quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

UM PERSONAGEM DE FICÇÃO LIDERA AS PESQUISAS SOBRE CONFIANÇA NOS EUA E CANADÁ

Quem acredita em Deus não confia em ateus, diz estudo divulgado por psicólogos da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá. É o que leio no jornalismo on line. Por causa dessa desconfiança, diz a pesquisa, os religiosos desenvolvem contra os ateus um preconceito maior do que o endereçado a gays e fiéis de religiões diferentes da sua. A mostragem foi de 350 americanos adultos e 420 estudantes canadenses. O que prova que obscurantismo não é quinhão do Terceiro Mundo. Embora o universo pesquisado não seja muito significativo.

Não sei bem o que seja um crente de Primeiro Mundo. Conheço só os de minha aldeia. Quanto aos americanos, não é de espantar. Pelo que leio, os Estados Unidos é a mais fanática das nações ricas. Já os canadenses me surpreendem. Sempre tive do Canadá a idéia de um país bastante laico. É que conheço mais o Canadá francófono. Não por acaso, a pesquisa foi feita no Canadá anglófono.

Foram propostas perguntas e cenários hipotéticos aos participantes e a maioria achou que a descrição de uma pessoa não confiável é melhor representada por um ateu do que por cristãos, muçulmanos, gays, feministas ou judeus. Apenas criminosos, como estupradores, conseguiram um grau de desconfiança comparável com o dos ateus.

É uma velha intriga, decorrente de uma frase falsamente atribuída a Dostoievski. Ano sim, ano não, me sinto obrigado a esclarecer o qüiproquó. Quiproquó, se alguém não sabe, era originalmente uma espécie de lista de genéricos encontrada nas farmácias para indicar as substâncias que deveriam substituir os remédios receitados pelos médicos, caso as farmácias não os tivessem. Com o tempo, a palavrinha virou sinônimo de engano, equívoco. Ainda em julho passado, o psicanalista Luiz Felipe Pondé, colunista da Folha de São Paulo, fazia eco ao besteirol, citando um psicólogo americano, Paul Bloom, que tampouco havia lido o escritor católico russo. Mas a ele atribuía a frase “se Deus não existe, tudo é permitido”.

Só tem um pequeno detalhe: Dostoievski jamais escreveu isso. Foi Sartre quem divulgou, urbi et orbi, esta bobagem, repetida até por dona Dilma, quando pretendeu demonstrar erudição. Quem menciona esta frase são geralmente pessoas que nunca leram Dostoievski e o citam de ouvir falar. Pelo que se lê nos jornais, apesar de sua vasta obra, Dostoievski é autor desta única frase. Não tenho lembrança de ter ouvido a citação de qualquer outros topoi do escritor russo.

Há alguns anos, me dei ao trabalho de reler Os Irmãos Karamazov para ver se Dostoievski havia realmente escrito tal bobagem. Não encontrei. O russo refere-se a Deus, é verdade, mas também à imortalidade. Ou seja, o tudo é permitido depende de castigo ou recompensa no Além. A simples idéia de Deus não é suficiente como sanção. Sem a referência à imortalidade, Dostoievski está deturpado.

Como os leitores sabem, sou ateu desde meus verdes anos. Há décadas convivo com crentes. Melhor diria, com católicos, que são os que mais encontro. Me entendo bem com todos e jamais tivemos atritos. Muito menos a desconfiança permeou nossas relações. Desde que religiosos não se metam em minha vida privada, desde que não pretendam determinar meu comportamento na mesa ou na cama, nada contra. De minha parte, tampouco tento convencer alguém de minhas crenças ou descrenças. Mas me permito discutir o Livro, como aliás discuto qualquer livro.

Já tive acerbas discussões com ateus que se queixam – os coitadinhos – de serem discriminados. Vai ver querem cotas na universidade. Ora, nunca fui discriminado por ser ateu. Fui discriminado, isto sim – e perdi empregos – por não ser comunista.

Os crentes são em geral oportunistas. Crêem em Deus e assumem uma ética na esperança de uma aposentadoria cheia de bênçãos por toda a eternidade. Nós, ateus, somos éticos sem pedir refresco a nenhuma instância do Além.

A pesquisa em questão foi motivada pelo resultado de um outro estudo realizado pelo instituto Gallup, que constatou que apenas 45% dos americanos votaria em um candidato que admitisse ser ateu. Que as maiorias são estúpidas, nisto não vai nada de novo. Mesmo entre nós, tanto Fernando Henrique como Lula mudaram de assunto quando interrogados sobre se acreditavam ou não em Deus.

Deus, para mim, é o personagem mais bem sucedido da história da literatura. Três mil ou mais anos depois de sua criação, ainda freqüenta a lista dos best-sellers. Não há analfabeto que não o conheça: “uma esmolinha, pelo amor de Deus”.

Os sacerdotes, desde o início dos tempos, eram ficcionistas poderosos.
janer cristaldo

Nenhum comentário:

Postar um comentário