terça-feira, 13 de setembro de 2011

MARTA NO VATICANO



A ex-prefeita Marta Suplicy viajou à Itália e resolveu assistir a uma Missa rezada pelo Papa, no Vaticano.

Terminada a Missa, Marta não se conteve e fez uma pergunta ao Papa:
-'Vossa Santidade, por acaso existe algum banheiro, aqui dentro?
É que eu estou apertadíssima, preciso fazer xixi, o senhor entende'...
O Papa pensou, pensou e respondeu:

-'O banheiro é um pouco distante, mas logo ali, naquele cantinho, tem uma estátua de São Pedro. Pode fazer xixi lá'.

-'Tudo bem! Se é Vossa Santidade que está falando eu vou.
Mas não é pecado fazer xixi em São Pedro' ?

-'É. Mas pra quem já cagou em São Paulo , isto não fará a menor diferença.

sábado, 10 de setembro de 2011

ARRIGO BARNABÉ TUBARÕES VOADORES

O Dia que Arrigo Barnabé Musicou os Quadrinhos de Luiz Gê

Colaborador: André Rocha

Arrigo Barnabé, como ele mesmo diz, é um inventor. Geralmente o processo criativo (ou inventivo) não segue uma racionalidade fria e possui uma polifonia interessante. Curiosamente, as referências de Arrigo são aparentemente contraditórias: Música Erudita, Tropicália e a cultura pop (dentre outras, é claro).

Paranaense de Londrina foi para São Paulo nos anos 70 para estudar Arquitetura e Urbanismo na FAU (USP), mas não chegou a completar o curso. Se encontrou mesmo quando cursou composição no Departamento de Musica na ECA (USP). Grosso modo, isso explica suas referências: o gráfico da arquitetura, a música erudita do curso de composição e a cultura pop do tropicalismo dos anos 70.

Arrigo, no início de sua carreira estava numa pegada de transar música popular com música erudita, como conta em uma entrevista à Cristina Fonseca:

“meu trabalho está ligado às expectativas abertas pelo tropicalismo. A mistura de erudito e popular apareceu no tropicalismo. Rogério Duprat principalmente, ele iniciou uma espécie de fusão entre a música erudita, moderna e contemporânea e a música popular urbana. E eu me insiro dentro desse negócio aí, que tá ligado diretamente com o Rogério Duprat. Comecei em 1972. Em Londrina, a gente achava que, depois do avanço de Caetano, Gil, Gal, pintaria uma coisa que incorporasse de forma mais intensa as conquistas recentes da música erudita”

Quando Arrigo fala sobre as conquistas recentes da música erudita ele refere-se à música atonal e à dodecafonia de Schoenberg e do silêncio e inventividade de John Cage. Segundo ele, a bossa nova chegou até o “impressionismo musical” e a tropicália, apesar de informada sobre música dodecafônica, atonal, eletrônica, voltou-se mais para a elaboração das letras, dos textos e para a revolução no comportamento e, depois dela, em vez de evolução, houve involução. A tropicália, segundo Arrigo, em termos harmônicos e musicais, pode ser considerada um retrocesso em relação à bossa nova, salvo algumas exceções, como Araçá Azul de Caetano.

No curso de linguagem para Arquitetura Arrigo conheceu Luiz Gê. Luiz Gê já publicava seus primeiros trabalhos gráficos quando Arrigo começou a se enveredar pelas Vanguardas musicais. Tornaram-se grandes amigos. Luiz é paulistano, conhecia a cidade e guiou Arrigo pela cidade revelando os detalhes ocultos da narrativa urbana que somente São Paulo possui, narrativa essa que ele empregava em seus quadrinhos, cuja paixão contagiou o colega. Em um desses passeios Luiz Gê levou Arrigo para uma exposição de história em quadrinhos que estava no MASP que o fez se apaixonar também pelos quadrinhos. (Há quem diga que era uma exposição com as obras do Will Eisner)

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Esses elementos foram transpostos para a obra de Arrigo também. Em seu primeiro trabalho – Clara Crocodilo – Arrigo já demonstrava a aproximação com os quadrinhos não só no projeto gráfico do disco, o qual também é de Luiz Gê, mas também na narrativa da saga de Clara Crocodilo que poderia ser, sem sombra de dúvida, uma história em quadrinhos. Clara Crocodilo tornou-se, merecidamente, um marco na história da música brasileira (e arrisco, mundial) não só por ser lançado de forma independente (ser independente nos anos 80 era completamente diferente de ser indie hoje em dia) e ser considerado porta-bandeira do movimento chamado “Vanguarda Paulista”, mas também por ser aquilo que Arrigo queria quando falava em “evolução musical” e pelo transporte da linguagem dos quadrinhos para a música.


Em 1984 após o reconhecimento e o relativo sucesso de Clara Crocodilo Arrigo assinou contrato com gravadora Ariola que deu sinal verde para produção de um novo disco, que inicialmente se chamaria Crotalus Terrificus cuja arte foi encomendada ao amigo Luiz Gê.

Um dia Luiz Gê recebeu a visita de um amigo em sua casa, onde este ao observar um pôster dos Tigres Voadores (esquadrilha aérea composta por aviadores americanos, cuja característica visual em seus aviões P-40, era uma enorme boca de tubarão pintada), deu a idéia de uma HQ protagonizada por eles, porém dentro da cidade. Imediatamente Luiz Gê estalou a idéia de ao invés de aviões, seriam tubarões, tubarões voadores e iniciou os esboços de modo tão frenético que deixou o amigo pasmo. Nos dias que se seguiram, foi-se montando o roteiro da história e acertando os detalhes, até finalizá-la.


Quando Arrigo Barnabé foi em seu ateliê para tratar sobre o disco novo, viu a HQ dos tubarões e disse: “Ah!! Luis Gê, vou musicar essa historinha e o disco vai chamar “Tubarões Voadores”. O que era um antigo projeto de ambos, fazer uma HQ com trilha sonora se concretizou naquele momento.

Medindo o tempo de leitura de cada quadrinho, Arrigo Barnabé foi musicando quadro a quadro, obtendo um resultado surpreendente, algo inédito até então. Redefinindo o nome do álbum para “Tubarões Voadores” cuja faixa-título abria o disco, manteve a HQ completa sob a forma de encarte do álbum.

Em Tubarões Voadores Luiz Gê sintetizou todo o medo e paranóia da classe média, que se tranca dentro de seus apartamentos e carros blindados se isolando dos demais habitantes, por não se sentirem seguros. Onde um passo em falso, uma janela aberta na hora errada, pode resultar em uma absurda tragédia. A HQ começa em tom de humor, evoluindo para o puro terror, onde a violência é mostrada sem glamour ou justificativa, entre cada ataque dos tubarões são mostradas cenas de violência urbana cotidianas de qualquer cidade: acidentes, mutilações, crimes, atropelamentos e suicídios. Tudo isso se encerra com a cena final de um corpo sendo dilacerado por vários tubarões sob a legenda: “Pois no coração do prudente, descansa a sabedoria”

Para transpor para a música todo esse clima de terror e medo, Arrigo Barnabé dividiu os vocais com Vânia Bastos, e introduziu a superposição de vozes e instrumentos em tonalidades diferentes para criar a percepção de profundidade do desenho, dando a ilusão de movimento. A utilização de citações musicais (ciranda, cirandinha) ajudam a dar clima à cena, e a HQ reforça a dimensão sangrenta e dolorida, tornando visualmente impossível escutar a música de maneira entorpecida.

Além da faixa-título o disco apresenta outras experimentações fantásticas com música modular, dodecafonia e demonstra a graficidade do som em outras músicas e outros personagens (“Neide Manicure Pedicure”, “Kid Supérfluo” e “Papai Não Gostou”). Há quem diga que Arrigo é difícil de ouvir, para esses, Arrigo deu seu recado em entrevista à Charles Gavin:

“Eu queria fazer uma música que provocasse também uma revolução auditiva nas pessoas; que fizesse com que a pessoa para achar que aquela música era bonita, para entender que aquela música era bonita, para entender o pensamento estético da música ela tivesse que ter uma transformação interior. Ela teria que deixar de pensar na beleza como só um produto da consonância.”

Aos dispostos a se transformar fica o conselho: ouça Arrigo Barnabé, mas antes Feche a janela Joãozinho, ou seremos comidos pelos… TUBARÕES VOADORES!

A MAGIA DO HERMETO


O Hermeto Pascoal é chamado de bruxo. A sua figura albina, com longos cabelo e barba brancos ajuda o imaginário da gente a confirmar o título. Mas é obviamente por sua música que ele é chamado dessa forma desde os anos 70. E a grande mágica de Hermeto, na minha opinião, não é a intricada progressão harmônica de suas músicas, mas a construção aparentemente simples de suas melodias. As músicas de Hermeto, quase todas, são cantaroláveis ou assoviáveis. Temas lindos, como Música das nuvens e do chão, ou o famoso Bebê, só para citar dois deles, ficam nos nossos corações por dias, depois de escutá-los. Mas digo aparentemente, porque mesmo em sua simplicidade sonora, essas melodias são complexas, contorcendo-se em sutis variações, sem matar a idéia central do tema.

Alie-se a isso a maestria harmônica do bruxo e temos aí o segredo de sua magia. Por isso, ainda hoje não consigo me comover com as performances de Tom Zé, sua batida de panelas no palco (coisa que o Hermeto fazia já nos anos 60). Sei que muitos não concordarão, mas como não entendo nada desse assunto, me aventuro sem medo pelo mar bravio. A impressão que tenho é que Tom Zé se esforça demais para soar original. É, talvez, a maldição das vanguardas, que estão sempre condenadas a inventar o novo, a anunciar o futuro, que já fica velho no momento mesmo de seu anúncio.

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Em termos musicais, Tom Zé perde longe para Hermeto, em minha opinião. Em termos perfomáticos, perde para outros, como Walter Franco, cantando Cabeça, num dos últimos festivais; ou ainda para Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, estes últimos também grandiosos em termos musicais, com um estilo consistente e vanguardista.

Bem, talvez esteja sendo injusto e meus amigos músicos possam me corrigir. Afinal, só vejo Tom Zé em performances aqui e ali na TV, num Programa do Jô, ou coisa que o valha. Não compro seus discos e nem vou a seus shows. Mas do pouco que vejo na TV não sinto tesão para mergulhar em seu universo musical. Talvez, não esteja simplesmente a altura dele.

No século XVI, quando estudava música e fantasiava me tornar um artista nesse ramo, compartilhava com meus colegas o desdém pela simplicidade e a emoção. Achava que as intricadas fórmulas matemáticas do estudo harmônico me dariam a chave para fazer uma verdadeira arte. Uma arte superior à chorumela brega da música comercial, uma música só para quem tivesse condição de “entender”. Alguém que, ao ouvir minha música, dissesse: “Veja, aqui ele inverteu o acorde e colocou a nona no baixo”, ou coisa que o valha. E quanto mais mergulhei nesse mundo racional e lógico, mais fui perdendo a espontaneidade que tinha, e a sonoridade foi se esvaindo de mim, até que não sobrou nada, exceto partituras, manuais de harmonia jazzística e cadernos de solfejo. A música acabara. Vazio de sons, fui cuidar da minha vida.

Creio que esse racionalismo excessivo, que se perde do emocional, é um perigo. Quando se está nessa febre, gostamos ou deixamos de gostar de um tema musical à medida que compreendemos sua linguagem matemática, sua racionalidade. A mensagem do autor. Ao mesmo tempo tendemos a desprezar coisas simples, harmonias simples, repetitivas, pouco variadas, populares e exageradamente sonoras.

Penso que uma das grandes virtudes do Tropicalismo, sobretudo em Caetano Veloso, é a exaltação de músicas simples, bregas, melodiosas, melodramáticas. E mestres como Tom Jobim, para citar outro grande, caminham num equilíbrio entre os planos racional e emocional. Por isso, o bater de panelas no palco de Tom Zé é muito diferente daquele que faz o Hermeto.
Falando em Hermeto, estou organizando uma série de gravações caseiras de meu pai, o músico Gaudencio Thiago de Mello, feitas entre 1967 e 1972. Ele recebia os amigos em sua casa em Nova York e tudo acabava em música, que o velho registrava num gravador de fita rolo. Recentemente, sugeri a ele que passasse esse material todo para digital, num estúdio, equalizando, masterizando e o escambau.

Acabo de receber cinco CDs: O primeiro é um ensaio de 1967 do grupo que estavam montando Carmen Costa (vocal), Moacir Santos (raríssimo tocando piano), o velho no violão, e Richard Kimball, no contrabaixo. O segundo é um solo de berimbau de Naná Vasconcelos. O terceiro, é o velho, Dom Um Romão e Gilberto Gil, em 1972, com Gil mostrando Oriente e outra canção. No mesmo ano, Hermeto Pascoal mostra várias de suas canções, inclusive Bebê, com Flora Purim e Airto Moreira. Mais recentemente, em 1988, tem uma jam session na sua casa, com Claudio Roditi (trompete e piano), Romero Lubambo (guitarra), Roberto Sion (sax e piano), Nilson Matta (baixo), Barry Olsen (trombone), Gaudencio (percussão), Helio Schiavo (bateria) e Susan Davis (piano e percussão). Estou querendo propor um programa de rádio sobre isso.

Postado por ipaco

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

DOENÇA COMO METÁFORA

O Prosa & Verso, caderno literário do Globo, trouxe no sábado passado um excelente artigo do psiquiatra e psicanalista Orlando Coser.
Ele tratou de um assunto que venho considerando também, já há algum tempo, por um viés, digamos, mais antropológico. Trata-se da invenção de doenças pelo mercado farmacêutico e a indústria médica.

No artigo, Coser, com uma clareza espetacular, analisa a profusão de lançamentos de tranquilizantes, antidepressivos, estabilizadores, neuromoduladores, enfim psicotrópicos que, alardeados como anjos que trazem redenção, acabam por alterar a percepção de médicos, psiquiatras, pacientes, farmacêuticos, entre outros, sobre as enfermidades mentais. A coisa é tão forte, que se chega ao ponto de inventar novas doenças, ao criar nomenclaturas e novas descrições para sintomas.

Coser é muito preciso ao afirmar como medicamentos, inicialmente usados em casos severos de esquizofrenia, se tornaram cada vez mais acessíveis e disseminados. A introdução dos psicotrópicos trouxe, do ponto de vista antropológico, uma inversão importante na gênese dos estados mórbidos ou eufóricos: não é o sintoma que provoca alterações psicoquímicas no cérebro, e sim o inverso.

Difundiu-se, de forma bastante lucrativa para as indústrias que produzem esses remédios, a idéia de que esses distúrbios são tratados e resolvidos mediante o consumo de pílulas guardadas em caixinhas com tarja preta, que milagrosamente vão equilibrar hormônios, deficiências ou excesso de agentes neuroquímicos e, assim, "curar" o paciente.

A Associação Mundial de Psiquiatria, sob forte influência americana, inclusive mudou os nomes das enfermidades: em vez de neurose, psicose etc., agora temos transtorno bipolar ou transtorno disso e daquilo, cada qual associado a uma miríade de medicamentos miraculosos. Criou-se, assim, um mercado que substitui o velho mundo do pobre e ultrapassado alienista.

Como chama atenção em seu artigo, Coser afirma que "o principal efeito desta estratégia mercadológica é o menosprezo à clínica médica. Parte do saber, da ciência, da tradição médica, é substituída pelo convencimento através de ampla ação de marketing, destinada não só a profissionais de saúde como, a partir de comunicação direta, a leigos.” E assim se criam e se apagam doenças na nossa sociedade.

Uma história ilustra processo parecido. Estava conversando com uma amiga na França e, ao mencionar a expressão TPM, fui repreendido por ela:

— Não existe TPM — disse de forma tão categórica, que não me restou alternativa a não ser concordar com ela. — TPM é uma invenção dos americanos para vender remédios.

Bem, muitas amigas minhas aqui no Brasil discordam da francesa, sobretudo quando aparecem determinados sintomas desconfortáveis “naqueles dias”. Mas sendo um pouco indulgente com o raciocínio dela, é verdade que a expressão TPM é relativamente recente para explicar o fenômeno e, de fato, veio do marketing da indústria farmacêutica associando a medicamentos ou absorventes.

“Incomodada ficava sua avó”, apregoa um antigo comercial de TV, nos ensinando como, nos tempos atuais, devemos nos referir ao mesmo fenômeno físico. Só que ao mudar a nomenclatura do fenômeno, mudamos também nossa percepção sobre ele e, muitas vezes sem perceber, incorporamos valores que nos empurram na direção de um consumo questionável. É assim que TPM vira uma doença a ser tratada.

TPM é, portanto, a metáfora de uma situação contemporânea, à qual estão associados valores sociais importantes, como a independência da mulher, que não precisa mais se incomodar, que pode trabalhar e ocupar seu novo lugar na sociedade etc e tal. Mas esse novo lugar da mulher está associado igualmente a um padrão de consumo. Ou seja, com a "liberdade", a "modernidade" etc. vem também o uso de produtos associados, pelo marketing, a essas noções. A liberdade, assim, vira mercado.

Coser acerta em cheio ao se referir a uma nova metáfora no mundo psi: “a categoria ‘transtornos comportamentais’, genérica o suficiente para não ter limites, porém específica o bastante para indicar um problema a ser resolvido.” Um problema a ser resolvido via medicamentos sofisticados, que insinuam que podem “curar” uma perturbação mental simplesmente ajustando os níveis de serotonina. Coser chama a atenção também para a disseminação do uso desses medicamentos, indicados inclusive por não especialistas e sem acompanhamento clínico.

Antes que me joguem pedra, esclareço: não sou contra o uso de medicamentos. E acho inclusive que, em alguns casos, eles são mais do que necessários. Apenas chamo a atenção para como o marketing dessas indústrias tenta incutir nas nossas pobres almas certos valores.
Muitas coisas são terapêuticas em determinados níveis. Ter um cachorro ou gato de estimação tem lá sua função terapêutica; seguir um culto; fazer ioga. Sou de um tempo em que a psicanálise e outras psicoterapias funcionavam muito precisamente para desatar nós que nenhum medicamento sozinho milagrosamente jamais o fará, independentemente dos comerciais na TV.

Postado por ipaco

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

DOMINGÃO TRANQÜILO NO BOTECO

Chibungo aguardando um petisco

Estou sentado com Macarrão. Dou um gole na geladinha. Chibungo está deitado aos meus pés, lambendo a pata. Espera algum petisco, o sonso...

- É Macarrão, muita gente pensa que a vida é um grande negócio. Um fórum pra se ganhar dinheiro. Uma grande feira livre. Nem desconfiam que a vida é uma grande viagem, e tão bela, quanto sejamos capazes de vislumbrar a paisagem... A vida é um dom... É de graça! E porque a recebemos assim, dada, não sabemos muito bem o que fazer com ela...

- É isso aí, Guará. Não é o que muita gente pensa. Imagino que deve ser uma angústia muito grande, para os que vivem para acumular, saber que tudo o que juntaram durante a vida, vai ficar por aí, rolando, coberto de poeira. Não se leva nada. Como dizia o outro bebum, outro dia, sentado perto da gente: "a gente leva da vida, a vida que a gente leva!"

Rio com Macarrão. As vezes as pequenas e dolorosas verdades estão jogadas aí, numa mesa simples de bar, ditas casualmente.

- É verdade Macarrão. A vida é casual. Encontramos pérolas nos lugares mais inusitados, naqueles onde ninguém acredita que possa haver algum tesouro.

- Guará, as vezes eu fico pensando, em coisas que li quando jovem, e que cedo aprendi a reconhecê-las como verdades, as tais verdades que terminam por determinar o que somos e o que seremos pela vida afora. A gente carrega essas coisas como uma mochila. E vamos colocando o que nos parece verdadeiro, nessa bagagem. E é dela que podemos sacar o nosso conforto nos momentos difíceis.

- Essa conversa tá parecendo conversa de bebum, Macarrão...

Bochecha vai chegando, com o seu andar gingado, um pouco cansado dos anos, mas ainda vigoroso.

- Buenas, que me abanco, tchê!

- Desde quando virou gaúcho, bochecha?

- Desde que comecei a ler o Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo! Já leram?

- Falar em ler, lembrei-me do extraordinário milagre de Jesus, quando curou dez homens leprosos, e apenas um deles, um samaritano, voltou para agradecer ter recobrado a saúde.
E o Mestre perguntou:
"Não foram dez os limpos? Onde estão os outros nove?"

- E daí, Guará.

- Daí, apenas um voltou. Somente aquele que mostrou gratidão. A gratidão é um estado de graça. Um estado mágico. O homem que demonstra gratidão pelo bem que recebe, dá o primeiro passo para apreciar a paisagem da vida. Sacou Macarrão?

- Saquei.

- O que aconteceu com os outros? Curados, esqueceram da doença e foram comemorar... - Ficou pensativo, e continuou: Por que é tão difícil agradecer?

- Você tá indo fundo, Guará! Tocar nesses mistérios é uma verdadeira viagem!

- Deixa eu acabar, Macarrão. A gratidão nos torna mais humanos. A vida não pode ser "toma lá, dá cá". A vida é muito mais do que isso. A gratidão quebra o egoísmo que nos faz parecer os únicos vencedores, ocultando no anonimato as outras pessoas que nos possibilitaram alcançar o êxito. Saber partilhar uma conquista, esse é o segredo que nos faz grandes... É preciso entender que não caminhamos sozinhos. É aquele poema do Brecht, que diz: Alexandre conquistou o mundo. Só ele? Quem cozinhou para Alexandre? Quantos morreram para a sua conquista e glória?

- Esse poema você já disse uma vez aqui no Boteco, tá lembrado?

- Tou sim. É preciso mais gestos de gratuidade, de agradecimento pelos que nos suportam, nos carregam, aliviam nossas dores, nos alimentam... Aquela professorinha das primeiras letras que nos alfabetizou; aquele enfermeiro que pensou nossas feridas, no momento da dor; aquele médico que nos salvou de doença grave... As coisas boas que comemos e que vieram das mãos anônimas de cozinheiros... É impossível ser feliz sozinho! E gratidão é estar acompanhado... Quando Jesus pergunta: e onde estão os outros?

- É isso que temos que perguntar, né Guará? Onde estão os outros que me fizeram chegar até aqui... Vou tomar uma pinga. Fiquei emocionado.

M. AMERICO

O BRASIL CONTRA A CORRUPÇÃO

Enquanto o PT e o “Zé” querem censurar a imprensa, o Brasil canta o Hino Nacional contra a corrupção

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Na Avenida Paulista, brasileiros cantam o Hino Nacional contra a corrupção. E sua bandeira é a do Brasil, não a vermelha.

ENTREVISTA COM PAULO FRANCIS

"Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. É tão incomum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. Crítica não é raiva. É crítica. Às vezes é estúpida. O leitor que julgue. Acho que quem ofende os outros é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma. Meu tom às vezes é sarcástico. Pode ser desagradável. Mas é, insisto, uma forma de respeito, ou, até, se quiserem, a irritação do amante rejeitado." Paulo Francis

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POR QUE FICAMOS SURPRESOS COM A PROMOÇÃO DE "DIREITOS À PEDOFILIA"?


Artigos - Movimento Revolucionário

Todos os principais argumentos comumente usados para normalizar a homossexualidade estão sendo usados para normalizar a pedofilia e a pederastia.

Os artigos acadêmicos em revistas eruditas estão apresentando a pedofilia de um modo solidário há anos e, conforme observou Matthew Cullinan Hoffman, a Associação Americana de Psicologia (AAP) divulgou um relatório em 1998 “afirmando que o ‘potencial negativo’ de sexo adulto com crianças estava sendo ‘exagerado’ e que ‘a vasta maioria dos homens e mulheres não relatou nenhum efeito sexual negativo de suas experiências de abuso sexual na infância’.

O relatório chegou a afirmar que grandes números das vítimas relataram que suas experiências eram ‘positivas’, e sugeriram que a frase ‘abuso sexual de crianças’ fosse substituída por ‘sexo entre adultos e crianças’”.
Outros inventaram o mais repugnante dos termos: “intimidade intergeracional”.

O relatório da AAP foi tão perturbante que atraiu uma repreensão oficial do Congresso, mas a promoção pró-pedofilia (ou, pró-pederastia) continua. Aliás, alguns líderes psiquiátricos, como o Dr. Richard Green, que colaborou de forma fundamental para remover a homossexualidade da lista de desordens mentais da AAP em 1973, têm estado lutando para remover também a pedofilia.

Considere, por exemplo, esta declaração do falecido professor da Universidade de Johns Hopkins, John Money: “A pedofilia e a efebofilia [referindo-se à atração sexual que um adulto sente por um adolescente] não são questão de escolha voluntária, pois são como ser canhoto ou sofrer de daltonismo. Não se conhece nenhum método de tratamento com que [a pedofilia e a efebofilia] possam ser com eficácia e permanentemente alteradas, suprimidas ou substituídas.
Castigos são inúteis. Não há nenhuma hipótese satisfatória, evolucionária ou de outro tipo, quanto aos motivos por que existem no sistema geral de coisas da natureza. Precisamos simplesmente aceitar o fato de que elas existem, e então, com esclarecimento de excelente qualidade, formular uma política do que fazer acerca delas”.

Agora, vote e releia o parágrafo, substituindo a palavra “homossexualidade” por “pedofilia” e “efebofilia”. Não é interessante?

Para ajudar a desnudar mais a realidade disso, vamos imaginar um homem homossexual argumentando com um homem heterossexual:

1) Minha homossexualidade não é uma preferência sexual, mas uma orientação sexual, exatamente na mesma medida que sua heterossexualidade não é uma preferência sexual, mas uma orientação sexual.

2) Minha homossexualidade é tão normal quanto sua heterossexualidade.

3) Já que minha conduta é geneticamente determinada e não uma escolha, é intolerante e abominável sugerir que é errada. E chamar minha conduta sexual de ilegal ou imoral, ou recusar legitimar relacionamentos de mesmo sexo, é ser um moralista fanático da pior espécie.

4) Fico profundamente ofendido com suas tentativas de identificar áreas da minha criação e ambiente como causas alegadas para a minha homossexualidade.

5) Categoricamente rejeito o mito de que alguém pode mudar sua própria orientação sexual. De modo particular, tais declarações só aumentam a angústia e sofrimento de gays e lésbicas, e tentativas de nos mudar muitas vezes levam a consequências catastróficas, inclusive depressão e suicídio.

Agora, vamos mudar este exemplo e colocar um pederasta para argumentar seu caso com um homossexual, substituindo as palavras de acordo com essa situação (assim, “A pederastia não é uma preferência sexual, mas uma orientação sexual, exatamente na medida que sua homossexualidade não é uma preferência sexual, mas uma orientação sexual”).

De fato, todos os principais argumentos comumente usados para normalizar a homossexualidade estão sendo usados para normalizar a pedofilia e a pederastia, conforme documentei com muito detalhe (e sofrimento) em A Queer Thing Happened to America (Ocorreu uma Coisa Gays contra os Estados Unidos), onde também deixei claro que eu não estava igualando a homossexualidade com a pedofilia, mas em vez disso comparando os argumentos usados para normalizar ambos.

Eis os oito principais argumentos, todos dos quais (em forma modificada) são comumente usados no apoio à homossexualidade:

1) A pedofilia é inata e imutável.

2) A pederastia é abundantemente confirmada em muitas diferentes culturas em toda a história.

3) A afirmação de que os relacionamentos sexuais entre adultos e crianças podem causar danos é muito exagerada e muitas vezes completamente inexata.


4) O sexo consensual entre adultos e crianças pode realmente ser benéfico para a criança.

5) A pederastia não deveria ser classificada como desordem mental, já que não causa angústia para o pederasta ter esses desejos e já que o pederasta pode viver normalmente como um cidadão que contribui para a sociedade.

6) Muitas dos mais famosos homossexuais do passado eram realmente pedófilos.

7) As pessoas são contra a intimidade intergeracional por causa de padrões sociais antiquados e fobias sexuais puritanas.

8) Tem a ver somente com amor, igualdade e liberação.

Mas nenhum desses argumentos deveria nos surpreender. Afinal, a era da crescente anarquia sexual em que vivemos é fruto da revolução sexual da década de 1960, e as sementes da anarquia sexual já foram semeadas por Alfred Kinsey no final da década de 1940, conforme a Prof.ª Judith Reisman tem incansavelmente documentado. E foi Kinsey, afinal de contas, que contou com a pesquisa de pedófilos para documentar as reações sexuais de bebês e crianças.

Com certeza, tudo isso é totalmente horrível. Mas não deveria certamente ser surpresa. Aliás, devemos esperar isso e mais.


Escrito por Michael L. Brown, em 06.09.2011
Tradução: Julio Severo

A GRAMA DO VIZINHO

– olha lá, é daquilo ali que eu estou falando…

– daquilo, o que?

– aquele casal de pé, perto da entrada do restaurante…

– que que tem?

– como o que que tem? Dá pra sentir no ar que eles se amam de verdade, que têm respeito um pelo outro, cumplicidade. Repara no jeito carinhoso com que ele olha pra ela. Devem ser muito felizes…

– tipo, o contrário da gente, né?

– é você que tá dizendo…

– olha como você é engraçada: me trata com indiferença por dias, ríspida, agressiva, dando patada o tempo todo, agora vem se queixar de falta de romance?

– se você está se referindo ao que aconteceu esta semana, saiba que tive meus motivos pra ficar com raiva de você, ok?

– mas o que foi que eu fiz?!

– você sabe o que você fez…

– não sei não. Diz então: o que foi que eu fiz pra você ficar 2 dias sem falar direito comigo?

– você quer mesmo que eu diga?

– quero! Não é uma pergunta retórica, responde aí, vai…

– bom, no momento, assim, não me lembro, mas aposto que foi algo que me tirou do sério. Uma daquelas coisas absurdamente sem noção que você faz de vez em quando, só pra me irritar…

– tá vendo, você nem sabe por que a gente brigou… isso é o cúmulo!

– cúmulo é o jeito com que você me trata. Parece que gosta mais do seu instrutor de pilates ou, sei lá, do seu Ipad, do que de mim, que sou sua mulher.

– putz, que absurdo… frente a esse argumento eu tenho que me render! Não dá pra argumentar, porque, por mais que esteja errada, você nunca aceita ser contrariada.

– eu nunca aceito ser contrariada?! De onde você tirou isso?

– tá bom, chega! Vamos só terminar o jantar em silêncio, pode ser?

(…)

– pô, amor, não vamos ficar nesse clima horrível não… a gente tá brigando por cada besteira…

– pois é, estamos aqui nesse restaurante incrível, comendo esses prato delicioso, desperdiçando um momento que tinha tudo pra ser especial…

– exatamente… olha, vamos passar uma borracha nisso tudo, tá bom? Eu me sinto ruir por dentro quando penso que você não está feliz…

– ai, que coisa mais linda, amor.

– vem cá, me dá um beijo…

Enquanto o casal se beija, de uma mesa localizada a alguns metros de distância, um outro casal observa a cena:

– olha lá, é daquilo ali que eu estou falando…

Bruno Medina

terça-feira, 6 de setembro de 2011

CONVERSA DE BOTEQUIM

É preciso entender um pouco da história do homo sapiens, para compreender que conversa de botequim não tem leme. É uma espécie de barco à vela. Ela vai pra onde sopra o vento. E não adianta querer seguir numa direção, se o vento sopra em outra.

Essa "tese" foi o resultado de uma longa conversa com o Macarrão.
Eu já falei do Macarrão? Pois é. No dia desse papo, Macarrão estava um tanto quanto irritado. Fora jogar sinuca no Boteco do Libório, e lá resolvera citar Pascal. E conversa daqui, rola prali, Pascal pra frequentador de boteco e a capital do Curdistão, é aquela história: ninguèm sabe o que é e menos ainda onde fica.
O Macarrão, leitor assíduo de Blaise Pascal, irritou-se, e danou a falar da miserabilidade do ser humano, da sua efemeridade, do brevíssimo tempo de sua vida; e ainda por cima resolveu citar uma passagem do poeta Brecht, aquela do círculo de giz.

Disse Macarrão pra uma platéia absolutamente desinteressada, que eles eram como aquele peru do Brecht. A parte os malentendidos, que quase gerou porrada, sobrou um tempo pro Macarrão explicar.

O peru a que ele se referia, era aquele de uma peça de teatro do B. Brecht: o peru, no meio de um círculo de giz, não conseguia pular e evadir-se.
O velho Libório, já escaldado com porradaria, polícia e prejuízo, observava de longe.

Mas aquela de círculo de giz, peru, prisão, e a burrice do peru, prendeu a atenção dos bebuns. E Macarrão explicou a simbologia do círculo. Não representava ele nenhum impedimento para que o peru se evadisse na direção que quisesse. O problema era o peru entender que bastava passar por cima do risco de giz.

Assim era o problema da mediocridade. Como um círculo de giz, aprisiona muita gente incapaz de entender que basta um passo para passar para o outro lado. Silêncio total. Macarrão observando a cara do pessoal, sem reação e sem entendimento do que fora dito. Continuavam presos no círculo de giz.
"Mas é essa a tua irritação, Macarrão?" - perguntei. E ele sério, entornando guela abaixo o último gole, disse: veja se você pula o círculo de giz!

Lili se acomodou melhor na cadeira. Suspiro fundo. Olhou pro pessoal com carinho.

- Fiquei triste vendo esse papo. Tenho estado dentro de um círculo de giz ha muito tempo.
Acho que vou tomar uma cachaça para pensar a respeito.

Macarrão, um sentimental que oculta o coração, porque pensa que homem não pode ter essas fraquezas, brincou:

- Toma duas logo duma vez, sô! Uma por mim... Pensando melhor, toma três: duas por mim!

Lili sorriu. Vou tentar uma variante desse peru idiota.
Uma variante do circulo de giz: água quente.
Vários estudos sobre comportamento animal demonstram que um sapo colocado num recipiente com a mesma água de sua lagoa, fica estático durante todo o tempo em que aquecemos a água, mesmo que ela ferva. O sapo não reage ao gradual aumento de temperatura (mudanças de ambiente) e morre quando a água ferve. Inchado e feliz.

Por outro lado, outro sapo que seja jogado nesse recipiente com a água já fervendo salta imediatamente para fora. Meio chamuscado, porém vivo.

As vezes, somos sapos fervidos. Não percebemos as mudanças. Achamos que está tudo muito bom, ou que o que está mal vai passar - é só questão de tempo. Estamos prestes a morrer, mas ficamos boiando, estáveis e apáticos, na água que se aquece a cada minuto. Acabamos morrendo inchadinhos e felizes, sem termos percebido as mudanças a nossa volta.

Bochecha deu um gole na cerva, e disse:

- Sapos fervidos não percebem que além de ser eficientes, têm que fazer as coisas. E, para que isso aconteça, há necessidade de um continuo crescimento, com espaço para o diálogo, para a comunicação clara, para dividir e planejar, para uma relação adulta.O desafio ainda maior está na humildade em atuar respeitando o pensamento do próximo.

Lili cortou o incompreensível discurso do Bochecha:

Há sapos fervidos que acreditam que o fundamental é a obediência, e não a competência: manda quem pode, e obedece quem tem juízo.
E, nisso tudo, onde está a vida de verdade? É melhor sair meio chamuscado de uma situação, mas vivos e prontos para agir.

Olhei pra Lili, servi seu copo com mais cerveja, acrescentando:

- Sabe Lili, acho que ocê num seguiu o meu conselho e tomou pra lá de uma... Inclusive tomou as minhas. Santa Brígida! Que sermão! Mas ocê me perdoa as ponderações abaixo? Eu perdoei ocê, por causa daquela poesia chinfrim (parece até auto-ajuda!). Aliás quem devia me perdoar era ocê. Mas eu vou saber quem é o anònimo daquela merda...

Isso de morrer inchado e feliz só porque foi fervido no seu habitat, ficou estranho pra caraca! Veja ocê: o 'sapo barbudo' ficou inchado e feliz, na fervura do Planalto, mas não morreu... Continua aí, pulando, vivim... vivim, por cima de tudo!
Tá certo que mudou o seu habitat, passou a tomar champanhe sem abandonar a pinga, jogar futebol na Granja do Torto (Quem seria o Torto?), mudou o seu habitat da fábrica para o palácio... mas até aí morreu o Neves afogado em cuspe!

Agora, se ferver antes o habitat do sapo e jogar o safado lá, quando estiver borbulhando, tu vai ver só o salto que o danado vai dar!!! Pode inté sair com o rabo chamuscado, mas eu garanto que morrer inchado e feliz... nunquinhas! Mas cientista é assim mesmo... Depois que o sapo pular, eles vêm com outra teoria...

Macarrão atalhou, enfático:
- E sapo inchadinho e feliz morrendo numa boa, só se for sapo rico, com a barriga cheia de insetos saborosos. Sapo pobre (e quase que eu digo sapupara!), tá sempre pulando pra num morrer de fome ou deixar a cobra morrer. E não precisa nem ferver a água. Só de riscar o fósforo ele já espanta carreira!

Tomei a palavra do Macarrão, e continuei:
- Minha amiga Lili, não se pode levar a vida muito a sério. Meu amigo Voltaire, ensinou-me muito cedo a rir das tolices humanas. Flaubert também não deixou barato, para não falar de Anatole France.
Fiquei tão ressabiado, que adotei alguns lemas, sem esnobismo. Nada de lema em francês, alemão, inglês que ninguém entende, mas acha inteligente pacas!

1. Tudo na vida é passageiro, menos motorista e trocador. (Anônimo)
2. Tudo passa, até uva passa. (Anônimo)
3. Formei-me em Letras, e na bebida busco esquecer (L.F.Veríssimo)

Juro que nunca mais eu falo em círculo de giz com ocê. Quem vai tomar umas agora sou eu. Santa Brígida

M. AMERICO

TENHO SAUDADES DE MIM

Estava a ler o texto de Adauto Novaes (nosso filósofo sem torre de marfim) sobre a preguiça - tema de seu seminário/livro atual. Na realidade, são estudos sobre a lentidão, neste mundo cada vez mais veloz. E,

aí, tive saudades da calma, do princípio, meio e fim, tive saudade das "geladeiras brancas e dos telefones pretos", das manhãs, tardes e noites, separadas pela luz que se coloria do rosa ao negro e se apagava aos poucos, tive saudade das mortiças casas de família, até da infelicidade de antigamente - de novela de rádio -, de lágrimas furtivas, dos casais com olhos sem luz, depois de casamentos esperançosos com buquês arrojados para um futuro que ia morrendo aos poucos.

Estou com saudades de tudo. De mim, inclusive. "Saudades" ou "saudade"? Tenho saudade (s) de meu velho professor de português, magrinho, irritadiço e doce, Luis Vianna Filho, que me bradava:
"O senhor não tem acento circunflexo!", apontando meu nome que meu avô árabe registrara "Jabôr". E continuava:
"Jabor é o certo. A única palavra dissílaba da língua terminada em "or" que tem circunflexo é "redôr", para diferenciar de "redor, em volta de", pois redôr é o pobre-diabo que fica puxando o sal nas salinas, com um rodo".

Lembrei-me dos miseráveis "redôres" de Cabo Frio, lembrei de minha juventude quando achei, por acaso, uma velha fotografia de jornal, em preto e branco, da passeata dos Cem Mil em 1968 na Cinelândia.
No meio da multidão da foto, vi emocionado um pequeno rosto granulado - eu mesmo, ali, sentado no chão, ouvindo os discursos de Vladimir Palmeira e (talvez) de Dirceu -, bonito, cabelo longo, hippie guerreiro.

Tive uma nostalgia do passado até com a recente "reprise" de José Dirceu na mídia como poderoso chefão dos soviéticos que, aliás, aproveitaram os últimos escândalos para reciclar o lixo bolchevista de "controlar a Imprensa". (Eles não desistem).

Fiquei nostálgico porque Dirceu era também uma sobrevivência do passado em minha vida. E tive uma bruta saudade da utopia. Sempre critiquei o Dirceu porque ele, do passado em preto e branco, tinha querido invadir o presente com uma subversão regressista, que poderia nos jogar de volta a um tempo morto.

Muito mais do que os milhões desviados do "mensalão", critiquei-o ideologicamente, porque ele liderava uma tendência, viva ainda hoje, de se "tomar o Estado", "desapropriando" o dinheiro público pelo "bem do povo". Dirceu caiu por uma tentativa que mais uma vez falhou, em nossa esquerda de trapalhões, como foi em 63 ou em 68, no Congresso de Ibiúna.

Mas, mesmo assim, fiquei com saudade de mim mesmo. Tenho saudade de mim ali, com o rosto cheio de esperança na passeata, achando que mudava a história e que o mundo era fácil de mexer.

Como eu gostaria de explicar aos jovens de hoje o que era a infalível "certeza" daquela época remota, o que era a delícia de viver sentindo-se no "bom caminho", na "linha justa", salvando o futuro. Hoje, ninguém sabe o que era o sentimento de harmonia, de totalidade, em um mundo fragmentado e frio.

Hoje, os meninos vivem em galáxias de informações, quando não há mais lugar para "A Verdade". Os jovens que nascem no grande deserto virtual não sabem que vivíamos num rio que corria para o futuro, em direção a uma felicidade completa, com lógica, com Sentido. Tenho saudade do futuro que hoje se espraia como uma grande enchente suja, sem foz, um deserto sem ponto final. Hoje sabemos que não há mais futuro nem chegada - só caminho.

Tenho saudade do amor da juventude, da minha namorada comunista - nós dois no sofá-cama do "aparelho" clandestino do PCB em Copacabana, o sofá-cama rasgado, com a mola aparecendo, onde nos amávamos antes da reunião da "base" com medo que chegasse o supervisor, um "camarada" com um doce nariz de couve-flor rosado e tristes sapatos pretos com meias brancas, que nos falava, melancólico, do imperialismo norte-americano. Tenho saudades dela, linda, corajosa, no apartamentinho com o cartaz dos girassóis do Van Gogh e uns livros da Academia Soviética, numa prateleira sobre dois tijolos.

Para nós, comunas, até a morte era pequena, como nos ensinava o camarada de nariz rosado:
"O marxismo supera a morte, pois uma vez dissolvido no social, o indivíduo perde a ilusão de existir como pessoa. Ele só existe como espécie. E não morre!" E eu, marxista feliz, sonhava com a vida eterna...

Tenho saudade das madrugadas cheias de esperança, as madrugadas políticas, a boemia de esquerda, soldados de uma guerra imaginária. Meu Deus, como eu era importante, como me senti útil quando ajudei um pouco a luta armada, quando levei no meu fusca um casal de feridos sangrando no banco de trás, até um "aparelho", quando o líder da célula pegou o volante e eu fui ao lado, de olhos fechados para não saber onde estávamos - se bem que espreitei pela fresta das pálpebras e vi o casal mancando em direção a um prédio.

Tenho saudades dessa trágica solidariedade, mas tremi nesse dia, pois comecei a entender que não havia apenas um deserto à nossa frente, mas uma avalanche de obstáculos imensos e que íamos acordar de um sonho para um pesadelo.
Entendi que éramos fracos demais para moldar a realidade e que a vontade não bastava, pois as coisas comandavam os homens e a vida tem um curso próprio e misterioso.
Entendi que ser político e lutar pelo futuro exige vagar e respeito pela insânia do mundo e que a tragédia é parte essencial da vida e que tentar saneá-la pode levar-nos a massacres piores.
Entendi que luta política se faz com humildade e que só a democracia é revolucionária no Brasil. Fora isso, é o desastre.

Mas, tenho saudade da mistura de poesia com revolução que era nossa vida, tenho saudade desse narcisismo onipotente e inocente, tenho saudade da esperança e da ilusão.

Arnaldo Jabor, O Estado de S. Paulo

REFLEXÕES DE UM DIVAGANTE


Pedi silêncio na mesa. A discussão girava em torno do Zédirceu e sua quadrilha. O papo era gigante e ruidoso. Macarrão, Bochecha, Suspiro... A turma bradava aos infernos...
Xibungo, o vira-lata de estimação da mesa, rondava a espera de uma sobra dos petiscos. Um linguicinha caia bem naquele momento. Com seus olhos pidões, amolengava os nossos corações.

Aproveitei a 'deixa' e mandei os versos:

A compreensão que você reivindica a cada passo...
Depende de você!

A bondade que você admira nas pessoas e sonha possuir...
Depende de você!

A abertura que é o caminho para a renovação...
Depende de você!

A realização que você julga essencial...
Depende de você!

O amor que você quer encontrar nos outros...
Depende de você!

A organização que você apregoa...
Depende de você!

Macarrão olha para mim, surpreso com a bonomia pouco habitual do discurso e pergunta:

- Você sonhou com os anjos? Me permita discordar dessas palavras cheias de encantamento, ainda que doa fazer isso com a poesia...
Bochecha atravessa a fala de Macarrão:
- Isso deve ser alguma paixão!

Macarrão continua, apesar do riso matreiro de Bochecha.
- Mas eu acho que tem coisa que depende dos outros. A gente não consegue ser bonito se ninguém acha que a gente é. Não dá para ser admirador de determinado autor se não há outra referência, algum tipo de concordância.

E vou mais longe! Acho que a gente pode até morrer se for rejeitado demais. Eu sei porque sou criador de mula-sem-cabeça, e o bicho está em extinção por causa de um tipo de rejeição moderna.
Os padres não gostam mais de mulheres. Agora só gostam de crianças, quer dizer, não nasce mais mula-sem-cabeça nessa terra. Mas isso é apenas um exemplo.
Tomou um golaço de cerva, pra aliviar a goela.
- Ser o patinho feio o tempo todo não é saudável. Não depende só da gente mudar isso.
O homem é um animal social, precisa da aprovação do outro para se sentir bem (pelo menos de alguns). Se um dia o bicho não vira cisne, e arranca olhares estupefatos de pelo menos parte da platéia, morre de desgosto. Já vi acontecer.

Olhei para o Macarrão e sem refletir sobre as suas palavras, defendi-me:

- Um homem não pode devanear? Um homem não tem o direito de vagar por outros páramos, sem que lhe caiam em cima de paulada? Sei do que você está falando, Macarrão. E você Bochecha fique sabendo que nem tudo nessa vida é paixão por mulher! De vez em quando, um homem fica com o saco cheio dessa realidade pequena, mesquinha, que nos achata, nos apequena. Um gole de poesia é tão confortador como um gole de cerveja... E o que devemos aos poetas, não tem paga nesse mundinho de Deus. São a luz do mundo. Como as crianças, cujos sorrisos são intraduzíveis e enchem o mundo de alegria.
Lancei um naco de linguiça pro xibungo, que pegou no ar.
Macarrão atalhou:
- Até pode ser. É apenas uma questão de espírito, de momento. Agora, por exemplo, eu prefiro uma cerva gelada à poesia domesticada que você decantou. E quer saber? Zédirceu no momento é muito mais importante! Poesia não vai devolver a vida pública o que os ladrões estão tirando...
Cortei:
- Não. Não quero saber. Viva a cerveja que nos afaga o sentido. E a poesia! E o Zédirceu... Cadeia nele!

M. AMERICO