domingo, 25 de setembro de 2016

CONJUNTO DE DISTORÇÕES EXPLICA PODER DE BARGANHA DE CLARA DE "AQUARIUS"

Clara, 65 anos, jornalista aposentada, viúva, três filhos criados é a personagem central desse filme. Mora em um apartamento no segundo andar de um edifício dos anos 50, defronte ao mar da praia de Boa Viagem, ponto nobre do Recife.

Foi lá que ela viveu boa parte de sua vida. Criou os filhos, enfrentou um câncer de mama e a viuvez. Vive rodeada de sua biblioteca e da farta coleção de discos de vinil, além do piano.

Todos os apartamentos do edifício foram adquiridos por um incorporador imobiliário que pretende erguer uma torre, provavelmente de gosto arquitetônico discutível.

Para Clara, sua memória não tem preço. Morrerá no edifício Aquarius.

Os filmes de Kleber Mendonça Filho escancaram as contradições da sociedade brasileira. Em "Aquarius" descreve com precisão minha classe social: os 5% mais ricos da sociedade que se consideram classe média.

Na maioria dos países, a aposentadoria é um período de ajustes e contenção, sobretudo para quem teve vida profissional mediana, afinal, não é comum aposentadoria com salário integral.

Por que Clara não vende seu apartamento aproveitando as condições favoráveis, podendo constituir reserva adicional para a velhice? Ainda mais, um apartamento de tamanho que já não é mais necessário, afinal os filhos já saíram do ninho.

Em países socialmente mais justos, uma pessoa com o histórico de vida de Clara venderia o apartamento por um bom preço ou o trocaria por um ou dois na nova torre.

Clara é aposentada, provavelmente no teto do INSS, e recebe a pensão do marido, que, imagino eu, é de professor titular da UFPE, ou algo equivalente. Nas regras brasileiras, exclusividade nossa, Clara pode acumular seu próprio benefício com o do marido.

Clara tem, além do imóvel no Aquarius, quatro outros apartamentos. Possivelmente herdou alguns e adquiriu um ou dois. A compra tanto dos herdados quanto dos por ela adquiridos deve ter sido financiada pelo finado Banco Nacional de Habitação (BNH). A hiperinflação brasileira reduziu significativamente o saldo devedor dos apartamentos e, pagou-se pelos imóveis muito menos do que custaram à sociedade. A ausência de correção da dívida foi cortesia de políticos demagogos. A diferença foi para a viúva na forma do Fundo de Compensações de Variações Salariais (FCVS), que até hoje pesa nas contas do Tesouro.

Assim, um conjunto imenso de distorções explica o poder de barganha de Clara.

Ela é capaz de enfrentar empresários gananciosos e barrar um empreendimento que geraria: aumento de apartamentos em Boa Viagem; renda para os empreendedores; renda para os ex-moradores do Aquarius que esperam o fim do negócio para receber parcela final da venda; e aumento significativo de IPTU para a prefeitura. Sem falar dos empregos e da renda durante a construção e vários depois dela.

Claro que a soma de nossas distorções –que resultam, entre outras, no gasto de 13% do PIB com aposentadoria e pensões, quando pela nossa estrutura demográfica deveríamos gastar 5%– é importante causa do baixo crescimento econômico. O setor público não tem recursos para financiar a construção da infraestrutura física e social do país, incluindo, entre outros tantos setores, o de saneamento básico.

O baixo crescimento econômico, por sua vez, torna o início da vida profissional das novas gerações muito difícil. Clara está sempre disposta a ajudar os filhos. Será que o Honda Fit da filha foi comprado com o dinheiro da mãe?



25 de setembro de 2016
Samuel Pessoa, Folha de SP

FERREIRA GULLAR: A NECESSIDADE DA ARTE

A RESPOSTA CATÓLICA: TATUAGEM E PIERCING

'A MORTE DE IVAN ILITCH', DE TOLSTOI, REVELA AS MENTIRAS DA EXISTÊNCIA


 João Pereira Coutinho de 6.set.2016
Ilustração de Binho Barreto, reproduzida da Folhapress
Amigo leitor: peço desculpa pelo uso abusivo da palavra. Eu não sou seu amigo. Nem você é meu. Não nos conhecemos e, francamente, melhor assim. Eu escrevo e, com sorte, alguém lê desse lado. É uma troca justa. E basta.
Aliás, por falar em amigos, quantos você tem? Cinco? Dez? Vinte? Melhor cortar o número para metade. Tempos atrás, li um estudo sobre as nossas falsas percepções sobre os amigos. E parece que só metade das amizades que julgamos sólidas são recíprocas. Na outra metade estão pessoas que não pensam em nós, pensam pouco ou até pensam mal.
Essas conclusões não me espantam. Experiência cotidiana: alguém fala que encontrou o personagem X e ele, eufórico, falou de mim como “grande  amigo”.
Disfarço, por gentileza. Mas, se fizesse uma lista com as cem pessoas que passaram pela minha vida –da família mais próxima ao homem que me vendeu os jornais meia hora atrás–, o personagem X não estaria presente.
Aqui entre nós, quem é o personagem X? E, já agora, por que motivo tendemos a inflacionar o número de amigos que julgamos ter?
Fato: o conceito de “amizade” tornou-se uma caricatura, sobretudo quando é possível colecionar centenas ou milhares de “amigos virtuais” no mundo virtual. O pessoal confunde as coisas e julga que um “like” é uma jura de amor eterno.
Mas as conclusões do estudo também não me espantam por causa de um livro publicado há precisamente 130 anos. O autor é Lev Tolstói (1828″”1910) e o título é “A Morte de Ivan Ilitch”.
Primeira confissão: “A Morte de Ivan Ilitch” sempre me pareceu um erro. “A Vida de Ivan Ilitch” seria a titulatura mais apropriada porque é de vida, e não de morte, que Tolstói nos fala.
Sim, superficialmente, temos um homem que adoece com gravidade e que caminha para o seu cadafalso com a angústia e o ressentimento dos condenados.
Mas a novela de Tolstói é uma meditação avassaladora sobre as mentiras da existência “comme il faut”.
A expressão francesa é usada e abusada pelo narrador com propósitos irônicos, mas também descritivos. Ivan Ilitch era a promessa da família –e a promessa se cumpriu.
Estudou, formou-se, tornou-se funcionário judicial de sucesso. E procurou sempre uma vida “comme il faut” que estivesse à altura dos gostos da plateia. Teve um casamento “comme il faut”; uma casa “comme il faut”; uma carreira de magistrado “comme il faut”.
E, quando a harmonia doméstica começou a ruir, Ivan Ilitch resolveu o assunto “comme il faut”: casou-se com o trabalho e transformou a mulher em “hobby” suportável.
É perante esta gloriosa encenação que a morte surge como elemento dissonante –ou, se preferirmos, “pas comme il faut”. Ivan analisa a dor da enfermidade como se aquilo fosse um elemento estranho, injusto, “fora do lugar”. Nega a sua condição (morrer, eu?) e, quando a enfrenta, é devorado por um terror gélido (“sim, eu”).
Nas mãos de um escritor banal, a doença serviria para mostrar a Ivan Ilitch que as medalhas que ostentamos ao peito não nos protegem do fim inevitável e blá-blá-blá.
Para um monstro como Tolstói, a morte de Ivan Ilitch é a “via dolorosa” da sua salvação. Porque é a morte que permitirá ao personagem olhar para os outros e para ele próprio sem viciar “o fundo insubornável do ser” de que falava o filósofo Ortega y Gasset.
É, enfim, uma visão límpida e aterradora. A mulher e a filha, cansadas da agonia de Ivan, consideram-no um estorvo, um repulsivo estorvo que a morte tarda em levar.
E, quando recorda a sua vida, é na infância, e apenas na infância, que Ivan Ilitch encontra uma felicidade autêntica e sem sombra. A conclusão é trágica e, ao mesmo tempo, libertadora: enquanto subia aos olhos dos outros (“comme il faut”), Ivan Ilitch descia rumo ao naufrágio.
É esse naufrágio, essa falsificação espiritual que encontramos nos “amigos” de Ivan quando sabem da notícia da morte. Uns pensam nas suas carreiras (quem ocupará o lugar do defunto? haverá promoções?). Outros sentem alívio (“foi ele, não fui eu”). E todos suspiram com as obrigações sociais entediantes (ir ao funeral, consolar a viúva etc.). “The show must go on.”
Amigos? Temos dezenas, centenas, milhares. E assim continuaremos –autoiludidos e autocentrados– até chegarmos ao leito derradeiro onde estarão poucos ou ninguém.

25 de setembro de 2016
 João Pereira Coutinho
Folha

TSUNAMI DE 900 METROS QUE PODERÁ ATINGIR O BRASIL

SHAKESPEARE, MAQUIAVEL E MONTAIGNE - LUIZ FELIPE PONDÉ

MINHA FELICIDADE DEPENDE DE MIM

DESCUBRA QUE TIPO DE HOMEM VOCÊ É...

DESCUBRA QUE TIPO DE HOMEM É VOCÊ (SENSACIONAL)



25 de setembro de 2016
postado por m.americo

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

REEDIÇÃO DE FREUD LEVANTA DÚVIDAS SOBRE VISÃO ATUAL DE NEUROSE E PARANOIA



Durante muito tempo, as obras de Freud tiveram péssima tradução no Brasil. Traduções imprecisas feitas diretamente da versão inglesa obrigaram pesquisadores e psicanalistas não versados em alemão a trabalhar com os textos em língua espanhola ou francesa. Mas, com a liberação dos diretos autorais há alguns anos, as livrarias começaram enfim a ter edições à altura do desafio de verter uma das obras mais influentes do século 20 para nossa língua.

Dentro desta nova leva de traduções, a editora Autêntica publica agora uma compilação de textos clínicos de Freud sob o título de “Neurose, Psicose, Perversão”. Parte da série “Obras Incompletas de Sigmund Freud”, coordenada por Gilson Iannini, o livro traz, em tradução competente, alguns dos principais textos de Freud a respeito de sua reconfiguração de categorias clínicas centrais do sofrimento psíquico. “Luto e Melancolia”, “Fetichismo”, “A Negação”, “Neurose e Psicose” são alguns dos textos que ganham nova tradução, acompanhados de manuscritos e cartas relevantes para entendermos melhor a trajetória da experiência intelectual freudiana.

No entanto, a tradução deste conjunto de textos pode também representar um bom momento para nos perguntarmos sobre o sentido de ler tais artigos em 2016.

INDAGAÇÕES – O que temos diante de nós? Estudos historicamente fundamentais porém ultrapassados no que se refere à sua reflexão clínica? Ou estudos que, apesar da distância de um século, ainda nos dizem respeito? Lemos Freud como leríamos Lamarck a respeito da evolução ou Newton e sua física pré-teoria da relatividade?

Questões desta natureza são ainda mais relevantes se lembrarmos que, de certa forma, as categorias descritas por Freud não existem mais, ao menos para as linhas hegemônicas da psiquiatria reinante. A princípio, vivemos em uma sociedade na qual, por exemplo, não existem mais “neuróticos” nem “paranoicos”. Estas duas categorias desapareceram dos manuais de psiquiatria e da razão diagnóstica médica.

Freud trabalhava com uma polaridade entre duas neuroses fundamentais: a neurose obsessiva e a histeria. Sintomas clínicos anteriormente associados a tais categorias encontram-se atualmente dispersos no transtorno obsessivo-compulsivo, nos transtornos somatoformes e nos transtornos de personalidade histriônica.

PADRÕES DE DESCRIÇÃO – Mas o que significam tais modificações de padrões de descrição do regimes de sofrimento psíquico? Essa é uma questão que mereceria ser objeto de uma reflexão mais aberta e demorada. A maneira como uma sociedade modifica a maneira com que as patologias mentais são descritas influencia de forma decisiva como sujeitos lidam com suas experiências de sofrimento e suas expectativas de vida bem-sucedida. Por isso, deveríamos começar por nos perguntar, por exemplo, sobre o que significa uma sociedade que, de certa forma, eliminou seus neuróticos.

Nas mãos de Freud, uma categoria como a neurose adquiriu três características fundamentais, a saber, ela era analisada a partir de sua etiologia, ela dizia respeito a modificações globais de conduta e ela estava profundamente vinculada ao campo do sexual.

OS TRÊS PONTOS – O primeiro ponto significava: ela tinha uma estrutura causal que só seria compreensível à condição de levarmos em conta a história da doença. Uma história ligada ao processo de socialização do desejo do paciente, seus conflitos e compromissos, suas expectativas e fracassos. Sua cura estava assim vinculada à capacidade dos sujeitos de elaborarem sua própria história, o que há muito deixou de ser uma preocupação clínica.

Já o segundo ponto se referia à ideia de que o adoecimento implica modificação, em maior ou menor grau, de todas as funções psíquicas. Daí a ideia de que não se trata simplesmente de tratar sintomas, mas de modificar estruturas. Uma forma clássica de não resolver problemas é dividindo-os. É desta forma que um setor de problemas é “resolvido” enquanto clínicos precisam lidar com reincidências e comorbidades (doenças associadas) constantes.

Por fim, o último ponto nos lembrava que ninguém constitui sua sexualidade sem que isto deixe marcas e sintomas. Uma sexualidade é uma construção precária e sempre a lidar com contradições constantes.

BOA PERGUNTA – Essa visão histórica, holista e agonística era o que se derivava da clínica freudiana. A boa pergunta é: por que ela foi recusada pelo saber médico-psiquiátrico atual? O que temos atualmente no seu lugar?



23 de setembro de 2016
Vladimir SafatleFolha

JESUS ENSINA A RESPEITO DE NASCER DE NOVO

ENSINAMENTOS DE JESUS CRISTO

ESTUDO DO SERMÁO DA MONTANHA