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Nunca é tarde demais para aprender como fazer as coisas com fé
O livrinho de 64 páginas chegou às livrarias da Inglaterra, oportunamente, antes do bimbalhar dos sinos natalinos. Ele também pode ser comprado através da Amazon.co.uk e nada impede que logo mais irrompa em versão Kindle. Contudo, aquele que a ele recorrer com a esperança de encontrar um bom manual de autoajuda dificilmente encontrará satisfação plena. O propósito do Prayer Book for Spouses (ou Livro de Orações para Casais), publicado pelo braço editorial da Santa Sé na Grã Bretanha, a Catholic Truth Society, é oferecer orações específicas a cada estágio da vida a dois - do noivado ao casamento, da gravidez aos cuidados com a prole - daqueles fiéis que decidiram ser fiéis até que a morte os separe.
As orações, que foram criadas por vários autores, vêm intercaladas de ensinamentos da fé católica sobre o significado do matrimônio. O manual é descrito como "companheiro espiritual essencial" para quem planeja constituir família. Suas preces e meditações estão divididas em sete capítulos e abordam sessenta tópicos. A publicação tinha tudo para ter sua repercussão restrita exclusivamente aos devotos - não fosse o inesperado tópico tratado na página dezenove. Seu título, "Prece antes de fazer amor", atraiu, inevitavelmente, a atenção também de leitores ímpios, hereges ou simples curiosos de todos os credos.
A ideia seria rezar com ou sem roupa? Ajoelhado, de pé ou já deitado? Cada um por si ou de mãos dadas? Em uníssono ou jogral? Enfim, todo um leque de possibilidades que se abria ao imaginário. Mas o texto, como era mais realista de se esperar de uma obra pia contemporânea, não contempla maiores aberturas. Destina-se, ao contrário, a purificar as intenções e delas erradicar qualquer conotação hedonista. Uma das preces é assim:
Pai Nosso, enviai o Espírito Santo a nossos corações. Contemplai-nos com um amor verdadeiramente generoso, uma ternura capaz de unir, uma auto-oferenda sem falsidade, uma união física acolhedora... Cubra nossa necessidade com a riqueza de Vossa misericórdia e perdão. Vista-nos com nossa verdadeira dignidade e receba nossas aspirações conjuntas para Vossa glória eterna, para sempre. Maria, mãe de todos, intercedei por nós. Amém.
Como ponderou a americana Frances Kissling, presidente do Católicas pelo Direito de Decidir desde sua fundação, em 1982, até dois anos atrás, seria injusto submeter orações ao crivo de uma crítica literária. Mesmo assim, ela considerou a prece pré-cópula "um amontoado de bobagens composto por uma sucessão de clichês", cuja finalidade parece ser a de "evitar o sexo a todo custo". Em se tratando de Kissling, veterana militante dos direitos da mulher católica, e agora docente no Centro de Bioética da Universidade da Pensilvânia, a reação não surpreende. Em momento algum os autores do livro pretenderam falar à parte do rebanho menos dogmática.
O Prayer Book for Spouses só faz nexo quando se leva em conta que, pela primeira vez desde a Reforma de 1534, a Igreja Católica Apostólica Romana está em fase de expansão galopante no Reino Unido. A ampliação de fiéis se deve à enxurrada de imigrantes legais e ilegais vindos de países católicos, sobretudo da Polônia.
Inversamente, a Igreja da Inglaterra e os anglicanos da Escócia, do País de Gales e da Irlanda passam por um lento mas consistente declínio. Segundo dados citados pelo jornal The Times, 95% dos imigrantes aportados em terras britânicas nos últimos anos são católicos tradicionalistas. Eles fazem da Igreja um elemento de identidade pessoal, uma referência cultural e, no caso da Polônia, o fator maior da identificação nacional. Em sua grande maioria, trata-se das ovelhas mais conservadoras do catolicismo, para quem a eterna súplica do perdão - mesmo numa prece pré-coito - pode ser bem-vinda.
O devoto que busca conforto num linguajar pulsante de alegria e prazer sempre poderá encontrar refúgio no bom e eterno Velho Testamento. Mais precisamente, no Livro de Cantares ou Cântico dos Cânticos, de Salomão, certamente a mais memorável prece amorosa de todos os tempos. Em seus oito capítulos e 117 versículos, o rei Salomão, filho de Davi, e sua amada Sulamita compõem um dueto de intimidades que qualquer cristão é capaz de entender. Uma pequena seleta, a título de lembrete:
Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o seu amor do que o vinho.
Os teus lábios são como um fio de escarlata, e o teu falar é doce.
O meu amado é meu, e eu sou dele...
Os teus dois peitos são como dois filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios.
Favos de mel manam dos teus lábios. Mel e leite estão debaixo da tua língua, e o cheiro das tuas vestes é como o cheiro do Líbano.
O meu amado meteu a sua mão pela fresta da porta, e o meu coração estremeceu por amor dele.
As voltas de tuas coxas são como joias, trabalhadas por mãos de artista.
O teu umbigo, como uma taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre, como monte de trigo, cercado de lírios.
Dois meses atrás, falando para uma delegação de bispos brasileiros em visita ao Vaticano, o papa Bento xvi lançou-se numa diatribe contra a televisão e o cinema. Segundo o pontífice alemão, os meios de comunicação de massa incentivam estilos de vida seculares, que minam a família e aumentam os índices de divórcio. "Filhos de um casamento desfeito são como órfãos, não por não terem pais, mas por terem um número excessivo de pais. A família deveria procurar viver como a Sagrada Família", resumiu o pontífice.
É dessa conjuntura que brota o atual manual de orações para cônjuges. Cinquenta anos atrás, quando Doris Day e Rock Hudson trocavam confidências à meia-noite na comédia romântica Confidências à Meia-Noite, uma prece antes de fazer amor talvez devesse ter sido encaixada.
24 de junho de 2015
Dorrit Harazim





s vezes fazemos penteados bobos em minha mãe ou a fotografamos com chapéus engraçados; humor negro, mas útil: invertendo a máxima do comediante, comédia é bico, o duro é morrer. Melhor calcular no mínimo dois anos, diz o meu corretor de seguros, para esse toco de vida – e possivelmente muito mais.
sso não é apenas um prolongado, estoico e heroico adeus. É carnificina humana. Um estudo mostrou que 70% das pessoas com mais de 80 anos sofrem de alguma incapacidade crônica; desse grupo, 53% têm pelo menos uma incapacidade grave e 36% têm perda cognitiva de moderada a grave. (E que ninguém pense que perda moderada seja uma condição branda.)
uando terminou o ensino médio, em 1942, minha mãe foi trabalhar no Evening News de Paterson, em Nova Jersey. Numa redação com muitos de seus homens na guerra, Marguerite Vander Werf – apelidada de “Van” na redação e para sempre – logo se tornou repórter de assuntos militares. Sua tarefa era ficar de olho nas vítimas locais. Aos 18 anos, magricela de 43 quilos e meia soquete, minha mãe muitas vezes aparecia na porta dos pais de um soldado antes do telegrama do Ministério da Guerra e tinha de contar àquelas almas que o filho estava morto. Décadas depois, essa recordação ainda a deixava melancólica.
uando trocam a fralda de minha mãe, ela faz ruídos de um desespero rascante. Durante um tempo, antes que perdesse toda a linguagem, era possível, com um esforço de concentração, decifrar o que ela estava dizendo, o que repetia sem parar: “Isso é uma violação. É uma violação. É uma violação.”
então veio um feriado, esses infalíveis barômetros da saúde familiar. O Dia de Ação de Graças de 2009 já estava esquisito. Eu havia me separado no início do ano. Minha namorada, com quem eu estava morando (na casa dela), iria também. Meus filhos estavam boicotando. Era minha mãe que tentava ser o pilar firme e forte. Ela insistiu que daria conta do recado. O vizinho – que por anos vinha fazendo as vezes de seu escudeiro – iria se encarregar de pôr o peru no forno, pesado demais para ela. Minha irmã e eu chegaríamos antes dos outros convidados, para os últimos detalhes. Estava tudo em ordem quando chegamos lá: as batatas cozidas e prontas para serem amassadas em uma panela, as cenouras cozidas, a torta de cebola assada. Tudo em ordem – a não ser pelo fato de que minha mãe havia feito esses preparativos com uma semana de antecedência. As panelas exalavam um cheiro alarmante. Pior era que ela não tinha noção de nada – e não dava sinal de alarme.
odo mundo teria administrado de outra forma o declínio dos pais. Ninguém se orgulha. Todos nós pisamos na bola.Em parte, porque não existe resultado bom. E em parte porque a medicina moderna é um processo aleatório sem uma real direção e, em última análise, sem ninguém no comando. A bola é sempre passada adiante. Nesse buraco negro, todos nos tornamos ineficientes e patéticos.
ão é bem verdade. Meu irmão manifestou dúvida, mas, como ele estava em Mauí e, portanto, sem condição de avaliar a realidade de... bem, a realidade de estar perto, descartamos sua opinião. E minha mãe protestou também. Seu desejo foi sempre devidamente expresso, com eloquência e por escrito: ela não queria, em hipótese alguma, acabar onde finalmente acabou. Ainda tinha discernimento suficiente para resistir – sentada ali no hospital, escrevia bilhetes em pânico, suplicantes, como o Herzog de Saul Bellow, a qualquer um que se dispusesse a ouvir. Mas quem dá ouvidos a uma mulher que rabisca esse tipo de bilhete?
inha mãe foi reduzida a uma criatura aterrorizada que perdia habilidades de linguagem a cada minuto. “Ela parece agitada, sem dúvida”, disse-me o psiquiatra enviado para administrar drogas antipsicóticas, “e você também.”
conteceu numa sala privativa do hospital, pequena para a ocasião e entulhada de mobiliário fora de uso, no interior da qual se acomodaram seu médico, seu neurologista, sua assistente social, minha irmã e eu. Pareceu-nos o passo maduro a ser dado: encarar realmente o ponto em que estávamos, não obrigar aquelas pessoas a pisar em ovos ao redor do óbvio.
que você faz com a sua mãe quando ela não consegue fazer nada – nada mesmo – para si própria? A questão, para começo de conversa, não é como você lida com as necessidades dela – é onde você a põe. Sim. Trata-se, para começar, de quem ou de qual instituição ficará com ela.
ara meu irmão, claro, tratava-se de um pântano de despesas e encargos. Minha irmã lhe assegurou, como tínhamos ouvido dos médicos, que até seis meses era um quadro realista. Meu irmão consultou o seu Google: “Sim, sim, eles têm razão, nesse estágio a expectativa é de seis meses. Mas querem saber do que eles morrem? Morrem de negligência! De negligência! Não tem negligência aqui! Não é natural!”
ambaleante por conta da ferida que ainda cicatriza na perna, Bola fez duas paradas para respirar enquanto andava rumo ao Olympe. No caminho, foi surpreendido por um Peugeot 206 que buzinou ao seu lado. “Bola, taí teu remédio. É um por dia, o.k.? Depois do café. Não vai dar mole, moleque”, aconselhou o mauricinho que estava ao volante. Enquanto espremia o jovem de Ray-Ban e Rolex num abraço pegajoso, Bola meteu na bolsa as seis caixinhas de Pioglit, remédio para controlar o diabete. “Pô, cara, ainda bem que tu me ajuda”, agradeceu. “Cada caixinha dessa sai por uns 40 reais na farmácia.”