quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O AMOR ACABA...



O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Paulo Mendes Campos

Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.


FÁBULAS FABULOSAS



O Rato que tinha medo (A maneira dos … Marroquinos)?
por Millôr Fernandes

Um Rato tinha medo de Gato. Nisso não era diferente dos outros ratos. Pavor, tremor, ânsia, vida incerta. Mas igual a todos outros de sua espécie, o nosso Rato teve, no entanto, um fato diferente em sua vida – encontrou-se com um Mágico(1).

Conversa vai, conversa vem, ele explicou ao Mágico a sua sina e o seu pavor.
O Mágico, então, transformou-o exatamente naquilo que ele mais temia e achava mais poderoso sobre a terra – um Gato.
O Rato dai em diante, passou a perseguir os outros ratos, mas adquiriu imediatamente um medo horrível de cães. E nisso também, não sendo diferente de todos os outros gatos.

A única diferença foi que tornou a se encontrar com o Mágico.
Falou-lhe então do seu novo medo e foi transformado outra vez na coisa que mais temia – um Cão, que pôs-se logo a perseguir os gatos. Mas passou a temer animais maiores: como Leão, Tigre, Onça, Boi, Cavalo, tudo.
O Mágico surgiu mais uma vez e resolveu transformá-lo então, num Leão, o mais poderoso dos animais(2). Mas o nosso ratinho, guindado assim a letra O da classe animal, passou, porém, a recear quando ouvia passos de Caçador.
Então o Mágico chegou, transformou-o de novo num Rato e disse, alto e bom som:

Moral: Meu filho, quem tem coração de rato, não adianta ser leão”.
1) Ainda há alguma magia.
2) Será?

postado por m.americo

GRANDE EDGAR...

Já deve ter acontecido com você.


— Não está se lembrando de mim?
Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra?

Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir.
Um, curto, grosso e sincero.

— Não.

Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O "Não" seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Passe bem. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem. Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação.

— Não me diga. Você é o... o...
"Não me diga", no caso, quer dizer "Me diga, me diga". Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como:
— Desculpe, deve ser a velhice, mas...

Este também é um apelo à piedade. Significa "não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!". É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua.
E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe.

— Claro que estou me lembrando de você!

Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata:

— Há quanto tempo!
Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.
— Então me diga quem sou.

Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, e falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas:
— Pois é.
Ou:
— Bota tempo nisso.

Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem será esse cara meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas no meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como jabs verbais.

— Como cê tem passado?
— Bem, bem.
— Parece mentira.
— Puxa.

(Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus?)
Ele esta falando:

—Pensei que você não fosse me reconhecer...
—O que é isso?!
—Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.
—E eu ia esquecer de você? Logo você?
—As pessoas mudam. Sei lá.
— Que idéia. (é o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O... o... como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende!

Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. "Que bom encontrar você!" e paf, chuta uma perna. "Que saudade!" e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?)

— É incrível como a gente perde contato.
— É mesmo.

Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso.

— Cê tem visto alguém da velha turma?
— Só o Pontes.
— Velho Pontes!

(Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes...)

— Lembra do Croarê?
— Claro!
— Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo.
— Velho Croarê. (Croarê. Tiro ao alvo.

Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.)

— Rezende...
— Quem?

Não é ele. Pelo menos isto esta esclarecido.

— Não tinha um Rezende na turma?
— Não me lembro.
— Devo esta confundindo.

Silêncio. Você sente que esta prestes a ser desmascarado.
Ele fala:

— Sabe que a Ritinha casou?
— Não!
— Casou.
— Com quem?
— Acho que você não conheceu. O Bituca.

(Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador . Você esta tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?)

— Claro que conheci! Velho Bituca...
— Pois casaram.

É a sua chance. É a saída. Você passou ao ataque.

— E não avisou nada?
— Bem...
— Não. Espera um pouquinho. Todas essas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, O Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?
— É que a gente perdeu contato e...
— Mas meu nome tá na lista meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.
— É...
— E você acha que eu ainda não vou reconhecer você. Vocês é que se esqueceram de mim.
— Desculpe, Edgar. É que...
— Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam.

( Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele esta na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de "Já?!".)

— Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?
— Certo, Edgar. E desculpe, hein?
— O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido.
— Isso.
— Reunir a velha turma.
— Certo.
— E olha, quando falar com a Ritinha e o Manuca...
— Bituca.
— E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?
— Tchau, Edgar!

Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer "Grande Edgar". Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar "Você está me reconhecendo?" não dirá nem não. Sairá correndo.

OLHOS...



Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca".
Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura.
"Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'.
Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".


Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê".
Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.
O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram".
Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras.
Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente:
"A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".

Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...


O texto acima foi extraído da seção "Sinapse", jornal "Folha de S.Paulo", versão on line, publicado em 26/10/2004.

SABE POR QUE OS ELEITORES BRASILEIROS ELEGEM ESSA GENTE?



Essa é uma explicação científica... Sem muita sociologia para ler a nossa democracia de massas, não é difícil compreender o fenômeno da continuidade da corrupção, do cinismo, da desfaçatez no nosso país.
Se olharmos os números do IBGE quanto ao analfabetismo e o analfabetismo funcional, facilmente entendemos por que mantemos no poder políticos profissionais, oportunistas, políticos de carreira.
Você é curioso, pois veja o vídeo. É por isso aqui, ó...



Então, deu para entender porque eternizamos os Sarneys, os Calheiros e congêneres, que não largam o osso... E os Tiriricas, que nos deixam tiriricas da vida quando sai o resultado da eleição; porque Romário passa a usar terno ao invés de calção e troca chuteira por sapato de verniz; porque o analfabetismo passa a ser motivo de orgulho, e ler dá azia.

COMPREENDEU AGORA O NOSSO CALVÁRIO? NÃO PRECISA DESENHAR, NÉ?

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

AS GALINHAS DOS OVOS SUSPEITOS - Casos Policiais


Há aproximadamente uns 20 anos atrás, quando eu estava como Delegado de Polícia da Barra dos Coqueiros, um município litorâneo banhado pelo Oceano Atlântico e que faz divisa com Aracaju através do Rio Sergipe, então recebi na Delegacia a visita de uma senhora aparentando ter de 65 a 70 anos de idade, mas, bem lúcida e ágil, que me fez pessoalmente a seguinte denuncia:

- Doutor, eu moro em um sítio aqui próximo junto com meu filho que é meio “estranbelhado” da cabeça, onde crio galinhas e junto ovos a semana toda para vender na feira aos sábados, mas aí descobri que o meu vizinho anda comendo as minhas galinhas e eu quero a solução da Polícia para ver se ele para com isso...

- A senhora sabe quantas galinhas ele já comeu?...

- Aí o senhor me pegou doutor, é difícil de saber por que tenho umas quarenta e todas elas vivem presas no meu terreiro. Coloquei varas bem juntinhas umas das outras no cercado e no meio construí o galinheiro, mas aí algumas delas conseguem pular a cerca e vão ciscar no sítio dele, então ele come todas elas...

- Mas como é que a senhora sabe que as galinhas que ele está comendo são as suas?...

- Ah doutor... Primeiro porque ele não cria galinhas... Segundo porque eu conheço todas elas... Terceiro porque eu o vi comendo uma...

- Está certo, vou mandar uma intimação pra ele e se ficar constatado essa acusação a senhora vai ter as suas galinhas ressarcidas e ele será processado.

E então no dia marcado lá estavam a nossa simpática velhinha e o suposto larapio das suas galinhas. De início o cidadão que aparentava ter uns vinte e cinco anos, negou veementemente a acusação, mas aí a vítima insistiu:

- É mentira dele doutor!... Ele está comendo as minhas galinhas mesmo... O meu filho “estrambelhado” já tinha me dito isso e não acreditei, mas, na segunda-feira passada logo cedinho, quando eu estava no galinheiro catando os ovos, escutei uns “gritos” de galinha que vinha de dentro do mato e aí pensei que era alguma que estava pondo os seus ovos num ninho escondido, então segui o barulho e escondida vi muito bem com esses olhos que a terra há de comer, ele nu segurando fortemente as asas da bichinha com as duas mãos “enfincando” o negócio dele no rabo dela, na maior safadeza e “chumbregancia” com a minha galinha e ela, coitadinha, se “esguelando” de dor... Só não me apresentei na hora porque fiquei com medo dele me matar, doutor...

Diante daquela situação hilária assim terminei de saber de qual maneira era que o cidadão estava comendo as galinhas da velhinha, e, então continuei a audiência falando sério e de um jeito mais severo, como se já soubesse daquele fato inusitado desde o início:

- Mas rapaz... Você ainda tem a cara safada de dizer que uma senhora idosa como essa, que tem a idade de ser a sua avó, está mentindo?... Vou instaurar um Inquérito Policial e pedir à Justiça a sua prisão... Você vai mofar na Penitenciaria... Além do mais os presos vão fazer com você o que você fez com as galinhas dela...

- Não doutor, pelo amor de Deus, pelo amor que o senhor tem aos seus filhos, não faça isso comigo não... Eu pago quantas galinhas ela quiser e prometo que nunca mais faço isso de novo...

E então interferiu a pretensa vítima alegando outro fato que ela achava grave:

- O problema maior doutor, é que agora eu não sei quais são as galinhas que estão com os ovos galados por ele e quais as que estão com os ovos galados pelo galo. Como vou saber quais os ovos que eu levo pra vender na feira para que o povo não me reclame nada e quais os ovos que eu coloco nos ninhos das galinhas chocas para nascerem os pintinhos?...

Para não rir da situação esdrúxula, tive que explicar que cientificamente e geneticamente não há qualquer possibilidade do espermatozóide humano interferir no óvulo da galinha ou de qualquer outro animal e que por isso não havia problema algum com os ovos das suas galinhas que continuavam sendo do mesmo jeito que sempre foram e em seguida interpelei o suposto “estuprador de galinhas” para o devido acerto de contas:

- Quantas galinhas você comeu nessa sua safadeza?...

- Não tenho certeza doutor... Acho que foram somente umas quatro!...

- Quando você fala quatro é porque certamente foi o dobro, por isso você vai indenizar ela com oito galinhas...

- Tenha dó de mim doutor... Eu estou falando a verdade e, além disso, eu sou mais pobre do que ela... No meu sítio tenho somente alguns coqueiros que de quando em vez vendo cocos... Eu ganho pouco... Pesco siris, alguns peixinhos “engasga-gatos” e cato caranguejos nos mangues para sobreviver... Tenho mulher e três filhos pequenos pra dar de comer...

E antes que eu me pronunciasse, interferiu novamente a vítima:

- Doutor, eu agora estou querendo também criar patos, então se ele me der três patas e um pato está resolvido o problema!...

Pesando a situação econômica do acusado apesar da sua pouca vergonha, então convenci a suposta vítima a aceitar um casal de patos, vez que, com o tempo ela certamente teria muitos patinhos que cresceriam e gerariam tantos outros.

Fechado o acordo então finalizei a audiência com a seguinte advertência:

- Preste atenção rapaz!... Você me prometeu que não vai mais importunar e “estuprar” as galinhas dela e eu acredito, pois notei que você é um batalhador e não um vagabundo como muitos que tem neste município, mas espero que ela não volte aqui se queixando que você esta comendo a própria pata que vai dar a ela, viu?...

Hoje esse cidadão vende mariscos, dentre os quais caranguejos, em uma das feiras livre de Aracaju e toda vez que passo pela sua banca para comprar esse crustáceo que tanto gosto, pergunto brincando se ele continua comendo galinha e ele às gargalhadas sempre me responde:

- Galinha agora só no prato, doutor, senão eu pago o pato... Vai quantas cordas no capricho?...
Archimedes Marques

quarta-feira, 30 de junho de 2010

UMA QUESTÃO ECOLÓGICA E HUMANA...

Em qualquer cantinho de jornais, revistas, panfletos, pacotes de salsichas, pacotinhos de preservativos e outras refinadas embalagens, encontramos um alerta: "este produto preserva o meio-ambiente. Ajude-nos a conservá-lo!" Mas parece que virou coisa de cinema, quero dizer, a gente vê, talvez alguns se divirtam e outros fiquem sérios, e outros ainda, nem se dão ao trabalho de ler, ou melhor de ver...
E o planetinha vai girando, girando, girando... Até quando? Não sei... resta saber quantos de nós, humanos, sobraremos para contar o que aconteceu. Mas todos nós somos a favor de uma economia "limpa". Discursamos, gritamos, tomamos partido, mas continuamos a nossa vidinha de barata, confiantes de que também seremos os remanescentes de um mundo em chamas, sim, porque pouco ou nada fazemos: continuamos a consumir plásticos, combustíveis poluentes, destruindo o meio-ambiente, mas vejam bem: tudo com muito elegância, com muita discrição.

Dizem, ainda não me interei dos fatos, que as baratas, elegantemente chamadas de 'periplanetas', são os mais antigos habitantes do nosso planetinha. Ela e os abestos.
Não vou garantir que seja verdade, embora as baratinhas tenham a maior intimidade com a gente, e vivam buscando sempre o nosso lar, como velhas amigas. Quando encontramos uma, podemos perceber que elas ficam nos olhando, balaçando aquelas anteninhas de rádio, como se estivessem nos cumprimentando: bom dia! Volta e meia, apesar do tóxico que inalamos junto com elas, quando dedetizamos nosso sacrossanto lar, nos deparamos ainda com elas, e cada dia surgem mais resistentes, e até vejo alguma felicidade nos seus olhinhos...
Como os escorpiões, somos os seus maiores inimigos, embora elas continuem pensando o contrário. Enfim, como as periplanetas, também cometemos os nossos equívocos... Ah! Sim! Quantos de nós sobraremos? Nós e as baratinhas? Creio, pela lei das conseqüências, que os que por aqui restarem, sequer terão a memória do acontecido. É bom, porque não escreverão uma história, contando que os responsáveis foram os extraterrestres...

M. AMERICO

COPA 2010 AFRICA DO SUL

Perdoem o mau gosto, mas não posso deixar calar o grito que urra no meu peito. Tempos de Copa! Tempos de África e de seus estádios magníficos! Quantos milhões de dólares? Não faço a menor idéia! A bola rola nos gramados verdes; as vuvuzelas gritam, as torcidas berram, as imagens coloridas e carnavalescas enfeitam as arquibancadas. O mundo ficou menor, encolheu, ficou do tamanho de um estádio de futebol.
No momento em que assisto aos jogos, penso na miséria dos desvalidos, morrendo de fome: homens, mulheres, jovens, crianças... Esqueléticos em que a pele mal cobre os ossos. Olhos enormes na face que desenha o contorno do crânio, a cavidade ocular, o malar... Olhoa enormes e assustados.
A jabulani bate dum lado e do outro. Mas um lado sombrio está imóvel, magro, sem cores, quase morto, não fosse um leve sopro de vida.

A bola rola, mas há um lado, que fica fora dos verdes gramados, que está imóvel.

A jabulani, que em IsiZulu significa celebrar, celebração, voa sobre os verdes gramados, mas não há celebração na aridez de uma terra ressequida. Há fome, há miséria, há sofrimento. Na verdade, há tortura.

Mas o que se pode fazer com esses Países, que promovem um verdadeiro e gigantesco espetáculo, onde a fartura e a abundância de recursos não faltam para que o show continue, anunciando - será ironia? "África hope".

Eles não querem comprar uma "consciência", eles não aceitam servir-se de um pouco de "humanidade", no grandioso banquete em que celebram a riqueza!

O mundo real não cabe no espetáculo circense!
O mundo circense é um mundo de festas, um mundo multicolorido, um mundo de trombetas! A zoeira e a fantasia compõe a multidão. Lá fora, o silêncio da fome, da peste, da morte, do agouro. Na arquibancada as bandeiras nacionais se agitam, irmanadas na conquista de um troféu.

Da minha janela, assisto o desfile de automóveis, movendo-se no trânsito, carregando, todos eles a bandeira do Brasil. A "pátria de chuteiras" esqueceu as enchentes do Nordeste, esparramando a miséria. As vuvuzelas falaram mais alto, e sufocaram a dor e o desamparo de milhares de pessoas desabrigadas e mais pobres. Nesse momento, a pátria está unida em torno da Copa. Viva a Copa 2010!!!

Viva a "pátria de chuteiras"!!! Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu!!!
Depois da Copa... Bem, depois a mesmice e novas ilusões... Vamos discutir o desempenho da seleção, os jogos, os gols, o mal-humor do Dunga... Vamos traçar teorias, afinal o Brasil tem milhões de técnicos, vamos nos preparar para os próximos 4 anos. Mas tudo numa boa, com uma cerveja gelada, tira-gostos... E começamos uma nova vida, e como não temos a Copa, voltados para o Brasileirão, para as eleições, para as enchentes, para o novo modelo de automóvel etc... Envolvidos que estamos com as nossas próprias misérias.

M. AMERICO

domingo, 27 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO

NA ILHA POR VEZES HABITADA

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,

 manhãs e madrugadas em que não precisamos de


morrer.


Então sabemos tudo do que foi e será.


O mundo aparece explicado definitivamente e entra


em nós uma grande serenidade, e dizem-se as


palavras que a significam.


Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas


mãos.


Com doçura.


Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a


vontade e os limites.


Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o


sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do


mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos


ossos dela.


Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres


como a água, a pedra e a raiz.


Cada um de nós é por enquanto a vida.


Isso nos baste.


Não me Peçam Razões...
Não me peçam razões, que não as tenho,

Ou darei quantas queiram: bem sabemos

Que razões são palavras, todas nascem

Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda

A força de maré que me enche o peito,

Este estar mal no mundo e nesta lei:

Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,

Deste modo de amar e destruir:

Quando a noite é de mais é que amanhece

A cor de primavera que há-de vir.

postado por m. americo

A MAIORIDADE PENAL E A VIOLÊNCIA DO MENOR


É voz corrente a discussão sobre o problema da redução da maioridade penal. Projetos no Congresso, polêmica nos transportes coletivos, nos bares e botecos da vida. Alarmados com a violência e a criminalidade de menores, a sociedade recorre ao que lhe parece mais coerente: a punição do menor.

Mas quem é o menor no mundo do crime?

Ando por uma Avenida do Rio de Janeiro. Sábado, quase 5 horas da tarde. Ainda faz um calor já quase suportável. Sob uma marquise, em frente a calçada de uma loja comercial, uma criança, idade por volta de 13 ou 14 anos, deitada em cima de uma folha de papelão. Sujo, maltrapilho, solitário no seu sono público, nada o incomoda. Mas o que mais poderia incomodá-lo? As pessoas passam, ignorando aquela criança jogada na calçada. Alguns reclamam de atrapalhar o trânsito dos pedestres; outros olham com certo receio. Ouço alguém comentar: deve estar drogado... A maioria ignora. Paro e observo a reação dos passantes. Uma senhora de idade avançada, tem o olhar de compaixão. Para diante dele por momentos. Deixa passar um sentimento de tristeza, nos seus olhos cansados. Retoma o seu caminho. Sigo-a com o olhar, enquanto se move lentamente, até perder-se na multidão.

Mas quem é o menor no mundo do crime?

Restaurante universitário. Colegas de turma conversando. Um deles diz, referindo-se a algum crime recente: “não importa quantos anos tenha! É criminoso e como tal, deve ser punido!”. "Puni-lo? Isso significa jogá-lo numa cela, onde irá aperfeiçoar-se e associar-se a quadrilhas? Esse negócio  é que significa “punição legal”? Alguém do grupo replica: “Se o sistema penitenciário não oferece as condições ideais para o menor criminoso, já estamos em outra esfera...” Da ponta da mesa, uma acadêmica fala: “E a escola não seria uma forma melhor de recuperá-lo, se o Estado e a Sociedade tivessem verdadeira intenção de discutir melhor o assunto? Investir em educação, não seria um caminho melhor e mais condizente com os direitos humanos da criança, do que discutir projetos de redução da maioridade penal?” Sigo em frente, imaginando como é grande a sensibilidade de um coração feminino.

Da janela do carro, somente consigo enxergar as pequeninas mãos, segurando uma caixa de balas, no meio do trânsito. Miúda, seu rosto não alcança o vidro do carro. Não vejo suas feições, não posso adivinhar sua idade, mas imagino que sua pequena e incipiente vida tem a dramática e gigantesca dimensão da miséria. Abre o sinal. Sigo em frente e olho pelo retrovisor. Lá está ela driblando os carros que ignoram aquela pequena vendedora ambulante, quase perdida no asfalto.

Mas quem é o menor no mundo do crime?

Há milhões de jovens sem trabalho, sem vida social decente, sem escola. Nessa multidão, milhares de crianças de rua abandonadas, e outras tantas viciadas, prostituídas, envolvidas com o tráfico, com a contravenção, com o crime. Como responder a uma urgência dessa ordem? Como recolocar a criança como uma esperança de futuro e não um problema criminal? Por que não discutir projetos educacionais includentes da infância marginalizada, maiores investimentos em escolas, em oficinas pedagógicas? Por que não discutir projetos para a maioridade educacional, com formação geral e profissional, projetos de vida e ambientação cultural, música, esportes e tantas outras possibilidades educacionais, através de aldeias pedagógicas? É preciso olhar cada criança como a responsabilidade de cada cidadão que vira o rosto, e apenas procura proteger-se atrás de projetos estúpidos, quando deveriam propor modelos de proteção às crianças abandonadas.

Mas quem é o menor no mundo do crime?

Hoje a maioridade penal se dá quando a pessoa completa 18 anos, já que o critério adotado foi o critério etário, que estabelece uma idade definida como a fronteira que divide a compreensão dos atos e fatos sociais, podendo ser responsabilizado por eles. Antes desse marco, não é capaz de entender a sua conduta, para assumir a responsabilidade dos seus atos.

Na verdade, trata-se de uma ficção. Convencionou-se que exatamente à zero hora do dia anterior ao seu aniversário, quando a pessoa completa 18 anos, magicamente aquele indivíduo passa a compreender tudo o que faz, ao contrário do minuto anterior, quando ainda não havia completado a maioridade, não compreendendo os fatos de uma realidade social. Uma ficção jurídica, que já não atende a modernidade.

Suponhamos que a maioridade penal fosse rebaixada para 16 anos, asseverando-se que um jovem de 16 anos e um dia, que mata, deveria ser tratado como se adulto fosse, isto é, tratando-o como maior para efeitos penais, e tal se daria com o rebaixamento da maioridade penal brasileira.

Esse raciocínio releva o mesmo equívoco anterior, pois magicamente o jovem com 15 anos e a um dia de completar 16, não entenderia sua conduta; mas um dia depois, ao completar 16 anos, passaria a compreender o caráter criminoso de sua ação.

Alguns países encontraram um critério talvez mais justo e adequado, ao propor a verificação, caso a caso. Ao apurar se a criatura, ao cometer um delito, poderia entender o caráter criminoso do ato praticado, através da aplicação de critérios metodológicos interdisciplinares, envolvendo exames psicológicos, psiquiátricos, sociológicos e jurídicos. Tais países determinaram uma idade mínima, bastante baixa, por exemplo, 12 anos e a partir desse patamar, atribuir-se-ia responsabilidade penal, desde que o indivíduo entendesse o feito, submetido que seria a verificação realizada naquele exame. Trata-se do critério bio-etário ou bio-psicológico.

Um país continental como o nosso, não poderá fixar uma idade cronológica para todas as suas Regiões, considerando-se as diferenças sócio-econômicas reinantes. Um jovem de 15 anos de idade, de um grande centro urbano, sujeito a todos os apelos de escolarização, informação e tecnologia, não pode ser comparado a outro de 15 anos, nascido e criado em ambientes desprovidos de qualquer recurso cultural, que não tem acesso a qualquer meio de escolarização e informação; digamos para exemplificar, plantando milho e capinando do nascer ao por do sol. Qualquer legislação que os iguale pelo critério de maioridade cronológica, seria absurda e injusta, além de ignorar as discrepâncias culturais.

Assim, retomo o critério de que se discutam projetos de natureza cultural e educacional; que se discutam projetos econômicos voltados para a educação e a todos os aspectos que gravitam em torno da pobreza. Que se tenha mais respeito pela cidadania da criança e do jovem.

M. AMERICO

quinta-feira, 24 de junho de 2010

COPA 2010 BRASIUUUUUUUUUUUUULLLL...

O mundo parou. Uma bola imobilizou pessoas, paralisou todas as ações que não sejam aquelas que fazem rolar uma bola. A Jabulani ganhou a coroa de Miss Universo. E gerou polêmica: por que a Adidas e não a Nike? Sob forte crítica dos jogadores da seleção brasileira, que qualificaram a Jabulani como muito ruim, como “bola de mercado”, ainda mal rolada nos gramados dos estádios. E veio a desconfiança de que as críticas, originavam-se dos patrocinados pela Nike. Mas tudo bem... Os jogos sucedem-se com vitórias e derrotas. Os hinos nacionais enchem os estádios da África do Sul e a ovação das torcidas do mundo inteiro, casadas com a novidade das vuvuzelas lotando as arquibancadas dos estádios, lembra a arena romana, onde vida e morte ficam suspensas nos fios do destino. É o futebol arrebatando as almas e transformando-se na própria pátria, como se fosse uma guerra, onde o gol elege o herói do momento, o conquistador, o grande centurião. Lembro-me da famosa frase de Nelson Rodrigues, quando disse que “o futebol é a pátria de chuteiras”. Mas os tempos são outros. O futebol, quando ainda era apenas um esporte a mais entre os esportes,e engatinhava nos corações dos torcedores, guardava uma aura de paixão. Mas uma paixão romântica, não a paixão das violentas torcidas organizadas, em que pesa menos o orgulho da conquista de um título, do que a intolerância com a vitória do clube adversário.

Nos tempos ditos modernos, o futebol ganhou o ‘status’ de empresa. Hoje é o futebol-empresa. Há toda uma mídia a serviço da criação de mitos. Dela depende a ascensão ou a queda de um jogador, de um técnico, de um preparador físico; fabricam-se ídolos e preços; valoriza-se a venda de alguns jogadores, valores astronômicos que os Clubes embolsam, repassando parte da fortuna aos heróis do momento. Mitos forjados, muitas vezes de modo artificial, uma espécie de bolsa de valores, que beneficia os chamados Cartolas. Alguns escândalos já ganharam as páginas esportivas de jornais.

Hoje há uma verdadeira diáspora de jogadores. Quando vemos a formação de uma Seleção, poucos são os jogadores que atuam no Brasil: fulano, no Barcelona, beltrano no Manchester, sicrano sei lá onde... Muitos senão quase todos, talvez discordem do que escrevo. Mas o endeusamento excessivo que assisto no meu país, o estrelismo dos ‘craques’, faz com que enxergue o futebol como um grande negócio, não mais como uma apaixonante disputa, em que o esforço sobre-humano, a habilidade, a destreza e o controle de uma bola, servem a glória de um Clube ou de um país. Essa dança ‘garrinchiana’ que projeta o corpo do atleta num verdadeiro balé mágico, um fantástico movimento operístico de onze atores brincando no gramado verde de um estádio, pelo simples prazer de fazer rolar a ‘criança’, já desapareceu. Coisas de antanho.

O que lamento, é que o encantamento e a magia, tenham se transformado numa grande feira em que se negocia e se descaracteriza o amor a uma camisa, seja de um time, seja de uma seleção. O desempenho fica a reboque de que os olheiros internacionais possam fazer ofertas mirabolantes ao Clube, pelo passe de um jogador. O que se fala ao pé do ouvido, no processo seletivo daqueles que vão compor a gloriosa seleção, é que há toda uma negociação atrás dos palcos, para que tal jogador participe e possa, a partir do momento em que integrou a seleção, ganhar imediatamente um valor muito acima do que realmente receberia, integrando um Clube. Evidente que não se aplica a todos os jogadores, o que seria absurdo. Mas se inclui um ou outro, parte de uma negociação em que todos ganham... Perde apenas o futebol. Ganham os Cartolas.

M. AMERICO

sábado, 5 de junho de 2010

A IGREJA MARADONIANA

Não se tem o direito de ignorar o quanto vale a cidadania em países latino-americanos. Também não podemos ignorar a necessidade catártica de um povo oprimido. E a opressão pode vir de diferentes modos, como a fome, por exemplo, ou a doença, o desemprego, a miserabilidade de comunidades abandonadas à própria sorte... A opressão pode chegar da brutalidade de regimes autoritários, de que a nossa história tem um farto repertório. Não saberia escolher que modelo opressivo seria pior. Ditaduras? Fome? Miséria absoluta? Confesso que é muito difícil, para mim, apontar qual dos males seria o pior. Cada um traz a morte anunciada, a violação dos direitos humanos, a castração da palavra política, o assassinato da cidadania.
Nesses momentos de dor e violação, o povo sempre encontra a porta de emergência, por onde escapar, tanto quanto possível, ileso, buscando subtrair-se da dor.
O que teria começado como uma brincadeira despretensiosa, acabou por tornar-se uma coisa séria.
Em 1998, fundou-se a IGREJA dedicada aos deus, com o número 10 no meio, MARADONA. A paixão pelo jogador argentino transformou-se em RELIGIÃO com mais de 100 mil adeptos em todo o mundo.
Poderá parecer estranho a muitos, ou exótico, uma iniciativa tão estrambótica. Mas há uma explicação, diria mesmo histórica, para esse acontecimento.
Maradona está no centro de um momento emocional do argentino, a um período de felicidade, depois de um sofrimento brutal causado pela crueldade de uma Ditadura, que assassinou a cidadania, que violou de todas as formas os direitos humanos, que esmagou a voz de um povo com a tortura e o sequestro.
Maradona transformou o futebol, que é um esporte coletivo, além de uma paixão nacional, em um ato individual, um ato 'salvacionista'. Como fênix, ele fez renascer no povo um estado de graça, "fez ressurgir a esperança nos corações argentinos, com o seu brilhante gol de mão (La mano de Dios ou D 10 S) diante da Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986" - disse Herman Amez, um dos fundadores da Igreja Maradoniana.
Os seguidores dessa igreja, dessa nova religião, encontram-se duas vezes por ano em Buenos Aires.
A primeira reunião é na Páscoa, festejada em 22 de junho, dia da vitória de 2 a 1  contra os ingleses, na Copa de 86. O segundo encontro é no dia do aniversário de Dios, quero dizer de Diego Maradona. em 30 de outubro, quando celebram o NATAL.
Seria um fato bizarro, e verdadeiramente não deixa de sê-lo, uma igreja fundada para a deificação de um jogador de futebol. Mas colocadas as coisas numa perspectiva meramente humana, percebemos que há algo mais sério, além de uma simples bizarrice: a catarse de um povo, para calar o sofrimento padecido na cruz de uma ditadura.
Como dizia o poeta, e sempre que me defronto com acontecimentos que escapam ao senso comum, "há mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha a nossa vã filosofia."

M. AMERICO