Podem ser anotações casuais de um passante, porque quando começamos nossa jornada, não distinguimos bem a paisagem. Ela sempre nos surpreende. Desconhecemos aonde nos pode levar o caminho. Não o escolhemos... Perambular é o próprio caminho. Uma narrativa do destino que desenhamos inconscientemente. O que pretendo? Tecer algumas considerações fora da mesmice, e pinçar alguns textos curiosos que despertem a paixão...
sábado, 10 de setembro de 2011
A MAGIA DO HERMETO
O Hermeto Pascoal é chamado de bruxo. A sua figura albina, com longos cabelo e barba brancos ajuda o imaginário da gente a confirmar o título. Mas é obviamente por sua música que ele é chamado dessa forma desde os anos 70. E a grande mágica de Hermeto, na minha opinião, não é a intricada progressão harmônica de suas músicas, mas a construção aparentemente simples de suas melodias. As músicas de Hermeto, quase todas, são cantaroláveis ou assoviáveis. Temas lindos, como Música das nuvens e do chão, ou o famoso Bebê, só para citar dois deles, ficam nos nossos corações por dias, depois de escutá-los. Mas digo aparentemente, porque mesmo em sua simplicidade sonora, essas melodias são complexas, contorcendo-se em sutis variações, sem matar a idéia central do tema.
Alie-se a isso a maestria harmônica do bruxo e temos aí o segredo de sua magia. Por isso, ainda hoje não consigo me comover com as performances de Tom Zé, sua batida de panelas no palco (coisa que o Hermeto fazia já nos anos 60). Sei que muitos não concordarão, mas como não entendo nada desse assunto, me aventuro sem medo pelo mar bravio. A impressão que tenho é que Tom Zé se esforça demais para soar original. É, talvez, a maldição das vanguardas, que estão sempre condenadas a inventar o novo, a anunciar o futuro, que já fica velho no momento mesmo de seu anúncio.
Em termos musicais, Tom Zé perde longe para Hermeto, em minha opinião. Em termos perfomáticos, perde para outros, como Walter Franco, cantando Cabeça, num dos últimos festivais; ou ainda para Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, estes últimos também grandiosos em termos musicais, com um estilo consistente e vanguardista.
Bem, talvez esteja sendo injusto e meus amigos músicos possam me corrigir. Afinal, só vejo Tom Zé em performances aqui e ali na TV, num Programa do Jô, ou coisa que o valha. Não compro seus discos e nem vou a seus shows. Mas do pouco que vejo na TV não sinto tesão para mergulhar em seu universo musical. Talvez, não esteja simplesmente a altura dele.
No século XVI, quando estudava música e fantasiava me tornar um artista nesse ramo, compartilhava com meus colegas o desdém pela simplicidade e a emoção. Achava que as intricadas fórmulas matemáticas do estudo harmônico me dariam a chave para fazer uma verdadeira arte. Uma arte superior à chorumela brega da música comercial, uma música só para quem tivesse condição de “entender”. Alguém que, ao ouvir minha música, dissesse: “Veja, aqui ele inverteu o acorde e colocou a nona no baixo”, ou coisa que o valha. E quanto mais mergulhei nesse mundo racional e lógico, mais fui perdendo a espontaneidade que tinha, e a sonoridade foi se esvaindo de mim, até que não sobrou nada, exceto partituras, manuais de harmonia jazzística e cadernos de solfejo. A música acabara. Vazio de sons, fui cuidar da minha vida.
Creio que esse racionalismo excessivo, que se perde do emocional, é um perigo. Quando se está nessa febre, gostamos ou deixamos de gostar de um tema musical à medida que compreendemos sua linguagem matemática, sua racionalidade. A mensagem do autor. Ao mesmo tempo tendemos a desprezar coisas simples, harmonias simples, repetitivas, pouco variadas, populares e exageradamente sonoras.
Penso que uma das grandes virtudes do Tropicalismo, sobretudo em Caetano Veloso, é a exaltação de músicas simples, bregas, melodiosas, melodramáticas. E mestres como Tom Jobim, para citar outro grande, caminham num equilíbrio entre os planos racional e emocional. Por isso, o bater de panelas no palco de Tom Zé é muito diferente daquele que faz o Hermeto.
Falando em Hermeto, estou organizando uma série de gravações caseiras de meu pai, o músico Gaudencio Thiago de Mello, feitas entre 1967 e 1972. Ele recebia os amigos em sua casa em Nova York e tudo acabava em música, que o velho registrava num gravador de fita rolo. Recentemente, sugeri a ele que passasse esse material todo para digital, num estúdio, equalizando, masterizando e o escambau.
Acabo de receber cinco CDs: O primeiro é um ensaio de 1967 do grupo que estavam montando Carmen Costa (vocal), Moacir Santos (raríssimo tocando piano), o velho no violão, e Richard Kimball, no contrabaixo. O segundo é um solo de berimbau de Naná Vasconcelos. O terceiro, é o velho, Dom Um Romão e Gilberto Gil, em 1972, com Gil mostrando Oriente e outra canção. No mesmo ano, Hermeto Pascoal mostra várias de suas canções, inclusive Bebê, com Flora Purim e Airto Moreira. Mais recentemente, em 1988, tem uma jam session na sua casa, com Claudio Roditi (trompete e piano), Romero Lubambo (guitarra), Roberto Sion (sax e piano), Nilson Matta (baixo), Barry Olsen (trombone), Gaudencio (percussão), Helio Schiavo (bateria) e Susan Davis (piano e percussão). Estou querendo propor um programa de rádio sobre isso.
Postado por ipaco
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
DOENÇA COMO METÁFORA
O Prosa & Verso, caderno literário do Globo, trouxe no sábado passado um excelente artigo do psiquiatra e psicanalista Orlando Coser.
Ele tratou de um assunto que venho considerando também, já há algum tempo, por um viés, digamos, mais antropológico. Trata-se da invenção de doenças pelo mercado farmacêutico e a indústria médica.
No artigo, Coser, com uma clareza espetacular, analisa a profusão de lançamentos de tranquilizantes, antidepressivos, estabilizadores, neuromoduladores, enfim psicotrópicos que, alardeados como anjos que trazem redenção, acabam por alterar a percepção de médicos, psiquiatras, pacientes, farmacêuticos, entre outros, sobre as enfermidades mentais. A coisa é tão forte, que se chega ao ponto de inventar novas doenças, ao criar nomenclaturas e novas descrições para sintomas.
Coser é muito preciso ao afirmar como medicamentos, inicialmente usados em casos severos de esquizofrenia, se tornaram cada vez mais acessíveis e disseminados. A introdução dos psicotrópicos trouxe, do ponto de vista antropológico, uma inversão importante na gênese dos estados mórbidos ou eufóricos: não é o sintoma que provoca alterações psicoquímicas no cérebro, e sim o inverso.
Difundiu-se, de forma bastante lucrativa para as indústrias que produzem esses remédios, a idéia de que esses distúrbios são tratados e resolvidos mediante o consumo de pílulas guardadas em caixinhas com tarja preta, que milagrosamente vão equilibrar hormônios, deficiências ou excesso de agentes neuroquímicos e, assim, "curar" o paciente.
A Associação Mundial de Psiquiatria, sob forte influência americana, inclusive mudou os nomes das enfermidades: em vez de neurose, psicose etc., agora temos transtorno bipolar ou transtorno disso e daquilo, cada qual associado a uma miríade de medicamentos miraculosos. Criou-se, assim, um mercado que substitui o velho mundo do pobre e ultrapassado alienista.
Como chama atenção em seu artigo, Coser afirma que "o principal efeito desta estratégia mercadológica é o menosprezo à clínica médica. Parte do saber, da ciência, da tradição médica, é substituída pelo convencimento através de ampla ação de marketing, destinada não só a profissionais de saúde como, a partir de comunicação direta, a leigos.” E assim se criam e se apagam doenças na nossa sociedade.
Uma história ilustra processo parecido. Estava conversando com uma amiga na França e, ao mencionar a expressão TPM, fui repreendido por ela:
— Não existe TPM — disse de forma tão categórica, que não me restou alternativa a não ser concordar com ela. — TPM é uma invenção dos americanos para vender remédios.
Bem, muitas amigas minhas aqui no Brasil discordam da francesa, sobretudo quando aparecem determinados sintomas desconfortáveis “naqueles dias”. Mas sendo um pouco indulgente com o raciocínio dela, é verdade que a expressão TPM é relativamente recente para explicar o fenômeno e, de fato, veio do marketing da indústria farmacêutica associando a medicamentos ou absorventes.
“Incomodada ficava sua avó”, apregoa um antigo comercial de TV, nos ensinando como, nos tempos atuais, devemos nos referir ao mesmo fenômeno físico. Só que ao mudar a nomenclatura do fenômeno, mudamos também nossa percepção sobre ele e, muitas vezes sem perceber, incorporamos valores que nos empurram na direção de um consumo questionável. É assim que TPM vira uma doença a ser tratada.
TPM é, portanto, a metáfora de uma situação contemporânea, à qual estão associados valores sociais importantes, como a independência da mulher, que não precisa mais se incomodar, que pode trabalhar e ocupar seu novo lugar na sociedade etc e tal. Mas esse novo lugar da mulher está associado igualmente a um padrão de consumo. Ou seja, com a "liberdade", a "modernidade" etc. vem também o uso de produtos associados, pelo marketing, a essas noções. A liberdade, assim, vira mercado.
Coser acerta em cheio ao se referir a uma nova metáfora no mundo psi: “a categoria ‘transtornos comportamentais’, genérica o suficiente para não ter limites, porém específica o bastante para indicar um problema a ser resolvido.” Um problema a ser resolvido via medicamentos sofisticados, que insinuam que podem “curar” uma perturbação mental simplesmente ajustando os níveis de serotonina. Coser chama a atenção também para a disseminação do uso desses medicamentos, indicados inclusive por não especialistas e sem acompanhamento clínico.
Antes que me joguem pedra, esclareço: não sou contra o uso de medicamentos. E acho inclusive que, em alguns casos, eles são mais do que necessários. Apenas chamo a atenção para como o marketing dessas indústrias tenta incutir nas nossas pobres almas certos valores.
Muitas coisas são terapêuticas em determinados níveis. Ter um cachorro ou gato de estimação tem lá sua função terapêutica; seguir um culto; fazer ioga. Sou de um tempo em que a psicanálise e outras psicoterapias funcionavam muito precisamente para desatar nós que nenhum medicamento sozinho milagrosamente jamais o fará, independentemente dos comerciais na TV.
Postado por ipaco
Ele tratou de um assunto que venho considerando também, já há algum tempo, por um viés, digamos, mais antropológico. Trata-se da invenção de doenças pelo mercado farmacêutico e a indústria médica.
No artigo, Coser, com uma clareza espetacular, analisa a profusão de lançamentos de tranquilizantes, antidepressivos, estabilizadores, neuromoduladores, enfim psicotrópicos que, alardeados como anjos que trazem redenção, acabam por alterar a percepção de médicos, psiquiatras, pacientes, farmacêuticos, entre outros, sobre as enfermidades mentais. A coisa é tão forte, que se chega ao ponto de inventar novas doenças, ao criar nomenclaturas e novas descrições para sintomas.
Coser é muito preciso ao afirmar como medicamentos, inicialmente usados em casos severos de esquizofrenia, se tornaram cada vez mais acessíveis e disseminados. A introdução dos psicotrópicos trouxe, do ponto de vista antropológico, uma inversão importante na gênese dos estados mórbidos ou eufóricos: não é o sintoma que provoca alterações psicoquímicas no cérebro, e sim o inverso.
Difundiu-se, de forma bastante lucrativa para as indústrias que produzem esses remédios, a idéia de que esses distúrbios são tratados e resolvidos mediante o consumo de pílulas guardadas em caixinhas com tarja preta, que milagrosamente vão equilibrar hormônios, deficiências ou excesso de agentes neuroquímicos e, assim, "curar" o paciente.
A Associação Mundial de Psiquiatria, sob forte influência americana, inclusive mudou os nomes das enfermidades: em vez de neurose, psicose etc., agora temos transtorno bipolar ou transtorno disso e daquilo, cada qual associado a uma miríade de medicamentos miraculosos. Criou-se, assim, um mercado que substitui o velho mundo do pobre e ultrapassado alienista.
Como chama atenção em seu artigo, Coser afirma que "o principal efeito desta estratégia mercadológica é o menosprezo à clínica médica. Parte do saber, da ciência, da tradição médica, é substituída pelo convencimento através de ampla ação de marketing, destinada não só a profissionais de saúde como, a partir de comunicação direta, a leigos.” E assim se criam e se apagam doenças na nossa sociedade.
Uma história ilustra processo parecido. Estava conversando com uma amiga na França e, ao mencionar a expressão TPM, fui repreendido por ela:
— Não existe TPM — disse de forma tão categórica, que não me restou alternativa a não ser concordar com ela. — TPM é uma invenção dos americanos para vender remédios.
Bem, muitas amigas minhas aqui no Brasil discordam da francesa, sobretudo quando aparecem determinados sintomas desconfortáveis “naqueles dias”. Mas sendo um pouco indulgente com o raciocínio dela, é verdade que a expressão TPM é relativamente recente para explicar o fenômeno e, de fato, veio do marketing da indústria farmacêutica associando a medicamentos ou absorventes.
“Incomodada ficava sua avó”, apregoa um antigo comercial de TV, nos ensinando como, nos tempos atuais, devemos nos referir ao mesmo fenômeno físico. Só que ao mudar a nomenclatura do fenômeno, mudamos também nossa percepção sobre ele e, muitas vezes sem perceber, incorporamos valores que nos empurram na direção de um consumo questionável. É assim que TPM vira uma doença a ser tratada.
TPM é, portanto, a metáfora de uma situação contemporânea, à qual estão associados valores sociais importantes, como a independência da mulher, que não precisa mais se incomodar, que pode trabalhar e ocupar seu novo lugar na sociedade etc e tal. Mas esse novo lugar da mulher está associado igualmente a um padrão de consumo. Ou seja, com a "liberdade", a "modernidade" etc. vem também o uso de produtos associados, pelo marketing, a essas noções. A liberdade, assim, vira mercado.
Coser acerta em cheio ao se referir a uma nova metáfora no mundo psi: “a categoria ‘transtornos comportamentais’, genérica o suficiente para não ter limites, porém específica o bastante para indicar um problema a ser resolvido.” Um problema a ser resolvido via medicamentos sofisticados, que insinuam que podem “curar” uma perturbação mental simplesmente ajustando os níveis de serotonina. Coser chama a atenção também para a disseminação do uso desses medicamentos, indicados inclusive por não especialistas e sem acompanhamento clínico.
Antes que me joguem pedra, esclareço: não sou contra o uso de medicamentos. E acho inclusive que, em alguns casos, eles são mais do que necessários. Apenas chamo a atenção para como o marketing dessas indústrias tenta incutir nas nossas pobres almas certos valores.
Muitas coisas são terapêuticas em determinados níveis. Ter um cachorro ou gato de estimação tem lá sua função terapêutica; seguir um culto; fazer ioga. Sou de um tempo em que a psicanálise e outras psicoterapias funcionavam muito precisamente para desatar nós que nenhum medicamento sozinho milagrosamente jamais o fará, independentemente dos comerciais na TV.
Postado por ipaco
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
DOMINGÃO TRANQÜILO NO BOTECO
Chibungo aguardando um petisco
Estou sentado com Macarrão. Dou um gole na geladinha. Chibungo está deitado aos meus pés, lambendo a pata. Espera algum petisco, o sonso...
- É Macarrão, muita gente pensa que a vida é um grande negócio. Um fórum pra se ganhar dinheiro. Uma grande feira livre. Nem desconfiam que a vida é uma grande viagem, e tão bela, quanto sejamos capazes de vislumbrar a paisagem... A vida é um dom... É de graça! E porque a recebemos assim, dada, não sabemos muito bem o que fazer com ela...
- É isso aí, Guará. Não é o que muita gente pensa. Imagino que deve ser uma angústia muito grande, para os que vivem para acumular, saber que tudo o que juntaram durante a vida, vai ficar por aí, rolando, coberto de poeira. Não se leva nada. Como dizia o outro bebum, outro dia, sentado perto da gente: "a gente leva da vida, a vida que a gente leva!"
Rio com Macarrão. As vezes as pequenas e dolorosas verdades estão jogadas aí, numa mesa simples de bar, ditas casualmente.
- É verdade Macarrão. A vida é casual. Encontramos pérolas nos lugares mais inusitados, naqueles onde ninguém acredita que possa haver algum tesouro.
- Guará, as vezes eu fico pensando, em coisas que li quando jovem, e que cedo aprendi a reconhecê-las como verdades, as tais verdades que terminam por determinar o que somos e o que seremos pela vida afora. A gente carrega essas coisas como uma mochila. E vamos colocando o que nos parece verdadeiro, nessa bagagem. E é dela que podemos sacar o nosso conforto nos momentos difíceis.
- Essa conversa tá parecendo conversa de bebum, Macarrão...
Bochecha vai chegando, com o seu andar gingado, um pouco cansado dos anos, mas ainda vigoroso.
- Buenas, que me abanco, tchê!
- Desde quando virou gaúcho, bochecha?
- Desde que comecei a ler o Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo! Já leram?
- Falar em ler, lembrei-me do extraordinário milagre de Jesus, quando curou dez homens leprosos, e apenas um deles, um samaritano, voltou para agradecer ter recobrado a saúde.
E o Mestre perguntou:
"Não foram dez os limpos? Onde estão os outros nove?"
- E daí, Guará.
- Daí, apenas um voltou. Somente aquele que mostrou gratidão. A gratidão é um estado de graça. Um estado mágico. O homem que demonstra gratidão pelo bem que recebe, dá o primeiro passo para apreciar a paisagem da vida. Sacou Macarrão?
- Saquei.
- O que aconteceu com os outros? Curados, esqueceram da doença e foram comemorar... - Ficou pensativo, e continuou: Por que é tão difícil agradecer?
- Você tá indo fundo, Guará! Tocar nesses mistérios é uma verdadeira viagem!
- Deixa eu acabar, Macarrão. A gratidão nos torna mais humanos. A vida não pode ser "toma lá, dá cá". A vida é muito mais do que isso. A gratidão quebra o egoísmo que nos faz parecer os únicos vencedores, ocultando no anonimato as outras pessoas que nos possibilitaram alcançar o êxito. Saber partilhar uma conquista, esse é o segredo que nos faz grandes... É preciso entender que não caminhamos sozinhos. É aquele poema do Brecht, que diz: Alexandre conquistou o mundo. Só ele? Quem cozinhou para Alexandre? Quantos morreram para a sua conquista e glória?
- Esse poema você já disse uma vez aqui no Boteco, tá lembrado?
- Tou sim. É preciso mais gestos de gratuidade, de agradecimento pelos que nos suportam, nos carregam, aliviam nossas dores, nos alimentam... Aquela professorinha das primeiras letras que nos alfabetizou; aquele enfermeiro que pensou nossas feridas, no momento da dor; aquele médico que nos salvou de doença grave... As coisas boas que comemos e que vieram das mãos anônimas de cozinheiros... É impossível ser feliz sozinho! E gratidão é estar acompanhado... Quando Jesus pergunta: e onde estão os outros?
- É isso que temos que perguntar, né Guará? Onde estão os outros que me fizeram chegar até aqui... Vou tomar uma pinga. Fiquei emocionado.
M. AMERICO
Estou sentado com Macarrão. Dou um gole na geladinha. Chibungo está deitado aos meus pés, lambendo a pata. Espera algum petisco, o sonso...
- É Macarrão, muita gente pensa que a vida é um grande negócio. Um fórum pra se ganhar dinheiro. Uma grande feira livre. Nem desconfiam que a vida é uma grande viagem, e tão bela, quanto sejamos capazes de vislumbrar a paisagem... A vida é um dom... É de graça! E porque a recebemos assim, dada, não sabemos muito bem o que fazer com ela...
- É isso aí, Guará. Não é o que muita gente pensa. Imagino que deve ser uma angústia muito grande, para os que vivem para acumular, saber que tudo o que juntaram durante a vida, vai ficar por aí, rolando, coberto de poeira. Não se leva nada. Como dizia o outro bebum, outro dia, sentado perto da gente: "a gente leva da vida, a vida que a gente leva!"
Rio com Macarrão. As vezes as pequenas e dolorosas verdades estão jogadas aí, numa mesa simples de bar, ditas casualmente.
- É verdade Macarrão. A vida é casual. Encontramos pérolas nos lugares mais inusitados, naqueles onde ninguém acredita que possa haver algum tesouro.
- Guará, as vezes eu fico pensando, em coisas que li quando jovem, e que cedo aprendi a reconhecê-las como verdades, as tais verdades que terminam por determinar o que somos e o que seremos pela vida afora. A gente carrega essas coisas como uma mochila. E vamos colocando o que nos parece verdadeiro, nessa bagagem. E é dela que podemos sacar o nosso conforto nos momentos difíceis.
- Essa conversa tá parecendo conversa de bebum, Macarrão...
Bochecha vai chegando, com o seu andar gingado, um pouco cansado dos anos, mas ainda vigoroso.
- Buenas, que me abanco, tchê!
- Desde quando virou gaúcho, bochecha?
- Desde que comecei a ler o Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo! Já leram?
- Falar em ler, lembrei-me do extraordinário milagre de Jesus, quando curou dez homens leprosos, e apenas um deles, um samaritano, voltou para agradecer ter recobrado a saúde.
E o Mestre perguntou:
"Não foram dez os limpos? Onde estão os outros nove?"
- E daí, Guará.
- Daí, apenas um voltou. Somente aquele que mostrou gratidão. A gratidão é um estado de graça. Um estado mágico. O homem que demonstra gratidão pelo bem que recebe, dá o primeiro passo para apreciar a paisagem da vida. Sacou Macarrão?
- Saquei.
- O que aconteceu com os outros? Curados, esqueceram da doença e foram comemorar... - Ficou pensativo, e continuou: Por que é tão difícil agradecer?
- Você tá indo fundo, Guará! Tocar nesses mistérios é uma verdadeira viagem!
- Deixa eu acabar, Macarrão. A gratidão nos torna mais humanos. A vida não pode ser "toma lá, dá cá". A vida é muito mais do que isso. A gratidão quebra o egoísmo que nos faz parecer os únicos vencedores, ocultando no anonimato as outras pessoas que nos possibilitaram alcançar o êxito. Saber partilhar uma conquista, esse é o segredo que nos faz grandes... É preciso entender que não caminhamos sozinhos. É aquele poema do Brecht, que diz: Alexandre conquistou o mundo. Só ele? Quem cozinhou para Alexandre? Quantos morreram para a sua conquista e glória?
- Esse poema você já disse uma vez aqui no Boteco, tá lembrado?
- Tou sim. É preciso mais gestos de gratuidade, de agradecimento pelos que nos suportam, nos carregam, aliviam nossas dores, nos alimentam... Aquela professorinha das primeiras letras que nos alfabetizou; aquele enfermeiro que pensou nossas feridas, no momento da dor; aquele médico que nos salvou de doença grave... As coisas boas que comemos e que vieram das mãos anônimas de cozinheiros... É impossível ser feliz sozinho! E gratidão é estar acompanhado... Quando Jesus pergunta: e onde estão os outros?
- É isso que temos que perguntar, né Guará? Onde estão os outros que me fizeram chegar até aqui... Vou tomar uma pinga. Fiquei emocionado.
M. AMERICO
O BRASIL CONTRA A CORRUPÇÃO
ENTREVISTA COM PAULO FRANCIS
"Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. É tão incomum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. Crítica não é raiva. É crítica. Às vezes é estúpida. O leitor que julgue. Acho que quem ofende os outros é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma. Meu tom às vezes é sarcástico. Pode ser desagradável. Mas é, insisto, uma forma de respeito, ou, até, se quiserem, a irritação do amante rejeitado." Paulo Francis
POR QUE FICAMOS SURPRESOS COM A PROMOÇÃO DE "DIREITOS À PEDOFILIA"?
Artigos - Movimento Revolucionário
Todos os principais argumentos comumente usados para normalizar a homossexualidade estão sendo usados para normalizar a pedofilia e a pederastia.
Os artigos acadêmicos em revistas eruditas estão apresentando a pedofilia de um modo solidário há anos e, conforme observou Matthew Cullinan Hoffman, a Associação Americana de Psicologia (AAP) divulgou um relatório em 1998 “afirmando que o ‘potencial negativo’ de sexo adulto com crianças estava sendo ‘exagerado’ e que ‘a vasta maioria dos homens e mulheres não relatou nenhum efeito sexual negativo de suas experiências de abuso sexual na infância’.
O relatório chegou a afirmar que grandes números das vítimas relataram que suas experiências eram ‘positivas’, e sugeriram que a frase ‘abuso sexual de crianças’ fosse substituída por ‘sexo entre adultos e crianças’”.
Outros inventaram o mais repugnante dos termos: “intimidade intergeracional”.
O relatório da AAP foi tão perturbante que atraiu uma repreensão oficial do Congresso, mas a promoção pró-pedofilia (ou, pró-pederastia) continua. Aliás, alguns líderes psiquiátricos, como o Dr. Richard Green, que colaborou de forma fundamental para remover a homossexualidade da lista de desordens mentais da AAP em 1973, têm estado lutando para remover também a pedofilia.
Considere, por exemplo, esta declaração do falecido professor da Universidade de Johns Hopkins, John Money: “A pedofilia e a efebofilia [referindo-se à atração sexual que um adulto sente por um adolescente] não são questão de escolha voluntária, pois são como ser canhoto ou sofrer de daltonismo. Não se conhece nenhum método de tratamento com que [a pedofilia e a efebofilia] possam ser com eficácia e permanentemente alteradas, suprimidas ou substituídas.
Castigos são inúteis. Não há nenhuma hipótese satisfatória, evolucionária ou de outro tipo, quanto aos motivos por que existem no sistema geral de coisas da natureza. Precisamos simplesmente aceitar o fato de que elas existem, e então, com esclarecimento de excelente qualidade, formular uma política do que fazer acerca delas”.
Agora, vote e releia o parágrafo, substituindo a palavra “homossexualidade” por “pedofilia” e “efebofilia”. Não é interessante?
Para ajudar a desnudar mais a realidade disso, vamos imaginar um homem homossexual argumentando com um homem heterossexual:
1) Minha homossexualidade não é uma preferência sexual, mas uma orientação sexual, exatamente na mesma medida que sua heterossexualidade não é uma preferência sexual, mas uma orientação sexual.
2) Minha homossexualidade é tão normal quanto sua heterossexualidade.
3) Já que minha conduta é geneticamente determinada e não uma escolha, é intolerante e abominável sugerir que é errada. E chamar minha conduta sexual de ilegal ou imoral, ou recusar legitimar relacionamentos de mesmo sexo, é ser um moralista fanático da pior espécie.
4) Fico profundamente ofendido com suas tentativas de identificar áreas da minha criação e ambiente como causas alegadas para a minha homossexualidade.
5) Categoricamente rejeito o mito de que alguém pode mudar sua própria orientação sexual. De modo particular, tais declarações só aumentam a angústia e sofrimento de gays e lésbicas, e tentativas de nos mudar muitas vezes levam a consequências catastróficas, inclusive depressão e suicídio.
Agora, vamos mudar este exemplo e colocar um pederasta para argumentar seu caso com um homossexual, substituindo as palavras de acordo com essa situação (assim, “A pederastia não é uma preferência sexual, mas uma orientação sexual, exatamente na medida que sua homossexualidade não é uma preferência sexual, mas uma orientação sexual”).
De fato, todos os principais argumentos comumente usados para normalizar a homossexualidade estão sendo usados para normalizar a pedofilia e a pederastia, conforme documentei com muito detalhe (e sofrimento) em A Queer Thing Happened to America (Ocorreu uma Coisa Gays contra os Estados Unidos), onde também deixei claro que eu não estava igualando a homossexualidade com a pedofilia, mas em vez disso comparando os argumentos usados para normalizar ambos.
Eis os oito principais argumentos, todos dos quais (em forma modificada) são comumente usados no apoio à homossexualidade:
1) A pedofilia é inata e imutável.
2) A pederastia é abundantemente confirmada em muitas diferentes culturas em toda a história.
3) A afirmação de que os relacionamentos sexuais entre adultos e crianças podem causar danos é muito exagerada e muitas vezes completamente inexata.
4) O sexo consensual entre adultos e crianças pode realmente ser benéfico para a criança.
5) A pederastia não deveria ser classificada como desordem mental, já que não causa angústia para o pederasta ter esses desejos e já que o pederasta pode viver normalmente como um cidadão que contribui para a sociedade.
6) Muitas dos mais famosos homossexuais do passado eram realmente pedófilos.
7) As pessoas são contra a intimidade intergeracional por causa de padrões sociais antiquados e fobias sexuais puritanas.
8) Tem a ver somente com amor, igualdade e liberação.
Mas nenhum desses argumentos deveria nos surpreender. Afinal, a era da crescente anarquia sexual em que vivemos é fruto da revolução sexual da década de 1960, e as sementes da anarquia sexual já foram semeadas por Alfred Kinsey no final da década de 1940, conforme a Prof.ª Judith Reisman tem incansavelmente documentado. E foi Kinsey, afinal de contas, que contou com a pesquisa de pedófilos para documentar as reações sexuais de bebês e crianças.
Com certeza, tudo isso é totalmente horrível. Mas não deveria certamente ser surpresa. Aliás, devemos esperar isso e mais.
Escrito por Michael L. Brown, em 06.09.2011
Tradução: Julio Severo
A GRAMA DO VIZINHO
– olha lá, é daquilo ali que eu estou falando…
– daquilo, o que?
– aquele casal de pé, perto da entrada do restaurante…
– que que tem?
– como o que que tem? Dá pra sentir no ar que eles se amam de verdade, que têm respeito um pelo outro, cumplicidade. Repara no jeito carinhoso com que ele olha pra ela. Devem ser muito felizes…
– tipo, o contrário da gente, né?
– é você que tá dizendo…
– olha como você é engraçada: me trata com indiferença por dias, ríspida, agressiva, dando patada o tempo todo, agora vem se queixar de falta de romance?
– se você está se referindo ao que aconteceu esta semana, saiba que tive meus motivos pra ficar com raiva de você, ok?
– mas o que foi que eu fiz?!
– você sabe o que você fez…
– não sei não. Diz então: o que foi que eu fiz pra você ficar 2 dias sem falar direito comigo?
– você quer mesmo que eu diga?
– quero! Não é uma pergunta retórica, responde aí, vai…
– bom, no momento, assim, não me lembro, mas aposto que foi algo que me tirou do sério. Uma daquelas coisas absurdamente sem noção que você faz de vez em quando, só pra me irritar…
– tá vendo, você nem sabe por que a gente brigou… isso é o cúmulo!
– cúmulo é o jeito com que você me trata. Parece que gosta mais do seu instrutor de pilates ou, sei lá, do seu Ipad, do que de mim, que sou sua mulher.
– putz, que absurdo… frente a esse argumento eu tenho que me render! Não dá pra argumentar, porque, por mais que esteja errada, você nunca aceita ser contrariada.
– eu nunca aceito ser contrariada?! De onde você tirou isso?
– tá bom, chega! Vamos só terminar o jantar em silêncio, pode ser?
(…)
– pô, amor, não vamos ficar nesse clima horrível não… a gente tá brigando por cada besteira…
– pois é, estamos aqui nesse restaurante incrível, comendo esses prato delicioso, desperdiçando um momento que tinha tudo pra ser especial…
– exatamente… olha, vamos passar uma borracha nisso tudo, tá bom? Eu me sinto ruir por dentro quando penso que você não está feliz…
– ai, que coisa mais linda, amor.
– vem cá, me dá um beijo…
Enquanto o casal se beija, de uma mesa localizada a alguns metros de distância, um outro casal observa a cena:
– olha lá, é daquilo ali que eu estou falando…
Bruno Medina
– daquilo, o que?
– aquele casal de pé, perto da entrada do restaurante…
– que que tem?
– como o que que tem? Dá pra sentir no ar que eles se amam de verdade, que têm respeito um pelo outro, cumplicidade. Repara no jeito carinhoso com que ele olha pra ela. Devem ser muito felizes…
– tipo, o contrário da gente, né?
– é você que tá dizendo…
– olha como você é engraçada: me trata com indiferença por dias, ríspida, agressiva, dando patada o tempo todo, agora vem se queixar de falta de romance?
– se você está se referindo ao que aconteceu esta semana, saiba que tive meus motivos pra ficar com raiva de você, ok?
– mas o que foi que eu fiz?!
– você sabe o que você fez…
– não sei não. Diz então: o que foi que eu fiz pra você ficar 2 dias sem falar direito comigo?
– você quer mesmo que eu diga?
– quero! Não é uma pergunta retórica, responde aí, vai…
– bom, no momento, assim, não me lembro, mas aposto que foi algo que me tirou do sério. Uma daquelas coisas absurdamente sem noção que você faz de vez em quando, só pra me irritar…
– tá vendo, você nem sabe por que a gente brigou… isso é o cúmulo!
– cúmulo é o jeito com que você me trata. Parece que gosta mais do seu instrutor de pilates ou, sei lá, do seu Ipad, do que de mim, que sou sua mulher.
– putz, que absurdo… frente a esse argumento eu tenho que me render! Não dá pra argumentar, porque, por mais que esteja errada, você nunca aceita ser contrariada.
– eu nunca aceito ser contrariada?! De onde você tirou isso?
– tá bom, chega! Vamos só terminar o jantar em silêncio, pode ser?
(…)
– pô, amor, não vamos ficar nesse clima horrível não… a gente tá brigando por cada besteira…
– pois é, estamos aqui nesse restaurante incrível, comendo esses prato delicioso, desperdiçando um momento que tinha tudo pra ser especial…
– exatamente… olha, vamos passar uma borracha nisso tudo, tá bom? Eu me sinto ruir por dentro quando penso que você não está feliz…
– ai, que coisa mais linda, amor.
– vem cá, me dá um beijo…
Enquanto o casal se beija, de uma mesa localizada a alguns metros de distância, um outro casal observa a cena:
– olha lá, é daquilo ali que eu estou falando…
Bruno Medina
terça-feira, 6 de setembro de 2011
CONVERSA DE BOTEQUIM
É preciso entender um pouco da história do homo sapiens, para compreender que conversa de botequim não tem leme. É uma espécie de barco à vela. Ela vai pra onde sopra o vento. E não adianta querer seguir numa direção, se o vento sopra em outra.
Essa "tese" foi o resultado de uma longa conversa com o Macarrão.
Eu já falei do Macarrão? Pois é. No dia desse papo, Macarrão estava um tanto quanto irritado. Fora jogar sinuca no Boteco do Libório, e lá resolvera citar Pascal. E conversa daqui, rola prali, Pascal pra frequentador de boteco e a capital do Curdistão, é aquela história: ninguèm sabe o que é e menos ainda onde fica.
O Macarrão, leitor assíduo de Blaise Pascal, irritou-se, e danou a falar da miserabilidade do ser humano, da sua efemeridade, do brevíssimo tempo de sua vida; e ainda por cima resolveu citar uma passagem do poeta Brecht, aquela do círculo de giz.
Disse Macarrão pra uma platéia absolutamente desinteressada, que eles eram como aquele peru do Brecht. A parte os malentendidos, que quase gerou porrada, sobrou um tempo pro Macarrão explicar.
O peru a que ele se referia, era aquele de uma peça de teatro do B. Brecht: o peru, no meio de um círculo de giz, não conseguia pular e evadir-se.
O velho Libório, já escaldado com porradaria, polícia e prejuízo, observava de longe.
Mas aquela de círculo de giz, peru, prisão, e a burrice do peru, prendeu a atenção dos bebuns. E Macarrão explicou a simbologia do círculo. Não representava ele nenhum impedimento para que o peru se evadisse na direção que quisesse. O problema era o peru entender que bastava passar por cima do risco de giz.
Assim era o problema da mediocridade. Como um círculo de giz, aprisiona muita gente incapaz de entender que basta um passo para passar para o outro lado. Silêncio total. Macarrão observando a cara do pessoal, sem reação e sem entendimento do que fora dito. Continuavam presos no círculo de giz.
"Mas é essa a tua irritação, Macarrão?" - perguntei. E ele sério, entornando guela abaixo o último gole, disse: veja se você pula o círculo de giz!
Lili se acomodou melhor na cadeira. Suspiro fundo. Olhou pro pessoal com carinho.
- Fiquei triste vendo esse papo. Tenho estado dentro de um círculo de giz ha muito tempo.
Acho que vou tomar uma cachaça para pensar a respeito.
Macarrão, um sentimental que oculta o coração, porque pensa que homem não pode ter essas fraquezas, brincou:
- Toma duas logo duma vez, sô! Uma por mim... Pensando melhor, toma três: duas por mim!
Lili sorriu. Vou tentar uma variante desse peru idiota.
Uma variante do circulo de giz: água quente.
Vários estudos sobre comportamento animal demonstram que um sapo colocado num recipiente com a mesma água de sua lagoa, fica estático durante todo o tempo em que aquecemos a água, mesmo que ela ferva. O sapo não reage ao gradual aumento de temperatura (mudanças de ambiente) e morre quando a água ferve. Inchado e feliz.
Por outro lado, outro sapo que seja jogado nesse recipiente com a água já fervendo salta imediatamente para fora. Meio chamuscado, porém vivo.
As vezes, somos sapos fervidos. Não percebemos as mudanças. Achamos que está tudo muito bom, ou que o que está mal vai passar - é só questão de tempo. Estamos prestes a morrer, mas ficamos boiando, estáveis e apáticos, na água que se aquece a cada minuto. Acabamos morrendo inchadinhos e felizes, sem termos percebido as mudanças a nossa volta.
Bochecha deu um gole na cerva, e disse:
- Sapos fervidos não percebem que além de ser eficientes, têm que fazer as coisas. E, para que isso aconteça, há necessidade de um continuo crescimento, com espaço para o diálogo, para a comunicação clara, para dividir e planejar, para uma relação adulta.O desafio ainda maior está na humildade em atuar respeitando o pensamento do próximo.
Lili cortou o incompreensível discurso do Bochecha:
Há sapos fervidos que acreditam que o fundamental é a obediência, e não a competência: manda quem pode, e obedece quem tem juízo.
E, nisso tudo, onde está a vida de verdade? É melhor sair meio chamuscado de uma situação, mas vivos e prontos para agir.
Olhei pra Lili, servi seu copo com mais cerveja, acrescentando:
- Sabe Lili, acho que ocê num seguiu o meu conselho e tomou pra lá de uma... Inclusive tomou as minhas. Santa Brígida! Que sermão! Mas ocê me perdoa as ponderações abaixo? Eu perdoei ocê, por causa daquela poesia chinfrim (parece até auto-ajuda!). Aliás quem devia me perdoar era ocê. Mas eu vou saber quem é o anònimo daquela merda...
Isso de morrer inchado e feliz só porque foi fervido no seu habitat, ficou estranho pra caraca! Veja ocê: o 'sapo barbudo' ficou inchado e feliz, na fervura do Planalto, mas não morreu... Continua aí, pulando, vivim... vivim, por cima de tudo!
Tá certo que mudou o seu habitat, passou a tomar champanhe sem abandonar a pinga, jogar futebol na Granja do Torto (Quem seria o Torto?), mudou o seu habitat da fábrica para o palácio... mas até aí morreu o Neves afogado em cuspe!
Agora, se ferver antes o habitat do sapo e jogar o safado lá, quando estiver borbulhando, tu vai ver só o salto que o danado vai dar!!! Pode inté sair com o rabo chamuscado, mas eu garanto que morrer inchado e feliz... nunquinhas! Mas cientista é assim mesmo... Depois que o sapo pular, eles vêm com outra teoria...
Macarrão atalhou, enfático:
- E sapo inchadinho e feliz morrendo numa boa, só se for sapo rico, com a barriga cheia de insetos saborosos. Sapo pobre (e quase que eu digo sapupara!), tá sempre pulando pra num morrer de fome ou deixar a cobra morrer. E não precisa nem ferver a água. Só de riscar o fósforo ele já espanta carreira!
Tomei a palavra do Macarrão, e continuei:
- Minha amiga Lili, não se pode levar a vida muito a sério. Meu amigo Voltaire, ensinou-me muito cedo a rir das tolices humanas. Flaubert também não deixou barato, para não falar de Anatole France.
Fiquei tão ressabiado, que adotei alguns lemas, sem esnobismo. Nada de lema em francês, alemão, inglês que ninguém entende, mas acha inteligente pacas!
1. Tudo na vida é passageiro, menos motorista e trocador. (Anônimo)
2. Tudo passa, até uva passa. (Anônimo)
3. Formei-me em Letras, e na bebida busco esquecer (L.F.Veríssimo)
Juro que nunca mais eu falo em círculo de giz com ocê. Quem vai tomar umas agora sou eu. Santa Brígida
M. AMERICO
Essa "tese" foi o resultado de uma longa conversa com o Macarrão.
Eu já falei do Macarrão? Pois é. No dia desse papo, Macarrão estava um tanto quanto irritado. Fora jogar sinuca no Boteco do Libório, e lá resolvera citar Pascal. E conversa daqui, rola prali, Pascal pra frequentador de boteco e a capital do Curdistão, é aquela história: ninguèm sabe o que é e menos ainda onde fica.
O Macarrão, leitor assíduo de Blaise Pascal, irritou-se, e danou a falar da miserabilidade do ser humano, da sua efemeridade, do brevíssimo tempo de sua vida; e ainda por cima resolveu citar uma passagem do poeta Brecht, aquela do círculo de giz.
Disse Macarrão pra uma platéia absolutamente desinteressada, que eles eram como aquele peru do Brecht. A parte os malentendidos, que quase gerou porrada, sobrou um tempo pro Macarrão explicar.
O peru a que ele se referia, era aquele de uma peça de teatro do B. Brecht: o peru, no meio de um círculo de giz, não conseguia pular e evadir-se.
O velho Libório, já escaldado com porradaria, polícia e prejuízo, observava de longe.
Mas aquela de círculo de giz, peru, prisão, e a burrice do peru, prendeu a atenção dos bebuns. E Macarrão explicou a simbologia do círculo. Não representava ele nenhum impedimento para que o peru se evadisse na direção que quisesse. O problema era o peru entender que bastava passar por cima do risco de giz.
Assim era o problema da mediocridade. Como um círculo de giz, aprisiona muita gente incapaz de entender que basta um passo para passar para o outro lado. Silêncio total. Macarrão observando a cara do pessoal, sem reação e sem entendimento do que fora dito. Continuavam presos no círculo de giz.
"Mas é essa a tua irritação, Macarrão?" - perguntei. E ele sério, entornando guela abaixo o último gole, disse: veja se você pula o círculo de giz!
Lili se acomodou melhor na cadeira. Suspiro fundo. Olhou pro pessoal com carinho.
- Fiquei triste vendo esse papo. Tenho estado dentro de um círculo de giz ha muito tempo.
Acho que vou tomar uma cachaça para pensar a respeito.
Macarrão, um sentimental que oculta o coração, porque pensa que homem não pode ter essas fraquezas, brincou:
- Toma duas logo duma vez, sô! Uma por mim... Pensando melhor, toma três: duas por mim!
Lili sorriu. Vou tentar uma variante desse peru idiota.
Uma variante do circulo de giz: água quente.
Vários estudos sobre comportamento animal demonstram que um sapo colocado num recipiente com a mesma água de sua lagoa, fica estático durante todo o tempo em que aquecemos a água, mesmo que ela ferva. O sapo não reage ao gradual aumento de temperatura (mudanças de ambiente) e morre quando a água ferve. Inchado e feliz.
Por outro lado, outro sapo que seja jogado nesse recipiente com a água já fervendo salta imediatamente para fora. Meio chamuscado, porém vivo.
As vezes, somos sapos fervidos. Não percebemos as mudanças. Achamos que está tudo muito bom, ou que o que está mal vai passar - é só questão de tempo. Estamos prestes a morrer, mas ficamos boiando, estáveis e apáticos, na água que se aquece a cada minuto. Acabamos morrendo inchadinhos e felizes, sem termos percebido as mudanças a nossa volta.
Bochecha deu um gole na cerva, e disse:
- Sapos fervidos não percebem que além de ser eficientes, têm que fazer as coisas. E, para que isso aconteça, há necessidade de um continuo crescimento, com espaço para o diálogo, para a comunicação clara, para dividir e planejar, para uma relação adulta.O desafio ainda maior está na humildade em atuar respeitando o pensamento do próximo.
Lili cortou o incompreensível discurso do Bochecha:
Há sapos fervidos que acreditam que o fundamental é a obediência, e não a competência: manda quem pode, e obedece quem tem juízo.
E, nisso tudo, onde está a vida de verdade? É melhor sair meio chamuscado de uma situação, mas vivos e prontos para agir.
Olhei pra Lili, servi seu copo com mais cerveja, acrescentando:
- Sabe Lili, acho que ocê num seguiu o meu conselho e tomou pra lá de uma... Inclusive tomou as minhas. Santa Brígida! Que sermão! Mas ocê me perdoa as ponderações abaixo? Eu perdoei ocê, por causa daquela poesia chinfrim (parece até auto-ajuda!). Aliás quem devia me perdoar era ocê. Mas eu vou saber quem é o anònimo daquela merda...
Isso de morrer inchado e feliz só porque foi fervido no seu habitat, ficou estranho pra caraca! Veja ocê: o 'sapo barbudo' ficou inchado e feliz, na fervura do Planalto, mas não morreu... Continua aí, pulando, vivim... vivim, por cima de tudo!
Tá certo que mudou o seu habitat, passou a tomar champanhe sem abandonar a pinga, jogar futebol na Granja do Torto (Quem seria o Torto?), mudou o seu habitat da fábrica para o palácio... mas até aí morreu o Neves afogado em cuspe!
Agora, se ferver antes o habitat do sapo e jogar o safado lá, quando estiver borbulhando, tu vai ver só o salto que o danado vai dar!!! Pode inté sair com o rabo chamuscado, mas eu garanto que morrer inchado e feliz... nunquinhas! Mas cientista é assim mesmo... Depois que o sapo pular, eles vêm com outra teoria...
Macarrão atalhou, enfático:
- E sapo inchadinho e feliz morrendo numa boa, só se for sapo rico, com a barriga cheia de insetos saborosos. Sapo pobre (e quase que eu digo sapupara!), tá sempre pulando pra num morrer de fome ou deixar a cobra morrer. E não precisa nem ferver a água. Só de riscar o fósforo ele já espanta carreira!
Tomei a palavra do Macarrão, e continuei:
- Minha amiga Lili, não se pode levar a vida muito a sério. Meu amigo Voltaire, ensinou-me muito cedo a rir das tolices humanas. Flaubert também não deixou barato, para não falar de Anatole France.
Fiquei tão ressabiado, que adotei alguns lemas, sem esnobismo. Nada de lema em francês, alemão, inglês que ninguém entende, mas acha inteligente pacas!
1. Tudo na vida é passageiro, menos motorista e trocador. (Anônimo)
2. Tudo passa, até uva passa. (Anônimo)
3. Formei-me em Letras, e na bebida busco esquecer (L.F.Veríssimo)
Juro que nunca mais eu falo em círculo de giz com ocê. Quem vai tomar umas agora sou eu. Santa Brígida
M. AMERICO
TENHO SAUDADES DE MIM
Estava a ler o texto de Adauto Novaes (nosso filósofo sem torre de marfim) sobre a preguiça - tema de seu seminário/livro atual. Na realidade, são estudos sobre a lentidão, neste mundo cada vez mais veloz. E,
aí, tive saudades da calma, do princípio, meio e fim, tive saudade das "geladeiras brancas e dos telefones pretos", das manhãs, tardes e noites, separadas pela luz que se coloria do rosa ao negro e se apagava aos poucos, tive saudade das mortiças casas de família, até da infelicidade de antigamente - de novela de rádio -, de lágrimas furtivas, dos casais com olhos sem luz, depois de casamentos esperançosos com buquês arrojados para um futuro que ia morrendo aos poucos.
Estou com saudades de tudo. De mim, inclusive. "Saudades" ou "saudade"? Tenho saudade (s) de meu velho professor de português, magrinho, irritadiço e doce, Luis Vianna Filho, que me bradava:
"O senhor não tem acento circunflexo!", apontando meu nome que meu avô árabe registrara "Jabôr". E continuava:
"Jabor é o certo. A única palavra dissílaba da língua terminada em "or" que tem circunflexo é "redôr", para diferenciar de "redor, em volta de", pois redôr é o pobre-diabo que fica puxando o sal nas salinas, com um rodo".
Lembrei-me dos miseráveis "redôres" de Cabo Frio, lembrei de minha juventude quando achei, por acaso, uma velha fotografia de jornal, em preto e branco, da passeata dos Cem Mil em 1968 na Cinelândia.
No meio da multidão da foto, vi emocionado um pequeno rosto granulado - eu mesmo, ali, sentado no chão, ouvindo os discursos de Vladimir Palmeira e (talvez) de Dirceu -, bonito, cabelo longo, hippie guerreiro.
Tive uma nostalgia do passado até com a recente "reprise" de José Dirceu na mídia como poderoso chefão dos soviéticos que, aliás, aproveitaram os últimos escândalos para reciclar o lixo bolchevista de "controlar a Imprensa". (Eles não desistem).
Fiquei nostálgico porque Dirceu era também uma sobrevivência do passado em minha vida. E tive uma bruta saudade da utopia. Sempre critiquei o Dirceu porque ele, do passado em preto e branco, tinha querido invadir o presente com uma subversão regressista, que poderia nos jogar de volta a um tempo morto.
Muito mais do que os milhões desviados do "mensalão", critiquei-o ideologicamente, porque ele liderava uma tendência, viva ainda hoje, de se "tomar o Estado", "desapropriando" o dinheiro público pelo "bem do povo". Dirceu caiu por uma tentativa que mais uma vez falhou, em nossa esquerda de trapalhões, como foi em 63 ou em 68, no Congresso de Ibiúna.
Mas, mesmo assim, fiquei com saudade de mim mesmo. Tenho saudade de mim ali, com o rosto cheio de esperança na passeata, achando que mudava a história e que o mundo era fácil de mexer.
Como eu gostaria de explicar aos jovens de hoje o que era a infalível "certeza" daquela época remota, o que era a delícia de viver sentindo-se no "bom caminho", na "linha justa", salvando o futuro. Hoje, ninguém sabe o que era o sentimento de harmonia, de totalidade, em um mundo fragmentado e frio.
Hoje, os meninos vivem em galáxias de informações, quando não há mais lugar para "A Verdade". Os jovens que nascem no grande deserto virtual não sabem que vivíamos num rio que corria para o futuro, em direção a uma felicidade completa, com lógica, com Sentido. Tenho saudade do futuro que hoje se espraia como uma grande enchente suja, sem foz, um deserto sem ponto final. Hoje sabemos que não há mais futuro nem chegada - só caminho.
Tenho saudade do amor da juventude, da minha namorada comunista - nós dois no sofá-cama do "aparelho" clandestino do PCB em Copacabana, o sofá-cama rasgado, com a mola aparecendo, onde nos amávamos antes da reunião da "base" com medo que chegasse o supervisor, um "camarada" com um doce nariz de couve-flor rosado e tristes sapatos pretos com meias brancas, que nos falava, melancólico, do imperialismo norte-americano. Tenho saudades dela, linda, corajosa, no apartamentinho com o cartaz dos girassóis do Van Gogh e uns livros da Academia Soviética, numa prateleira sobre dois tijolos.
Para nós, comunas, até a morte era pequena, como nos ensinava o camarada de nariz rosado:
"O marxismo supera a morte, pois uma vez dissolvido no social, o indivíduo perde a ilusão de existir como pessoa. Ele só existe como espécie. E não morre!" E eu, marxista feliz, sonhava com a vida eterna...
Tenho saudade das madrugadas cheias de esperança, as madrugadas políticas, a boemia de esquerda, soldados de uma guerra imaginária. Meu Deus, como eu era importante, como me senti útil quando ajudei um pouco a luta armada, quando levei no meu fusca um casal de feridos sangrando no banco de trás, até um "aparelho", quando o líder da célula pegou o volante e eu fui ao lado, de olhos fechados para não saber onde estávamos - se bem que espreitei pela fresta das pálpebras e vi o casal mancando em direção a um prédio.
Tenho saudades dessa trágica solidariedade, mas tremi nesse dia, pois comecei a entender que não havia apenas um deserto à nossa frente, mas uma avalanche de obstáculos imensos e que íamos acordar de um sonho para um pesadelo.
Entendi que éramos fracos demais para moldar a realidade e que a vontade não bastava, pois as coisas comandavam os homens e a vida tem um curso próprio e misterioso.
Entendi que ser político e lutar pelo futuro exige vagar e respeito pela insânia do mundo e que a tragédia é parte essencial da vida e que tentar saneá-la pode levar-nos a massacres piores.
Entendi que luta política se faz com humildade e que só a democracia é revolucionária no Brasil. Fora isso, é o desastre.
Mas, tenho saudade da mistura de poesia com revolução que era nossa vida, tenho saudade desse narcisismo onipotente e inocente, tenho saudade da esperança e da ilusão.
Arnaldo Jabor, O Estado de S. Paulo
aí, tive saudades da calma, do princípio, meio e fim, tive saudade das "geladeiras brancas e dos telefones pretos", das manhãs, tardes e noites, separadas pela luz que se coloria do rosa ao negro e se apagava aos poucos, tive saudade das mortiças casas de família, até da infelicidade de antigamente - de novela de rádio -, de lágrimas furtivas, dos casais com olhos sem luz, depois de casamentos esperançosos com buquês arrojados para um futuro que ia morrendo aos poucos.
Estou com saudades de tudo. De mim, inclusive. "Saudades" ou "saudade"? Tenho saudade (s) de meu velho professor de português, magrinho, irritadiço e doce, Luis Vianna Filho, que me bradava:
"O senhor não tem acento circunflexo!", apontando meu nome que meu avô árabe registrara "Jabôr". E continuava:
"Jabor é o certo. A única palavra dissílaba da língua terminada em "or" que tem circunflexo é "redôr", para diferenciar de "redor, em volta de", pois redôr é o pobre-diabo que fica puxando o sal nas salinas, com um rodo".
Lembrei-me dos miseráveis "redôres" de Cabo Frio, lembrei de minha juventude quando achei, por acaso, uma velha fotografia de jornal, em preto e branco, da passeata dos Cem Mil em 1968 na Cinelândia.
No meio da multidão da foto, vi emocionado um pequeno rosto granulado - eu mesmo, ali, sentado no chão, ouvindo os discursos de Vladimir Palmeira e (talvez) de Dirceu -, bonito, cabelo longo, hippie guerreiro.
Tive uma nostalgia do passado até com a recente "reprise" de José Dirceu na mídia como poderoso chefão dos soviéticos que, aliás, aproveitaram os últimos escândalos para reciclar o lixo bolchevista de "controlar a Imprensa". (Eles não desistem).
Fiquei nostálgico porque Dirceu era também uma sobrevivência do passado em minha vida. E tive uma bruta saudade da utopia. Sempre critiquei o Dirceu porque ele, do passado em preto e branco, tinha querido invadir o presente com uma subversão regressista, que poderia nos jogar de volta a um tempo morto.
Muito mais do que os milhões desviados do "mensalão", critiquei-o ideologicamente, porque ele liderava uma tendência, viva ainda hoje, de se "tomar o Estado", "desapropriando" o dinheiro público pelo "bem do povo". Dirceu caiu por uma tentativa que mais uma vez falhou, em nossa esquerda de trapalhões, como foi em 63 ou em 68, no Congresso de Ibiúna.
Mas, mesmo assim, fiquei com saudade de mim mesmo. Tenho saudade de mim ali, com o rosto cheio de esperança na passeata, achando que mudava a história e que o mundo era fácil de mexer.
Como eu gostaria de explicar aos jovens de hoje o que era a infalível "certeza" daquela época remota, o que era a delícia de viver sentindo-se no "bom caminho", na "linha justa", salvando o futuro. Hoje, ninguém sabe o que era o sentimento de harmonia, de totalidade, em um mundo fragmentado e frio.
Hoje, os meninos vivem em galáxias de informações, quando não há mais lugar para "A Verdade". Os jovens que nascem no grande deserto virtual não sabem que vivíamos num rio que corria para o futuro, em direção a uma felicidade completa, com lógica, com Sentido. Tenho saudade do futuro que hoje se espraia como uma grande enchente suja, sem foz, um deserto sem ponto final. Hoje sabemos que não há mais futuro nem chegada - só caminho.
Tenho saudade do amor da juventude, da minha namorada comunista - nós dois no sofá-cama do "aparelho" clandestino do PCB em Copacabana, o sofá-cama rasgado, com a mola aparecendo, onde nos amávamos antes da reunião da "base" com medo que chegasse o supervisor, um "camarada" com um doce nariz de couve-flor rosado e tristes sapatos pretos com meias brancas, que nos falava, melancólico, do imperialismo norte-americano. Tenho saudades dela, linda, corajosa, no apartamentinho com o cartaz dos girassóis do Van Gogh e uns livros da Academia Soviética, numa prateleira sobre dois tijolos.
Para nós, comunas, até a morte era pequena, como nos ensinava o camarada de nariz rosado:
"O marxismo supera a morte, pois uma vez dissolvido no social, o indivíduo perde a ilusão de existir como pessoa. Ele só existe como espécie. E não morre!" E eu, marxista feliz, sonhava com a vida eterna...
Tenho saudade das madrugadas cheias de esperança, as madrugadas políticas, a boemia de esquerda, soldados de uma guerra imaginária. Meu Deus, como eu era importante, como me senti útil quando ajudei um pouco a luta armada, quando levei no meu fusca um casal de feridos sangrando no banco de trás, até um "aparelho", quando o líder da célula pegou o volante e eu fui ao lado, de olhos fechados para não saber onde estávamos - se bem que espreitei pela fresta das pálpebras e vi o casal mancando em direção a um prédio.
Tenho saudades dessa trágica solidariedade, mas tremi nesse dia, pois comecei a entender que não havia apenas um deserto à nossa frente, mas uma avalanche de obstáculos imensos e que íamos acordar de um sonho para um pesadelo.
Entendi que éramos fracos demais para moldar a realidade e que a vontade não bastava, pois as coisas comandavam os homens e a vida tem um curso próprio e misterioso.
Entendi que ser político e lutar pelo futuro exige vagar e respeito pela insânia do mundo e que a tragédia é parte essencial da vida e que tentar saneá-la pode levar-nos a massacres piores.
Entendi que luta política se faz com humildade e que só a democracia é revolucionária no Brasil. Fora isso, é o desastre.
Mas, tenho saudade da mistura de poesia com revolução que era nossa vida, tenho saudade desse narcisismo onipotente e inocente, tenho saudade da esperança e da ilusão.
Arnaldo Jabor, O Estado de S. Paulo
REFLEXÕES DE UM DIVAGANTE
Pedi silêncio na mesa. A discussão girava em torno do Zédirceu e sua quadrilha. O papo era gigante e ruidoso. Macarrão, Bochecha, Suspiro... A turma bradava aos infernos...
Xibungo, o vira-lata de estimação da mesa, rondava a espera de uma sobra dos petiscos. Um linguicinha caia bem naquele momento. Com seus olhos pidões, amolengava os nossos corações.
Aproveitei a 'deixa' e mandei os versos:
A compreensão que você reivindica a cada passo...
Depende de você!
A bondade que você admira nas pessoas e sonha possuir...
Depende de você!
A abertura que é o caminho para a renovação...
Depende de você!
A realização que você julga essencial...
Depende de você!
O amor que você quer encontrar nos outros...
Depende de você!
A organização que você apregoa...
Depende de você!
Macarrão olha para mim, surpreso com a bonomia pouco habitual do discurso e pergunta:
- Você sonhou com os anjos? Me permita discordar dessas palavras cheias de encantamento, ainda que doa fazer isso com a poesia...
Bochecha atravessa a fala de Macarrão:
- Isso deve ser alguma paixão!
Macarrão continua, apesar do riso matreiro de Bochecha.
- Mas eu acho que tem coisa que depende dos outros. A gente não consegue ser bonito se ninguém acha que a gente é. Não dá para ser admirador de determinado autor se não há outra referência, algum tipo de concordância.
E vou mais longe! Acho que a gente pode até morrer se for rejeitado demais. Eu sei porque sou criador de mula-sem-cabeça, e o bicho está em extinção por causa de um tipo de rejeição moderna.
Os padres não gostam mais de mulheres. Agora só gostam de crianças, quer dizer, não nasce mais mula-sem-cabeça nessa terra. Mas isso é apenas um exemplo.
Tomou um golaço de cerva, pra aliviar a goela.
- Ser o patinho feio o tempo todo não é saudável. Não depende só da gente mudar isso.
O homem é um animal social, precisa da aprovação do outro para se sentir bem (pelo menos de alguns). Se um dia o bicho não vira cisne, e arranca olhares estupefatos de pelo menos parte da platéia, morre de desgosto. Já vi acontecer.
Olhei para o Macarrão e sem refletir sobre as suas palavras, defendi-me:
- Um homem não pode devanear? Um homem não tem o direito de vagar por outros páramos, sem que lhe caiam em cima de paulada? Sei do que você está falando, Macarrão. E você Bochecha fique sabendo que nem tudo nessa vida é paixão por mulher! De vez em quando, um homem fica com o saco cheio dessa realidade pequena, mesquinha, que nos achata, nos apequena. Um gole de poesia é tão confortador como um gole de cerveja... E o que devemos aos poetas, não tem paga nesse mundinho de Deus. São a luz do mundo. Como as crianças, cujos sorrisos são intraduzíveis e enchem o mundo de alegria.
Lancei um naco de linguiça pro xibungo, que pegou no ar.
Macarrão atalhou:
- Até pode ser. É apenas uma questão de espírito, de momento. Agora, por exemplo, eu prefiro uma cerva gelada à poesia domesticada que você decantou. E quer saber? Zédirceu no momento é muito mais importante! Poesia não vai devolver a vida pública o que os ladrões estão tirando...
Cortei:
- Não. Não quero saber. Viva a cerveja que nos afaga o sentido. E a poesia! E o Zédirceu... Cadeia nele!
M. AMERICO
QUAL A IMPORTÂNCIA DO ACASO EM NOSSAS VIDAS?
Já estávamos, eu, Macarrão e Bochecha na bodega do Libório, e lá pelas tantas, não me recordo bem qual foi o incidente que nos conduziu a discutir sobre o 'aleatório' em nossas vidas.
Ah! sim, eu havia narrado uma pequena historinha sobre um cidadão que ganhou um grande prêmio, numa dessas loterias da vida. Perguntado numa entrevista - sim! porque ganhar uma grana preta da noite pro dia, pode fazer e com certeza fará, que você seja uma celebridade! - se ele tinha algum método ou usado algum recurso matemático para ganhar a 'bolada'.
E ele respoondeu: "Ah! eu usei um método matemático, com certeza! Vejam vocês... Sonhei com o número 7 durante 7 noites seguidas. Aí eu pensei: bem... 7 vezes 7 é 48. Não tive dúvidas... Mandei ver no número 48!"
Realmente ele usou um método matemático... Se ele tivesse estudado um pouquinho mais, com certeza não se tornaria uma celebridade! Ele teria jogado no 49!
Isso é ou não é um fator absolutamnte aleatório? - perguntei pros meus amigos.
Concordamos. Pedimos outra gelada e continuamos nosso papo, garganta lubrificada e feliz.
A aleatoriedade marca a vida de uma maneira mais assustadora do que pode sonhar a nossa rica imaginação.
Leio em L.Mlodinow que o fato de lançarmos uma moeda diversas vezes para o alto e o resultado der cara seguidamente, não significa que a moeda tenha duas caras...
No ano de 1950 um certo livro foi rejeitado por vários editores, que o classificaram como maçante e desinteressante para o momento. A história da 2ªguerra já era passado... e o livro não teria a menor chance.
O livro era nada mais nada menos que "O diário de Anne Frank", que vendeu 30 milhões de cópias, uma das obras mais vendidas da história.
Estávamos os três convictos de que as nossas vidas são determinadas por fatores absolutamente estranhos a nossa vontade, por mais que julguemos que a decisão esteja em nossas mãos.
Macarrão ponderou: será que estamos condenados a um lance de moeda? Se der 'cara' ganhei... 'coroa' perdi?
Bochecha deu um gole e arremessou a moeda para o alto. Na palma da mão: Coroa! Perdemos...
Dizem que o aleatóro traz o cais e o caos. E mais,dizem que o que ele dá, nada tira.
Pondero:
Segundo a análise combinatória, se for uma moeda perfeitamente fabricada e os dois lados tiverem peso e tamanho iguais, cada qual tem uma porcentagem igual de chance de cair.
Então acho que a vida não é uma moeda com proporções perfeitas.
Cara ou Coroa?
Nem uma flor com pétalas contáveis, pra adivinhar o que dirá a ultima pétala a cair no chão.
Bem-me-quer? Mal-me-quer?
Talvez, eu só tenha bebido demais.
Acho que minhas palavras estão saindo gaguejadas e as que ouvi vão flutando surreais.
Lili, recém-chegada, entra no papo:
Esse negócio de acaso é um pouco doloroso. Sempre penso, e se naquele dia, em que eu estava no aeroporto, pronto para voltar para casa, tivesse acontecido um tufão, o espaço aéreo fechado, e eu não pudesse nunca mais voltar para cá?
... E se não estivesse naquela hora, naquele lugar, em que aconteceu aquela incidente que mudou totalmente a minha vida?
Ah, é muito assustador pensar nisso. E tem a inutilidade da coisa também, porque a gente não pode voltar e fazer diferente. Tem que conviver com a dor das escolhas, a dor do acaso. Talvez o antídoto seja mesmo a determinação:
Nada menos que cinco editoras recusaram os manuscritos do Harry Potter antes que fosse publicado; os Beatles foram recusados em várias gravadoras, e até mesmo Beethoven foi considerado um fracassado sem talento por algum tempo.
Bochecha pondera:
Esses não aceitaram a, digamos, inexorabilidade da coisa. Eu também não aceito.
Macarrão da um gole, olha à roda da mesa, e diz:
A infindável lista dos que foram vencidos, pelo aleatório.
John Kennedy Toole, perdeu a esperança de algum dia ter seu romance publicado e suicidou-se. Sua mãe perseverou. Onze anos depois, UMA CONFRARIA DE TOLOS foi publicado. Ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção e vendeu dois milhões de cópias.
Um livro, uma pauta, um biscoito, um sanduíche, navegam no mar da aleatoriedade. O hamburguer do McDonalds vira franquia mundial: pão, carne moida... A coca-cola de xarope... bem você já sabe!
Olhei para o Macarrão, e alimentei suas palavras:
Quando entro num sebo, a procura de algum livro, já desaparecido das livrarias faz tempo, deparo-me com os 'fracassados'. Nomes absolutamente anônimos, que crítico algum, sequer ocupou uma linha no seu editorial para dizer: "o fulano publicou o livro tal... Interessante!" Nada, nem uma linha.
Entristece-me ver o fracasso, não por qualidade, mas por casualidade. Folheio vários, compro alguns... E os que nem o sebo alcançaram?
Dou um gole na cerva gelada. Alívio! Navegar no mar do aleatório, não se escapa do enjôo mareado...
Outro dia deu no jornal da TV: "menina na varanda, morre com bala 'perdida' na cabeça. No lugar errado, na hora errada... E PUFF! Uma vida na flor dos sonhos, desaparece... E ainda falam 'bala perdida'...
Macarrão tem os olhos espetados no espaço, no nada.
Aí, fica inevitável a gente pensar no aleatório que comanda a vida.
No entanto, continuamos a caminhada, porque a vida nos empurra para a frente. Não há como ficar parado... Lutamos muitas vezes por alguma coisa, e não a alcançamos. Lamentamos. Mas eu pergunto: e que certeza teríamos, de que a nossa vida poderia ter sido melhor? Decisão? Mas o que é a decisão? Um ato consciente? Mistérios... Como dizia o poeta inglês: "há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."
Alimento os comentários:
Herman Hesse jamais acreditou no acaso, e Voltaire também não, e explica: "O acaso não existe; o que nós chamamos de acaso, é o efeito de uma causa que não conhecemos." O criador da doutrina espírita, Allan Kardec gostava de dizer que tudo que acontece faz parte de um grande plano espiritual, já programado.
Talvez seja confortador pensar assim, principalmente nos momentos em que nos acontecem coisas muito ruins. Ajuda a sobreviver. Acho.
Macarrão gira o copo de cerveja e profere solenemente:
Enfim, a vida é uma criança que é preciso embalar até que adormeça, e nada como a filosofia para isso.
Mas o acaso, disse o velho Machado de Assis, é um deus e um diabo ao mesmo tempo. . . Enfim, cousas!
Ao leitor, informo que conversa de boteco, enquanto houver cerveja na mesa diria que é quase infinita, não chegando a tanto porque a língua enrola e a mente se turva...
Palavra de homem...
M. AMERICO
Ah! sim, eu havia narrado uma pequena historinha sobre um cidadão que ganhou um grande prêmio, numa dessas loterias da vida. Perguntado numa entrevista - sim! porque ganhar uma grana preta da noite pro dia, pode fazer e com certeza fará, que você seja uma celebridade! - se ele tinha algum método ou usado algum recurso matemático para ganhar a 'bolada'.
E ele respoondeu: "Ah! eu usei um método matemático, com certeza! Vejam vocês... Sonhei com o número 7 durante 7 noites seguidas. Aí eu pensei: bem... 7 vezes 7 é 48. Não tive dúvidas... Mandei ver no número 48!"
Realmente ele usou um método matemático... Se ele tivesse estudado um pouquinho mais, com certeza não se tornaria uma celebridade! Ele teria jogado no 49!
Isso é ou não é um fator absolutamnte aleatório? - perguntei pros meus amigos.
Concordamos. Pedimos outra gelada e continuamos nosso papo, garganta lubrificada e feliz.
A aleatoriedade marca a vida de uma maneira mais assustadora do que pode sonhar a nossa rica imaginação.
Leio em L.Mlodinow que o fato de lançarmos uma moeda diversas vezes para o alto e o resultado der cara seguidamente, não significa que a moeda tenha duas caras...
No ano de 1950 um certo livro foi rejeitado por vários editores, que o classificaram como maçante e desinteressante para o momento. A história da 2ªguerra já era passado... e o livro não teria a menor chance.
O livro era nada mais nada menos que "O diário de Anne Frank", que vendeu 30 milhões de cópias, uma das obras mais vendidas da história.
Estávamos os três convictos de que as nossas vidas são determinadas por fatores absolutamente estranhos a nossa vontade, por mais que julguemos que a decisão esteja em nossas mãos.
Macarrão ponderou: será que estamos condenados a um lance de moeda? Se der 'cara' ganhei... 'coroa' perdi?
Bochecha deu um gole e arremessou a moeda para o alto. Na palma da mão: Coroa! Perdemos...
Dizem que o aleatóro traz o cais e o caos. E mais,dizem que o que ele dá, nada tira.
Pondero:
Segundo a análise combinatória, se for uma moeda perfeitamente fabricada e os dois lados tiverem peso e tamanho iguais, cada qual tem uma porcentagem igual de chance de cair.
Então acho que a vida não é uma moeda com proporções perfeitas.
Cara ou Coroa?
Nem uma flor com pétalas contáveis, pra adivinhar o que dirá a ultima pétala a cair no chão.
Bem-me-quer? Mal-me-quer?
Talvez, eu só tenha bebido demais.
Acho que minhas palavras estão saindo gaguejadas e as que ouvi vão flutando surreais.
Lili, recém-chegada, entra no papo:
Esse negócio de acaso é um pouco doloroso. Sempre penso, e se naquele dia, em que eu estava no aeroporto, pronto para voltar para casa, tivesse acontecido um tufão, o espaço aéreo fechado, e eu não pudesse nunca mais voltar para cá?
... E se não estivesse naquela hora, naquele lugar, em que aconteceu aquela incidente que mudou totalmente a minha vida?
Ah, é muito assustador pensar nisso. E tem a inutilidade da coisa também, porque a gente não pode voltar e fazer diferente. Tem que conviver com a dor das escolhas, a dor do acaso. Talvez o antídoto seja mesmo a determinação:
Nada menos que cinco editoras recusaram os manuscritos do Harry Potter antes que fosse publicado; os Beatles foram recusados em várias gravadoras, e até mesmo Beethoven foi considerado um fracassado sem talento por algum tempo.
Bochecha pondera:
Esses não aceitaram a, digamos, inexorabilidade da coisa. Eu também não aceito.
Macarrão da um gole, olha à roda da mesa, e diz:
A infindável lista dos que foram vencidos, pelo aleatório.
John Kennedy Toole, perdeu a esperança de algum dia ter seu romance publicado e suicidou-se. Sua mãe perseverou. Onze anos depois, UMA CONFRARIA DE TOLOS foi publicado. Ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção e vendeu dois milhões de cópias.
Um livro, uma pauta, um biscoito, um sanduíche, navegam no mar da aleatoriedade. O hamburguer do McDonalds vira franquia mundial: pão, carne moida... A coca-cola de xarope... bem você já sabe!
Olhei para o Macarrão, e alimentei suas palavras:
Quando entro num sebo, a procura de algum livro, já desaparecido das livrarias faz tempo, deparo-me com os 'fracassados'. Nomes absolutamente anônimos, que crítico algum, sequer ocupou uma linha no seu editorial para dizer: "o fulano publicou o livro tal... Interessante!" Nada, nem uma linha.
Entristece-me ver o fracasso, não por qualidade, mas por casualidade. Folheio vários, compro alguns... E os que nem o sebo alcançaram?
Dou um gole na cerva gelada. Alívio! Navegar no mar do aleatório, não se escapa do enjôo mareado...
Outro dia deu no jornal da TV: "menina na varanda, morre com bala 'perdida' na cabeça. No lugar errado, na hora errada... E PUFF! Uma vida na flor dos sonhos, desaparece... E ainda falam 'bala perdida'...
Macarrão tem os olhos espetados no espaço, no nada.
Aí, fica inevitável a gente pensar no aleatório que comanda a vida.
No entanto, continuamos a caminhada, porque a vida nos empurra para a frente. Não há como ficar parado... Lutamos muitas vezes por alguma coisa, e não a alcançamos. Lamentamos. Mas eu pergunto: e que certeza teríamos, de que a nossa vida poderia ter sido melhor? Decisão? Mas o que é a decisão? Um ato consciente? Mistérios... Como dizia o poeta inglês: "há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."
Alimento os comentários:
Herman Hesse jamais acreditou no acaso, e Voltaire também não, e explica: "O acaso não existe; o que nós chamamos de acaso, é o efeito de uma causa que não conhecemos." O criador da doutrina espírita, Allan Kardec gostava de dizer que tudo que acontece faz parte de um grande plano espiritual, já programado.
Talvez seja confortador pensar assim, principalmente nos momentos em que nos acontecem coisas muito ruins. Ajuda a sobreviver. Acho.
Macarrão gira o copo de cerveja e profere solenemente:
Enfim, a vida é uma criança que é preciso embalar até que adormeça, e nada como a filosofia para isso.
Mas o acaso, disse o velho Machado de Assis, é um deus e um diabo ao mesmo tempo. . . Enfim, cousas!
Ao leitor, informo que conversa de boteco, enquanto houver cerveja na mesa diria que é quase infinita, não chegando a tanto porque a língua enrola e a mente se turva...
Palavra de homem...
M. AMERICO
PATOS SELVAGENS
A minha amiga Lili contou uma historinha sobre os sapos. Sapos fervidos, sacou? Não? Quando joga o pilantra na água fervendo, se ela não for a água do seu habitat, o safado, mesmo com o rabo chamuscado, salta longe... Mas se a água for a do ambiente dele, onde ele fica só pescando insetos, e se ela for aquecida gradualmente com o besta lá dentro, ele vai ficando numa boa, imaginando até que tá fazendo uma saunazinha e assim, acaba cozinhadozinho sem nem saber o que aconteceu... Palavra de cientista! E não duvidem da minha amiga!
MORAL DA HISTÓRIA
A gente fica tão acomodado no nosso lugarzinho, tá tão bom, já que não precisamos fazer qualquer esforço para conquistar alguma coisa que justifique a nossa vida, que terminamos por morrer gordos e felizes, embora estúpidos e insensatos.
Mas eu vou contar outra historinha.
Essa é a do pato.
Era uma vez um bando de patos selvagens que voava nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos.
Tudo tão bonito! Mas era uma beleza que doía. O cansaço do bater das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando e as espingardas dos caçadores...
Foi então que um dos patos selvagens, olhando lá das alturas para a terra aqui embaixo viu um bando de patos domésticos. Eram muitos. Estavam tranqüilamente deitados à sombra de uma árvore. Não precisavam voar. Não havia caçadores. Não precisavam buscar o que comer: o seu dono lhes dava milho diariamente.
E o pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse adeus aos seus companheiros, baixou seu vôo e passou a viver a vida mansa que pedira a Deus. E assim viveu por muitos anos. Até que...
Até que, num ano como os outros chegou de novo o tempo da migração dos patos. Eles passavam nas alturas, no fundo do azul do céu, grasnando, um grupo após o outro.
Aquelas visões dos patos em vôo, as memórias de alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com algum lugar esquecido dentro do pato domesticado, o lugar chamado saudade. Uma nostalgia pela vida selvagem, pelas belezas que só se vêem nas alturas, pelo fascínio do perigo...
Até que não foi mais possível agüentar a saudade. Resolveu voltar a ser o pato selvagem que fora. Abriu suas asas, bateu-as para voar, como outrora... mas não voou. Caiu. Esborrachou-se no chão. Estava gordo demais. E assim passou o resto de sua vida: em segurança, gordo de barriga cheia, protegido pelas cercas e triste por não poder voar...
(Rubem Alves)
Essa historinha não tem aquele negócio de MORAL DA HISTÓRIA. Não tem por duas razões:
1. o recheio moral é óbvio demais para ser explicado;
2. desnecessário acrescentar MORAL DA HISTÓRIA, numa história que não precisa de muletas. Ela por si é ululante. E até por que daria um trabalho danado ter que pedir autorização ao autor, que certamente não autorizaria...
Mas eu vou dizer por conta própria o seguinte: somente a transgressão das normas é capaz de inventar uma vida que vale a pena ser vivida. Foi por conta das transgressões que a vida, em muitos e magníficos momentos, conseguiu alcançar patamares realmente significativos.
M. AMERICO
MORAL DA HISTÓRIA
A gente fica tão acomodado no nosso lugarzinho, tá tão bom, já que não precisamos fazer qualquer esforço para conquistar alguma coisa que justifique a nossa vida, que terminamos por morrer gordos e felizes, embora estúpidos e insensatos.
Mas eu vou contar outra historinha.
Essa é a do pato.
Era uma vez um bando de patos selvagens que voava nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos.
Tudo tão bonito! Mas era uma beleza que doía. O cansaço do bater das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando e as espingardas dos caçadores...
Foi então que um dos patos selvagens, olhando lá das alturas para a terra aqui embaixo viu um bando de patos domésticos. Eram muitos. Estavam tranqüilamente deitados à sombra de uma árvore. Não precisavam voar. Não havia caçadores. Não precisavam buscar o que comer: o seu dono lhes dava milho diariamente.
E o pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse adeus aos seus companheiros, baixou seu vôo e passou a viver a vida mansa que pedira a Deus. E assim viveu por muitos anos. Até que...
Até que, num ano como os outros chegou de novo o tempo da migração dos patos. Eles passavam nas alturas, no fundo do azul do céu, grasnando, um grupo após o outro.
Aquelas visões dos patos em vôo, as memórias de alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com algum lugar esquecido dentro do pato domesticado, o lugar chamado saudade. Uma nostalgia pela vida selvagem, pelas belezas que só se vêem nas alturas, pelo fascínio do perigo...
Até que não foi mais possível agüentar a saudade. Resolveu voltar a ser o pato selvagem que fora. Abriu suas asas, bateu-as para voar, como outrora... mas não voou. Caiu. Esborrachou-se no chão. Estava gordo demais. E assim passou o resto de sua vida: em segurança, gordo de barriga cheia, protegido pelas cercas e triste por não poder voar...
(Rubem Alves)
Essa historinha não tem aquele negócio de MORAL DA HISTÓRIA. Não tem por duas razões:
1. o recheio moral é óbvio demais para ser explicado;
2. desnecessário acrescentar MORAL DA HISTÓRIA, numa história que não precisa de muletas. Ela por si é ululante. E até por que daria um trabalho danado ter que pedir autorização ao autor, que certamente não autorizaria...
Mas eu vou dizer por conta própria o seguinte: somente a transgressão das normas é capaz de inventar uma vida que vale a pena ser vivida. Foi por conta das transgressões que a vida, em muitos e magníficos momentos, conseguiu alcançar patamares realmente significativos.
M. AMERICO
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