na cerva gelada. Alívio! Navegar no mar do aleatório, não se escapa do enjôo mareado...
Outro dia deu no jornal da TV: "menina na varanda, morre com bala 'perdida' na cabeça. No lugar errado, na hora errada... E PUFF! Uma vida na flor dos sonhos, desaparece... E ainda falam 'bala perdida'...
Macarrão tem os olhos espetados no espaço, no nada.
Aí, fica inevitável a gente pensar no aleatório que comanda a vida.
No entanto, continuamos a caminhada, porque a vida nos empurra para a frente. Não há como ficar parado... Lutamos muitas vezes por alguma coisa, e não a alcançamos. Lamentamos. Mas eu pergunto: e que certeza teríamos, de que a nossa vida poderia ter sido melhor? Decisão? Mas o que é a decisão? Um ato consciente? Mistérios... Como dizia o poeta inglês: "há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."
Alimento os comentários:
Herman Hesse jamais acreditou no acaso, e Voltaire também não, e explica: "O acaso não existe; o que nós chamamos de acaso, é o efeito de uma causa que não conhecemos." O criador da doutrina espírita, Allan Kardec gostava de dizer que tudo que acontece faz parte de um grande plano espiritual, já programado.
Talvez seja confortador pensar assim, principalmente nos momentos em que nos acontecem coisas muito ruins. Ajuda a sobreviver. Acho.
Macarrão gira o copo de cerveja e profere solenemente:
Enfim, a vida é uma criança que é preciso embalar até que adormeça, e nada como a filosofia para isso.
Mas o acaso, disse o velho Machado de Assis, é um deus e um diabo ao mesmo tempo. . . Enfim, cousas!
Ao leitor, informo que conversa de boteco, enquanto houver cerveja na mesa diria que é quase infinita, não chegando a tanto porque a língua enrola e a mente se turva...
Palavra de homem...
M. AMERICO
Ah! sim, eu havia narrado uma pequena historinha sobre um cidadão que ganhou um grande prêmio, numa dessas loterias da vida. Perguntado numa entrevista - sim! porque ganhar uma grana preta da noite pro dia, pode fazer e com certeza fará, que você seja uma celebridade! - se ele tinha algum método ou usado algum recurso matemático para ganhar a 'bolada'.
E ele respoondeu: "Ah! eu usei um método matemático, com certeza! Vejam vocês... Sonhei com o número 7 durante 7 noites seguidas. Aí eu pensei: bem... 7 vezes 7 é 48. Não tive dúvidas... Mandei ver no número 48!"
Realmente ele usou um método matemático... Se ele tivesse estudado um pouquinho mais, com certeza não se tornaria uma celebridade! Ele teria jogado no 49!
Isso é ou não é um fator absolutamnte aleatório? - perguntei pros meus amigos.
Concordamos. Pedimos outra gelada e continuamos nosso papo, garganta lubrificada e feliz.
A aleatoriedade marca a vida de uma maneira mais assustadora do que pode sonhar a nossa rica imaginação.
Leio em L.Mlodinow que o fato de lançarmos uma moeda diversas vezes para o alto e o resultado der cara seguidamente, não significa que a moeda tenha duas caras...
No ano de 1950 um certo livro foi rejeitado por vários editores, que o classificaram como maçante e desinteressante para o momento. A história da 2ªguerra já era passado... e o livro não teria a menor chance.
O livro era nada mais nada menos que "O diário de Anne Frank", que vendeu 30 milhões de cópias, uma das obras mais vendidas da história.
Estávamos os três convictos de que as nossas vidas são determinadas por fatores absolutamente estranhos a nossa vontade, por mais que julguemos que a decisão esteja em nossas mãos.
Macarrão ponderou: será que estamos condenados a um lance de moeda? Se der 'cara' ganhei... 'coroa' perdi?
Bochecha deu um gole e arremessou a moeda para o alto. Na palma da mão: Coroa! Perdemos...
Dizem que o aleatóro traz o cais e o caos. E mais,dizem que o que ele dá, nada tira.
Pondero:
Segundo a análise combinatória, se for uma moeda perfeitamente fabricada e os dois lados tiverem peso e tamanho iguais, cada qual tem uma porcentagem igual de chance de cair.
Então acho que a vida não é uma moeda com proporções perfeitas.
Cara ou Coroa?
Nem uma flor com pétalas contáveis, pra adivinhar o que dirá a ultima pétala a cair no chão.
Bem-me-quer? Mal-me-quer?
Talvez, eu só tenha bebido demais.
Acho que minhas palavras estão saindo gaguejadas e as que ouvi vão flutando surreais.
Lili, recém-chegada, entra no papo:
Esse negócio de acaso é um pouco doloroso. Sempre penso, e se naquele dia, em que eu estava no aeroporto, pronto para voltar para casa, tivesse acontecido um tufão, o espaço aéreo fechado, e eu não pudesse nunca mais voltar para cá?
... E se não estivesse naquela hora, naquele lugar, em que aconteceu aquela incidente que mudou totalmente a minha vida?
Ah, é muito assustador pensar nisso. E tem a inutilidade da coisa também, porque a gente não pode voltar e fazer diferente. Tem que conviver com a dor das escolhas, a dor do acaso. Talvez o antídoto seja mesmo a determinação:
Nada menos que cinco editoras recusaram os manuscritos do Harry Potter antes que fosse publicado; os Beatles foram recusados em várias gravadoras, e até mesmo Beethoven foi considerado um fracassado sem talento por algum tempo.
Bochecha pondera:
Esses não aceitaram a, digamos, inexorabilidade da coisa. Eu também não aceito.
Macarrão da um gole, olha à roda da mesa, e diz:
A infindável lista dos que foram vencidos, pelo aleatório.
John Kennedy Toole, perdeu a esperança de algum dia ter seu romance publicado e suicidou-se. Sua mãe perseverou. Onze anos depois, UMA CONFRARIA DE TOLOS foi publicado. Ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção e vendeu dois milhões de cópias.
Um livro, uma pauta, um biscoito, um sanduíche, navegam no mar da aleatoriedade. O hamburguer do McDonalds vira franquia mundial: pão, carne moida... A coca-cola de xarope... bem você já sabe!
Olhei para o Macarrão, e alimentei suas palavras:
Quando entro num sebo, a procura de algum livro, já desaparecido das livrarias faz tempo, deparo-me com os 'fracassados'. Nomes absolutamente anônimos, que crítico algum, sequer ocupou uma linha no seu editorial para dizer: "o fulano publicou o livro tal... Interessante!" Nada, nem uma linha.
Entristece-me ver o fracasso, não por qualidade, mas por casualidade. Folheio vários, compro alguns... E os que nem o sebo alcançaram?
Dou um gole na cerva gelada. Alívio! Navegar no mar do aleatório, não se escapa do enjôo mareado...
Outro dia deu no jornal da TV: "menina na varanda, morre com bala 'perdida' na cabeça. No lugar errado, na hora errada... E PUFF! Uma vida na flor dos sonhos, desaparece... E ainda falam 'bala perdida'...
Macarrão tem os olhos espetados no espaço, no nada.
Aí, fica inevitável a gente pensar no aleatório que comanda a vida.
No entanto, continuamos a caminhada, porque a vida nos empurra para a frente. Não há como ficar parado... Lutamos muitas vezes por alguma coisa, e não a alcançamos. Lamentamos. Mas eu pergunto: e que certeza teríamos, de que a nossa vida poderia ter sido melhor? Decisão? Mas o que é a decisão? Um ato consciente? Mistérios... Como dizia o poeta inglês: "há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."
Alimento os comentários:
Herman Hesse jamais acreditou no acaso, e Voltaire também não, e explica: "O acaso não existe; o que nós chamamos de acaso, é o efeito de uma causa que não conhecemos." O criador da doutrina espírita, Allan Kardec gostava de dizer que tudo que acontece faz parte de um grande plano espiritual, já programado.
Talvez seja confortador pensar assim, principalmente nos momentos em que nos acontecem coisas muito ruins. Ajuda a sobreviver. Acho.
Macarrão gira o copo de cerveja e profere solenemente:
Enfim, a vida é uma criança que é preciso embalar até que adormeça, e nada como a filosofia para isso.
Mas o acaso, disse o velho Machado de Assis, é um deus e um diabo ao mesmo tempo. . . Enfim, cousas!
Ao leitor, informo que conversa de boteco, enquanto houver cerveja na mesa diria que é quase infinita, não chegando a tanto porque a língua enrola e a mente se turva...
Palavra de homem...
M. AMERICO
PATOS SELVAGENS
A minha amiga Lili contou uma historinha sobre os sapos. Sapos fervidos, sacou? Não? Quando joga o pilantra na água fervendo, se ela não for a água do seu habitat, o safado, mesmo com o rabo chamuscado, salta longe... Mas se a água for a do ambiente dele, onde ele fica só pescando insetos, e se ela for aquecida gradualmente com o besta lá dentro, ele vai ficando numa boa, imaginando até que tá fazendo uma saunazinha e assim, acaba cozinhadozinho sem nem saber o que aconteceu... Palavra de cientista! E não duvidem da minha amiga!
MORAL DA HISTÓRIA
A gente fica tão acomodado no nosso lugarzinho, tá tão bom, já que não precisamos fazer qualquer esforço para conquistar alguma coisa que justifique a nossa vida, que terminamos por morrer gordos e felizes, embora estúpidos e insensatos.
Mas eu vou contar outra historinha.
Essa é a do pato.
Era uma vez um bando de patos selvagens que voava nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos.
Tudo tão bonito! Mas era uma beleza que doía. O cansaço do bater das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando e as espingardas dos caçadores...
Foi então que um dos patos selvagens, olhando lá das alturas para a terra aqui embaixo viu um bando de patos domésticos. Eram muitos. Estavam tranqüilamente deitados à sombra de uma árvore. Não precisavam voar. Não havia caçadores. Não precisavam buscar o que comer: o seu dono lhes dava milho diariamente.
E o pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse adeus aos seus companheiros, baixou seu vôo e passou a viver a vida mansa que pedira a Deus. E assim viveu por muitos anos. Até que...
Até que, num ano como os outros chegou de novo o tempo da migração dos patos. Eles passavam nas alturas, no fundo do azul do céu, grasnando, um grupo após o outro.
Aquelas visões dos patos em vôo, as memórias de alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com algum lugar esquecido dentro do pato domesticado, o lugar chamado saudade. Uma nostalgia pela vida selvagem, pelas belezas que só se vêem nas alturas, pelo fascínio do perigo...
Até que não foi mais possível agüentar a saudade. Resolveu voltar a ser o pato selvagem que fora. Abriu suas asas, bateu-as para voar, como outrora... mas não voou. Caiu. Esborrachou-se no chão. Estava gordo demais. E assim passou o resto de sua vida: em segurança, gordo de barriga cheia, protegido pelas cercas e triste por não poder voar...
(Rubem Alves)
Essa historinha não tem aquele negócio de MORAL DA HISTÓRIA. Não tem por duas razões:
1. o recheio moral é óbvio demais para ser explicado;
2. desnecessário acrescentar MORAL DA HISTÓRIA, numa história que não precisa de muletas. Ela por si é ululante. E até por que daria um trabalho danado ter que pedir autorização ao autor, que certamente não autorizaria...
Mas eu vou dizer por conta própria o seguinte: somente a transgressão das normas é capaz de inventar uma vida que vale a pena ser vivida. Foi por conta das transgressões que a vida, em muitos e magníficos momentos, conseguiu alcançar patamares realmente significativos.
M. AMERICO
MORAL DA HISTÓRIA
A gente fica tão acomodado no nosso lugarzinho, tá tão bom, já que não precisamos fazer qualquer esforço para conquistar alguma coisa que justifique a nossa vida, que terminamos por morrer gordos e felizes, embora estúpidos e insensatos.
Mas eu vou contar outra historinha.
Essa é a do pato.
Era uma vez um bando de patos selvagens que voava nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos.
Tudo tão bonito! Mas era uma beleza que doía. O cansaço do bater das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando e as espingardas dos caçadores...
Foi então que um dos patos selvagens, olhando lá das alturas para a terra aqui embaixo viu um bando de patos domésticos. Eram muitos. Estavam tranqüilamente deitados à sombra de uma árvore. Não precisavam voar. Não havia caçadores. Não precisavam buscar o que comer: o seu dono lhes dava milho diariamente.
E o pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse adeus aos seus companheiros, baixou seu vôo e passou a viver a vida mansa que pedira a Deus. E assim viveu por muitos anos. Até que...
Até que, num ano como os outros chegou de novo o tempo da migração dos patos. Eles passavam nas alturas, no fundo do azul do céu, grasnando, um grupo após o outro.
Aquelas visões dos patos em vôo, as memórias de alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com algum lugar esquecido dentro do pato domesticado, o lugar chamado saudade. Uma nostalgia pela vida selvagem, pelas belezas que só se vêem nas alturas, pelo fascínio do perigo...
Até que não foi mais possível agüentar a saudade. Resolveu voltar a ser o pato selvagem que fora. Abriu suas asas, bateu-as para voar, como outrora... mas não voou. Caiu. Esborrachou-se no chão. Estava gordo demais. E assim passou o resto de sua vida: em segurança, gordo de barriga cheia, protegido pelas cercas e triste por não poder voar...
(Rubem Alves)
Essa historinha não tem aquele negócio de MORAL DA HISTÓRIA. Não tem por duas razões:
1. o recheio moral é óbvio demais para ser explicado;
2. desnecessário acrescentar MORAL DA HISTÓRIA, numa história que não precisa de muletas. Ela por si é ululante. E até por que daria um trabalho danado ter que pedir autorização ao autor, que certamente não autorizaria...
Mas eu vou dizer por conta própria o seguinte: somente a transgressão das normas é capaz de inventar uma vida que vale a pena ser vivida. Foi por conta das transgressões que a vida, em muitos e magníficos momentos, conseguiu alcançar patamares realmente significativos.
M. AMERICO
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
A IMPORTÂNCIA DO "NÃO SEI"
Se você ainda não sabe qual é a sua verdadeira vocação, imagine a seguinte cena: você está olhando pela janela, não há nada de especial no céu, somente algumas nuvens aqui e ali. Aí chega alguém que também não tem nada para fazer e pergunta:
- Será que vai chover hoje???
- Se você responder “com certeza”, a sua área é Vendas: o pessoal de Vendas é o único que sempre tem certeza de tudo.
- Se a resposta for “sei lá, estou pensando em outra coisa”, então a sua área é Marketing: o pessoal de Marketing está sempre pensando no que os outros não estão pensando.
- Se você responder “sim, há 70% de probabilidade”, você é da área de Engenharia: o pessoal da Engenharia está sempre disposto a transformar o universo em números.
- Se a resposta for “depende …”, você nasceu para Recursos Humanos: uma área em que qualquer fato sempre estará na dependência de outros fatos.
- Se você responder “ah, a meteorologia diz que não”, você é da área de Contabilidade: o pessoal da Contabilidade sempre confia mais nos dados no que nos próprios olhos.
- Se a resposta for “sei lá, mas por via das dúvidas eu trouxe um guarda-chuva”, então seu lugar é na área Financeira: ela deve estar sempre bem preparada para qualquer virada de tempo.
- Agora, se você responder “não sei”… há uma boa chance que você tenha uma carreira de sucesso e acabe chegando à diretoria da empresa.
De cada 100 pessoas, só uma tem a coragem de responder “não sei” quando não sabe. Os outros 99 sempre acham que precisam ter uma resposta pronta, seja ela qual for, para qualquer situação.
“Não sei” é sempre uma resposta que economiza o tempo de todo mundo, e predispõe os envolvidos a conseguir dados mais concretos antes de tomar uma decisão.
Parece simples, mas responder “não sei” é uma das coisas mais difíceis de se aprender na vida corporativa. Por quê?
Eu, sinceramente, “não sei”.
By Max Gehringer.
- Será que vai chover hoje???
- Se você responder “com certeza”, a sua área é Vendas: o pessoal de Vendas é o único que sempre tem certeza de tudo.
- Se a resposta for “sei lá, estou pensando em outra coisa”, então a sua área é Marketing: o pessoal de Marketing está sempre pensando no que os outros não estão pensando.
- Se você responder “sim, há 70% de probabilidade”, você é da área de Engenharia: o pessoal da Engenharia está sempre disposto a transformar o universo em números.
- Se a resposta for “depende …”, você nasceu para Recursos Humanos: uma área em que qualquer fato sempre estará na dependência de outros fatos.
- Se você responder “ah, a meteorologia diz que não”, você é da área de Contabilidade: o pessoal da Contabilidade sempre confia mais nos dados no que nos próprios olhos.
- Se a resposta for “sei lá, mas por via das dúvidas eu trouxe um guarda-chuva”, então seu lugar é na área Financeira: ela deve estar sempre bem preparada para qualquer virada de tempo.
- Agora, se você responder “não sei”… há uma boa chance que você tenha uma carreira de sucesso e acabe chegando à diretoria da empresa.
De cada 100 pessoas, só uma tem a coragem de responder “não sei” quando não sabe. Os outros 99 sempre acham que precisam ter uma resposta pronta, seja ela qual for, para qualquer situação.
“Não sei” é sempre uma resposta que economiza o tempo de todo mundo, e predispõe os envolvidos a conseguir dados mais concretos antes de tomar uma decisão.
Parece simples, mas responder “não sei” é uma das coisas mais difíceis de se aprender na vida corporativa. Por quê?
Eu, sinceramente, “não sei”.
By Max Gehringer.
AS TRÊS PENEIRAS
Olavo foi transferido do projeto onde trabalhava. Logo no primeiro dia, para fazer média com o novo chefe, saiu-se com esta:
- “Chefe, o senhor nem imagina o que me contaram a respeito do Silva. Disseram que ele …”
Nem chegou a terminar a frase e o chefe interrompeu:
- “Espere um pouco, Olavo. O que vai me contar já passou pelo crivo das ‘três peneiras’?”
- “Três peneiras? Que peneiras, chefe?”
- “A primeira, Olavo, é a da VERDADE. Você tem certeza de que esse fato que quer me contar é absolutamente verdadeiro?”
- “Não, não tenho, não. Como posso saber? O que sei foi o que me contaram. Mas eu acho que …”
E, novamente, Olavo foi interrompido pelo chefe:
- “Então, sua história já vazou a primeira peneira. Vamos, então, para a segunda peneira que é a da BONDADE”.
- “O que você vai me contar, Olavo, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?”
- “Claro que não! Deus me livre, chefe!” – disse Olavo, assustado.
- “Então” – continua o chefe – “sua história vazou a segunda peneira. Vamos ver a terceira peneira, que é a da UTILIDADE. Você acha mesmo útil o que você veio me contar a respeito do Silva?”
- “Não, chefe. Pensando desta forma, vi que não sobrou nada do que eu iria contar” – fala Olavo, surpreendido.
- “Então, Olavo, se o que veio me contar não é verdadeiro, nem bom, nem útil, é melhor que guarde apenas para você! Já pensou como as pessoas seriam mais felizes se todos usassem essas peneiras?” – diz o chefe sorrindo. E continua:
- “Da próxima vez em que surgir um boato por aí, submeta-o ao crivo das “três peneiras”, VERDADE, BONDADE e UTILIDADE, antes de obedecer ao impulso de passá-lo adiante!”
Não esqueça que …
PESSOAS INTELIGENTES FALAM SOBRE IDÉIAS.
PESSOAS COMUNS FALAM SOBRE COISAS.
PESSOAS MEDÍOCRES FALAM SOBRE PESSOAS.
Texto adaptado do original, “As Três Peneiras de Sócrates”, atribuído ao filósofo.
- “Chefe, o senhor nem imagina o que me contaram a respeito do Silva. Disseram que ele …”
Nem chegou a terminar a frase e o chefe interrompeu:
- “Espere um pouco, Olavo. O que vai me contar já passou pelo crivo das ‘três peneiras’?”
- “Três peneiras? Que peneiras, chefe?”
- “A primeira, Olavo, é a da VERDADE. Você tem certeza de que esse fato que quer me contar é absolutamente verdadeiro?”
- “Não, não tenho, não. Como posso saber? O que sei foi o que me contaram. Mas eu acho que …”
E, novamente, Olavo foi interrompido pelo chefe:
- “Então, sua história já vazou a primeira peneira. Vamos, então, para a segunda peneira que é a da BONDADE”.
- “O que você vai me contar, Olavo, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?”
- “Claro que não! Deus me livre, chefe!” – disse Olavo, assustado.
- “Então” – continua o chefe – “sua história vazou a segunda peneira. Vamos ver a terceira peneira, que é a da UTILIDADE. Você acha mesmo útil o que você veio me contar a respeito do Silva?”
- “Não, chefe. Pensando desta forma, vi que não sobrou nada do que eu iria contar” – fala Olavo, surpreendido.
- “Então, Olavo, se o que veio me contar não é verdadeiro, nem bom, nem útil, é melhor que guarde apenas para você! Já pensou como as pessoas seriam mais felizes se todos usassem essas peneiras?” – diz o chefe sorrindo. E continua:
- “Da próxima vez em que surgir um boato por aí, submeta-o ao crivo das “três peneiras”, VERDADE, BONDADE e UTILIDADE, antes de obedecer ao impulso de passá-lo adiante!”
Não esqueça que …
PESSOAS INTELIGENTES FALAM SOBRE IDÉIAS.
PESSOAS COMUNS FALAM SOBRE COISAS.
PESSOAS MEDÍOCRES FALAM SOBRE PESSOAS.
Texto adaptado do original, “As Três Peneiras de Sócrates”, atribuído ao filósofo.
SOBRE A MORTE E O MORRER
O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?
Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”
Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”
Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.
Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".
Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo.
A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.
Rubem Alves
Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03. fls 3.
um ser humano? O que e quem a define?
Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”
Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”
Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.
Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".
Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo.
A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.
Rubem Alves
Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03. fls 3.
O BANHEIRO
"Quem aumenta seu conhecimento aumenta a sua dor"
(Eclesiastes, I, 18)
Não é o lar o último recesso do homem civilizado, sua última fuga, o derradeiro recanto em que pode esconder suas mágoas e dores. Não é o lar o castelo do homem.
O castelo do homem é seu banheiro. Num mundo atribulado, numa época convulsa, numa sociedade desgovernada, numa família dissolvida ou dissoluta só o banheiro é um recanto livre, só essa dependência da casa e do mundo dá ao homem um hausto de tranqüilidade.
É ali que ele sonha suas derradeiras filosofias e seus moribundos cálculos de paz e sossego. Outrora, em outras eras do mundo, havia jardins livres, particulares e públicos, onde o homem podia se entregar à sua meditação e à sua prece.
Desapareceram os jardins particulares, pois o homem passou a viver montado em lajes, tendo como ilusão de floresta duas ou três plantas enlatadas que não são bastante grandes para ocultar seu corpo da fúria destrutiva da proximidade forçada de outros homens.
Não encontrando mais as imensidões das praças romanas que lhe davam um sentido de solidão, não tendo mais os desertos, hoje saneados, irrigados e povoados, faltando-lhe as grutas dos companheiros de Chico de Assis, onde era possível refletir e ponderar, concluir e amadurecer, o homem foi recuando, desesperou e só obteve um instante de calma no dia em que de novo descobriu seu santuário dentro de sua própria casa — o banheiro.
Se não lhe batem à porta outros homens (pois um lar por definição é composto de mulher, marido, filho, filha e um outro parente, próximo ou remoto, todos com suas necessidades físicas e morais) ele, ali e só ali, por alguns instantes, se oculta, se introspecciona, se reflete, se calcula e julga.
Está só consigo mesmo, tudo é segredo, ninguém o interroga, pressiona, compele, tenta, sugere, assalt. Aqui é que o chefe da casa, à altura dos quarenta anos, olha os cabelos grisalhos, os claros da fronte, e reflete, sem testemunhas nem cúmplices, sobre os objetivos negativos da existência que o estão conduzindo — embora altamente bem sucedido na vida prática — a essa lenta degradação física. Examina com calma sua fisionomia, põe-se de perfil, verifica o grau de sua obesidade, reflete sobre vãs glórias passadas e decide encerrar definitivamente suas pretensões sentimentais, ânsia cada vez maior e mais constante num mundo encharcado de instabilidade.
É nesse mesmo banheiro que o filho de vinte anos examina a vaidade de seus músculos, vê que deve trabalhar um pouco mais seus peitorais, ensaia seu sorriso de canto de boca, fica com um olhar sério e profundo que pretende usar mais tarde naquela senhora mais velha do que ele mas ainda cheia de encantos e promessas.
É aqui que a filha de 17 anos vem ler a carta secreta que recebeu do primo, cujos sentimentos são insuspeitados pelo resto da família. Já leu a carta antes, em vários lugares, mas aqui tem o tempo e a solidão necessários para degustá-la e suspirá-la.
É aqui também que ela vem verificar certo detalhe físico que foi comentado na rua, quando passava por um grupo de operários de obras, comentário que na hora ela ouviu com um misto de horror e desprezo.
É aqui que a dona de casa, a mãe de família, um tanto consumida pelos anos, vem chorar silenciosamente, no dia em que descobre ou suspeita de uma infidelidade, erro ou intenção insensata da parte do marido, filho, filha, irmãos.
Aqui ninguém a surpreenderá, pode amargurar-se até aos soluços e sair, depois de alguns momentos, pronta e tranqüila, com a alma lavada e o rosto idem, para enfrentar sorridente os outros misteriosos e distantes seres que vivem no mesmo lar.
Não há, em suma, quem não tenha jamais feito uma careta equívoca no espelho do banheiro nem existe ninguém que nunca tenha tido um pensamento genial ao sentir sobre seu corpo o primeiro jato de água fria.
Aqui temos a paz para a autocrítica, a nudez necessária para o frustrado sentimento de que nossos corpos não foram feitos para a ambição de nossas almas, aqui entramos sujos e saímos limpos, aqui nos melhoramos o pouco que nos é dado melhorar, saímos mais frescos, mais puros, mais bem dispostos.
O banheiro é o que resta de indevassável para a alma e o corpo do homem e queira Deus que Le Corbusier ou Niemeyer não pensem em fazê-lo também de vidro, numa adaptação total ao espírito de uma humanidade cada vez mais gregária, sem o necessário e apaixonante sentimento de solidão ocasional.
Aqui, neste palco em que somos os únicos atores e espectadores, neste templo que serve ao mesmo tempo ao deus do narcisismo e ao da humildade, é que a civilização hodierna encontrará sua máxima expressão, seu último espelho — que é o propriamente dito.
Xantipa, que diabo, me joga essa toalha!
"Minha especialidade e meu orgulho: sou o maior leigo do país."
(O Autor)
Millôr Fernandes, ou Emmanuel Vão Gôgo, nosso grande humorista, pensador, chargista, tradutor, escritor, teatrólogo, jornalista, pintor, é figura indispensável quando se fala de inteligência nacional. O texto acima extraímos de "Lições de um ignorante", José Álvaro Editor - Rio de Janeiro, 1967, pág. 17.
AOS QUE VIEREM DEPOIS DE NÓS
Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
Bertolt Brecht nasceu em Augsburg, Alemanha, em 1898. Em 1917 inicia o curso de medicina em Munique, mas logo é convocado pelo exército, indo trabalhar como enfermeiro em um hospital militar. Aquele que iria se tornar uma das mais importantes figuras do teatro do século XX, começa a escrever seus primeiros poemas e cedo se rebela contra os "falsos padrões" da arte e da vida burguesa, corroídas pela Primeira Guerra. Tal atitude se reflete já na sua primeira peça, o drama expressionista "Baal", de 1918. Colabora com os diretores Max Reinhardt e Erwin Piscator. Recebe, no fim dos anos 20, instruções marxistas do filósofo Karl Korsch. Em 1928, faz com Kurt Weill a "Ópera dos Três Vinténs". Com a ascensão de Hitler, deixa o país em 1933, e exila-se em países como a Dinamarca e Estados Unidos da América, onde sobrevive à custa de trabalhos para Hollywood. Faz da crítica ao nazismo e à guerra tema de obras como "Mãe coragem e seus filhos" (1939). Vítima da patrulha macartista, parte em 1947 para a Suíça — onde redige o "Pequeno Organon", suma de sua teoria teatral. Volta à Alemanha em 1948, onde funda, no ano seguinte, a companhia Berliner Ensemble. Morre em Berlim, em 1956.
O poema acima foi extraído do caderno "Mais!", jornal Folha de São Paulo - São Paulo (SP), edição de 07/07/2002, tendo sido traduzido pelo grande poeta brasileiro Manuel Bandeira.
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
Bertolt Brecht nasceu em Augsburg, Alemanha, em 1898. Em 1917 inicia o curso de medicina em Munique, mas logo é convocado pelo exército, indo trabalhar como enfermeiro em um hospital militar. Aquele que iria se tornar uma das mais importantes figuras do teatro do século XX, começa a escrever seus primeiros poemas e cedo se rebela contra os "falsos padrões" da arte e da vida burguesa, corroídas pela Primeira Guerra. Tal atitude se reflete já na sua primeira peça, o drama expressionista "Baal", de 1918. Colabora com os diretores Max Reinhardt e Erwin Piscator. Recebe, no fim dos anos 20, instruções marxistas do filósofo Karl Korsch. Em 1928, faz com Kurt Weill a "Ópera dos Três Vinténs". Com a ascensão de Hitler, deixa o país em 1933, e exila-se em países como a Dinamarca e Estados Unidos da América, onde sobrevive à custa de trabalhos para Hollywood. Faz da crítica ao nazismo e à guerra tema de obras como "Mãe coragem e seus filhos" (1939). Vítima da patrulha macartista, parte em 1947 para a Suíça — onde redige o "Pequeno Organon", suma de sua teoria teatral. Volta à Alemanha em 1948, onde funda, no ano seguinte, a companhia Berliner Ensemble. Morre em Berlim, em 1956.
O poema acima foi extraído do caderno "Mais!", jornal Folha de São Paulo - São Paulo (SP), edição de 07/07/2002, tendo sido traduzido pelo grande poeta brasileiro Manuel Bandeira.
NELSON RODRIGUES NA INTIMIDADE
- O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade.
- Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhores que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.
- Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de "ilustre", de "insigne", de "formidável", qualquer borra-botas.
- A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.
- O brasileiro não está preparado para ser "o maior do mundo" em coisa nenhuma. Ser "o maior do mundo" em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.
- Há na aeromoça a nostalgia de quem vai morrer cedo. Reparem como vê as coisas com a doçura de um último olhar.
- Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.
- O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.
- Assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da Pátria.
- Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.
- O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.
- A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades.
- Outro dia ouvi um pai dizer, radiante: — "Eu vi pílulas anticoncepcionais na bolsa da minha filha de doze anos!". Estava satisfeito, com o olho rútilo. Veja você que paspalhão!
- Em nosso século, o "grande homem" pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta.
- O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.
- Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma.
- Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.
- Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito.
As frases polêmicas e cheias de humor de Nelson Rodrigues são publicadas como uma homenagem à passagem de seu aniversário de nascimento (23-08-1912). Elas foram selecionadas e organizadas por Ruy Castro, extraídas do livro "Flor de Obsessão", Cia. das Letras - São Paulo, 1997, págs. diversas.
- Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhores que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.
- Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de "ilustre", de "insigne", de "formidável", qualquer borra-botas.
- A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.
- O brasileiro não está preparado para ser "o maior do mundo" em coisa nenhuma. Ser "o maior do mundo" em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.
- Há na aeromoça a nostalgia de quem vai morrer cedo. Reparem como vê as coisas com a doçura de um último olhar.
- Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.
- O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.
- Assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da Pátria.
- Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.
- O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.
- A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades.
- Outro dia ouvi um pai dizer, radiante: — "Eu vi pílulas anticoncepcionais na bolsa da minha filha de doze anos!". Estava satisfeito, com o olho rútilo. Veja você que paspalhão!
- Em nosso século, o "grande homem" pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta.
- O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.
- Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma.
- Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.
- Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito.
As frases polêmicas e cheias de humor de Nelson Rodrigues são publicadas como uma homenagem à passagem de seu aniversário de nascimento (23-08-1912). Elas foram selecionadas e organizadas por Ruy Castro, extraídas do livro "Flor de Obsessão", Cia. das Letras - São Paulo, 1997, págs. diversas.
AS PESSOAS SENSÍVEIS
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
“Ganharás o pão com o suor do teu rosto” Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoais–lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto (Portugal), em 1919, e morreu em 2004. Estudou filologia clássica na Faculdade de Letras de Lisboa. Estreou em 1944, com "Poesia". Além de poemas, escreveu contos, literatura infantil e ensaios. Traduziu Eurípedes, Dante e Shakespeare. Recebeu inúmeros prêmios, entre os quais destacam-se o "Camões" (1999) e o "Reina Sofía" (2004).
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
“Ganharás o pão com o suor do teu rosto” Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoais–lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto (Portugal), em 1919, e morreu em 2004. Estudou filologia clássica na Faculdade de Letras de Lisboa. Estreou em 1944, com "Poesia". Além de poemas, escreveu contos, literatura infantil e ensaios. Traduziu Eurípedes, Dante e Shakespeare. Recebeu inúmeros prêmios, entre os quais destacam-se o "Camões" (1999) e o "Reina Sofía" (2004).
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